Igorrr é o inimitável projecto de Gautier Serre, um multi-instrumentista francês igualmente apaixonado por death metal e música barroca. Após algumas colaborações com a sua galinha Patrick e o lançamento de Hallelujah, um álbum praticamente perfeito, em 2012, Gautier tem finalmente captado um interesse mais generalizado pela sua música. Não só resultou na sua primeira visita a Portugal (Entremuralhas, 2015), rapidamente seguida por outra num festival totalmente distinto (Xxxapada na Tromba, 2016), mas despertou a curiosidade da Metal Blade Records, habitualmente conhecida por trabalhar com gigantes como Cannibal Corpse, Amon Amarth ou Whitechapel.

Durante grande parte destes últimos anos, Gautier e os seus colegas têm trabalhado num projecto incrivelmente ambicioso: gravar a sua fusão de death metal e barroco, sempre inspirada pela música folk e influenciada pela IDM, sem recorrer a quaisquer samples. O resultado foi Savage Sinusoid, um álbum desconcertante que nos obriga a múltiplas audições para captar todas as camadas e nuances da sua música.

Muitos músicos de bandas invulgares dizem que começaram a criar música porque ninguém compunha aquilo que eles gostariam de ouvir. Foi esse o caso com Igorrr?

Exactamente, quando eu era mais novo passava a vida à procura de novas bandas ou artistas que levassem a música mais além, que escapassem à musica das bandas mainstream horrivelmente aborrecidas da rádio e da TV da altura. Não encontrei nada que me deixasse completamente satisfeito por isso decidi criar a minha própria música para poder ouvir aquilo que tinha vontade de ouvir.

Igorrr foi o teu primeiro projecto “sério”? O primeiro que te deu vontade de gravar e partilhar a tua música?

Sim, Igorrr é o primeiro projecto onde decidi fazer todos os possíveis para tornar esta música uma realidade. Tive outros projectos mas não me senti totalmente livre neles, Igorrr sempre foi o espaço onde me posso exprimir livremente.

Há uns quantos projectos com uma sonoridade muito própria que, de uma forma ou de outra, estão ligados a Igorr, como Whourkr, Rïcïnn, Öxxö Xööx e Corpo-Mente. Como é que esta “comunidade” se formou e começou a trabalhar em conjunto?

Tudo começou comigo e com o Laurent, há alguns anos, quando quis criar com ele algo para além de Igorrr e que ultrapassasse as barreiras da música extrema. Foi assim que começámos Whourkr, apenas eu, ele e o desejo de fazer death metal ainda mais brutal e primitivo do que aquele que ouvíamos. Nessa altura o Laurent tinha também o seu próprio projecto, Öxxö Xööx, que continua em actividade.

Alguns anos depois, o Laurent introduziu-me à Laure, com quem comecei a gravar música dentro de Igorrr desde que lhe pedi para cantar na faixa “Caros”. Algum tempo depois gravámos “Tout Petit Moineau” e gostámos tanto dela que decidimos criar um novo projecto que explorasse esse tipo de música, sendo assim que começou Corpo-Mente. Para além disto a Laure tem o seu próprio projeto em Ricinn, mas tal como em Öxxö Xööx não estou muito envolvido, são os projectos destes músicos.

Quando começaste Igorrr, querias fazer tudo sozinho? Quando é que te apercebeste que a música podia beneficiar da participação de outros artistas?

De facto comecei Igorrr sozinho. Nessa altura estava farto de tocar com gente que não entendia as minhas ideias e com quem entrava sempre em conflito quando sugeria fazer coisas novas, enquanto que Igorrr era um espaço sem ninguém a dizer-me se gostavam ou não, se queriam mudar alguma coisa ou não, e eu próprio não queria nada a limitar a música que tinha vontade de criar.

Depois de o projecto ganhar forma, fiquei receptivo à ideia de trabalhar com gente que respeitasse os ideais de Igorrr. Levei algum tempo a encontrar as pessoas certas, mas hoje, pouco após o lançamento de Savage Sinusoid, sinto que correu bem. A Laure, o Laurent, o Sylvain e todos os convidados fizeram um trabalho incrível.

E quando é que começaste a colaborar com a tua galinha?

Um dia achei que compor música com a minha galinha seria uma boa ideia e foi isso que fiz, mas não sei ao certo quando. Quando coisas dessas acontecem, lembras-te da ideia mas não do momento.

A tua música tem tantas camadas e sons a trabalhar em conjunto que é difícil perceber o ponto de partida. Tens uma ideia geral para uma música quando a começas ou deixas-te levar pelo instinto?

É realmente muito à base do instinto, esta música faz sentido para mim mas quando começo a trabalhar numa faixa já tenho uma ideia daquilo que ela deveria ser. Tenho uma espécie de pintura colorida na minha mente e, como tenho sinestesia, as cores estão ligadas a sons, portanto posso procurar simplesmente o instrumento e instrumentista certos que possam “tocar esta cor”.

Para além da densidade, talvez o aspecto mais óbvio da tua música seja a brevidade de algumas passagens, a frequência com que passas de uma coisa para outra totalmente diferente na mesma faixa. Lembra-me um bocado a opinião que o Stockhausen tinha sobre a repetição constante na EDM: que soava a alguém a tentar transmitir algo, mas sempre a gaguejar. A repetição é algo que te aborrece?

É verdade que repetição a mais numa faixa é como alguém a dizer-te sempre a mesma coisa. Como ouvintes, não somos idiotas, não precisamos de ouvir a mesma frase 50 vezes seguidas para perceber o significado. Percebo o sentido do “trance” que tem como base a repetição da música de dança, e isso funciona muito bem com algumas ideias, mas Igorrr tem um “mood” diferente. Apesar de achar que repetir algumas frases, nos sítios certos, as torne mais fortes, criar uma faixa inteira com uma só ideia parece-me um bocado fraco.

A componente da repetição é provavelmente uma das diferenças mais óbvias entre a música pop, baseada em quadras e refrões, e muitos géneros de música clássica que progridem sem repetir melodias. O teu amor por música clássica (e barroca em particular) é bem conhecido, mas até que ponto te focas na melodia? Falas frequentemente da influência de Scarlatti e de Bach, mas é raro mencionares compositores como Stockhausen, Xenakis ou Boulez.

A componente melódica é algo que também é extremamente importante, tanto quanto o ritmo, e encontramos ambos na música clássica, são os aspectos que ajudam a tornar a música tridimensional!

Nunca ouvi muito Stockhausen ou Pierre Boulez, mas durante algum tempo ouvi bastante Xenakis, não costumo falar sobre ele porque não sinto que me tenha inspirado, apesar de gostar muito da música dele.

Decidiste trabalhar sem samples no último álbum. Já tinhas convidados específicos em mente quando começaste, ou procuraste indivíduos que pudessem tocar certos instrumentos?

Para o Savage Sinusoid sabia mais ou menos com quem queria fazer música, quem tocaria as partes que tinha em mente. Tudo começou com o cravo, quando a Katerina Chrobokova veio da República Checa para uma aldeia remota francesa com o seu cravo durante umas semanas para gravar as partes no estúdio.

Quando comecei, havia uma pessoa que não esperava que gravasse no meu álbum: o Pierre Mussi, acordeonista. Não o conhecia no início das gravações de Savage Sinusoid.

Qual foi a parte mais difícil na gravação deste álbum?

A parte mais difícil foi tudo [risos].

Foi um trabalho muito longo e com imensa logística: juntar tanta gente tão diferente foi bastante complicado. Parecia que estava a fazer malabarismo com um milhão de bolas ao mesmo tempo: composição musical, encontrar a pessoa certa para tocar correctamente uma parte, o aspecto técnico da coisa para chegar ao som essencial e puro de cada género, a logística de trazer as pessoas ao estúdio na França, filmar as gravações para mostrar o “making of”, decidir gastar o dinheiro todo sem saber se o álbum viria a ser lançado ou não, ouvir gente a queixar-se porque a música não era “suficientemente normal” e que assim não ia resultar, etc… isto durante quatro anos. Na verdade, estávamos a adorar tanto o que estávamos a fazer durante este período de tempo que simplesmente continuámos até ao fim por amor à música.

Como é que sabes que uma música está acabada? Como resistes à tentação de acrescentar “só mais um som”?

Quando trabalhas numa faixa durante meses a fio, tens tempo para testar todas as ideias que quiseres, e quando tudo o que adicionas a uma faixa faz com que ela soe pior é um bom sinal de que estás a aproximar-te do fim. Além disso, se sentes algum impulso ao ouvir a música, algo que te leva a querer adicionar ou remover coisas, quer dizer que não está terminada. Se, ao ouvir a faixa, ela está completamente transparente, significa que não há mesmo mais nada a fazer e que está acabada. Sem dúvida que é um processo bastante longo.

Para terminar, foi surpreendente que uma editora tão grande como a Metal Blade Records tenha manifestado interesse em lançar o álbum?

Foi de facto muito surpreendente, já que Igorrr é um projecto underground que não é feito para vender música mas antes um projecto pessoal feito por melómanos que querem compor a música que lhes apetece.

Acho que, apesar de a editora ser muito famosa e trabalhar com bandas que vendem bem, o pessoal da Metal Blade também não passam de melómanos e não se importam de arriscar, portanto deixaram-me confortável para avançar e unimo-nos.

Nós na banda somos fãs de bandas como Cannibal Corpse, que também pertencem à Metal Blade, e a nossa música provavelmente retira inspiração deles, portanto penso que de certa forma achámos que faria sentido.

Entrevista: Daniel Sampaio

Igorrr is the too-hard-to-define project of Gautier Serre, a French multi-instrumentalist who loves Baroque music and death metal in equal measure. After a couple of works with his chicken Patrick and a nearly-flawless Hallelujah in 2012, Gautier picked up the interest of Metal Blade Records, usually known for working with bands such as Cannibal Corpse, Amon Amarth or Whitechapel.

For the better part of four years, Gautier and his friends have been working on an incredibly ambitious project: recording his folk-inspired, IDM-infused, baroque/death metal fusion without resorting to samples. The result is Savage Sinusoid, a bewildering album that begs for multiple listens in order for us to capture the numerous layers and nuanced aspects of each track.

Many musicians in unusual bands say that they started writing music because no one composed the kind of stuff that they wanted to listen to. Was this the case with Igorrr?

Exactly, when I was young I was constantly searching for new bands or new artists who would push the boundaries of music, who got away from the horribly boring mainstream bands on the radio and TV back then. I didn’t really find any band which satisfied me completely musically so I decided to create my own music just to be able to listen to what I wanted to listen to.

Was Igorrr your first “serious” musical project? As in, the first that made you want to record and share your music?

Yes, Igorrr is the first project where I decided to do everything I could in order to make this music real. I had different other projects but felt I wasn’t completely free in them, Igorrr has always been the place where I could express myself without any limits.

There are a few very unique musical projects that are related to Igorrr in one way or another, such as Whourkr, Rïcïnn, Öxxö Xööx and Corpo-Mente. How did this “community” form and how did the various members start working together?

It’s all started with me and Laurent, some years ago. Besides Igorrr, I wanted to create more-than-extreme music with Laurent, that’s how we started Whourkr, only me and him and the wish to make some death metal even more brutal and primitive than the one we were listening to. Laurent had his own project already: Öxxö Xööx, which is still alive today.

Some years later, Laurent introduced me to Laure, with whom I started to make some music as well through Igorrr. I asked her to sing on the track “Caros”. Some time after that we did the track “Tout Petit Moineau”, and we enjoyed it so much that we decided to create a new project to dig into that kind of music, that’s how we started Corpo-Mente. Beside this, Laure has her own project,  Rïcïnn,, but similarly to Öxxö Xööx I’m not doing much in it, that’s their own projects.

When starting Igorrr, did you want to do everything by yourself? When did you realize the music would benefit from inviting other musicians in?

I started Igorrr as only myself indeed, back then I was fed up with doing music with people who didn’t understand my ideas and I always had to fight with to try new ideas, whereas Igorrr was like the place where nobody was telling me if they liked it or not, if they wanted to change anything in it or not. I wanted nothing to limit the music I wanted to create.

Once the project took its shape, I was ready to welcome people who would follow the “Igorrr” idea. It took some time to find the right people but today, when we’ve just released Savage Sinusoid, I feel like we did good. Laure, Laurent, Sylvain and all the guests made an incredible work.

And when did you start collaborating with your chicken?

One day I thought that composing music with my chicken would be a good idea, so I did it, but I don’t remember exactly when. You know, when things like that happen, you remember the idea, not the date.

Your music has so many layers and sounds working together that it’s hard to understand how it all begins. Do you have a general idea for a song when you start, or do you go along with your instinct?

It’s very much working with instinct indeed, this music sounds all logical to me but when I start working on a track I already have a global idea of how it should be. I have like a painting with colors in my mind and, as I have synesthesia, colors are connected to sounds, so I can just pick up the right instrument and the right instrumentalist who can “play this color”.

Besides the density, maybe the most obvious aspect of your music is how short some passages are, how often you change from one thing to a completely different one in the same track. It reminds me a bit of Stockhausen when he said that, for him, the constant repetition in EDM sounds like someone talking to you but stuttering all the time. Do you find repetition boring as well?

Indeed, too much repetition in a track is like somebody always telling you the same thing. As listeners, we are not idiots, we don’t need to hear the same sentence 50 times in a row in order to understand the meaning. I understand the meaning of the “trance” feeling with the repetition in dance music, and that works very well with some ideas, but Igorrr is situated in a different mood. Though, I think that repeating some sentences, in the right place, might make them stronger, but to create a full track with only one idea sounds to me a bit weak.

This aspect of repetition is probably one of the most obvious differences between pop music, based on verses and choruses, and many types of classical music that keep progressing without repeating any melodies. Your love for classical (and mainly Baroque) music is well-known, but how important is melody for you? You talk about Scarlatti and Bach very often in interviews, but not about composers like Stockhausen, Xenakis or Boulez.

Melody is something extremely important as well, as much as rhythms, we find both aspects in baroque and classical music, both aspects help the music in becoming “3D”!

I never listened to a lot of Stockhausen or Pierre Boulez, but for some time I was a bit more into Xenakis, I don’t talk about him because I don’t feel he inspired me, even though I very much enjoy his music.

You decided to work without samples in your latest album. Did you already have specific guest musicians in mind when you started, or did you look for people that could play certain instruments?

For Savage Sinusoid, I knew more or less with who I wanted to do music with, who would be playing the parts I had in mind. It’s all started with the harpsichord. Katerina Chrobokova came from the Czech Republic to the deep countryside of France with her harpsichord for some weeks to record the parts at the studio.

When I started, there was one person I didn’t expect to record on my album: Pierre Mussi, the accordion guy. I didn’t know him at the beginning of the Savage Sinusoid recordings.

What was the hardest part in recording Savage Sinusoid?

The hardest part was everything [laughs].

It was a very long work, with lots of logistics: making all those different people work together was something pretty difficult. It felt like juggling with a million balls at the same time: musical composition, finding the right person who would be able to play the parts right, the technical aspect of it to reach the essential and true sound of every genre, the logistics of making people come to the studio in France, filming every recording to show the “making of”, going ahead and spending all your money without being sure if the album would be released one day or not, hearing people complaining because the music is not “normal enough” and that I shouldn’t do that, etc… that, for like 4 years. Actually, we were loving so much what we were doing during this time that we kept going until the end, just for the love of music.

How do you know a song is finished? How do you resist the temptation to add “just one more sound”?

When you work on a track for months, you have enough time to try all the different ideas you want. When anything you add makes the track sound less good, that’s a good sign that you’re approaching the end. Also, if you still feel something while listening to the track, something that makes you want to add more or remove something, it means it’s still in the works. If, when listening to the track, it becomes like completely transparent, that’s the sign that you really cannot do anything else and that the track is done. This is a pretty long process to be sure of it.

Finally, was it surprising that a label as big as Metal Blade Records was interested in releasing it?

That was very surprising indeed. Igorrr is an underground project, not made to sell music but more like a personal project made by music lovers just to make the music we want to.

I guess, despite the fact that the label is very famous and that they work with big selling bands, the guys at Metal Blade are just music lovers and they don’t mind taking risks, so by this point we joined each other as this is the way I like to go ahead as well.

However, we, in the band, are fans of bands like Cannibal Corpse, a band signed to Metal Blade as well, and our music is probably inspired by them, so I guess we could somehow feel that it would make sense.

Interview: Daniel Sampaio

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