Uma tarde amena de sábado pintou a cidade do Lis de negro, pela primeira vez em muitas luas. Um pequeno mas reconfortante mar de caras conhecidas do underground metaleiro leiriense reuniu-se, com a mesma paixão de sempre pela música ao vivo e pelo convívio com os seus semelhantes em paixões musicais. O dia 29 de Maio de 2021 ficará na memória de quase todos os presentes como o tão desejado regresso aos concertos, num reencontro coroado por uma trilogia de prestações de bom nível, cujo retrato em prosa se segue.

 

Lord Of Confusion

O primeiro ato da tarde teve início dois minutos após a hora marcada, com um trio de músicas interpretado por um quarteto de jovens doomers. Ainda com público a entrar durante os instantes iniciais de Land Of Mystery, cedo se percebeu a sonoridade que iria pautar todo o concerto: um stoner doom clássico, pintado de ondas psicadélicas, a ritmo arrastado e invocando um ambiente desolador.

A voz de Carlota Sousa agigantou a sua pequena figura, soando grave, firme e poderosa, enquanto criava atmosferas com um som de órgão típico dos 70’s / 80’s no seu teclado. João Fonseca destacou-se não só no baixo, mas também com ocasionais grunhidos secos e cortantes, mais imponentes na segunda música, Crust Sabbath, cujo título espelha bem as influências de Black Sabbath que vieram à tona. O ritmo lento e constante era marcado pela bateria comandada por Nelson Figueiredo; já Danilo Sousa deu alguma cor às composições com a guitarra; embora não virtuoso, os seus riffs e solos ajudaram a quebrar a monotonia calculada inerente ao doom.

A última música foi um colosso de quase vinte minutos, Witchmantia, com uma longa introdução, um refrescante toque de blues e bons solos de teclado e guitarra, uma espécie de tudo-em-um que mostrou os melhores truques que a banda tem na cartola, salvo pequenas falhas técnicas. Após um final um pouco anti climático (a música termina no mesmo ritmo lento e minimalista com que começa), a banda foi aplaudida pela plateia, já composta, e agradeceu com um sentido “é bom estar de volta”. Passavam oito minutos das oito da noite.

Setlist: Land Of Mystery • Crust Sabbath • Witchmantia


 

Dallian

Uma dezena de minutos depois, subiam a palco os Dallian, banda já muito acarinhada pelo público leiriense e de longe a que mais interagiu com o mesmo. Ainda com o seu álbum de estreia Automata, de 2018, na bagagem, foram cinquenta minutos de death metal sinfónico e progressivo, variado e refrescante, ao qual as condições de som na sala fizeram pouca justiça (pelo menos onde estava, o som estava demasiado alto e com uma mistura pouco nítida, perdendo-se os sublimes pequenos detalhes das composições da banda).

A introdução Genesis Of Awakening abriu caminho para Satori, onde o delicado equilibrio entre brutalidade e melodia característicos da sua sonoridade ficou bem patente, bem como as suas influências orientais. Carlos Amado provou ser um frontman carismático e com uma presença forte, mais impressionante no registo gutural do que na voz limpa. Com A Lullaby For The Wicked, a viagem sinfónica intensificou-se, relevando um estilo com pontos em comum com Septicflesh, que continuou com The Nun From Azrael, o barómetro de freiras e fãs flamenco na sala.

Ricardo Carniça surpreendeu pela energia em palco, competente não só na guitarra e nas segundas vozes, como também a puxar pela interação do público, que correspondeu à altura, apesar da estranheza de assistir a um concerto de metal sentado. Em plena segunda metade do espetáculo, a sempre impressionante Caixa Pensatória, com o emotivo toque de fado. Logo de seguida, a contrastar com a doce melancolia, os vis grunhidos de suíno de The Swine Dialectic, com um borrachento convidado especial.

Incansáveis e com destreza técnica em toda a linha – da incansável bateria ao hipnotizante baixo, dos riffs contagiantes à voz de comando – a banda despediu-se com Vãsanã, mostrando estar em plena forma, apesar da pausa forçada de toda a indústria. Venha de lá esse segundo álbum!

Setlist: Genesis Of Awakening • Satori 悟り • The Lie Vision • A Lullaby For The Wicked • The Nun From Azrael • Caixa Pensatória • Echoes Of Arrival • The Swine Dialectic • Vãsanã वासना


 

Gaerea

A rematar a noite que ainda há pouco caíra lá fora, invocando o adensar do negrume com um black metal sufocante e impiedoso, os portuenses Gaerea transcenderam a essência da música ao dar um concerto que, mais do que uma sucessão imparável de riffs monstruosos, gritos dilacerantes e blast beats frenéticos, foi uma pura viagem de sufocante deleite. O quinteto assaltou o palco às 21h25m, sem pedir licença nem perdão, partindo de uma sinistra introdução falada para a majestosa To Ain, um dos temas mais marcantes do seu último registo discográfico, Limbo.

Mergulhado na avassaladora muralha sonora, o público mostrou-se vivo e progressivamente mais efusivo (que o diga o rapaz da fila da frente permanentemente de pé). Null continuou a apresentação do novo álbum, sendo que o disco de estreia também teve o seu espaço com a inconfundível Absent e a épica Whispers, tudo num quadro musical com suaves pinceladas de Rotting Christ, Behemoth, Moonspell e Mgła, mas resultante numa sonoridade própria, forte e coesa. A abissal corrente de caos sonoro não se exprimiu só através da música; toda a performance, sobretudo expressa, mas não restrita, no vocalista, roçou uma saudável e bem-vinda teatralidade, um pedaço do todo que é a experiência de ver Gaerea ao vivo.

E tão repentinamente como se abateu sobre a plateia leiriense, em fumo se consumiram os instantes finais do concerto, com os memoráveis treze minutos de Mare. Ou assim pensaram muitos dos presentes (inclusive o próprio staff do teatro), apanhados de surpresa com um intempestivo encore de seu nome Void Of Numbness, um último abraço do vazio que preenche a alma de qualquer amante de música extrema.

Setlist parcial: To Ain • Null • Absent • Whispers • Mare • Void Of Numbess


 

Por maior que seja o desconforto da omnipresente máscara sanitária; por menor que seja a vontade de estar sentado a ver um género que sempre nos habituou a mosh pits e calor humano; presumo falar por todos os presentes, do grande Fernando Ribeiro ao metaleiro mais anónimo: soube tão bem voltar a ver um concerto mais de um ano depois! Que o futuro ajude os Lord Of Confusion a acimentar os primeiros passos; que dê aos Dallian o reconhecimento merecido deste arranque de carreira promissor; que impulsione os Gaerea para merecidos voos internacionais ainda maiores; mas sobretudo, que nos traga mais concertos, que é não só, mas também para isso, que vivemos.

Texto: David Matos

Fotos: Marina Silva

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