Tiago Cortez/Everything Is New

Tame Impala na MEO Arena. Cruzamento de luz e cor em domingo de “Deadbeat”

Texto: Fábio Caeiro | Fotografia de capa: Tiago Cortez/Everything Is New

Domingo de Páscoa de 2026 ficará marcado para milhares de pessoas como o dia em que se trocou a habitual caça aos ovos por um concerto.

Foi com uma MEO Arena lotada que Portugal recebeu Tame Impala pela oitava vez, após ter recomeçado a digressão Deadbeat no dia anterior, no Porto, onde pela primeira vez tocaram em nome próprio no nosso país. Esta tour é alusiva ao seu novo disco com o mesmo nome: o quinto álbum da banda que tem feito um trajecto, que começando no rock psicadélico, está cada vez mais situado dentro da electrónica e do house, após ter passado pelo rock e pop electrónico.

Após a chegada ao recinto, pouco depois das 19h30, já se escutava música a vir do interior da sala de espetáculos. Se houvesse quem estivesse na dúvida se seria já o concerto de abertura ou som ambiente, os aplausos nos intervalos esclareceram. RIP Magic não perderam tempo para iniciar o aquecimento. Apesar dos aplausos bem carregados entre músicas, o ambiente ainda estava frio. Bastaram poucos instantes do seu concerto para perceber que também neste dia não nos livraríamos de Judas: a acústica da MEO Arena. Fomos presenteados com o som característico do espaço, com muito eco e pouca definição. Tentou-se manter o otimismo: talvez o som etéreo e atmosférico/espacial dos australianos encaixasse melhor nesta sala.

Algo que foi diferente em relação a vídeos que iam surgindo nas redes sociais de outros concertos da tour foi o seu formato. Aqui, em Lisboa, acabou por ser em 360 graus, mas a dividir por dois. Foi-nos apresentado um palco principal numa ponta, estando o centro da arena reservado para um palco mais pequeno e mais modestamente equipado.

Se assim que começou o concerto Kevin Parker já tinha o público na mão, foi logo na segunda música que a sintonia se revelou total. Nestes instantes, ainda numa fase muito inicial do concerto, a produção subiu de nível com a utilização de lasers e o entusiasmo aumentou, fazendo-se prever como seria o resto da noite.

Foi um concerto com várias oscilações, marcado pelos visuais do tema “Borderline”, cuja brusca troca de cores transmitiu uma sensação de psicodelismo. Já músicas como “Elephant”, “Afterthought”, “Feels Like We Only Go Backwards” e “Dracula” marcaram pelas flutuações entre o rock cru e a electrónica do novo álbum. A mudança de dinâmica ao utilizar o palco auxiliar também foi um ponto que contribuiu para estas alternâncias.

Para além das músicas já referidas, “Loser” também se destacou na primeira parte do concerto. O público mostrou ter a lição bem estudada e acolheu o álbum que estava a ser apresentado com tanta energia quanto quando estavam a ser tocadas as músicas mais estabelecidas de Tame Impala.

Terminando o primeiro set, Kevin Parker teve um momento a solo no palco secundário – afinal de contas Tame Impala é mesmo «só um gajo». Esta plataforma, estilizada de forma acolhedora e intimista, transportou-nos para o estúdio que tem em sua casa. A seleção escolhida para este momento recaiu na instrumental “No Reply”, “Ethereal Connection” e “Not My World”, todas do álbum mais recente. Esta mudança de dinâmica foi satisfatória e permitiu ao público recuperar o folgo.

Kevin Parker, durante a deslocação para o outro palco, foi seguido por um membro da equipa técnica, que transmitiu a imagem para os ecrãs do recinto. Durante um minuto, a MEO Arena observou atentamente os pés e pernas de Parker, enquanto este urinou. Todo este processo foi acompanhado por uma jam tocada pela banda que o apoia em concertos, composta por membros da banda conterrânea Pond.  Foi diferente do que se vê normalmente e venceu pela originalidade. No entanto, acredito que a escolha de músicas não encaixou bem no cenário intimista. Sinto que preferia ter assistido a um momento acústico, como foi feito recentemente no Tiny Desk Concert.

De volta ao palco principal, recomeçamos com a icónica “Let It Happen” – o momento alto da noite – que serviu para de forma abrupta marcar o fim deste desvio. Surgiram de seguida mais algumas faixas para completar a setlist que se baseou principalmente no álbum de apresentação e em Currents, sendo a estreia Innerspeaker o disco menos invocado, tocando apenas uma música, “Alter Ego”. No encore, o baixo introduziu a obrigatória “The Less I Know The Better” e no fim fechou-se com o house mais pujante de “End of Summer”.

A culminar restou a dúvida: será que a acústica melhorou durante a actuação ou os Tame Impala conseguiram dar-nos um concerto que nos fizesse esquecer a qualidade sonora da sala? Foi um concerto memorável, apesar de pessoalmente ter achado um pouco extenso demais – já o público em geral esteve envolvido da primeira à última canção com Deadbeat já bem estudado.

Durante a noite Kevin Parker provou que se pode misturar vários géneros, mantendo a qualidade e coesão do espectáculo. Este é um dos bons artistas que não se limita a permanecer na mesma caixa e que se reinventa ao longo da carreira, arrastando fãs old school a géneros que não são os seus favoritos – e vice-versa – partilhando a discografia mais distante com fãs mais recentes. O que importa é a música e a experiência em si e não os rótulos que colocamos.