Texto: V. Oliveira
Tentar apresentar e dar significado a um álbum como The Line That Shapes the Coast of Us não é uma tarefa fácil, mas é uma tarefa que assumi com a maior honra. Sabem aquela sensação que se apodera de nós depois de terminarmos de ler um livro que nos abalroou, ou quando vemos um filme que achamos absolutamente soberbo? Aquele momento em que, de repente, percebemos que já não sabemos bem quem somos e em que tudo o que conseguimos fazer é desejar poder parar o tempo e ficar a morar num sentimento de admiração eterna? Pois bem, é exatamente isso que vai acontecer depois de ouvirem o belo e devastador álbum The Line That Shapes the Coast of Us (Dog Knights Productions, 27 de Março de 2026).
Para quem é conhecedor do primeiro LP da banda intitulado Don’t Think About Death (2022), este novo álbum parecerá território inexplorado, mas com a promessa de não soar forçado ou exagerado. A nova adição ao catálogo da banda traz consigo muitas nuances familiares, mas combina-as com novos elementos que impulsionam o quarteto de Brighton para um novo patamar artístico. O álbum consolida a mestria da banda e o seu som único (que vai do math rock ao post-hardcore e ao screamo) e cumpre em absolutamente todas as faixas.
Gary, Tommy, Antoine e Ben conseguem articular com sucesso a proeza individual de cada um com a sua competência colectiva, mostrando uma vez mais o porquê de serem uma das bandas britânicas (post-everything) mais emocionantes e promissoras do momento. Para além da sua competência enquanto músicos existe também humildade e trabalho árduo palpável, e isso transparece inevitavelmente neste segundo álbum, tornando-o o mais promissor da sua (ainda curta) carreira. A fórmula é muito simples: ninguém faz o que os Chalk Hands fazem. A obra musical do colectivo de Brighton é imediatamente reconhecível e não padece de poder ser confundida com qualquer outra banda (e sim, isto é uma promessa).
The Line That Shapes the Coast of Us capta imediatamente a atenção pelo seu título, e suscita a pergunta: que linha será esta? Ao longo de onze faixas, o álbum aborda temas como vida/morte, luz/sombra, conexão/isolamento, ao mesmo tempo que brinca com as imagens da água/maré e de um solo em constante erosão. Cada um destes temas é abordado de forma esperançosa e demonstra uma clara intenção de tentar encontrar significado em tudo mesmo quando em confronto com a inevitabilidade do colapso. Esta linha invisível que nos molda é talvez aquela que traça as fronteiras que nos definem e os limites dos quais nos rodeamos quando em oposição a um outro “eu”.

Ritmicamente, a banda mostra-se mais versátil do que nunca: faixa após faixa, cada secção musical é complementada de forma coesa e ficamos sempre com a sensação de que a mensagem que o álbum nos quer transmitir está muito além das palavras que são cantadas, i.e., a parte instrumental domina e prevalece sobre o próprio liricismo. “Sleep Tapes” é a última faixa do álbum mas poderia facilmente ser a primeira. Em termos líricos, resume muito da mensagem que ressoa em todo o álbum; em termos instrumentais, é simples mas eficaz, e é sem dúvida um dos meus momentos favoritos de todo o disco («When I’m pulled down / Into the ground / What sky will I meet / When I finally sleep?»). Ao mesmo tempo, há também uma singularidade muito bonita quando a banda canta em francês. “Peregrine” tem a combinação perfeita de bateria e guitarra e a sua intro tem a capacidade de fazer com que o nosso corpo se mexa involuntariamente, ao passo de que “Pauvre de Moi” se materializa em sussurros que entoam as palavras «L’ombre imaginaire» (a sombra imaginária) ao longo de uma secção intermédia que nos fará perceber que o nosso coração também não é de pedra («Mon cœur n’est pas fait de pierre / En ai-je fait le deuil?»). Se ambos os singles não contribuírem para uma incursão mais aprofundada pela língua francesa, nada mais o fará, pois as ferramentas de tradução disponíveis nunca farão justiça à mensagem adjacente.
“Day Glow” vai crescendo lentamente e conquistará qualquer coração (se tal não tiver acontecido até então), trazendo ao de cima a diversidade musical de uma banda que tem a capacidade de mesclar uma multitude de estilos musicais. Esta diversidade sonora surge com tanta naturalidade que se poderia pensar que tal se trata de sorte ou de um acaso, mas a integridade artística do álbum fala por si.
“Bite Marks” é uma faixa magnífica capaz de nos marcar nos sítios certos, especialmente na secção que se desenvolve a partir do minuto 01:35 e na qual toda a banda está em destaque. A letra converge com a ideia da dor como uma sensação colectiva e a noção de que algo mais simples está em jogo («I’m hiding scars / We’re hiding scars / It could be worse / They could be missing»). “A Surefire Way to Disappear” traz consigo o tema da luz/sombra com tanta delicadeza que só damos conta disso quando somos ofuscados pela sua profundidade («The line between us / Fill the void / There’s something missing / You won’t find it all alone») e “Your Skin Is Gold” mostra-nos que é aceitável ter muitas perguntas e poucas respostas pois é essa condição que nos torna todos humanos («Is there something wrong with me? / Something up with me?»).
“Ember Lane”, “Breaking Waves”, “A Comfort You Borrow” e “Rewired Eyes” completam o alinhamento do disco tornando uma missão praticamente impossível a de destacar momentos individuais (mas tentámos com muita seriedade). O álbum tem um propósito conjunto e o seu potencial significado está em aberto para ser desvendado por todas as pessoas que se depararem com ele.
Existiriam tantas outras coisas para se escrever sobre este álbum monumental, mas deixo-vos com esta nota final: The Line That Shapes the Coast of Us é arte na sua forma mais pura e cimenta a afirmação de um grupo que sabe quem é e para onde quer ir. Só nos resta estar aqui para testemunhar a viagem.

