Flores para um jardim musical erguido no Parque da Cidade do Porto, que o NOS Primavera Sound adoptou saudavelmente esse espaço verde da invicta enquanto caçula do enorme festival de referência que acontece uma semana antes em Barcelona. À sexta edição por “cá”, há nova transição de nomes (e não só) a chegar desde a cidade catalã, servindo os dias 8, 9 e 10 de Junho para abrir as portas à alternativa musical que este festival por norma oferece.

Mas se o calendário aponta para um começo oficial amanhã, 8 de Junho, há quem comece o festival já hoje pelas ruas do centro da cidade. Não é para menos com desfile de nomes como Shura, Jessy Lanza, Las Bistecs, The Black Madonna ou Boris Chimp 504 em salas tão emblemáticas da noite portuense como o Hard Club, o Maus Hábitos ou o Passos Manuel. Um mimo para os portadores do esgotado passe geral do festival e que pretende cortar um dia na contagem final.

Postas as atenções no Parque da Cidade e já ultrapassados os portões tão instagramáveis, o primeiro dia toma o papel de um inevitável crescendo ping-pong imposto pelo horário: as canções de Samuel Úria opõem-se à lágrima de Cigarettes After Sex e o classicismo de Rodrigo Leão & Scott Matthew vai destoar do R&B quente de Miguel. E sabe-se lá que encontro se faz entre o slowcore de Arab Strap com as ríspidas rimas de Run The Jewels, tendo-se apenas a certeza que as doses electrónicas de Flying Lotus terão peso e medida distintos daquela que os franceses Justice praticam na condição de headliners. Um dia de fáceis decisões com apenas os dois maiores palcos em funcionamento e sem sobreposições horárias.

Já na sexta-feira, perante um esgotado dia 9, surgem as primeiras (grandes) divergências causadas pelos horários. Não percorrendo horas, é relevante assumir que Bon Iver de Justin Vernon toma as letras gordas do dia com o seu refúgio inclassificável 22, A Million. É também dia de abraçar o último concerto de Swans em Portugal com a actual formação, antes que Michael Gira parta para novo episódio discográfico e vire costas a um dos mais brilhantes períodos da banda. Mas que o dia sirva também para o frenético ritmo de garagem de King Gizzard & The Lizard Wizard, para o grime maior de Skepta, para o algodão sonoro de Angel Olsen, para a urgência de Richie Hawtin e o seu espectáculo CLOSE e para a passada latina característica de Nicolas Jaar, podendo-se ainda gozar de Pond, Royal Trux, Hamilton Leithauser, Julien Baker, Whitney e Sleaford Mods como cerejas no topo de qualquer bolo.

O dia final é de Aphex Twin. Incontornável figura e tutor cósmico da electrónica dos anos 90, encharcando o IDM de todas as formas possíveis e imagináveis ao longo do percurso, Richard D. James é o provável homem forte de todo o line-up se for ordenado por probabilidades de reencontro. O que é certo é que o NOS Primavera Sound vai receber um dos mais incríveis sets de um dos mais incríveis mestres que o género já conheceu e, provavelmente, irá conhecer. Porém de nenhuma forma isto tira o brilhantismo da Mulher do Fim do Mundo que é Elza Soares ou o percurso psicadélico de uns The Black Angels em grande forma, intercalados com nomes tão fortes como o de Japandroids carregado de rock, o de Death Grips destilado de ódio ou o de Metronomy se a pop conseguir dançar sem pudor. Um dia em cheio se também considerados Mitski, Growlers, Weyes Blood, Wand, Songhoy Blues, Operators, Tycho, Sampha e, claro, os residentes Shellac.

Certo, certinho, é que as direcções no Parque vão mudar a cada segundo numa infame corrida pelas novas tendências, por valores firmados e pelas flores que servem de adereço a um dos mais verdes festivais citadinos que o país conhece – assim o é desde 2012, porque haverá de ser excepção nos próximos dias?

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