Gonçalo Silva/Last Tour

Two Door Cinema Club no Coliseu dos Recreios. O filho pródigo a casa (sempre) torna

Texto: V. Oliveira | Fotografia: Gonçalo Silva / Last Tour Portugal

Lançado em 2010, foi com Tourist History que os Two Door Cinema Club se catapultaram além-fronteiras e se assumiram como um dos nomes mais proeminentes da cena indie internacional. A celebrar quinze anos desse disco emblemático, a banda irlandesa regressou a Portugal em dose dupla (a banda actuou no Porto na noite anterior) para protagonizar um belíssimo concerto, e logo numa das salas mais emblemáticas de Lisboa. Não sendo estrangeiros do público português, e com passagens por festivais como Super Bock Super Rock (em 2011) e NOS Alive (em várias edições), é sem dúvida em contexto mais intimista e visualmente cénico que a banda prevalece de forma autêntica e honesta, e foi a isso que assistimos no Coliseu dos Recreios.

Numa noite que trouxe consigo cheiro a verão, foi em ambiente electrizante e triunfal que o trio irlandês se apresentou em Lisboa, fazendo-se acompanhar do baterista Ben Thompson e também de Jacob Berry (sintetizador e guitarra/piano). Alicerçados na experiência de uma carreira sólida e na voz imaculada de Alex Trimble, o primeiro capítulo do espectáculo contou com alguns dos êxitos do álbum Tourist History – que não foi tocado em sequência mas contextualizado com outros álbuns, o que concedeu dimensão e fluidez ao espectáculo. À semelhança do alinhamento do próprio álbum, foi com “Cigarettes in the Theatre”, “I Can Talk” e “Do You Want It All?” que se  aqueceram vozes, pés e corações, e se semearam também os ingredientes de uma performance expansiva e sentimental.

Singles como “Come Back Home” e “Something Good Can Work” foram cantados a pulmões abertos e mostraram um público em simbiose com a banda, mas sempre sedento por mais. Naquela que foi uma celebração competente e intimista, foi o baixista Kevin Baird o primeiro a aludir à cerimónia comemorativa de Tourist History, realçando o vínculo sentimental e de união entre os elementos da banda, bem como a contribuição que esse vínculo teve na concepção (e sucesso) do álbum: «We were just a family, a group of friends wanting to play music».

A secção intermédia do concerto contou com a presença dos álbuns Beacon (2012) e False Alarm (2019), passando ainda pelo EP Changing of  the Seasons (2013). Foi com Beacon que  se reservaram as primeiras grandes ovações da noite, mostrando que haveria espaço para uma tour de celebração de quinze anos do mesmo álbum. Através de êxitos como “Sleep Alone”, “Next Year”, “Handshake” e “Sun”, a banda nunca tirou o pé do acelerador e mostrou porquê que estar em palco é o terreno fértil da criação artística, ao mesmo tempo que deixou bem visível as qualidades que lhes permitem continuar a existir numa indústria musical tão brutalmente competitiva.

O capítulo final voltou a revisitar Tourist History e Beacon através de faixas como “Undercover Martyn”, “You’re Not Stubborn” e “What You Know”, na qual Alex Trimble se desfez em gratidão e prometeu regressar: «We are very glad to be back and we hope to see each other again». O ambiente efusivo que se registou dentro do Coliseu dos Recreios demonstrou também que os Two Door Cinema Club são realmente um dos preferidos do público, prevalecendo a ideia de que sempre encontrarão no nosso país uma casa onde fazer história.

A abertura do concerto ficou a cargo da banda lisboeta Hause Plants que tem álbum de estreia marcado para 2026 através da editora Cuca Monga.