NOS Primavera Sound. A música nova e o virar do milénio no regresso ao parque

Quinta-feira, 9 de Junho

Escolhemos o NOS Primavera Sound para iniciar a romaria festivaleira pós-pandémica, pelo que de 9 a 11 de Junho rumámos ao Parque da Cidade do Porto para mais uma edição. E contrariando todas as probabilidades, o Sol deu tréguas à chuva logo desde os primeiros momentos do festival. Num dos principais eventos musicais do país, e um dos primeiros grandes do ano, ainda foi possível observar uma ou outra máscara por entre milhares num dia lotado. Dado o número reduzido de brindes, em comparação a edições anteriores, houve quem trouxesse o seu merch vintage Primavera, desde t-shirts de 2012 às habituais tote bags de 2018 ou 2019.

Foi pelas 16h30 que o rock andaluz de Derby Motoreta’s Burrito Kachimba subiu ao Palco Cupra para a abertura do festival. Meia-hora depois, Throes + The Shine fizeram as honras no Palco Super Bock: a primeira pista de dança estava aberta! Num concerto em que ninguém ficou parado, o seu rock kuduro passou por “Tá a Bater” e “Guerreros”, antes de “Balança”, onde Igor mostrou a sua maestria; já o vocalista, com os habituais movimentos de cintura, capazes de fazer mexer toda a audiência, afirmou que «o assunto agora ficou muito sério», pedindo para ver toda a gente no chão, a abanar e mexer. «Agora vamos fazer um terramoto, Primavera», afirmou, pedindo ainda para abrir um corredor no público. Tal solicitação culminou num salto colectivo e um coro do público a acompanhar uma passagem por “Mariquinha”. Dotes físicos e homenagens à música africana não ficaram por aqui, havendo ainda direito à “Felicidade”, que pautou todo o espectáculo, sempre aludindo ao amor e à festa.

A abertura do Palco NOS coube a Pedro Mafama, que chegou vestido de fato de toureiro cor-de-rosa, ao som de flauta. Em suma, foi um momento chill de fim de tarde. Percorreu canções, mais e menos recentes, como “Barca”, “Estaleiro”, “Jazigo” e “Não Saio Não”, destacando ainda a importância de estar no palco principal deste festival. Relembrou ainda a última vez que esteve neste contexto, «a ver coisas de que gostava, ali», apontando para o público no relvado. Para “Lacrau” pediu ajuda à audiência, conhecedora e acompanhante de letras. Admirado, mas com humildade, ganhou ele e ganharam todos naquele momento de folk muito próprio.

Pouco depois das 18h00, o vento começou a mostrar também sua presença e consigo levou algum público ao Palco Cupra para assistir a DIIV, que provavelmente ficariam melhor arrumados no Palco NOS, tendo em conta a procura de espaço do público mais experiente. Simpáticos pela aparência, DIIV começaram por se apresentar e agradecer ao público pela presença – as bancadas que ladeiam e a plateia em pé estavam completamente lotadas. Numa viagem pela sua história, desde “Under The sun”, “Skin Game”, “Doused” ou “Blankenship”, acabaram por confessar que não esperavam pela quantidade de admiradores que compareceram no seu concerto que, sem dúvida, mereceu destaque nesta edição.

Continuando num registo humilde e confortante, tal como o sol que se punha, colocamos olhos e ouvidos no Palco NOS para a australiana Stella Donnelly, que chega sozinha a palco e revela após “Mechanical Bull”: «nem acredito que estou aqui em Portugal, num palco como este, maior do que aqueles a que estou habituada». A sua postura é, também ela, diferente – mais madura, mas igualmente terna e descontraída. Já acompanhada dos seus instrumentistas, apresenta algumas love songs, percorrendo “Mosquito”, “Season’s Greetings” – com a sua harmónica – , ou “Boys Will Be Boys”. Stella destacou-se também pelo seu humor, pediu desculpa por referir nas primeiras músicas a palavra “f” e informou que, a partir daquele momento, só iria usar «dick and shit». Espaço ainda para uma música recente, “Lungs”, e tocou até uma cover australiana, o clássico “Love is in the Air”, de John Paul Young, do já longínquo ano de 1977. “Die” colocou a plateia a imitar os seus passos de dança e “Tricks” arrastou as suas competências bailarinísticas. Com mais ou menos truques, nada fez por ocultar a sua face mais humana e no final desceu as escadas com as setlists na mão para as entregar aos fãs que a esperavam nas primeiras filas.

 

Já sabemos que em festivais existem impreterivelmente escolhas a serem feitas e esta foi uma delas: abdicar do Palco Binance, onde tocava Kim Gordon. Trocámos o conhecido pela novidade e arrependemo-nos, pois em alternativa, fomos espreitar o fenómeno de ascendência portuguesa, Sky Ferreira, no Palco Super Bock e não poderia ter corrido pior: após um atraso de vinte minutos aguentado pela crew que ia circulando entre o palco e a régie, deparámo-nos com a artista num estado alterado e com o pior som até ao momento, muito alto e pouco perceptível. A artista, por sua vez, parecia bastante admirada com o público que a esta hora cobria todo o relvado deste palco – nas primeiras filas sabiam as suas letras. Muito nervosa, a jovem ia sorrindo, mas terá sido provavelmente o concerto mais negativo desta edição. Em simultâneo, no Palco Cupra, o porto-riquenho Jhay Cortez, conhecido pelas suas colaborações com Bad Bunny e J Balvin, fazia uma festa com direito a fogo de artifício.

Seguiu-se um dos concertos mais esperados desta edição, com os gigantes Nick Cave and the Bad Seeds no Palco NOS a abraçar a noite. A voz e aparência envelhecidas de Cave, mas inconfundíveis, teve a sua habitual legião de fãs, antigos e mais recentes, acompanhá-lo vezes sem conta nas suas várias aparições pelo nosso país. Ainda assim, num dia de festejos e, provavelmente pelo carácter mais melancólico e introspectivo, ainda que icónico, eram muitos os que preferiam passear pelo recinto noutros afazeres. No alinhamento fizeram-se passagens ao minucioso álbum Ghosteen, assim como o trabalho ‘a meias’ Carnage entre Nick Cave e Warren Ellis, presença semple emblemática na trupe dos Bad Seeds. O rock apoteótico também se fez ouvir, logo numa fase inicial do set, unindo duas faces igualmente distintas da carreira.

Passado uma hora do início, muitos seguiram para o Palco Binance, para black midi, e só às 23h45, após a despedida de Nick Cave, emerge uma extrema correria para garantir um qualquer lugar para Cigarettes After Sex, no longínquo Palco Cupra. A banda já é habitué mas continua a encantar corações apaixonados, e talvez numa próxima tenha lugar num palco principal, como consideramos merecer e já aconteceu numa edição passada, em 2017. A impaciência e a ansiedade pela entrada em palco foi ilustrada por aplausos, gritos e assobios, até que a melodia à filme antigo ou sacada de um conto de fadas deu o mote. Todo o reportório acabou por agradar de modo diferente a cada pessoa, passando por êxitos já difíceis de contornar como “Crush”, “You’re All I Want”, “Affection”, “Falling In Love” ou “Nothing’s Gonna Hurt You Baby” logo a arrancar o concerto. Apesar de envelhecidos e com um ar mais casual, a sua simplicidade monocromática e de poucas palavras mantêm-se chaves da serenidade, condizente com o pano de fundo que os suporta e uma luz cheia que ilumina um mar calmo. A faltar minutos para o último concerto do dia no palco principal, foi após “Sweet” que se iniciaram as movimentações mais aceleradas. A banda persistiu na sua navegação e houve tempo para um deslumbre geral em “Apocalypse”, já perto do fim.

Já perto da uma da manhã, os gigantes australianos Tame Impala dominaram o palco principal do festival. Com um pequeno vídeo introdutório, “One More Year” e “Borderline” abriram o alinhamento num jogo de luzes constante, algo psicadélico e evocante de um videojogo. «Obrigado Porto, é tão bom estar aqui», rematou o líder Kevin Parker e sob canhões de luz que sobrevoavam o público anunciou-se “Elephant”. Após “Lost In Yesterday” e meio que desorientado no tempo, admitiu que não se lembrava de estar no Primavera Sound Porto antes [não esteve] mas que sente sempre como se fosse a primeira vez. Em constante actuação num dos mais sofisticados palcos do festival, o círculo estilo ovni/pista-de-dança desceu sobre a banda, como se tivessem arrancado os australianos de outra galáxia. Depois deu-se a subida em arco-íris rodopiante pronta para “Let It Happen”, entoada pela plateia surpreendida com confetti numa grande festa. Antes de saírem de palco ainda houve tempo para as muito aguardadas “Feels Like We Only Go Backwards”, cujo refrão dispensa lições, e “Eventually”. Ainda antes desse encore, que se preencheu com “The Less I Know The Better” e “New Person, Same Old Mistakes”, com uma incursão por “Last Nite”, versão sacada aos The Strokes e merecedora de elogios à cerveja portuguesa pelo meio, fizeram uma viagem única ao seu primeiro disco, com “Runway, Houses, City, Clouds”.

 

De referir que nesta edição foram incluídos mais artistas espanhóis, de onde é originário o festival. Constatámos que o público apresentou este ano uma tendência de chegar mais cedo ao recinto, em comparação com outros eventos semelhantes, pelo que pelas 17 horas já se conseguiu observar uma grande parte das pessoas dentro do recinto ou nas suas imediações. Entre presenças nacionais e internacionais, com grande expressão neste NOS Primavera Sound, escutaram-se bastantes comentários sobre o ‘sedentarismo festivaleiro’, dado o interregno devido à pandemia e provavelmente a sequelas pós-COVID, a juntar ao factor idade (afinal, envelheceu-se três anos entre duas edições); presenciaram-se ressacas sem álcool, houve vidas reorganizadas (alguns foram pais, constituíram família, casaram, emigraram, etc.) e em contraste, uma maior percentagem da audiência marcou presença no festival pela primeira vez.

Sexta-feira, 10 de Junho

O dia em que se comemorou o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, apresentou-se mais tranquilo, com menos correria, em ambiente mais familiar, com crianças e inclusivamente carrinhos de bebé. Avistou-se um ambiente de estilos diversificados, do mais desportivo aos anos 80 e com referência à série Stranger Things, mais os cabelos pintados de várias cores e óculos de sol.

Para acompanhar a entrada, estiveram os portugueses Holy Nothing na recepção no Palco Cupra. Nem todos pararam, optando por seguir caminho e descansar na encosta defronte para o Palco NOS, à espera de Beach Bunny. Sobre estes (bastante) jovens, energéticos e simpáticos, há que admitir jogos bem activos com o público. Das suas faixas pudemos escutar, entre outras, “6 Weeks”, “Oxygen”, “Good Girls (Don’t Get Used)” ou “Prom Queen”. Na tentativa de comunicar com todos, assegurando a sua diversão, incluíram os que se encontravam mais atrás, abrindo espaço para danças pelo relvado.

Ao mesmo tempo, no Palco Binance apresentava-se a montra nacional, com Rita Vian. Ao vivo validamos aquilo que o estúdio tende a ocultar: humildade e identidade na voz. Simples, adaptada aos tempos modernos mas trazendo o encanto da língua portuguesa na sua consistente e marcante voz, mostrou-nos “Sereia”, “Tudo Vira” e “Purga” – que as poucas centenas de presentes acompanham e orgulhosamente aplaudem. Lembrou, a capella, uma música que os avós cantavam juntos e terminou o seu concerto com uma faixa ainda não lançada, “Cara de Lua”, e “Trago”, realçando a vontade de regressar em breve.

Para um fim de tarde, batiam as 19 horas quando Maria José Llergo subiu ao Palco Super Bock. Podemos considerar que, do mesmo modo que o fado está para as gerações portuguesas mais jovens, também o cantar em castelhano de influência árabe é transportado por esta artista, numa versão crua, num concerto integralmente na língua irmã.

 

Após esse momento, constatámos que se há banda que repete mas não se cansa de nós, nem nós deles, são os Slowdive. Cinco elementos, quatro em linha na frente e o baterista atrás, sacaram do seu catálogo icónico de shoegaze. A música alta e a produção visual sugeriram uma slot mais tardia, tendo o pôr-do-sol comprometido parte dessa ligação. A musicalidade introspectiva da banda acabou por se traduzir mais num relvado de pessoas sentadas, ainda que atentas.

Na hora seguinte foi a vez de King Krule subir ao Palco Cupra, com a fotografia (a primeira de um slide show que prossegue ao longo do concerto) de um cão numa praia de pedra a anteceder a entrada dos seis elementos em palco. O saxofone que acompanhou a voz de Archy Marshall aconchegou a noite que se aproximava e revelou também um lado inacessível na versão de estúdio, já que em palco não se deixou ninguém indiferente. A lotação deste espaço deu mais uma confirmação de que os concertos no Palco Cupra, localizado sobre o alcatrão do Queimódromo, são quase como a garantia de um outro festival, dentro deste. Nessa bolha ficámos com certeza de que King Krule seria outro concerto condizente com a encosta verde do Palco NOS. Mais uma vez, por não conseguirmos alcançar todos, passámos pelo Palco Super Bock para espreitar Amaia, cantora também de voz castelhana, numa embora numa versão mais pop romantizada. Ficaram apontamentos de voz doce, a recordar bandas sonoras para crianças, antes de se saltar para o concerto de um dos headliners do dia.

Apesar de não ter esgotado o dia, Beck congratulou-nos com a sua presença num concerto sem interrupções, em que houve lugar para temas mais recentes e mais antigos. “Devils Haircut”, “Dreams”, “Up All Night” e “The Valley of the Pagans”, em que se empresta aos Gorillaz”, e “Hollywood Freaks” foram algumas das primeiras no alinhamento. Revelaram-se as saudades do nosso país  [a última vez cá havia sido em 2008] e pediu-se ao público para dançar, entre agradecimentos e uma apreciação por Portugal.  O alinhamento extenso, maioritariamente dividido pelos discos Colors, Odelay e Guero, passou ainda pelos Cage The Elephant em “Night Running”, antes de se anunciar pela harmónica as finais “Loser” e “Where It’s At”.

 

Com um dia preenchido mas não lotado, foram muito menos do que o esperado aqueles que ficaram para uns tão desejados Pavement, que se estrearam pela primeira vez nos palcos nacionais. Confirmados desde a última edição do festival, em 2019, talvez fosse por desinteresse, desconhecimento ou qualquer outro motivo, a verdade é que após o concerto de Beck a grande maioria de espectadores não resistiu ao vento e frio que se começou a sentir e optou por abandonar o recinto. Para quem ficou, muitos sonhos se realizaram pela banda de Stephen Malkmus e companhia, que percorreu os seus clássicos como “Range Life”, “Harness Your Hopes” e “Summer Babe” e outros não tocados há vários anos. Um rock de culto para seguidores que se fizeram notar por si e pelos que não estavam.

Por mais vontade e curiosidade que existisse da nossa parte em ficar no Palco Binance para Chico da Tina, os horários, excesso de estímulos e coisas-a-acontecer foram demasiadas para quem procurou assegurar alguma coerência nos seus textos.

Sábado, 11 de Junho

O anfitrião do último dia do festival foi um artista local, David Bruno, recebido em palco às 17 horas pelo seu DJ, António Bandeiras. «Top top top, ’tou a precisar do vosso apoio, vamos lá. Caxinas, Caxinas!», rematou, antes de fazer soar “Music Sounds Better With You”, como o som de uma aula de ginástica para a chegada do guitarrista, Marquito e só depois David, que ao chegar pausadamente faz uma vénia ao público, ao som de “Praliné”. Com imagens aleatórias a passar no fundo, o performer foi muito interactivo com o público – «É isso que vocês querem? Três, dois, um… Gondomar! Gondomar!», como é hábito a solo ou com o seu Conjunto Corona, antes de dedicar um tema a «um anjo, Graciano Saga, emigrante que morreu quando tinha 65 anos, idade que estabeleceu para regressar para Portugal», intitulado “Doucement”. Depois desse momento, uma dedicatória a «um restaurante simples em Mafamude» com “Mesa para dois no Carpa”. David Bruno foi até à plateia e, apesar das suas reduzidas letras, atraiu centenas ao seu concerto com a sua capacidade humorística e o instrumental chill. Passou ainda por “Lamborghini na Roulotte”, “Salamanca By Naite”, “Interveniente Acidental”, “Inatel” (estas partilhadas com Mike El Nite, bem substituído pelo público) e “Festa da Espuma”.

A hora seguinte coube a Helado Negro, já no Palco NOS. A banda composta somente por três elementos ofereceu um ritmo descontraído para o fim de tarde, antes da romaria ao Palco Cupra pelas 19 horas para um dos conjuntos mais aguardados do festival. Ainda restando quinze minutos para a sua subida ao palco, já era patente a enchente nas bancadas e a dificuldade para circular na plateia para receber Khruangbin. A cada tema deram-nos uma imagem com novo efeito visual, mostrando-se merecedores de palco principal. A baixista Laura Lee, num fofo festivo verde e de sapatos rosa, dançou em movimentos de cumplicidade com o seu instrumento, desfilando como se estivesse numa catwalk, ancorando musicalmente com o baterista Donald Johnson para as histórias contadas, maioritariamente instrumentais, pelo guitarrista Mark Speer. A única interacção com o público é não-verbal, feita através de sorrisos ao longo de “So We Won’t Forget”, “Pelota” (com uma bola pelos ares, de mão em mão, nas primeiras filas) e ainda um medley que inclui famosos instrumentais de “True” e “Wicked Game”, passando pela “Summer Madness” de Kool & The Gang antes de unir “María También” a “Misirlou”. A visita às influências não sossegou em “People Everywhere (Still Alive)” com “Rhythm Is A Dancer” ou “Gypsy Woman”. Foi prazeroso ver, novamente, as pessoas saírem à rua para dançar e ouvir música ao vivo, em comunhão, nem que seja por um só momento abstrair-se dos problemas do mundo.

No Palco Binance encontrou-se depois Jamila Woods, que pela primeira vez em Portugal e com apenas poucas centenas de pessoas a amealharem-se neste palco mais pequeno, revelou a sua simpatia. Calma mas cheia de atitude e bastante aplaudida, partilhou a sua felicidade e entre os seus trabalhos incluiu uma visita a “Smells Like Teen Spirit” dos Nirvana. Já os repetentes e veteranos Dinosaur Jr. de J Mascis chegaram para fazer a sua vez e, apesar de não existirem grandes surpresas (nem sempre são necessárias), reafirmaram o seu lugar junto do público do Primavera, claro.

 

Bem mais jovem e com uma garra feminista, apresentou-se Little Simz, a rapper britânica que conquistou o seu lugar entre tantas estrelas, no certeiro Palco Cupra. Quem não viu, ter-se-á arrependido e esperamos um regresso em breve aos palcos nacionais para dissertar ao vivo Sometimes I Might Be Introvert, um dos mais aclamados discos lançados em 2021. À mesma hora estava a começar no Palco Super Bock um dos concertos com maior legião de fãs, Pabllo Vittar. As primeiras filas estavam repletas de bandeiras LGBT, gritou-se o nome Pabllo e cantaram-se alguns dos êxitos. O público era sobretudo jovem, arrojado, colorido e com glitter nas faces. Quando a diva e os seus quatros bailarinos perfeitamente ensaiados entaram em palco, foi automática a elevação dos telemóveis. Tratou-se de uma festa, com dança e cantoria geral em “Bandida”, “Problema seu”, “Salvaje”, “Amor de que” ou “Sua cara”, em que aproveitou para recolher ofertas da primeira fila. Ouviu-se um «estou linda, livre, leve e solta» a plenos pulmões naquilo que foi mais do que um espectáculo de música, mas também uma prestação inigualável de dança, com cada tema a merecer uma coreografia. Para muitos um dos concertos do festival.

Em alguns minutos e logo ali ao lado, passámos dos festejos que esta vida nos permitem para um registo totalmente diferente. A puxar para a melancolia e a frieza de que existe sempre um adeus a denunciar, com Interpol. Apesar de um público considerável, conseguimos perceber que há quem tenha surgido apenas para guardar lugar para o último concerto do palco principal e tenha decidido passar ao lado da banda que percorreu temas velhos e novos. Mais de metade do alinhamento prendeu-se entre Turn On The Bright Lights e Antics, clássicos da banda, intercalados com “All The Rage Back Home”, “Rest My Chemistry” ou “The Rover”.

 

Provavelmente “o” concerto desta edição do NOS Primavera Sound, à uma da manhã e com um ambiente de luzes amarelas, ao estilo sala-de-estar, antecedeu-se o apagão que assinalaria o início de Gorillaz. Reuniram-se ali milhares, na vasta enchente do festival, para ver e ouvir músicas que marcaram e continuam a marcar várias gerações e a banda virtual em palco assume-se de carne e osso, liderada claro por Damon Albarn. Pulos e esbracejos nas primeiras filas acompanham os compassos da bateria, seja ao som de “Strange Timez”, “Last Living Souls”, “The Valley of the Pagans” (entoada por Beck uma noite antes, mas agora na sua versão original e com o próprio em palco), já depois de “19-2000”, “Tomorrow Comes Today” ou “Rhinestone Eyes”. Durante as pausas e as transições de faixa, o público faz-se ouvir, bem comandado, seguindo as indicações da banda. Também ao contrário dos dias anteriores, a diminuta circulação do público faz acreditar que a grande concentração se encontra neste palco principal, seja para escutar “O Green World”, com Damon a introduzi-la ao piano, ou “On Melancholy Hill”, num segmento mais calmo da actuação. À voz já envelhecida, familiar e terna de Damon juntou-se Fatoumata Diawara para “Désolé” ou Little Simz para “Garage Palace”, antes de se fechar o alinhamento com os clássicos “Dirty Harry”, “Feel Good Inc.” e “Clint Eastwood”.

Apesar da festa ter continuado, foi assim, com esta visita emocional ao virar do milénio, que se deu por terminada mais uma edição do festival a que já nos acostumamos. A próxima edição está marcada para 2023, de 7 a 10 de Junho – sim, pela primeira vez, com quatro dias.

Texto: Ana Margarida Dâmaso
Fotografia: Ana Ribeiro