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><channel><title>RUIDOSONORO &#187; PhiLiz</title> <atom:link href="http://ruidosonoro.com/author/philiz/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" /><link>http://ruidosonoro.com</link> <description>Notícias, Reviews, Festivais, Eventos e muito mais!</description> <lastBuildDate>Tue, 22 May 2012 15:59:16 +0000</lastBuildDate> <language>en</language> <sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod> <sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency> <generator>http://wordpress.org/?v=3.3.2</generator> <item><title>Inverno Eterno &#8211; Póstumo (2008)</title><link>http://ruidosonoro.com/2010/10/14/inverno-eterno-postumo-2008/</link> <comments>http://ruidosonoro.com/2010/10/14/inverno-eterno-postumo-2008/#comments</comments> <pubDate>Thu, 14 Oct 2010 14:09:28 +0000</pubDate> <dc:creator>PhiLiz</dc:creator> <category><![CDATA[Reviews]]></category> <category><![CDATA[Depressive Black Metal]]></category> <category><![CDATA[Inverno Eterno]]></category> <category><![CDATA[Póstumo]]></category><guid
isPermaLink="false">http://ruidosonoro.com/?p=3251</guid> <description><![CDATA['Póstumo' (...) é simultaneamente descrição de obra e inscrição de lápide, uma criação desconectada do momento presente "somente" experienciada, quer pela universalidade e atemporalidade dos sentimentos dilacerados, quer pela crueza das feridas expostas no trabalho. No fundo (e usando as palavras da banda), Póstumo não é "daqui"; é "do passado, da idade do fim".]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p
style="text-align: justify;"><strong>Artista:</strong> Inverno Eterno<br
/> <strong>Álbum:</strong> Póstumo<br
/> <strong>Ano:</strong> 2008<br
/> <strong>Género:</strong> Depressive Black Metal<br
/> <strong>País:</strong> Portugal<br
/> <strong>Editora:</strong> Bubonic Productions</p><p
style="text-align: justify;"><p
style="text-align: justify;"><p
style="text-align: justify;"><p
style="text-align: justify;"><p
style="text-align: justify;"><p
style="text-align: center;"><strong>Tracklist:</strong><br
/> 01 &#8211; Prólogo<br
/> 02 &#8211; À Sombra Do Passado&#8230;<br
/> 03 &#8211; &#8230;Eternamente<br
/> 04 &#8211; Enquanto A Morte Demora&#8230;<br
/> 05 &#8211; &#8230;O Sofrimento Constante<br
/> 06 &#8211; A Noite Que Perdura&#8230;<br
/> 07 &#8211; &#8230;Na Memória<br
/> 08 &#8211; Depois Que Tu Morreste&#8230;<br
/> 09 &#8211; &#8230;O Cansaço De Viver</p><p
style="text-align: justify;">Nota:  os membros da banda expressaram o desejo de não serem fotografados em  concertos ao vivo pelo que daí se depreende a vontade da banda se manter  incógnita a nível visual. Da mesma forma também se pode compreender que  semelhante desejo se alarga à identidade dos membros da banda. Para  respeitar esta vontade, e ao contrário do que normalmente é feito, não  serão divulgadas imagens, nem os nomes dos membros que constituem a  banda.</p><div
style="text-align: center;"><strong>Introdução</strong></div><div
style="text-align: center;"><em>«Cada um para seu fim,<br
/> Cada um para seu norte&#8230;<br
/> &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;</em></p><p><em>— Ai que saudade da morte&#8230;»</em><br
/> (<strong>Mário de Sá-Carneiro</strong>, <em>Vontade de Dormir</em> em <strong>Dispersão</strong>)</p></div><p
style="text-align: justify;">Este  pequeno excerto da autoria de uma das personalidades que mais  influencia os espaços (especialmente os literários) criados por <strong>Inverno Eterno</strong> torna-se num excelente meio de resumir, aforisticamente, as pulsões mais íntimas e profundas de <strong>Póstumo</strong>. A invocação exige-se e torna-se bastante pertinente devido às inúmeras ligações (directas e indirectas) a <strong>Mário de Sá-Carneiro</strong> que inundam todo o álbum, sendo que constituem parte fundamental da compreensão de <strong>Póstumo</strong>,  nomeadamente naquilo que este tem de maior e grandioso. As ligações  literárias estendem-se ao primeiro Modernismo português para lá de <strong>Sá-Carneiro</strong>, nomeadamente à sua figura mais notória, <strong>Fernando Pessoa</strong>. A par de <strong>Sá-Carneiro</strong>, o heterónimo <strong>Álvaro de Campos</strong> é influência clara no primeiro trabalho de <strong>Inverno Eterno</strong>.</p><p>A ideia de revisitar musicalmente <strong>Sá-Carneiro</strong> não é comum mas também não é inédita. Por oposição, a obra de <strong>Pessoa</strong> já muitas vezes foi usada para semelhantes fins. O que acontece no álbum de estreia de <strong>Inverno Eterno</strong> é, no entanto, bastante diferente do que havia sido feito na área até este momento. Aliás, não será exagero dizer, que <strong>Póstumo</strong> possui uma abordagem que se distancia de todas as interpretações  musicais de momentos literários destes dois autores, criando algo que  pela radical diferença expressiva é novo e acima de tudo único.  Compreender o que <strong>Póstumo</strong> tem de mais grandioso remete para a novidade de &#8220;usar&#8221; o <strong>Black Metal</strong> como &#8220;veículo&#8221; transmissor de alguns dos universos criados no trabalho  de grandes autores da língua portuguesa (às duas ilustres figuras já  mencionadas há que juntar <strong>Vergílio Ferreira</strong>). Não pelo pioneirismo de o fazer, mas sobretudo porque <strong>Póstumo</strong> é uma impressionante demonstração da ligação possível e lógica entre a negatividade inerente do <strong>Black Metal</strong> e autores cuja obra explorou sítios e sensações nada distantes. O ponto  fundamental desta ligação tem o enunciado como base mas só se  materializa devido às características específicas das referências  literárias em questão, bem como da abordagem de <strong>Inverno Eterno</strong> ao género musical onde se move.</p><p>É na capacidade de tornar embrionária a ligação entre o mundo literário e o <strong>Black Metal</strong> que reside precisamente um dos grandes pontos de interesse em <strong>Póstumo</strong> e sobretudo o predicado que mais contribui para a identidade da banda.  Não se está somente perante um trabalho que procura associar duas formas  de expressão (a literária e a musical) por simples justaposição. Embora  este &#8220;processo&#8221; de mera junção tenha resultado (por vezes  brilhantemente) no passado, no álbum em questão a relação entre os dois  mundos é muito mais estreita e modifica profundamente a forma como cada  um deles se revela. Neste sentido pode-se dizer, em jeito de resumo, que  o <strong>Black Metal</strong> aqui presente aparenta uma construção em torno da  expressão escrita sendo, portanto, moldado pela mesma; ao mesmo tempo  que a vertente lírica &#8220;clama&#8221; por ser integrada num contexto tão pessoal  como o <strong>BM</strong> é na sua génese (nomeadamente na sua formulação aqui  presente), o que resulta numa ligação onde a palavra é tão privilegiada  como as habituais dimensões vocais do <strong>BM</strong> (mesmo alargando ao máximo tudo o que o mesmo pode representar).</p><p>O  que emana desta correlação profunda é uma obra que se destaca pela  capacidade de transmitir estados de espírito ligados à tristeza e  melancolia de múltiplas formas e todas elas complementares entre si.  Embora seja de somenos importância para a análise a absorção de <strong>Póstumo</strong>, é preciso dizer que estes estados de espírito que percorrem o álbum são o que podem integrar a banda dentro do espectro do <strong>Depressive Black Metal</strong>.  Esta &#8220;integração&#8221; tem necessariamente que se fazer por analogia de  sentimentos e ambientes resultantes dado que a nível das estruturas das  músicas e mesmo na execução de cada um dos elementos, a banda mostra-se  algo distante das características habituais deste subgénero do <strong>BM</strong>.  Só a título de exemplo destas diferenças pode-se verificar que as  músicas não atingem uma área contemplativa e serenamente melancólica  através da repetição exaustiva de alguns riffs, o que encurta  significativamente a duração das músicas; da mesma forma que  instrumentalmente o trabalho é bastante menos minimalista do que na  esmagadora maioria das propostas de <strong>Depressive Black Metal</strong> (independentemente desta abordagem resultar muito bem nalguns casos e  falhar noutros), havendo bastante variedade em todos os instrumentos o  que também origina um trabalho mais multi-facetado e onde sentimentos  &#8220;depressivos&#8221; são abordados de diversas formas.</p><p>Acaba por ser, portanto, um enquadramento relativo no subgénero que não deixa de ser um sinal paradigmático da forma como <strong>IE</strong> consegue ser um projecto inventivo e fresco mesmo que &#8220;tocando&#8221; em ambientes de <strong>Black Metal</strong> que se tornaram recorrentes nos últimos anos. Adjectivos como depressivo, melancólico, doloroso ou lutuoso descrevem <strong>Póstumo</strong> mas sozinhos são claramente insuficientes para perceber todo um trabalho que tem na sensibilidade poética a sua maior força.</p><div
style="text-align: center;"><strong>Review</strong></div><p
style="text-align: justify;">São várias as dimensões visitadas por <strong>Inverno Eterno</strong> no seu primeiro lançamento. Porventura todas conectadas (latamente)  pela negatividade mas ainda assim bem distintas. A uni-las  definitivamente está o seu carácter póstumo; algo que, por um lado, as  trespassa e, por outro, as define e permite que sejam expostas da forma  como são. É o findar continuado que atravessa o álbum que lhe confere o  lúgubre saudosismo, que &#8220;aviva funebremente&#8221; as emoções de <strong>Póstumo</strong>.  Assim, e não apenas pelo enquadramento estético da palavra (que no caso  é bastante, diga-se), o trabalho parece (em retrospectiva) não poder  ser definido de outra forma, se só uma palavra pudesse ser usada. É  simultaneamente descrição de obra e inscrição de lápide, uma criação  desconectada do momento presente &#8220;somente&#8221; experienciada, quer pela  universalidade e atemporalidade dos sentimentos dilacerados, quer pela  crueza das feridas expostas no trabalho. No fundo (e usando as palavras  da banda), <strong>Póstumo</strong> não é &#8220;daqui&#8221;; é &#8220;do passado, da idade do fim&#8221;.</p><p>Compreendendo  este estado de espírito que paira sobre o álbum, não é difícil perceber  que a expressão deste outro mundo (cuja dor será o resquício maior) se  conecta com o código genético do que é o <strong>Black Metal</strong> na(s) sua(s) vertente(s) mais intimista(s). Retrospectivamente parecerá quase uma inevitabilidade, este passo que foi dado por <strong>Inverno Eterno</strong> rumo a um tipo de <strong>BM</strong> que canaliza os mesmos sentimentos melancólicos e dolorosos, como é o caso do <strong>Depressive Black Metal</strong>.  Contudo, a banda foge não raras vezes a vários paradigmas do subgénero  em questão, o que gera as dificuldades de enquadramento já mencionadas  mas as afinidades naturais entre os quadros emocionais pintados pela  banda e os que o subgénero referido produz, são inegáveis. Abrangência e  êxito finais (comparativamente, claro) são considerações, por agora, de  parte.</p><p>O que é de mais difícil compreensão é precisamente o que  está para lá desta &#8220;naturalidade&#8221;. É, igualmente, um dos grandes pontos  de interesse do álbum, seja a nível estético ou analítico (nomeadamente,  neste último campo, no que concerne à &#8220;procura&#8221; de traços inovadores no  trabalho). De forma mais concreta, a questão consubstancia-se na  capacidade de tornar tão intensa e real a relação com a &#8220;Portugalidade&#8221;.  É, claro, nas letras que esta ligação é mais notória (embora o  instrumental também surja frequentemente como &#8220;devedor&#8221; desta conexão)  mas há que dizer que as mesmas vão para além de estarem escritas em  português. Acima de tudo, encarnam algumas das características mais  fatalistas da essência portuguesa. Devido à forte incidência literária  do trabalho de <strong>Inverno Eterno</strong> e à influência que autores já  referidos têm na lírica do álbum, poder-se-ia assumir que os ambientes  tão portugueses do mesmo se deveriam a um revisitar da &#8220;Portugalidade&#8221;  como definida pelos mesmos. Esta percepção seria, no mínimo, redutora. A  verdade é que <strong>Póstumo</strong> partilha com <strong>Pessoa</strong> e <strong>Camões</strong> (usados aqui a título de exemplo não exclusivo) a capacidade de definir  o fado saudosista e tantas vezes trágico que marca o carácter do que é  Português, nomeadamente na sua língua. É uma partilha e não uma réplica  pois o trabalho apresenta-se como um lado mais negro e gritante dessa  &#8220;Portugalidade&#8221;. Não é, portanto, uma abordagem que privilegie a  expressão ligeira da saudade (que mais não é que a vulgarização pálida  desse sentimento) mas algo que está mais próximo do verdadeiro valor  expressivo desta &#8220;essência&#8221; e que é (sobretudo neste trabalho) funesto e  &#8220;carregado&#8221; de desesperança.</p><p>A obra em questão vive, no entanto,  bastante para além da valência puramente conceptual do trabalho. Isto  é, também na abordagem &#8220;sonora&#8221; (em sentido mais estrito) é distinto e  elevado. Mais do que isso, é-o a vários níveis. As opções de produção  ajudam imenso a expor a diversidade aqui presente, sendo que a variedade  (seja dos diversos elementos musicais, seja dos mundos emocionais que  visita) é precisamente um dos pontos que mais surpreende e valoriza a  experiência de <strong>Póstumo</strong>. A banda optou por uma produção que se  pode, de alguma forma, designar de limpa e clara. Simultaneamente há uma  sensação de &#8220;espaço&#8221; entre os diversos instrumentos e a voz, o que  permite distinguir detalhes que, com uma produção mais sobreposta, não  se destacariam tanto, nomeadamente os belíssimos momentos limpos da  guitarra. Apesar disto, consegue existir um balanceamento hábil com uma  certa crueza no som que dá azo a um ambiente especialmente carregado nas  alturas em que os riffs mais intensos se juntam com os lamentos  desesperados da voz. A atmosfera mantém-se assim limpa mas densa ao  mesmo tempo. Não se valendo apenas da distorção e do &#8220;nevoeiro sonoro&#8221;, o  álbum escapa à unidimensionalidade e apresenta ambientes mais diversos  que exploram diversas &#8220;facetas&#8221; dos sentimentos negros e soturnos que  cobrem o trabalho.</p><p>Contudo, é evidente que as potencialidades  deixadas em aberto pelo tipo de produção nunca seriam cumpridas caso a  banda não conseguisse estar à altura de &#8220;preencher&#8221; um som que  privilegia tendencialmente o pormenor. Não só isto é conseguido em pleno  como também surpreende a forma como elementos tendencialmente menos  proeminentes num tipo de <strong>Black Metal</strong> mais introspectivo, aqui se  destacam e contribuem em muito para todo o ambiente do álbum. Sem  prejuízo de iguais qualidades poderem ser aplicadas aos outros  intervenientes, a bateria destaca-se precisamente pelo detalhe,  variedade e sobretudo no enriquecimento do som de <strong>Póstumo</strong>.<br
/> O  trabalho da bateria do álbum partilha com muitos outras obras do género a  simplicidade de execução, mas as semelhanças cessam quando se entra no  capítulo da diversidade composicional. Em vez de enveredar por terrenos  mais minimalistas e/ou de reduzida ênfase geral nas músicas (assumindo  pouco mais que uma função de manutenção de ritmo), a bateria de <strong>Inverno Eterno</strong> mostra-se bastante dinâmica e multifacetada, o que permite pontuar com  singularidade diversas passagens do álbum. Muito do que destaca na  bateria advém da incorporação de padrões algo &#8220;estranhos&#8221; ao <strong>BM</strong> (no que concerne a este elemento específico, entenda-se), muitos deles nada distantes do universo <strong>Post-Punk</strong> (o som algo &#8220;seco&#8221; da tarola é um bom exemplo disto mesmo). Esta  abordagem pouco ortodoxa da bateria torna-se especialmente interessante  nos momentos mais lentos em que a bateria se revela mais criativa com  padrões bem diferentes do que é habitual ouvir, mesmo em sonoridades  dentro do <strong>Black Metal</strong> com tempos mais lentos. O &#8220;esoterismo&#8221; de <em>&#8230;O Cansaço De Viver</em> aparece como momento de destaque neste aspecto. A bateria consegue  igualmente soar inventiva e peculiar em momentos ligeiramente mais  acelerados, incutindo uma tensão dramática que contribui decisivamente  para o ambiente do álbum (algo que não acontece com grande frequência em  sonoridades do género). A contribuição específica deste factor pode ser  verificada nas sublimes passagens de <em>À Sombra Do Passado&#8230;</em> onde os devaneios da bateria suportam de forma perfeita o crescendo de intensidade dos riffs nas secções finais do tema.</p><p>A propósito das influências exteriores ao <strong>BM</strong> no som de <strong>IE</strong>, estas não se esgotam na bateria. Também o baixo apresenta traços característicos dos mesmos ambientes <strong>Post-Punk</strong>, trazendo à memória o nome de <strong>Joy Division</strong> ou mesmo certos momentos mais hipnóticos e obscuros de <strong>Bauhaus</strong>.  O resultado é bastante apelativo pela forma como não raras vezes as  linhas de baixo seguem em direcções bastante diferentes dos riffs da  guitarra, conferindo à música diversos pontos de condução. Continuando a  linha de destaque, o baixo também assume a espaços um papel condutor  geralmente reservado à guitarra (sobretudo quando esta produz alguns  momentos limpos) algo que também se pode verificar nalgumas das bandas  &#8220;pertencentes&#8221; às influências estilísticas mencionadas. A prova mais  cabal desta &#8220;função&#8221; do baixo será certamente parte inicial da já  referenciada última faixa, onde o baixo conduz grande parte da música.<br
/> O  trabalho de baixo torna-se especialmente memorável pela forma como, um  pouco à semelhança de todos os elementos aqui constantes, a simplicidade  de processos dá origem a uma enorme heterogeneidade composicional. Este  desempenho permite uma assunção de papéis bastante mais alargados do  que seria de esperar mas permite igualmente fazer-se notar através de  uma série de pormenores que, além de valerem pela sua própria elegância,  complementam na perfeição as paisagens negras pintas pela voz e pelos  riffs. Muitos deste &#8220;movimentos&#8221; do baixo são subtis e até se poderá  dizer que ocorrem em pano de fundo mas torna-se especialmente  enriquecedor para a absorção da obra verificar a forma como o baixo abre  caminho para novas &#8220;zonas&#8221; emocionais (inevitavelmente dolorosas)  quando o foco principal até são outros elementos, como acontece em <em>A Noite Que Perdura&#8230;</em> e <em>&#8230; Na Memória</em>.</p><p>A  alusão a &#8220;foco principal&#8221; terá obrigatoriamente que passar pela  guitarra. A par da voz, o trabalho de guitarra é o corpo emotivo de <strong>Póstumo</strong>;  complementado e acrescentado com mestria pela secção rítmica. Nos riffs  pungentes da guitarra reside a expurgação (neste caso instrumental) de  todo um conjunto de sentimentos ligados à desolação e tristeza. Como não  poderia deixar de ser, e à semelhança de tudo o resto, a guitarra  oferece uma combinação de vários elementos para construir este mundo de  sofrimento. Isto acontece tanto ao nível das técnicas utilizadas, como  dos ambientes criados.<br
/> É de notar, ao nível da execução, que a  guitarra varia bastante sendo que se podem encontrar partes limpas,  diversos dedilhados (a maioria também sem distorção), riffs com  variadíssimas influências e mudanças de ambiente. Além da forma como  tudo isto se vai, de alguma forma, intervalando (criando já de si um  acentuado dinamismo) há que perceber que os próprios riffs distorcidos  não se limitam a uma só esfera de sentimentos &#8220;depressivos&#8221;. O ambiente é  construído através de um trabalho que explora riffs mais lentos  embebidos numa distorção que gera sensações de cortante (e constante)  agonia, mas que consegue igualmente ter uma certa dose de  &#8220;agressividade&#8221; (sem nunca perder a taciturnidade característica,  claro). Assim, o efeito é contemplativo mas também opressor (neste  último aspecto a voz também tem papel decisivo), havendo um conjunto de  estados de espírito que exploram &#8220;facetas da dor&#8221; bem distintas.<br
/> É  precisamente o entrecortar entre os riffs distorcidos e as passagens  limpas que cria alguns dos grandes momentos do álbum. Além da enorme  qualidade dos riffs do álbum, estes momentos limpos (muitos deles em  forma de belíssimos dedilhados) merecem igualmente grande destaque.  Algumas das passagens mais memoráveis pela sua profundidade emocional  coincidem precisamente com secções onde estes dedilhados surgem em jeito  introdutório e &#8220;estabelecem&#8221;, desde logo, um ambiente etéreo (ainda que  dominado pela mágoa) de enorme intensidade. <em>Depois Que Tu Morreste&#8230;</em>,  a grande opus do álbum (sem prejuízo de tudo o resto), não poderia ser  exemplo mais paradigmático. Nesta música em particular podem-se  encontrar passagens que, de certo modo, fazem lembrar o trabalho  intermédio de <strong>Burzum</strong> (nas partes limpas) e dos dois primeiros longa-duração de <strong>Forgotten Woods</strong> (no tipo de riffs e tom da distorção), mas onde se nota simultaneamente uma identidade emotiva muito própria.</p><p>Esta identidade é precisamente aquilo que sobressai e se destaca em <strong>Póstumo</strong> quando olhado o trabalho de forma global. Tal visão advém precisamente  de uma intimidade negativista que só é possível graças à forma bastante  como todos os pesares surgem tão perto e tão intensamente. Uma &#8220;não  representação&#8221; artística que é substituída pela evocação profunda de  pesadelos que urgem de expurgação. É isto que mais particulariza <strong>Inverno Eterno</strong>;  e é isto que mais se pode sentir nos vocais transcendentes que espalham  por todo o álbum &#8220;angústias infindas&#8221; (expressão encontrada nas letras  de <em>A Noite Que Perdura&#8230;.</em>).<br
/> Este sufoco permanente que está  no âmago de tudo o que é o álbum, surge das mais variadas e dolorosas  maneiras, atingindo assim um conjunto inumerável de sensações negras e  fúnebres. O &#8220;trabalho&#8221; vocal (que no fundo não o é, dado ser  apriorístico a qualquer racionalização) é assim uma analogia perfeita da  cruel diversidade de uma mágoa profunda que através de múltiplos  tormentos conduz à consumpção do ser. Gritos de dilacerante desespero,  lamentos chorados, bramidos distantes, vulneráveis segmentos falados ou  rugidos num registo mais grave, tudo isto são vocalizações que se podem  encontrar aqui. Tudo faces de um definhamento claudicante que chega  paulatina mas firmemente. Algumas das paisagens mais desesperadas  criadas por <strong>IE</strong> ocorrem quando estes registos se intercalam, dando origem a autênticos jazigos de alma como é o caso de <em>A Noite Que Perdura&#8230;</em> e <em>&#8230;O Cansaço De Viver</em>.<br
/> É  de notar que, só por si, a dinâmica da voz é bastante expressiva e  transmite uma enorme sinceridade. Esta última impressão emana da  naturalidade como a voz se &#8220;adapta&#8221; a diversos retratos de dor, não se  mantendo num único registo sofrido que poderia esgotar-se em momentos  que &#8220;clamam&#8221; por um tipo de vocalizações menos monótonas. No entanto, e  dada a relação que <strong>Póstumo</strong> tem com a palavra, esta expressividade  é reforçada. É-o visto que os muitos registos vocais estão em perfeita  &#8220;consonância&#8221; com a vertente lírica apresentada no trabalho; lírica esta  que prima pela deambulação e que tem na &#8220;voz&#8221; o perfeito complemento  para este vagueio. Como já havia sido sugerido, a dimensão diacrónica  quanto à origem do elemento lírico e do elemento vocal esbate-se, tão  estreia que é a relação entre ambos (e de ambos para com o instrumental,  ressalve-se). Para mais, o facto de serem usados alguns trechos de  obras literárias (cujos autores já foram mencionados), torna a  vinculação entre voz e letras ainda mais interessante do ponto de vista  de uma certa revisitação do cânone literário, nomeadamente quando essas  passagens parecem tão incrivelmente identificadas com o tipo de  desempenho vocal presente. Identificação que parece tão inata mas que  nunca havia sido tentada no <strong>BM</strong> português (a limitação surge  naturalmente devido à língua usada); ao mesmo tempo que,  comparativamente, nunca surge de forma tão instintiva (como aqui)  noutros campos musicais.</p><p>O que se percebe então é que o valor  puramente musical (aqui em estrito sentido sonoro) é esmagador; mas que o  valor estético da obra obriga à interiorização da riquíssima vertente  escrita do álbum sob pena de grande parte da compreensão do mesmo ser  perdida. Isto seria certamente catastrófico devido à magistralidade  lancinante da mesma.<br
/> Estas qualidades são demonstradas logo à partida  pela forma superior como as influências literárias são &#8220;integradas&#8221; sem  nunca se cair na cópia pura. Mesmo nas letras onde são usados excertos  de <strong>Fernando Pessoa/Álvaro de Campos</strong>, <strong>Mário de Sá-Carneiro</strong> e <strong>Vergílio Ferreira</strong>, a identidade lírica de <strong>Inverno Eterno</strong> está bem patente. Até porque estas influências são, de alguma forma,  transformadas em algo (ainda) mais desesperante pela &#8220;pena&#8221; de <strong>IE</strong>. Assim, além do &#8220;exercício&#8221; de excruciante revisitação e, de certa forma, homenagem aos autores referidos, há uma escrita em <strong>Póstumo</strong> que se basta. Certamente que existem temas e imaginários que percorrem a  obra destes vultos da língua Portuguesa que são aqui abordadas. No  entanto, estas afinidades conceptuais não são um banal plágio temático  mas sim o resultado de uma certa visão emocional da existência que é  partilhada com esses mesmos escritores, ainda que num tom de extremada  angústia.<br
/> É particularmente interessante verificar este duplo rumo na escrita de <strong>IE</strong> nas letras que contém trechos de autores que muito influenciam a banda,  visto que nesses momentos a &#8220;ligação revisitada&#8221; aos mesmos torna-se  mais forte, destacando-se, a excelência das passagens escolhidas e da  escrita original do colectivo. São nestes momentos em que se tornam  especialmente evidentes as conexões à escrita inicial de <strong>Mário de Sá-Carneiro</strong> e aos momentos mais decadentes e pessimistas de <strong>Álvaro de Campos</strong>; uma espécie de &#8220;alma mater&#8221; negativista que forma tanto os mestres em questão, como a entidade <strong>Inverno Eterno</strong>.</p><p>Veja-se, exemplificativamente, o simbolismo decadentista de <strong>Sá-Carneiro</strong> &#8220;recuperado&#8221; nos cortantes versos de <em>Enquanto A Morte Demora&#8230;</em>, faixa que tem precisamente no seu início um excerto do poema <em>Partida</em> de <strong>Dispersão</strong>. O encadeamento entre a primeira estrofe (da autoria de <strong>Sá-Carneiro</strong>) e a segunda (da autoria de <strong>IE</strong>) mostra tanto a perfeita integração do imaginário do autor na música de <strong>IE</strong>, como a &#8220;abordagem&#8221; da banda à mesma corrente literária:</p><p><em>«&#8221;A minha alma nostálgica de além,<br
/> Cheia de orgulho, ensombra-se entretanto,<br
/> Aos meus olhos ungidos sobre um pranto<br
/> Que tenho a força de sumir também.&#8221;</em></p><p><em>No céu carregado de luto,<br
/> A sombra do meu ser finda.<br
/> Em avenidas abandonadas e em ruínas<br
/> Soltam-se ecos do passado,<br
/> Gritos distantes e distorcidos.»</em></p><p>O mesmo sentido de familiaridade temática é encontrado n&#8217;<em>&#8230;O Cansaço De Viver</em> &#8211; faixa que encerra contundentemente o trabalho. Familiaridade com <strong>Sá-Carneiro</strong>, mas simultaneamente com a fase inicial e final da obra de <strong>Álvaro de Campos</strong>. No caso, é usada uma passagem do assombroso <em>Opiário</em> (primeira estrofe da citação), seguindo-se as palavras da banda  (segunda e terceira estrofes). A saturação decadentista e a temática do  cansaço (esta última brilhantemente abordada no poema <em>O Que Há</em>) revisitam <strong>Pessoa</strong> ao passo que o labiríntico desespero na dúvida do sentir (ou não sentir) evoca <em>Dispersão</em> (da obra com o mesmo nome) de <strong>Sá-Carneiro</strong>:</p><p><em>«&#8221;Porque isto acaba mal e há-de haver<br
/> Sangue e um revólver lá pró fim<br
/> Deste desassossego que há em mim<br
/> E, não há forma de se resolver.&#8221;</em></p><p><em>Sinto a alma doente,<br
/> por uma vida a que não pertenço.<br
/> Todo eu sou um cansaço,<br
/> De gestos inúteis e palavras vãs.</em></p><p><em>Vendo hoje o que vivi,<br
/> Surge-me a dúvida de o ter vivido;<br
/> Reconheço as sensações<br
/> Como um alguém intermédio.»</em></p><p>Como já amplamente ressalvado que as influências literárias surgem como complemento a uma essência própria de <strong>Inverno Eterno</strong>.  Nos exemplos anteriores deslindam-se momentos de estreita relação de  espaços emocionais, de forte conexão temática e de criação mais  &#8220;autónoma&#8221;. Nunca é demais referir que esta última instância tem  identidade e sobretudo vitalidade (ainda que esta &#8220;vitalidade&#8221; seja  consubstanciada por um mundo mortuário) próprias, independentes dos  mestres que tanto partilham com o colectivo.<br
/> É inegável que existe em <strong>Póstumo</strong> uma &#8220;literatura&#8221; que vale por si só: qualitativamente mas também  estilisticamente. Sobre este último aspecto o carácter profundamente  intimista do trabalho pinta quadros de violenta melancolia que  consubstanciam uma expressão bastante própria a nível de escrita. A dor é  simultaneamente frágil e violenta; contemplativamente pessimista e  tomada por espasmos de desespero. Todas estas dimensões depressivas que  atravessam a obra estabelecem o domínio próprio da escrita da banda.<br
/> Aliás,  a mesma inicia-se praticamente com uma das demonstrações mais intensas  desta espécie de relação dicotómica que a dor assume no álbum, logo na  segunda faixa (a que se segue ao <em>Prólogo</em>). Nesta faixa em  particular aborda-se a desaparição emocional do momento presente pela  associação com a imagem do passado. Este passado não é, no entanto,  espaço de apaziguo. É sim, lugar de desolação e penumbra. Muitas destes  estados de alma vão sendo reproduzidos ao logo do álbum mas surgem em  algumas das estrofes de <em>À Sombra Do Passado&#8230;</em> na sua forma mais angustiante e paradigmática:</p><p><em>«De ímpeto estalou tudo,<br
/> A realidade ociosa e febril<br
/> Enfermou-me a alma.</em></p><p><em>(&#8230;)</em></p><p><em>Cada cicatriz uma lembrança,<br
/> Cada gume um sentimento.<br
/> Eu não me sinto daqui -<br
/> Sou do passado, da idade do fim&#8230;»</em></p><p>Apesar  do incontornável destaque que urge ser dado a determinados momentos  (por servirem de paradigmas qualitativos e estilísticos do que por pelo  álbum apresentar clivagens qualitativas), o que predomina no trabalho é  um claro e inequívoco &#8220;sentimento&#8221; de unidade. Um &#8220;sentimento&#8221; tanto  mais importante pela forma como se valoriza a obra através de uma  conexão profunda entre as diversas faixas. Esta unidade (particularmente  meritória na sua construção) é de análise intrincada porque as várias  dimensões de lugubridade nunca deixam de ser memoráveis por si só, mesmo  numa lógica conceptual comum. Simbolicamente esta ligação entre os  movimentos do álbum torna-se mais clara nas próprias designações das  faixas. Exceptuando o momento introdutório, as restantes oito músicas  estão ligadas (duas a duas) pelos seus títulos, sugerindo inícios e fins  para além da divisão imediata.<br
/> Além desta formulação particular,  existe uma complementaridade profunda entre faixas que são,  estruturalmente, bem distintas. Assim, podem-se encontrar momentos mais  curtos e de alguma forma &#8220;directos&#8221; que estão em profunda consonância  com faixas mais longas e flutuantes a nível dos ambientes nelas  contidas. Isto sucede até pela forma como a estrutura e conteúdo não são  facilmente dedutíveis apenas pelo tempo de duração de cada música, o  que se traduz, na prática, em abordagens estruturais diferentes a tempos  mais rápidos ou mais lentos que não passam necessariamente pelos  critérios de imediatismo nas músicas curtas ou, pelo contrário, de maior  durabilidade conceptual das faixas mais longas. Este aparente (e apenas  isso quando contemplado o resultado final) paradoxo de &#8220;heterogeneidade  unificada&#8221; mantém níveis de intensidade bastante semelhantes,  independentemente do &#8220;formato&#8221; global da faixa.</p><p>Não será,  portanto, difícil de depreender que se torna particularmente complicado  destacar algo perante este cenário. Tornar-se-ia até desnecessário  fazê-lo não fosse pela presença de algo que se consegue elevar acima da  excelência geral de <strong>Póstumo</strong>, &#8220;forçando&#8221; a excepção. Algo que, de  forma única encerra e contém em si, não só o que a obra tem de mais  grandioso; mas também frisa, de forma única, toda a emocionalidade  penosa da mesma. Simultaneamente este é o momento em que o álbum soa  mais original num sentido mais &#8220;formal&#8221; do termo. No entanto, é aqui  destacado, acima de tudo e antes de mais nada, pelo intimismo de um  desespero (quase) tangível que se apresenta tão negro quanto belo.  &#8220;Sonoramente&#8221;, a música em questão é marcada pelos acordes de uma  tristeza serena mas profunda; pela voz na fronteira do asfixio provocado  pela dor da perda permanente; e pela da fragilidade tocante daquele  assobio saudoso. Quanto ao resto, ao impacto emocional de tamanho  monumento, tudo parece eufemístico para descrever o &#8220;alcance&#8221; de <em>E Depois Que Tu Morreste&#8230;</em>:</p><p><em>«Ilusões amaldiçoadas que me exaurem,<br
/> Numa existência enleada de sombras,<br
/> De cicios perturbadores&#8230;</em></p><p><em>E depois que tu morreste,<br
/> Dura em mim<br
/> uma saudade sem idade,<br
/> Uma dor que não tem fim&#8230;»</em></p><p>Confessava <strong>Vergílio Ferreira</strong> na sua obra <strong>Para Sempre</strong>,  precisamente nas &#8220;proximidades&#8221; do trecho usado numa das faixas aqui  presente, estar &#8220;triste até à morte&#8221;. Se a inicial menção a <strong>Sá-Carneiro</strong> possuía o dom de resumir o &#8220;âmago&#8221; do que é a obra inicial de <strong>Inverno Eterno</strong>; a expressão de <strong>Vergílio Ferreira</strong> resume, com igual virtuosismo, o que &#8220;resta&#8221; depois de <strong>Póstumo</strong>&#8230;</p><div
style="text-align: center;"><strong>Conclusão</strong></div><p
style="text-align: justify;">A  experiência tida de uma obra com as características da presente poderá  ser dicotómica: por um lado o sentimento de elevação resultante da  interiorização da grandiosidade artística da obra; por outro as  consequências profundamente devastadoras da interiorização dos espaços  emocionais visitados pela mesma. A conciliação deste aparente  antagonismo surge na definição da própria criação artística. Quando a  arte &#8220;mais não é&#8221; que a reprodução para fins de inteligibilidade e  catarse do fenómeno trágico, os dois enunciados acima entram em &#8220;rota&#8221;  de complementaridade profunda. Partindo desta &#8220;junção&#8221; o universo  particular (universo doloroso) é metáfora que através da criação  artística retrata a própria universalidade do sofrimento.</p><p>Ainda  que tal hipótese seja rejeitada, a realização estética do trabalho  continua a ser de imensurável valia. Da mesma forma, também a sua  abordagem ao <strong>Black Metal</strong> faz pensar, ainda que apenas por instantes, que poderá haver algo mais do que enquadramento geográfico por detrás da expressão <strong>Black Metal</strong> &#8220;Português&#8221;. Não pela plausibilidade efectiva de tal designação poder  representar algo estilisticamente, mas pela forma como encerram em si  tantos &#8220;fados&#8221; só na &#8220;ocidental praia lusitana&#8221; encontrados.<br
/> A  capacidade de reproduzir, paradigmaticamente, estados de alma de uma  &#8220;Portugalidade&#8221; é partilhada por uma outra obra literária para além das  já mencionadas (e outras que ficaram por mencionar, claro): <strong>Só</strong> de <strong>António Nobre</strong>.  Há que ressalvar as diferenças nos elementos usados e que remetem para  uma melancolia bucólica. No entanto, é obra que também parte de um olhar  profundamente fatalista, de uma eterna doença de alma. Sobretudo, a  analogia faz-se através da descrição que o próprio <strong>Nobre</strong> (não por acaso tão admirado por mestres que influenciam directamente <strong>Inverno Eterno</strong>) faz da sua emblemática obra: &#8220;é o livro mais triste que há em Portugal!&#8221;. É isto que também significa <strong>Póstumo</strong> no seu &#8220;campo&#8221;: o álbum mais doloroso e genuinamente triste feito em Portugal.</p><div
style="text-align: center;"><strong>PhiLiz</strong><br
/> <strong>Escrito originalmente em 2010.10.14</strong><br
/> <a
href="http://philiz.wordpress.com/2010/10/14/inverno-eterno-postumo-2008" target="_blank">http://philiz.wordpress.com/2010/10/14/inverno-eterno-postumo-2008</a></div> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://ruidosonoro.com/2010/10/14/inverno-eterno-postumo-2008/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>0</slash:comments> </item> <item><title>Bizarra Locomotiva &#8211; Álbum Negro (2009)</title><link>http://ruidosonoro.com/2010/07/09/bizarra-locomotiva-album-negro/</link> <comments>http://ruidosonoro.com/2010/07/09/bizarra-locomotiva-album-negro/#comments</comments> <pubDate>Fri, 09 Jul 2010 10:59:35 +0000</pubDate> <dc:creator>PhiLiz</dc:creator> <category><![CDATA[Reviews]]></category> <category><![CDATA[Álbum Negro]]></category> <category><![CDATA[Bizarra Locomotiva]]></category><guid
isPermaLink="false">http://ruidosonoro.com/?p=2063</guid> <description><![CDATA[Os contornos da viagem de Bizarra Locomotiva sempre foram definidos por uma enorme afirmação do lado oculto e improvável das coisas mundanas. Mesmo quando se tratam temas mais ou menos comuns (...)]]></description> <content:encoded><![CDATA[<div
style="text-align: center;"><strong>Introdução</strong></div><div
style="text-align: justify;">Os contornos da viagem de <strong>Bizarra Locomotiva</strong> sempre foram  definidos por uma enorme afirmação do lado oculto e improvável das  coisas mundanas. Mesmo quando se tratam temas mais ou menos comuns (e  tal não acontece com tão pouca frequência como se poderia pensar à  partida), a abordagem é sempre bastante pouco usual, revestindo-se de  uma sensibilidade característica ou simplesmente despindo-se por  completo da mesma, numa retractação quase maquinal de realidades comuns.  Esta característica transversal a toda a discografia da banda tem a sua  componente mais visível no que se pode chamar poesia do &#8220;nojo&#8221; de <strong>Rui  Sidónio</strong>, mas também na forma como as diversas influências musicais  da banda são mescladas de forma peculiar e acima de tudo, original.A viragem da página que se deu em <strong>Ódio</strong> conferiu a <strong>Bizarra  Locomotiva</strong> uma estabilidade que está logo espelhada nesse álbum e  que em muito justifica a capacidade de a banda ter tido tempo para  maturar o trabalho de 2004 e também conseguir a consistência necessária  para lançar um álbum ainda mais adulto, como é o caso de <strong>Álbum Negro</strong>.  As inesquecíveis aparições ao vivo foram relativamente frequentes e  tendo havido uma continuidade de membros da banda nos anos que separam  os dois álbuns, não é de espantar que uma das principais qualidades  globais que se retiram quase instantaneamente do <strong>Álbum Negro</strong>,  seja precisamente a consistência e a coesão entre todas as partes da  &#8220;locomotiva&#8221;.</p><p>Em termos &#8220;comparativos&#8221; com o que foi feito no passado há uma clara  sensação que os princípios mais recorrentes (e simultaneamente mais  positivos) da abordagem artística de <strong>Bizarra Locomotiva</strong> encontram-se presentes de forma mais forte que nunca neste trabalho.  Tanto até, que a banda estica os extremos por si antes definidos e, não  menos importante, consegue fazê-lo em múltiplas direcções. <strong>Álbum  Negro</strong> pega em todo um conjunto de características que definem o  núcleo do som único da banda em todos os seus trabalhos anteriores e  &#8220;depois&#8221; consegue transportar a sua experiência sonora para um outro  nível, virtude do aprofundar violento dos predicados que já antes lhe  pertenciam. Revisitam-se espaços e ao mesmo tempo reinventando-se o  &#8220;visitante&#8221; ou, neste caso, reinventando-se a &#8220;máquina&#8221;.</p></div><div
style="text-align: justify;">A negritude envolvente o lançamento de <strong>Álbum Negro</strong> justifica-se totalmente: o sexto longa duração (contando o &#8220;híbrido&#8221; <strong>First  Crime Then Live</strong> enquanto tal) mostra-se como um monstro sombrio com  a idiossincrasia de um buraco negro, não só pela ausência de  luminosidade, mas também pelo crescer que esta ausência provoca na sua  essência brutal e soturna. Tudo isto oferecido num mundo (construído de  forma cada vez mais inteligente e notável) onde a bizarria (o emprego do  termo é muito mais do que um trocadilho) reina.</div><div
style="text-align: center;"><p
style="text-align: center;"><strong>Alinhamento</strong><br
/> 01 &#8211; Nostromo<br
/> 02 &#8211; Êxtases Doirados<br
/> 03 &#8211; Remorso<br
/> 04 &#8211; O Anjo Exilado<br
/> 05 &#8211; Ergástulo<br
/> 06 &#8211; Sufoco De Vénus<br
/> 07 &#8211; A Procissão Dos Édipos<br
/> 08 &#8211; Engodo<br
/> 09 &#8211; Láudano 3<br
/> 10 &#8211; Outono<br
/> 11 &#8211; Egodescentralizado<br
/> 12 &#8211; Angústia<br
/> 13 &#8211; O Grito<br
/> 14 &#8211; Prótese</p><p
style="text-align: center;"><strong>Ano </strong>2009</p><p
style="text-align: center;"><strong>Editora </strong>Raging Planet</p><p
style="text-align: center;"><strong>Faixa Favorita </strong>05 &#8211; Ergástulo</p><p
style="text-align: center;"><strong>Género </strong>Industrial Metal/Rock</p><p
style="text-align: center;"><strong>País </strong>Portugal</p><p
style="text-align: center;"><strong>Banda</strong><br
/> BJ &#8211; Teclado<br
/> Miguel Fonseca &#8211; Guitarra<br
/> Rui Berton &#8211; Bateria<br
/> Rui Sidónio &#8211; Voz</p><p
style="text-align: center;"><img
class="aligncenter" src="http://img176.imageshack.us/img176/9559/dsc0404b.jpg" alt="http://img176.imageshack.us/img176/9559/dsc0404b.jpg" width="429" height="640" /></p><p
style="text-align: justify;"><strong> </strong></p><div
style="text-align: center;"><strong>Review</strong></div><div
style="text-align: justify;">O <strong>Álbum Negro</strong>. Soa a paradigma e a momento decisivo. No caso  de <strong>Bizarra Locomotiva</strong> é exactamente isso e algo mais ainda. É  assumir a roupagem do que é tenebroso por cima de uma identidade já de  si obscura e conturbada, sendo que no final, tanto o negro como o  bizarro se moldam um ao outro e claro, emerge uma triunfal mudança.  Mudança com contornos de familiaridade (e que no caso de <strong>Bizarra</strong> vale imenso), mas ainda assim uma dilatação para terrenos até então  menos explorados, ou explorados de uma outra forma. Formam-se pois  momentos em que a escuridão absoluta é rasgada por algumas sombras; a  frase poderá parecer paradoxal, mas adequa-se perfeitamente a um álbum  também, de certa forma, paradoxal pela capacidade de ter silhuetas que  se denotam e destacam, mesmo que essas mesmas estejam envoltas no  asfixio da cor.</div><p
style="text-align: justify;">À partida o universo de <strong>Bizarra Locomotiva</strong> já se caracteriza  pela distorção dos padrões habituais que rodeiam a idiossincrasia do  género musical da banda (musical e conceptualmente). Musicalmente  afastados do <strong>Industrial</strong> mais tradicional pelo estrépito provocado  (sensivelmente a mesma razão que os afasta do <strong>Industrial Rock</strong>) e  demasiado extravagantes mesmo para o conceito alargado de <strong>Industrial  Metal</strong>, não obstante o peso inerente a <strong>BL</strong> e que neste <strong>Álbum  Negro</strong> é maximizado em todas as direcções. À fúria visceral de <strong>Ódio</strong> juntam-se um conjunto de atmosferas perturbadoras que dão ainda mais  corpo ao som já de si esmagador do bizarro colectivo. Sensorialmente a  sensação claustrofóbica impera com a maquinaria pensada ao pormenor para  deixar passar apenas a necessária dose de alívio melódico para que tudo  não seja demasiado estratosférico. Deste equilíbrio vive a expressão do <strong>Álbum Negro</strong> e sobretudo a expressão frequentemente doentia da  lírica singular de <strong>Rui Sidónio</strong>, factor essencial para que tudo  faça sentido na desolação do habitual, desconstrução esta que percorre e  identifica o álbum.</p><p
style="text-align: justify;">Constitui-se então aquilo que é o essencial no trabalho: a relação  entre a palavra maldita e obscura (aqui especialmente obscura) de <strong>Sidónio</strong> e o conturbado mundo de pesadelo criado por <strong>Miguel Fonseca</strong> (compositor exclusivo do trabalho), situando nos pilares da electrónica  assombrosa e agressiva e nos riffs distorcidos (o adjectivo tem uso  duplo) que se juntam perfeitamente com os sons dissonantes que são  disparados pelos samples. Os adjectivos que fazem jus aos momentos de  génio gritado de <strong>Sidónio</strong> são os mesmos que se poderiam aplicar a  todo o ruído cadenciado que sai da mente do antigo mentor de <strong>Thormenthor</strong>.  Tudo surge à beira do abismo nesta relação homem-máquina, com o caos a  pairar com o choque das duas principais forças por detrás da negritude  aqui encontrada. A &#8220;unir&#8221; a vertente instrumental à vertente  vocal-lírica, encontra-se o conceito do álbum baseado no livro do séc.  XV, <strong>Hypnerotomachia Poliphili</strong>, que explora a fase hipnagógica do  sono. Segundo a banda, o processo criativo do álbum passou precisamente  pelo aproveitamento de alguns desses momentos para construir aquilo que é  todo o imaginário lírico, musical e visual do <strong>Álbum Negro</strong>, onde  espaços da Idade Média e ambientes futuristas convivem  fragmentariamente. Faz sentido já que das imagens estranhas criadas pelo  binómio palavra/som vive <strong>BL</strong> e desta vez ainda de forma mais  acentuada e acima de tudo refinada.</p><p
style="text-align: justify;">Tamanho monstro conceptual requisitou mais potência, mais peso e mais  densidade no som. Tudo é ainda mais preenchido do que no passado e os  sons parecem mais diversificados, acompanhados por aquele que é o  gutural português com mais capacidade de transmissão lírica (e que  lírica, diga-se de passagem). Os samples imaginados por <strong>Miguel  Fonseca</strong> e executados por <strong>BJ</strong> fazem parte, juntamente com os  sintetizadores, da maquinaria de <strong>Bizarra Locomotiva</strong> e a sua  presença faz-se sentir com mais força em momentos mais cadenciados como o  início viciante de <em>Engodo</em>, as fantasmagóricas incursões em <em>Outono</em> ou a conjunção entre os samples dissonantes e os subtis apontamentos  dos sintetizadores em <em>Ergástulo</em>. Qualquer um dos momentos  mencionados é marcante no <strong>Álbum Negro</strong> e não será grande  atrevimento alargar isto a toda a carreira de <strong>BL</strong>. Além deste  papel mais &#8220;melódico&#8221;, os sintetizadores e sobretudo alguns dos samples  criam uma áurea bastante <strong>Industrial</strong> de uma forma, que sendo  pesada (às vezes extremamente), não é ligada ao cânone do <strong>Industrial  Metal</strong>. Assim sendo, o seu peculiar uso é em boa parte responsável  pelo som único da banda. Torna-se especialmente evidente quando se ouve o  arrastado ritual d&#8217;<em>A Procissão Dos Édipos</em> ou o claustrofóbico e  tóxico ambiente do <strong>Spoken Word</strong> doentio de <em>Angústia</em>.</p><p
style="text-align: justify;">A completar o ataque rítmico temos a bateria de <strong>Rui Berton</strong> (também da mente de <strong>Miguel Fonseca</strong>) em perfeita integração e  (des)harmonia com as paisagens dos samples e sintetizadores. Esta  integração é notória em faixas mais aceleradas onde o martelar constante  é providenciado tanto por <strong>Berton</strong> como pelos samples de <strong>BJ</strong>.  Este é de resto um dos traços mais característicos do espectro mais <strong>Industrial</strong> do trabalho já que as faixas mais rápidas apresentam este tipo de  sonoridade metálica e latejante a encher por completo o trabalho. Nas  faixas mais aceleradas como <em>Êxtases Doirados</em> ou o frenético <em>Egodescentralizado</em>,  o poder rítmico da máquina por detrás de <strong>BL</strong> é bem evidente sendo  que sobra ainda algum espaço para deambulações menos óbvias no  acompanhamento dos restantes elementos. A forma como a bateria está  produzida e colocada ajuda em muito à capacidade da &#8220;locomotiva&#8221;  produzir sons de redobrado poder e intensidade. Nesta secção e nos  momentos referidos há que não esquecer a colaboração <strong>Carlos Santos</strong> como baixista convidado que embora discreto oferece ainda mais &#8220;corpo&#8221; a  algumas das faixas (ouçam-se as linhas palpitantes do baixo em <em>Engodo</em> como exemplo).</p><p
style="text-align: justify;">Para completar todo o invólucro sonoro da máquina que é <strong>BL</strong> não  poderia faltar a instrumentalização por excelência daquele que é o  principal compositor do grupo: o guitarrista <strong>Miguel Fonseca</strong>. O  papel das guitarras é claro, vital. Se por um lado o instrumental tem na  bateria, sintetizadores e samples a sua pulsão e circulação, por outro  lado tem na guitarra os seus gritos, uivos e até lamentos. A imagem mais  vezes criada ao ouvir o trabalho é de um rasgar constante, pela camada  distorcida e dissonante, pelos riffs ritmados e de uma simplicidade  terrivelmente eficaz. Predominantemente o efeito é atingido com as  guitarras embebidas em distorção, centradas em riffs monolíticos que  carregam e quebram o som simultaneamente. O trabalho de guitarra alude a  momentos mais ligados ao <strong>Industrial Metal</strong> devido ao peso que  contém, embora a escassez do conforto melódico remeta mais para o <strong>Industrial</strong> criando uma atipicidade quanto à forma como a guitarra opera em <strong>BL</strong>,  distinguindo-os do que está, musicalmente, à sua volta. Isto porque não  são riffs de <strong>Industrial Metal</strong> mas o seu peso também ultrapassa  em larga escala o <strong>Industrial</strong> mesmo na sua vertente mais <strong>Rock</strong>.  É um híbrido que expele dissonantemente identidade e unicidade, mesmo  atendendo ao trabalho passado da banda.<br
/> Quando o lado intrinsecamente brutal e ruidoso se ausenta por breves  momentos a guitarra pode produzir estranhos lamentos como o faz em <em>Outono</em> ou até surpreendentemente cativante como n&#8217;<em>O Grito</em>, mostrando  uma capacidade de variação para além da reconhecida aptidão para  (des)construir faixas com riffs duros e distorcidos. Neste último campo,  poder-se-ia destacar quase todo o trabalho mas torna-se especialmente  interessante apreciar a forma como riffs tão simples conseguem um efeito  tão obscuro como em <em>Sufoco De Vénus</em> ou na lentamente decadente <em>Prótese</em>.</p><p
style="text-align: justify;">O perturbado mundo do <strong>Álbum Negro</strong> nunca seria o mesmo sem a  presença inconfundível do Grito de <strong>Bizarra Locomotiva</strong>.  Trespassando de forma violenta e impiedosa todo o instrumental bizarro, <strong>Rui  Sidónio</strong> é uma força bruta à solta, a humanidade mais carnal naquilo  que é <strong>BL</strong>. A sua voz é naturalmente perturbadora: não por ser um  gutural singular e visceral, mas porque além disso a força da mensagem é  sentida e ouvida de forma particular. Esta capacidade singular de  transmitir mais do que vocalizar, de dizer mais do que &#8220;cantar&#8221; é o que  singulariza <strong>Sidónio</strong> e é o complemento perfeito para os distúrbios  instrumentais do resto da banda. Doutra forma a sensação seria de  impotência e incapacidade para dar continuidade ao muito negro universo  que aqui se constrói. É isso que, por comparação directa, a prestação de <strong>Fernando Ribeiro</strong> no <em>Anjo Exilado</em> prova cabalmente, não  obstante a competência da participação do vocalista de <strong>Moonspell</strong>.<br
/> No entanto, as vocalizações do álbum não são apenas momentos que  acrescem à tensão construída pelo instrumental através de brutalidade  crua e primitiva. O assombroso <em>Ergástulo</em> mostra um registo quase  sussurrado de uma expressividade não menos contundente do que aquela  apresentada quando <strong>Sidónio</strong> parte para a pura agressão. Da mesma  forma, a forma inquietantemente tranquila como parte da letra de <em>Prótese</em> é recitada também se afasta do registo mais presente, mantendo intactos  os elementos que fazem da voz de <strong>Rui Sidónio</strong> o veículo perfeito  para a transmissão da poesia do tormento criada precisamente pelo membro  fundador de <strong>BL</strong>.</p><p
style="text-align: justify;">Desta poesia única se alimenta o álbum. Única tanto pela riqueza  vocabular como pela peculiar capacidade de tornar o normal em bizarro,  sempre com uma profundidade imensa. Sem qualquer desprimor para com tudo  o que envolve o trabalho: nas palavras de <strong>Rui Sidónio</strong> reside a  pedra de toque do trabalho, o momento em que tudo se define, onde se dá a  (anti)catarse de tudo o que se vai acumulando. Pela lírica de  luxuriante que corre nos <em>Êxtases Doirados</em>, pelas existenciais  linhas de <em>Ergástulo</em>, pelas aliterações que se prostram n&#8217;<em>A  Procissão Dos Édipos</em>, pelos momentos confessionais de <em>Engodo</em> ou pela dor pura de <em>Angústia</em> estão os cantos do <strong>Álbum Negro</strong>.  As imagens de pesadelo onde tudo é possível pela transcendência da  palavra revoltosa, ininterrupta e à beira do suportável quando aqueles  momentos se encontram bem à flor da pele. É aqui que os sentidos das   palavras de <strong>Sidónio</strong> também se multiplicam, pela ambiguidade que  uma escrita deste género sempre acarreta e também por um subterrâneo  pendor surrealista.</p><p
style="text-align: justify;">Num álbum dominado pela palavra (a excepção é a introdução e a  incursão pela <strong>Industrial</strong> mais electrónica em <em>Láudano 3</em>),  os momentos em que a mesma surge mais marcante e simbólica também são  aqueles que será natural destacar, embora pela qualidade lírica que  atravessa todo o álbum a escolha recaia (ainda mais do que seria normal)  nos momentos com uma mensagem introspectiva mais profunda. Aqui surgem  os momentos onde a &#8220;locomotiva&#8221; avança a uma velocidade mais moderada,  quiçá pelo espinhoso caminho a percorrer&#8230;</p><p
style="text-align: justify;">O ambiente ritualístico de <em>Engodo</em> oferece-se como primeiro e  perfeito exemplo de dolorosas viagens. O ambiente criado pelos teclados e  guitarra é tenso e assombroso, para que a voz assuma o seu papel de  expurgadora de demónios, ora quotidianos ora mais filosóficos, sempre de  forma bem particular:</p><p
style="text-align: justify;"><em>Rimo a constituição íntima das coisas<br
/> Que se me deparam lacrimosamente<br
/> Adormecido de todas as estranhezas<br
/> Que se me afligem ao extraviar-se</em></p><p
style="text-align: justify;"><em>Mas vendi-me<br
/> Num largo gesto de simpatia<br
/> Que me custou a morada</em></p><p
style="text-align: justify;"><em>Inexoravelmente calmo, seco a garganta<br
/> Sanhudo, bebo da mentira alheia<br
/> Indiferente, classifico-a raiz dos enganos<br
/> E exercito-me ao recitá-la</em></p><p
style="text-align: justify;">De forma arrastada e pesada surge a faixa final, <em>Prótese</em>. Para  além de alguns dos riffs mais fortes do álbum, a faixa destaca-se pela  sua divisão entre o <strong>Spoken Word</strong> e o som mais &#8220;tradicional&#8221; da  banda. Qualquer uma das &#8220;partes&#8221; é intensa à sua forma: uma pelo natural  elemento ruidoso e outra pela voz sussurrada de <strong>Sidónio</strong> declamando:</p><p
style="text-align: justify;"><em>Vagueio pelo trópico de câncer com uma ogiva ao peito<br
/> mas consigo ver tudo que deixei para trás</em></p><p
style="text-align: justify;"><em>Sinto a minha a gorda agonia a tolher-me o passo sem vestígios de  pudor só de pensar no tempo que perdi&#8230; o destino assim o quis&#8230;!<br
/> Penso em ti sete vezes por segundo<br
/> Arrasto-te comigo para todo o sempre. És  a besta que me persegue, a  minha deficiência adquirida. Partiste-me o que tinha de mais precioso.<br
/> A minha alma mudou de envólucro.<br
/> Tarde demais para voltar atrás.</em></p><p
style="text-align: justify;"><em>Apodreço sem vida&#8230; mas tu&#8230; tu ainda ficas!</em></p><p
style="text-align: justify;">Resta apenas uma coisa por dizer. A única que se necessária fosse  conseguiria definir nesta besta erguida por <strong>Bizarra Locomotiva</strong>.  Não por escassez de substância de todo o álbum mas pelo que representa  enquanto paradigma do que é que a banda consegue fazer, transformando-se  através da overdose daquilo que já tinha de melhor. No monumento de  intensidade, potência e, à sua tremenda maneira, beleza que é <em>Ergástulo</em> o <strong>Álbum Negro</strong> tem o seu momento sublime. <strong>Bizarra Locomotiva</strong> tem um dos seus clássicos definitivos num registo lento, doloroso e  simplesmente arrepiante:</p><p
style="text-align: justify;"><em>Canso-me perplexo<br
/> da ode triunfal<br
/> apreciava a dor da luz<br
/> dissecando a graça suprema<br
/> orgulho a salvo, prostro-me<br
/> perante o teu plácido legado<br
/> o meu pensamento processa-se<br
/> silenciosamente&#8230;</em></p><p
style="text-align: justify;"><em>Basta! Sou estrume! Esta é a minha certeza<br
/> fertilizante orgânico<br
/> do mal que tudo corrompe</em></p><p
style="text-align: justify;"><em>Untando-te a vontade<br
/> com ruidosas tonturas<br
/> a minha omnívora alma<br
/> devora-te legando amargas costuras<br
/> Neste ergástulo de ser quem sou, envelhecido, num refluxo de culpa<br
/> acaricio-te o contorno dos olhos<br
/> e cerro os meus<br
/> deixando-te moribunda.</em></p><p
style="text-align: justify;"><em>Basta! Sou estrume! esta é a minha certeza<br
/> fertilizante orgânico<br
/> do mal que tudo corrompe</em></p><p
style="text-align: justify;">O <strong>Álbum Negro</strong>. Foi o momento de renegar quase tudo. Renegar  tudo menos a capacidade reinventiva. O resultado é uma vertiginosa  viagem por lugares escuros e desagradáveis; onde o desconforto domina.  Seja pelo sítio para onde se é transportado pela <strong>Bizarra Locomotiva</strong> ou pela simples visão do que essa viagem representa. Seja qual for a  situação, o <strong>Álbum Negro</strong> para além de soar a tal, estabelece-se  mesmo como mais um momento essencial na carreira da banda.</p><div
style="text-align: center;"><strong>Conclusão</strong></div><div
style="text-align: justify;">No meio de trabalhos tão brilhantes como o homónimo, <strong>Bestiário</strong> ou <strong>Ódio</strong>, a monocromática proposta do <strong>Álbum Negro</strong> segue  precisamente a característica principal do brilhantismo do seu  antecessor: contrastar para se impor. É isso mesmo que o trabalho faz na  discografia de <strong>BL</strong>. Não aperfeiçoa (no sentido de continuidade,  entenda-se) o que foi feito no passado e lança-se sim em caminhos  escuros (duplo sentido no termo, claro). É porventura risco maior, mas  também por isso o resultado é mais estrondoso.</div><p
style="text-align: justify;">Depois da surpreendente (tendo em conta os percalços vividos pela  banda nos tempos entre <strong>Homem Máquina</strong> e o trabalho de 2004)  maturidade de <strong>Ódio</strong>, os <strong>BL</strong> fortalecem-se ainda mais. Também  se poderá falar de maturidade mas num sentido distorcido (como  &#8220;deliciosamente&#8221; quase tudo o é no universo artístico de <strong>BL</strong>) onde  o tempo deu lugar a mais poder, mais fúria, mais &#8220;águas revoltas&#8221;: mais  exagero no fundo. Outras comparações à parte, no sentido mais primitivo  e selvagem de romper os limites de forma caótica o <strong>Álbum Negro</strong> cumpre perfeitamente com a ambição e atinge genialmente o objectivo.</p><div
style="text-align: center;"><strong>PhiLiz</strong></div><div
style="text-align: center;"><strong>Originalmente      escrito em:</strong></div><div
style="text-align: center;"><a
href="http://philiz.wordpress.com/2010/02/07/bizarralocomotiva-albumnegro"><strong>PhiLiz     @ WordPress</strong></a><a
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isPermaLink="false">http://ruidosonoro.com/?p=2051</guid> <description><![CDATA[Qualquer análise séria ao que hoje, retrospectivamente, se considera o “movimento” norueguês de Black Metal tem que passar pela exaustiva compreensão do que Burzum representou endogenamente para esse mesmo “movimento” e mais tarde, para o Black Metal em geral. ]]></description> <content:encoded><![CDATA[<div
style="text-align: center;"><strong>Introdução</strong></div><div
style="text-align: justify;">Qualquer análise séria ao que hoje, retrospectivamente, se considera o  &#8220;movimento&#8221; norueguês de <strong>Black Metal</strong> (num sentido puramente  musical) tem que passar pela exaustiva compreensão do que <strong>Burzum</strong> representou endogenamente para esse mesmo &#8220;movimento&#8221; e mais tarde, para  o <strong>Black Metal</strong> em geral. Desnecessária e bem menos interessante é  uma retrospectiva em relação aquilo que aconteceu com o homem por  detrás de <strong>Burzum</strong>: o homicídio e restantes crimes alimentaram (e  continuam a alimentar) imaginários e espaços bem menos nobres do que a  criação artística de <strong>Varg Vikernes</strong> e por muito que isso satisfaça  algumas mentes, não é, seguramente, o que mais interessa na vida de <strong>Varg</strong> e sobretudo no universo que rodeia <strong>Burzum</strong>.</div><div
style="text-align: justify;">Assim, bastante para além dos mundanismos, surge a obra seminal e  essencial de <strong>Burzum</strong>. Quando <strong>Filosofem</strong> foi lançado já <strong>Varg  Vikernes</strong> cumpria a sua pena pelo assassínio de <strong>Euronymous</strong> assim como pelo envolvimento nos incêndios de quatro igrejas  norueguesas. Nessa altura obras como <strong>Det Som Engang Var</strong> e <strong>Hvis  Lyset Tar Oss</strong> já mostravam claramente (de forma mais obscura já  existiam alguns indícios no EP <strong>Aske</strong> e no álbum homónimo) o  caminho de <strong>Burzum</strong> no que à composição de <strong>Black Metal</strong> diz  respeito. Este facto surge como notório atestar da evolução rápida da  criação de <strong>Varg</strong> na medida em que apesar de terem sido lançados  anos depois da sua gravação, os últimos álbuns (no que respeita ao  período em que <strong>Varg</strong> esteve em liberdade) foram gravados com menos  de um ano de diferença. No caso de <strong>Filosofem</strong>, a gravação deu-se  em Março de 1993 sendo que o seu lançamento só ocorreria em Janeiro de  1996, quase três anos mais tarde.</div><div
style="text-align: center;"><p
style="text-align: justify;">Apesar de este atraso ter feito com que o lançamento do álbum (e não a  sua gravação) se situe na segunda metade da década de 90 e portanto  numa altura em que já várias bandas exploravam os caminhos trilhados  pelas bandas escandinavas (particularmente as norueguesas), o impacto de <strong>Filosofem</strong> é tremendo. Os caminhos explorados por <strong>Varg</strong> em <strong>Filosofem</strong> acentuam o que já havia sido feito com os anteriores álbuns e fundam  uma série de preceitos que hão-de influenciar de forma decisiva um sem  número se tendências dentro do <strong>Black Metal</strong>. <strong>Filosofem</strong> estabelece-se como incontornável referência, seja de forma directa como  no caso completa criação e moldagem no que concerne ao <strong>Ambient Black  Metal</strong>, ou de forma indirecta como acontece no que diz respeito ao <strong>Depressive  Black Metal</strong> (onde a própria constituição do projecto <strong>Burzum</strong> é  uma influência), passando por um sem número de outras divisões  estilísticas dentro do <strong>Black Metal</strong> onde a vertente atmosférica é  importante.</p><p><strong>Alinhamento</strong><br
/> <strong>Versão Norueguesa</strong><br
/> 01 &#8211; Burzum<br
/> 02 &#8211; Jesu Død<br
/> 03 &#8211; Beholding The Daughters Of The Firmament<br
/> 04 &#8211; Decrepitude I<br
/> 05 &#8211; Rundtgåing Av Den Transcendentale Egenbetens Støtte<br
/> 06 &#8211; Decrepitude II</p><p
style="text-align: center;"><strong>Versão Alemã</strong><br
/> 01 &#8211; Dunkelheit<br
/> 02 &#8211; Jesus&#8217; Tod<br
/> 03 &#8211; Erblicket Die Töchter Des Firmaments<br
/> 04 &#8211; Gebrechlichkeit I<br
/> 05 &#8211; Rundgang Um Die Transzendentale Säule Der Singularität<br
/> 06 &#8211; Gebrechlichkeit II</p><p
style="text-align: center;"><strong>Ano </strong>1996</p><p
style="text-align: center;"><strong>Editora </strong>Misanthropy Records</p><p
style="text-align: center;"><strong>Faixa Favorita </strong>03 &#8211; Beholding The Daughters Of The Firmament</p><p
style="text-align: center;"><strong>Género </strong>Ambient Black Metal</p><p
style="text-align: center;"><strong>País </strong>Noruega</p><p
style="text-align: center;"><strong>Banda</strong><br
/> Varg Vikernes &#8211; Todos os instrumentos e Voz</p><p
style="text-align: center;"><img
class="aligncenter" style="border: 0pt none;" src="http://img4.imageshack.us/img4/6069/88photo.jpg" border="0" alt="" width="424" height="580" /></p><div
style="text-align: center;"><strong>Review</strong></div><div
style="text-align: justify;">Se há aspecto que sempre esteve inerente à música de <strong>Burzum</strong> é o   poder de expressar emoções de uma forma intimista e poderosa que não   raras vezes transforma a audição do projecto numa viagem por mundos que,   por muito distintos que sejam, têm como característica comum o facto  de  se distanciarem imensamente do espaço em que a audição é feita. Em <strong>Filosofem</strong>, <strong>Varg</strong> consegue levar este efeito até ao extremo, o mesmo extremo   que define o veículo artístico utilizado para simultaneamente criar e   percorrer a obra, ou seja, o <strong>Black Metal</strong>.</div><div
style="text-align: justify;">A par com este efeito, uma outra sensação presente na quarta obra de  longa-duração de <strong>Burzum</strong> torna-se particularmente importante de  destacar, tanto devido à forma como é desenvolvido na obra, como também  porque explica muito por detrás do propósito artístico do projecto em  si. <strong>Filosofem</strong> trata-se de uma tentativa (artisticamente  tremendamente bem sucedida, diga-se de passagem) de abstracção em  relação à dimensão humana da qual é, de alguma forma, &#8220;prisioneira&#8221;. A  desumanização em <strong>Filosofem</strong> não se dá através a supressão emotiva.  Dá-se antes pelo transbordo da mesma. As referidas deambulações para  fora do espaço e tempo da audição de <strong>Burzum</strong> prendem-se  estreitamente com o facto de os ambientes criados por <strong>Varg</strong> serem,  não só antagonistas do quotidiano habitual, mas sobretudo por  projectarem estados de espírito cuja ligação humana é reduzida ao mínimo  da inevitabilidade inerente a qualquer criação da espécie. Se em  relação ao primeiro aspecto <strong>Burzum</strong> não é exemplo único (apesar do  brilhantismo como é feito ser ímpar), já o segundo aspecto demonstra  desde logo uma faceta importante da genialidade desta criação de <strong>Varg</strong> no que concerne ao objectivo de atingir uma obra artística onde a  própria execução da mesma se torne irrelevante. Num aforismo (que não  deixa de ser irónico dado o contexto extra-musical e as inúmeras  &#8220;análises&#8221; existentes ao mesmo): a arte pela arte.</div><p
style="text-align: justify;">É partindo (conscientemente ou não pouco interessa dado o resultado  apresentado) desta base que <strong>Varg</strong> opera nova transformação no  universo de <strong>Burzum</strong> incrementando a presença da vertente <strong>Ambient</strong> em <strong>Burzum</strong>. Se é bem verdade que desde o início que <strong>Varg</strong> inovou no que concerne ao uso de teclados em conjunto com o <strong>Black  Metal</strong> e que sobretudo em <strong>Det Som Engang Var</strong> e <strong>Hvis Lyset  Tar Oss</strong>, a importância dos teclados para o efeito final destes  trabalhos é imensa. Neste campo, <strong>Filosofem</strong> não é uma mudança  técnica em relação ao passado do projecto, mas existe antes um acentuar e  um aprofundamento do papel ambiental. Há semelhança dos seus  antecessores, segue o caminho da exploração <strong>Ambient</strong> a par do <strong>Black  Metal</strong> (a presença de faixas somente ambientais é um elo de ligação  entre o álbum aqui exposto e os dois que o antecedem), mas aqui dá-se o  aperfeiçoamento final da integração entre os dois géneros. Uma faixa  como <em>Burzum</em> (mais conhecida como <em>Dunkelheit</em>) elucida sobre  esta mudança face a algo como <em>Det Som En Gang Var</em>: ambas as  músicas (duas das melhores do género) possuem um uso extensivo de  teclados mas ao passo em que na música do álbum <strong>Hvis Lyset Tar Oss</strong> existe uma sensação de justaposição (de notar que este facto não  oferece qualquer tipo de crítica negativa dada a mestria como é feito), a  música de abertura de <strong>Filosofem</strong> dá a ideia de continuidade e  progressão simultânea entre os riffs hipnóticos e as batidas da bateria e  o trabalho da bateria. Une-os o minimalismo de execução, mas também uma  percepção de complementaridade que remete para uma composição  simultânea (independentemente de ter sido este o processo composicional)  dos elementos mais &#8220;tradicionalmente&#8221; associados ao <strong>BM</strong> e da  parte <strong>Ambient</strong>. Nada disto coloca em causa todo o brilhantismo de,  por exemplo, uma faixa como <em>Det Som En Gang Var</em> (repito, uma  obra-prima de <strong>Burzum</strong> e simultaneamente de todo o género). A  progressão de <strong>Burzum</strong> não coloca em causa a maturidade e  intencionalidade de cada uma das obras passadas. Trata-se de uma  &#8220;pintura&#8221; com diferentes secções e que atingem invariavelmente a  excelência.</p><p
style="text-align: justify;">Precisamente para o nível atingido por <strong>Burzum</strong> em <strong>Filosofem</strong> em muito contribui aquilo que será, porventura, a maior qualidade de <strong>Varg</strong> enquanto músico: uma ímpar capacidade de composição. Como referido, a  mestria na fusão dos elementos mais tradicionais do <strong>Black Metal</strong> com a sonoridade ambiental é um destaque ao qual se junta a capacidade  de juntar elementos de execução simples, obtendo um efeito tão poderoso e  único. A face mais visível desta qualidade são os riffs que invadem o  trabalho que têm tanto de terrivelmente simples como de imensamente  belos e assombrosos. Qualquer uma das primeiras três músicas possui  riffs que conseguem, não obstante a sua simplicidade, transmitir todo um  conjunto de sentimentos com uma intensidade incrível. A dificuldade  está precisamente neste ponto: os extremos técnicos &#8211; seja extrema  simplicidade ou complexidade &#8211; podem anular o objectivo a que se propõe  pelo que para tal não suceder há que ter uma ideia clara de condução das  músicas para não se cair em exageros.</p><p
style="text-align: justify;">Em <strong>Filosofem</strong>, atinge-se com perfeição o ponto de equilíbrio. A  título de exemplo, a primeira faixa <em>Burzum</em> (<em>Dunkelheit</em>)  parece pensada ao pormenor em relação à gestão dos tempos em que a  repetição dos riffs é feita. Cada um dos elementos tem um tempo de  entrada perfeito e que provoca subtis mudanças de ambiente, impedindo  qualquer tipo de enfado: os riffs iniciais introduzem a faixa de forma  lenta e sombria, com a bateria a seguir a mesma toada até à entrada do  riff principal, ao que se segue os teclados que sublinham de forma  perfeita a melodia da guitarra. São sete minutos onde estes elementos  são conjugados de forma perfeita com a voz arrepiante de <strong>Varg</strong> e  com algumas mudanças quase imperceptíveis, mas que fazem toda a  diferença para que não haja uma repetição excessiva na faixa. No  entanto, <strong>Varg</strong> também varia na forma como faz fluir as faixas, não  se centrando simplesmente nos teclados para fazer criar momentos  interessantes. A segunda faixa, <em>Jesu Død</em> (mais conhecida pela sua  versão alemã <em>Jesus&#8217; Tod</em>) é demonstração disso mesmo através de  um cortante conjunto de riffs rápidos que é acompanhado pela igualmente  furiosa bateria. Neste caso, a própria velocidade dos riffs e cria uma  dinâmica que não se torna cansativa durante os mais de oito minutos que a  faixa tem. Claro que velocidade por si só não representa nada e <em>Jesu  Død</em> é mais um enorme momento sobretudo devido ao riffs memoráveis  que compõe a música.</p><p
style="text-align: justify;">Como já referido, <strong>Filosofem</strong> constitui-se como uma obra de  grande dimensão graças à forma como a simplicidade técnica se transcende  em brilhantismo quando tudo está perfeitamente encaixado. As faixas  mencionadas atestam da qualidade dos riffs neste trabalho, assim como da  forma como os teclados minimalistas sublinham uma atmosfera nostálgica e  melancólica. Por outro lado, naturalmente apenas presente na parte <strong>Black  Metal</strong> do álbum, a bateria não tem um papel tão evidente, servindo  sobretudo para frisar o tempo das músicas que acaba por variar  consideravelmente nas três primeiras faixas. A própria produção acaba  por relegar para segundo plano a bateria uma vez que se encontra  bastante &#8220;enterrada&#8221; na parede de som provocada  Ainda assim, o som algo  &#8220;seco&#8221; da bateria é uma das características notórias do álbum, seja nos  momentos mais acelerados de <em>Jesu Død</em> ou quando o tempo médio de &#8211;  por exemplo &#8211; <em>Beholding The Daughters Of The Firmament</em> (<em>Erblicket  Die Töchter Des Firmaments</em>) é dominante. Há semelhança do que  sucede com o baixo (poucas vezes audível durante o trabalho devido à  enorme camada de distorção), a bateria limita-se a servir da base para  todo o aparato criado pelos elementos que se destacam em <strong>Filosofem</strong>.</p><p
style="text-align: justify;">Também com uma colocação bastante &#8220;distante&#8221; na produção encontra-se a  voz de <strong>Varg</strong>. No entanto, este é um dos elementos mais  reconhecíveis e importantes para a caracterização do álbum e sobretudo  para o seu estrondoso resultado final. De notar, antes de mais nada, que  a voz apresenta-se aqui de forma bastante diferente em relação aos  anteriores trabalhos de <strong>Burzum</strong>. Antes deste trabalho a voz de <strong>Varg</strong> era um gutural extremamente gritado, bastante único e original para o  início dos anos 90 e simultaneamente uma das marcas características da  abordagem singular do projecto em relação ao <strong>Black Metal</strong>. Em <strong>Filosofem</strong> ainda se conseguem discernir alguns traços da voz gutural mas  extremamente aguda que foi dos traços principais dos primeiros  trabalhos, mas a produção e a forma como a voz está encaixada no som  mudam quase por completo. Usando o pior microfone do estúdio onde o  álbum foi gravado, <strong>Varg</strong> obteve um efeito completamente distorcido  e crispado que poucas semelhanças possui em relação a uma voz humana  mesmo quando comparado com as vozes torturadas dos primeiros trabalhos  ou mesmo em relação ao conceito mais alargado de gutural nos subgéneros  mais extremos do <strong>Metal</strong>. Desta forma, a voz acaba por ser uma  continuação do som difuso das guitarras, rasgando a parede sonora com um  gutural agonizante que quase parece remanescente de um som <strong>Industrial</strong>,  tal é a forma como a voz soa distorcida. O resultado final desta  abordagem é soberbo, retendo grande parte dos sentimentos dolorosos que  eram transmitidos com os guturais mais gritados dos álbuns anteriores,  ainda que a forma como tal efeito é atingido seja consideravelmente  diferente.</p><p
style="text-align: justify;">Em consonância com a emotividade dos vocais estão as letras do álbum.  Em relação ao alcance das mesmas, pode-se dizer que não poderiam ter  uma melhor presença que não num trabalho cujo título é <strong>Filosofem</strong>.  Não sendo letras complexas num sentido tradicional do termo, deambulam  por um mundo de preocupações existenciais através de relatos de um tempo  passado e de paisagens desaparecidas. A imagética naturalista é uma  constante e serve tanto de descrição simples (como na parte mais  ambiental do álbum), como de plataforma para temas que parecem corroer a  imaginação de uma mente em permanente viagem interior. A já referida  sensação de viagem dá-se em grande parte devido aos mundos criados pelas  letras do trabalho mas que mais do que remeterem de forma literal para  um conjunto de imagens, se tratam de metáforas para um transporte que  ocorre sobretudo interiormente porque esta é sobretudo a travessia que  interessa ao &#8220;filósofo&#8221;. Neste campo, a primeira parte do álbum oferece a  porção mais conseguida de <strong>Filosofem</strong> uma vez que a parte  exclusivamente <strong>Ambient</strong> tem uma abordagem mais directa e menos  profunda no campo lírico.</p><p
style="text-align: justify;">Assim, a primeira faixa auto-intitulada <em>Burzum</em> (mas  &#8220;popularizada&#8221; como <em>Dunkelheit</em>) possui um misto de imagética  naturalista e um certo tom pagão que se acaba por surgir de forma mais  clara na segunda parte do álbum. Não sendo a temática mais interessante  do álbum, acabam por resultar muito bem em toda a faixa, nomeadamente no  momento quase falado que acaba por surgir na última metade da faixa.  Segue-se <em>Jesu Død</em> (de novo mais conhecida pela versão alemã: <em>Jesus&#8217;  Tod</em>) com uma descrição negra da figura de Cristo. &#8220;A morte de  Jesus&#8221; representa o nazareno de forma pouco usual, não como uma figura  de paz e tranquilidade mas como uma figura negra e sombria. Mais do que  um ataque gratuito à pessoa de Cristo, trata-se de uma retratação que se  foca no lado oculto e sobretudo humano de alguém cujo sofrimento e dor  se sobrepõe claramente à sua tradicional &#8220;reputação&#8221;, ainda que tal seja  escondido.<br
/> No entanto, e sem qualquer desprimor pelas mencionadas letras, o melhor  momento neste campo em <strong>Filosofem</strong> (e em toda a discografia do  projecto) encontra-se na terceira faixa, <em>Beholding The Daughters Of  The Firmament</em> (<em>Erblicket Die Töchter Des Firmaments</em>). Uma  interrogação existencial invadida de melancolia e solidão, de uma alma  em permanente convulsão interrogativa provocada pela noção de  desconhecimento e vazio face à sua existência. Nada mais perfeito para  sintetizar a força emotiva de <strong>Filosofem</strong> do que a &#8220;magnum opus&#8221;  lírica de <strong>Varg</strong>:</p><p
style="text-align: justify;"><em>I wonder how winter will be<br
/> With a spring that I shall never see<br
/> I wonder how night will be<br
/> With a day that I shall never see<br
/> I wonder how life will be<br
/> With a light I shall never see<br
/> I wonder how life will be<br
/> With a pain that lasts eternally<br
/> In every night there&#8217;s a different black<br
/> In every night I wish that I was back<br
/> To the time when I rode<br
/> Through the forests of old<br
/> In every winter there&#8217;s a different cold<br
/> In every winter I feel so old<br
/> So very old as the night<br
/> So very old as the dreadful cold<br
/> I wonder how life will be<br
/> With a death that I shall never see<br
/> I wonder why life must be<br
/> A life that lasts eternally<br
/> I wonder how life will be<br
/> With a death that I shall never see<br
/> I wonder why life must be<br
/> A life that lasts eternally</em></p><p
style="text-align: justify;">Por motivos naturais, as três primeiras faixas acabam por ser as que  merecem uma atenção maior quando <strong>Filosofem</strong> é abordado de uma  forma mais compartimentada e focando-se essencialmente na sua vertente  ligada ao <strong>Black Metal</strong>. Compreende-se este aspecto na medida em  que as faixas seguem a linha do <strong>BM</strong> que <strong>Varg</strong> aprimorou e  seguem uma linha que acaba por ser mais natural dentro do género. No  entanto, há que mencionar que sem <em>Decrepitude</em> e <em>Rundtgåing Av  Den Transcendentale Egenbetens Støtte</em>, <strong>Filosofem</strong> não  atingiria patamares e ambientes que combinam perfeitamente com aqueles  presentes nas primeiras faixas. <em>Decrepitude</em> será, talvez, a mais  perfeita integração da vertente <strong>Ambient</strong> com o <strong>Black Metal</strong> o  que torna a sua primeira versão (quarta faixa) numa passagem perfeita  para a longa parte ambiental e a sua versão instrumental (última faixa  do álbum) num fecho condizente para um álbum que consegue unir de forma  sistemática as duas sonoridades dominantes (embora as referidas faixas  tenham um sentimento mais pertencente à primeira esfera ambiental do que  ao <strong>BM</strong>). No meio das duas, surge a monstruosa <em>Rundtgåing Av  Den Transcendentale Egenbetens Støtte</em>, a única peça puramente  ambiental do trabalho. Percorrida por uma melodia simples e hipnótica, a  música vai flutuando longamente pelas suaves notas sintetizadas que  percorrem a música por mais de vinte e cinco minutos (um quarto do  álbum, aproximadamente). Ainda que possa não fazer sentido de um ponto  de vista individual, a quinta faixa fornece a viagem de relaxamento e  descompressão perfeita quando se ouve o álbum como um todo, sobretudo  devido à forma como contrasta com a emotividade extrema que é  presenciada na primeira metade do álbum.</p><p
style="text-align: justify;">Se é verdade que a compreensão de <strong>Filosofem</strong> enquanto obra  passa obrigatoriamente pela segunda metade do álbum, é inegável que os  três clássicos que iniciam o trabalho valem muito por si próprios. A  hipnótica <em>Burzum</em> (a primeira faixa escrita por <strong>Varg</strong> em  Agosto de 1991 ainda com a designação de <strong>Uruk-Hai</strong>) é um dos  momentos incontornáveis em todo o movimento norueguês, pelas razões já  largamente mencionadas e pela forma como simboliza todo o conceito de <strong>Ambient  Black Metal</strong>. Da mesma forma, <em>Jesu Død</em> lembra algum do  trabalho mais rápido de <strong>Varg</strong> e constitui-se como outra  obra-prima, ainda que de uma forma distinta das outras duas faixas mais  lentas, o que prova a capacidade de <strong>Varg</strong> de compor temas de  enorme qualidade, com considerável variedade entre si. Depois destes  dois monumentos, a terceira faixa é uma &#8220;overdose&#8221; emocional de  sentimentos melancólicos e profundos. Devido a estas características, <em>Beholding  The Daughters Of The Firmament</em> acaba por ter óbvias influências em  vertentes como o <strong>Depressive Black Metal</strong> sendo que a sua  influência só é ultrapassada em matéria de importância pelo facto de ser  o momento alto num álbum que nunca sai de um patamar de excelência.</p><p
style="text-align: justify;">Um paradoxo em forma de obra de arte, onde a simplicidade quase  inocente dos meios contrasta largamente com tudo aquilo que é atingido  pela experiência que vai, obviamente, muito além da sua execução per se.  As emoções atingidas e os &#8220;lugares&#8221; são um reflexo de um álbum que  &#8220;filosofa&#8221; através da obra musical por temas cuja complexidade e  profundidade retractam uma jornada interior que se processa  permanentemente.</p><div
style="text-align: center;"><strong>Conclusão</strong></div><div
style="text-align: justify;"><strong>Filosofem</strong> trata-se de um trabalho visionário e único que acaba  por entrar na categoria restrita de obras claramente à frente do seu  tempo. No entanto, a sua imortalidade atesta-se pelo facto de não ser  mera influência cronológica, mas sim por possuir uma qualidade que o  destaca dentro do subgénero de <strong>Black Metal</strong> que acabou por  influenciar. Não é só o facto de surgir antes de toda a gente no campo  do <strong>Ambient Black Metal</strong>: trata-se de ser uma referência no mesmo  porque possui um pioneirismo suportado por uma qualidade composicional  que não é atingida por muitos trabalhos.</div><p
style="text-align: justify;">Há semelhança do que acontecera no passado com os primeiros  lançamentos de <strong>Burzum</strong>, a criação de <strong>Varg</strong> lançada em 1996  constitui-se como mais uma demonstração de excelência de <strong>Burzum</strong>.  Não como um isolado momento de grandeza, mas como mais uma prova  sistemática de como <strong>Burzum</strong> se constitui como banda seminal do <strong>Black  Metal</strong> moderno em várias das suas vertentes, mantendo-se ao mesmo  tempo actual e não valendo apenas pela ideia &#8220;curiosa&#8221; de clássico&#8230; e  sobretudo fazendo-o através de uma série de lançamentos onde é muito  complicado encontrar momentos abaixo do patamar de grandiosidade.</p><p
style="text-align: justify;">Acima de tudo uma obra total que usa o <strong>Black Metal</strong> como  instrumento para deixar fluir uma experiência que transforma a audição  numa das melhores formas de visitar caminhos onde o sentimento niilista  impera, não de forma puramente destrutiva mas numa perspectiva de  constante indagação perante tão funesta existência.</p><div
style="text-align: center;"><strong>PhiLiz</strong></div><div
style="text-align: center;"><strong>Originalmente     escrito em:</strong></div><div
style="text-align: center;"><a
href="http://philiz.wordpress.com/2009/11/16/burzum-filosofem"><strong>PhiLiz    @ WordPress</strong></a></div></div> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://ruidosonoro.com/2010/07/04/burzum-filosofem/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>6</slash:comments> </item> <item><title>Type O Negative &#8211; October Rust (1996)</title><link>http://ruidosonoro.com/2010/06/26/type-o-negative-october-rust/</link> <comments>http://ruidosonoro.com/2010/06/26/type-o-negative-october-rust/#comments</comments> <pubDate>Sat, 26 Jun 2010 16:08:59 +0000</pubDate> <dc:creator>PhiLiz</dc:creator> <category><![CDATA[Reviews]]></category> <category><![CDATA[October Rust]]></category> <category><![CDATA[Type O Negative]]></category><guid
isPermaLink="false">http://ruidosonoro.com/?p=2027</guid> <description><![CDATA[A unicidade que caracteriza e define Type O Negative faz com que a exploração do universo da banda seja uma tarefa hercúlea sobretudo na gestão das inúmeras sensibilidades do colectivo americano (particularmente a humorística).]]></description> <content:encoded><![CDATA[<div
style="text-align: center;"><strong>Introdução</strong></div><div
style="text-align: justify;">A unicidade que caracteriza e define <strong>Type O Negative</strong> (seja no  âmbito musical ou fora dele) faz com que a exploração do universo da  banda seja uma tarefa hercúlea sobretudo na gestão das inúmeras  sensibilidades do colectivo americano (particularmente a humorística).  Uma pequena escorregadela e o ridículo toma conta da situação&#8230; e  quanto a isto, um pequeno vislumbre na personalidade da banda (e em  especial do gigante <strong>Peter Ratajczyk</strong>, mundialmente conhecido como <strong>Peter  Steele</strong>) permite compreender a razão pela qual tantos mal-entendidos  (quase sempre ridículos) surgiram (e ainda surgem) em relação à banda  de Brooklyn.</div><div
style="text-align: justify;"><p>A banda é conhecida por incluir nas letras (e não só) doses industriais  de humor negro, referências em relação a algumas polémicas que os  envolvem (geralmente de forma humorística mas bastante incisiva) e pela  corrosibilidade de várias afirmações. Assim, a ironia e o sarcasmo são  peças fundamentais no repertório da banda (sejam em letras ou noutro  tipo de contactos com o público) e como tal a falta de cuidado  (sobretudo quando a banda se tornou mais conhecida) na interpretação de  alguns aspectos de Type O Negative (ou mesmo na própria atitude por  detrás da banda) faz com que surjam muitas situações hilariantes dada a  falta de &#8220;perspicácia&#8221; de alguns &#8220;intérpretes&#8221; do universo de <strong>TON</strong>&#8230;  claro que isto é capitalizado pela banda o que geralmente só faz  aumentar, ainda mais, o absurdo de tais interpretações.</p><p>Paradigmático de tudo o que disse anteriormente são os primeiros anos  de <strong>Type O Negative</strong> e estende-se, no caso de <strong>Steele</strong>, até a <strong>Carnivore</strong> (banda de <strong>Thrash Metal</strong>/<strong>Crossover</strong> em que o  vocalista/baixista esteve antes de <strong>Type O Negative</strong>). O uso de  léxico associado a ideologias nazis na faixa <em>Der Untermensch</em> de <strong>Slow,  Deep And Hard</strong> (ainda que de forma figurada uma vez que a letra  denota uma visão geralmente partilhada pela direita conservadora  americana no que concerne ao &#8220;Welfare State&#8221; e não se refere ao ideal  racial), <a
href="http://www.youtube.com/watch?v=Fg4DFl1_io8" target="_blank">declarações</a> incendiárias (ainda em ligação com a música mencionada), acusações de  machismo (o facto do primeiro álbum retratar a traição de uma namorada  de <strong>Peter Steele</strong> de forma bastante agressiva &#8211; ainda que  humorística &#8211; levou a acusações de Misoginia) e diversos episódios que  vão desde o surreal ao imensamente cómico. Um deles envolve o segundo  álbum da banda, um falso álbum ao vivo em que a banda adicionou efeitos  para dar a sensação de que tinha sido gravado ao vivo, sendo que existem  alguns cânticos bastante desrespeitosos para com a banda como &#8220;You  suck! You suck!&#8221; propositadamente adicionados&#8230; para efeitos burlescos,  claro. Igualmente a capa segue a mesma linha de humor com a imagem  extremamente próxima do ânus do vocalista/baixista, <strong>Peter Steele</strong>&#8230;  dai o nome do álbum: <strong>The Origin Of The Feces (Not Live At Brighton  Beach)</strong>.</p><p>Claro que tudo isto foi prontamente aproveitado pela banda e em  diversos campos. Em 1993 a banda lança o seminal <strong>Bloody Kisses</strong> que lança definitivamente <strong>TON</strong> para o mainstream. O sucesso de  temas como <em>Black No. 1 (Little Miss Scare-All)</em> (satírica perfeita  a vários estereótipos da cultura gótica) e <em>Christian Woman</em> (a  presumível história de uma freira com um peculiar tipo de &#8220;desejos&#8221;)  levou a banda à ribalta (até um pouco fora do mundo <strong>Metal</strong>) e deu à  Roadrunner Records os seus primeiros discos de ouro e platina.  Juntamente com estes temas estavam músicas com o tradicional humor da  banda: <em>Kill All The White People</em> e <em>We Hate Everyone</em> eram  caricaturas de todas as controvérsias, nomeadamente aquelas em que eram  acusados de serem racistas.</p><p
style="text-align: justify;"><strong>Bloody Kisses</strong>, no entanto, foi importante &#8211; acima de qualquer  outra coisa que possa surgir &#8211; por ter representado uma demarcação  sonora evidente do passado da banda. O primeiro trabalho de estúdio de <strong>TON</strong> já tem alguns elementos diferentes do tradicional som de <strong>Carnivore</strong> (embora inicialmente fosse suposto ser um álbum de <strong>Carnivore</strong>)  com mais inclusões nos terrenos do <strong>Doom</strong> (embora, de novo, <strong>Carnivore</strong> também tivesse passagens mais arrastadas), mas foi na proposta de 1993  que surgiu o som característico do <strong>Gothic Metal</strong> de <strong>Type O  Negative</strong>, o que representou um avanço considerável no género.  Tirando a mencionadas <em>Kill All The White People</em> e <em>We Hate  Everyone</em> (que são tendencialmente mais viradas para o <strong>Thrash</strong> e <strong>Punk</strong>), o resto do álbum é muito mais semelhante à obra aqui em  questão, <strong>October Rust</strong>.<br
/> Assim, além de uma confirmação inegável da direcção da banda em relação  ao <strong>Gothic Metal</strong>, o terceiro álbum de originais (não contando a  paródia de <strong>The Origin Of The Feces&#8230;</strong>) representa o paradigma do <strong>Gothic  Metal</strong> moderno (apesar de ter muito mais para oferecer que apenas o  tradicional do estilo) e mais um importante momento num género cuja  fundação e delimitação estética muito deve aos desgraçados vindos de <strong>Brooklyn</strong>.</p><p
style="text-align: center;"><strong>Alinhamento</strong><br
/> 01 &#8211; Bad Ground<br
/> 02 &#8211; Intro (Untitled)<br
/> 03 &#8211; Love You To Death<br
/> 04 &#8211; Be My Druidess<br
/> 05 &#8211; Green Man<br
/> 06 &#8211; Red Water (Christmas Mourning)<br
/> 07 &#8211; My Girlfriend&#8217;s Girlfriend<br
/> 08 &#8211; Die With Me<br
/> 09 &#8211; Burnt Flowers Fallen<br
/> 10 &#8211; In Praise Of Bacchus<br
/> 11 &#8211; Cinnamon Girl<br
/> 12 &#8211; The Glorious Liberation Of The People&#8217;s Technocratic Republic Of  Vinland By The Combined Forces Of The United Territories Of Europa<br
/> 13 &#8211; Wolf Moon [Including Zoanthropic Paranoia]<br
/> 14 &#8211; Haunted<br
/> 15 &#8211; Outro (Untitled)</p><p
style="text-align: center;"><strong>Ano </strong>1996</p><p
style="text-align: center;"><strong>Editora </strong>Roadrunner Records</p><p
style="text-align: center;"><strong>Género </strong>Gothic Metal</p><p
style="text-align: center;"><strong>País </strong>EUA</p><p
style="text-align: center;"><strong>Banda</strong><br
/> Johnny Kelly – Bateria*<br
/> Josh Silver – Teclado<br
/> Kenny Hickey – Guitarra<br
/> Peter Steele (Peter Ratajczyk) – Voz, Baixo</p><p
style="text-align: center;">*Nota: Apesar de ser creditado como no álbum, toda a bateria do álbum  foi programada.</p><p
style="text-align: center;"><img
class="aligncenter" src="http://img210.imageshack.us/img210/6417/line2xy7.jpg" border="0" alt="" width="472" height="353" /></p><div
style="text-align: center;"><strong>Review</strong></div><div
style="text-align: justify;">Numa visão periférica, <strong>October Rust</strong> apresenta-se como um perfeito e  modelar álbum dentro do que é o <strong>Gothic Metal</strong>. O referido género  &#8220;sofre&#8221; uma influência enorme de <strong>TON</strong>, seja a nível directo (para  diversas bandas que seguiram o paradigma criado), seja na criação de uma  série de características que ou não existiam anteriormente (e aqui  podemos definir <strong>Bloody Kisses</strong> como o início do som &#8220;típico&#8221; de <strong>Type  O Negative</strong>, pelo menos no que ao <strong>Gothic Metal</strong> diz respeito)  ou não tinham a mesma desenvoltura que a banda de <strong>Type O Negative</strong> lhes deu.</div><p
style="text-align: justify;">No entanto, o trabalho não se confina a ser um modelo de um género  específico (apesar de representar esse papel na perfeição, como já foi  dito). Isto acontece por dois motivos: em primeiro lugar devido às  inúmeras influências externas que a banda ainda denota nalguns momentos e  ainda que as mudanças sejam mínimas (muito menos bruscas que no álbum  anterior) há incursões noutros subgéneros (quando o som se torna mais  lento e pesado há uma clara vibração mais ligada ao <strong>Doom Metal</strong> e  ao contrário quando existem momentos mais virados para o <strong>Gothic Rock</strong> nas músicas mais acessíveis como o clássico <em>My Girlfriend&#8217;s  Girlfriend</em>); em segundo lugar, porque a própria identidade da banda é  bastante única e transcende em vários planos (especialmente o lírico) o  próprio género em que a banda mais se insere. Já para não falar na  qualidade intrínseca do trabalho que o torna um álbum essencial de <strong>Goth  Metal</strong>, não apenas mais um entre muitos ou numa situação em que é  valorizado puramente pelo facto de ter surgido pelas mãos de uma banda  pioneira no mencionado género.Percebe-se logo aos primeiros segundos do álbum (literalmente) que a  banda tem uma forma de estar (na música em geral) bastante própria e  &#8220;característica&#8221;, nomeadamente no que ao humor diz respeito: a primeira  faixa (<em>Bad Ground</em>) são quase quarenta segundos de ruído que dá a  sensação do CD estar riscado o que fez com que algumas pessoas tentassem  devolver o CD sem perceber que era suposto ser assim devido à partida  da banda&#8230; É de pensar que a seguir a este momento a banda iria começar  a levar as coisas mais &#8220;a sério&#8221;, no entanto essa assumpção logo se  mostra errada já que na segunda faixa (que não tem título) temos a banda  a gozar com a partida anterior, a apresentar os membros (<strong>Peter</strong>, <strong>Johnny</strong>, <strong>Kenny</strong> e <strong>Josh</strong>) e depois a agradecerem o facto de o ouvinte  ter comprado o álbum. Na mesma linha, a última faixa (também sem  título) tem o vocalista/baixista <strong>Peter Steele</strong> a desejar que a  audição não tenha sido demasiado desapontante (&#8220;I hope it wasn&#8217;t too  disappointing&#8221;)&#8230;<br
/> O resto do álbum é mais &#8220;limpo&#8221; destes momentos (entenda-se que isto não  se refere ao humor negro que está, felizmente, sempre presente) se bem  que ainda há referência a uma das paródias mais conhecidas da banda,  &#8220;People&#8217;s Technocratic Republic Of Vinnland&#8221;, uma área imaginária  algures entre o Canadá e os EUA (na verdade no nome vem de Vinland, nome  dado pelos Vikings a uma zona inserida no que hoje é o Canadá) de onde a  banda clama ser e cujo presidente é&#8230; <strong>Peter Steele</strong>. A faixa com  o pomposo nome de <em>The Glorious Liberation Of The People&#8217;s  Technocratic Republic Of Vinnland By The Combined Forces Of The United  Territories Of Europa</em> é pouco mais de um minuto a retratar a  &#8220;libertação&#8221; dessa república imaginária com sons bélicos em forma de  marcha militar.</p><p
style="text-align: justify;">Contundo, não se pense que o tom geral do álbum é o divertimento  leviano. Bem pelo contrário, o álbum tem vários momentos de negatividade  que cobrem estados como a depressão, o luto ou a suave melancolia,  sendo que este último aspecto que poderá muito bem ser o pano de fundo  dominante do trabalho na sua tentativa de retratar os dias de prostração  que invadem o Outono. Muita desta flutuação de sentimentos e estados de  espírito é responsabilidade dos teclados quase omnipresentes de <strong>Josh  Silver</strong> que são uma das principais linhas condutoras de todo o  trabalho, com um som bastante distinto e equilibrado entre os vários  ambientes criados pelo teclado. <strong>Silver</strong> varia entre uma série de  técnicas que não só conferem ao álbum uma riqueza maior, como provam que  se está na presença de um dos mais talentosos e criativos teclistas  dentro do género&#8230; e não me refiro apenas ao <strong>Gothic Metal</strong> em  particular.<br
/> Alguns dos sons mais reconhecíveis de <strong>October Rust</strong> são as  introduções das mais conhecidas faixas do álbum (muito por causa do  trabalho de sintetizadores que contém) como <em>My Girlfriend&#8217;s  Girlfriend</em> ou a tremenda balada <em>Love You To Death</em>, ambas com  um espantoso trabalho de teclados seja pelo som único que têm, seja pela  predominância que têm na música. No caso de <em>My Girlfriend&#8217;s  Girlfriend</em> (uma música sobre um afortunado triângulo amoroso em que o  vocalista/baixista <strong>Peter Steele</strong> se vê envolvido), são os  teclados muito ao estilo da segunda do <strong>Gothic Rock</strong> que dão à  música um apelativo muito especial e tornam a música numa das mais  conhecidas músicas de <strong>TON</strong>.<br
/> A par das introduções e dos solos, temos o lado mais atmosférico dos  teclados, que geralmente coincide com as alturas em que a banda soa mais  próxima do <strong>Doom</strong> (como acontece na épica <em>Haunted</em>) o que  incute uma certa soturnidade às faixas. Além da referida <em>Haunted</em> (que é uma referência óbvia), a hilariante frase do refrão de <em>Be My  Druidess</em> é acompanhada de alguns dos mais sinistros teclados de todo  o álbum e o mesmo se pode dizer para a penosamente realista <em>Red  Water (Christmas Mourning)</em>.</p><p
style="text-align: justify;">Além destes apontamentos, é de referir que muita da riqueza do álbum a  longo prazo se deve à mestria de <strong>Silver</strong> mesmo nos momentos em  que os teclados não são predominantes ou nem sequer aparecem em pano de  fundo. Existem subtis incursões dos teclados em momentos chave do álbum  que enfatizam determinado som (muitas vezes até outros elementos como a  guitarra ou a voz de <strong>Steele</strong>) e que são instrumentais para o  sentimento que a banda pretende recriar. Depois de tudo isto, <strong>Josh  Silver</strong> também foi o responsável pela programação da bateria (bem  como co-produziu o álbum com <strong>Peter Steele</strong>) que, ao contrário do  que os créditos dizem atribuindo-a ao baterista <strong>Johnny Kelly</strong>,  foram inteiramente programados em estúdio. Em relação a este aspecto não  há muito a dizer, não só porque quase não se nota que a bateria é  programada (que é o que interessa, já que ninguém estaria à espera de  brilhantismo com programação da bateria) mas também porque é um elemento  que não grande importância no álbum (provavelmente de forma propositada  devido ao que foi referido).</p><p
style="text-align: justify;">Ainda no campo da produção é de destacar a forma como todo o álbum  está bem construído no que diz respeito ao balanceamento do binómio  peso/melodia. Apesar de os teclados serem de uma clara importância (e a  forma como são usados dão um aspecto mais melodioso e calmo a todo o  álbum), o peso das guitarras e do baixo é sempre considerável. Além de  tudo soar de forma cristalina (outra coisa não seria de esperar e  exigir), tudo tem o seu espaço e tempo para surgir dentro do som, o que é  muito positivo dado que sublinha uma das principais qualidades da  banda, isto é, a sua qualidade na composição das músicas, nomeadamente  nas mais longas como a minha preferida <em>Die With Me</em> onde há uma  exaustiva exposição de tudo o que a banda tem de melhor para oferecer.<br
/> A produção também mantém o som característico de <strong>TON</strong> &#8211; e que de  alguma forma foi cravado definitivamente em <strong>Bloody Kisses</strong> &#8211;  embora se notem algumas diferenças em relação ao anterior trabalho. Este  aspecto tem a sua materialização sobretudo na forma como a guitarra  actua. <strong>Kenny</strong> continua a desempenhar um papel fundamental no  álbum, mas o som da guitarra é mais límpido e tem algumas variações que  não eram tão evidentes (ou não existiam de todo) no álbum que precedeu <strong>October  Rust</strong>.<br
/> A distorção de guitarra típica de <strong>Type O Negative</strong> (e que  influenciou incontáveis bandas&#8230;) está presente mas acaba por ser  ligeiramente mais suave. Isto deve-se principalmente ao da distorção ser  mais ouvida nos momentos mais arrastados e lentos, o que não acontece  assim tantas vezes neste álbum. No geral, as músicas também não são  muito pesadas (embora esta constatação só sirva em análise com os álbuns  passados da banda, uma vez que é um álbum bastante pesado para o que é  normal dentro do <strong>Gothic Metal</strong>) e daí esta pequena atenuante no  som da guitarra. No entanto, isto não quer dizer que <strong>Kenny</strong> não  esteja a altura dos acontecimentos. Algo que é curioso notar é o  dinamismo da guitarra que assenta que nem uma luva no som melodicamente  poderoso da banda: a guitarra pode, por um lado soar suave e gentil em  faixas como <em>Love You To Death</em> ou <em>Die With Me</em> e por outro  lado soar obscura e pesada em momentos como <em>Red Water (Christmas  Mourning)</em> ou <em>Wolf Moon [Including Zoanthropic Paranoia]</em>. Da  mesma forma, músicas como <em>My Girlfriend&#8217;s Girlfriend</em> ou <em>Cinnamon  Girl</em> (um original de Neil Young sublimemente adoptado ao estilo de <strong>Type  O Negative</strong>), não seriam as mesmas sem os contagiantes riffs saídos  dos dedos de <strong>Kenny</strong>.</p><p
style="text-align: justify;">O outro representante do campo das cordas é nada mais nada menos que <strong>Peter  Steele</strong>. O membro mais reconhecido da banda tem, naturalmente, um  enorme destaque em <strong>October Rust</strong>. Falando primeiro no seu  desempenho como baixista, o que se encontra no álbum é uma tremenda  performance de <strong>Steele</strong>, que ajuda em muito a definir o som  profundo e grandioso do álbum. <strong>Steele</strong> toca com bastante força e  energia o que lhe dá um estilo único de execução, seja em que prima  musical esteja inserido (o seu trabalho com <strong>Carnivore</strong> é exemplo  desta multiplicidade). Adicionando a isto o facto do baixo ser um  elemento com bastante importância no som de <strong>TON</strong> (e na própria  caracterização do mesmo), dá para perceber que <strong>Steele</strong> é bastante  mais do que a face de <strong>Type O Negative</strong>. É igualmente notável a  forma como <strong>Steele</strong> vai variando o trabalho e imprimindo diferentes  tons e texturas nas músicas virtude do seu papel enquanto baixista. Se  por um lado temos belas melodias como na balada <em>Green Man</em>, por  outro lado temos um trabalho de outra ordem completamente diferente em <em>Burnt  Flowers Fallen</em> em que na maior parte do tempo o som é mais  acelerado.<br
/> Mais do que o destaque nalgum momento em particular (e aqui nem temos um  momento como <em>Black Nº1&#8230;</em>), o distinto som do baixo de <strong>Peter  Steele</strong> é um bom resumo do que <strong>October Rust</strong> representa no  cômputo geral: refrescante (muito raramente vemos um baixo com esta  importância dentro do género&#8230; e aqui refiro-me ao género alargado de <strong>TON</strong>)  e imponente nos seus melhores momentos.</p><p
style="text-align: justify;">Falando em imponência, poucos serão os adjectivos que descrevam  melhor que imponente a outra parte da contribuição (mais reconhecível,  claro) de <strong>Steele</strong> no álbum. O álbum é invariavelmente marcado  pelos vocais graves (muito graves) e poderosos do gigante vocalista de <strong>TON</strong>.  Porventura o som mais distinto do trabalho (sem desprimor ou relegação  para um plano de irrelevância de tudo o resto) é a voz de <strong>Steele</strong> e  isto muito se deve à forma como a voz se consegue destacar de tudo o  resto devido ao timbre único do vocalista, sem nunca destruir a coesão  das músicas. Isto é particularmente evidente em momentos menos pesados  em que a voz de <strong>Steele</strong> ainda se consegue encaixar de forma  perfeita (exemplo paradigmático disto é a já referenciada <em>Cinnamon  Girl</em>). No entanto, não se restringe ao descrito até agora: a  performance teatral de <strong>Steele</strong> vai variando entre os graves  pronunciados e autênticos uivos que acentuam o lado mais negro de  algumas das músicas (e que acaba por ser o sentimento mais predominante  do álbum). A excelente balada <em>Love You To Death</em> tem  simultaneamente alguns dos graves mais profundos do álbum e alguns dos  melhores momentos do timbre mais &#8220;vampírico&#8221; (que a pronúncia  característica do vocalista também acentua) de <strong>Steele</strong>. Momentos  memoráveis como os que surgem no meio de <em>Die With Me</em> não parecem  atingíveis (acima de tudo pela unicidade do timbre) por outro vocalista  que não <strong>Peter Steele</strong>.</p><p
style="text-align: justify;">Tão importante quanto a qualidade vocal de <strong>Steele</strong> é a  qualidade lírica (departamento também a cargo do vocalista) e neste  aspecto poderemos dizer que as duas estão a par em termos qualitativos.  As letras variam entre temas tão distintos como o amor, melancolia e&#8230;  erotismo florestal ou o trabalho de um operador num parque público de  Nova Iorque. Claro que estes dois últimos temas são extremamente  literais mas acabam por ser a prova de como <strong>Steele</strong> consegue  atingir simbiose perfeita entre assuntos mais solenes e doses de humor  (negro, preferencialmente) consideráveis. Momentos como o refrão de <em>Be  My Druidess</em> mostram bem o contraste entre a solenidade da música  (incluindo a voz) e as letras. Numa altura bastante <strong>Doom</strong> e  tenebrosa eis que surge:</p><p
style="text-align: justify;"><em>I&#8217;ll do anything<br
/> To make you cum&#8230;</em></p><p
style="text-align: justify;">No entanto, aliado a este momento, nesta mesma música, temos um dos  elementos que mais vão surgindo nas letras: o erotismo e a devoção à  figura feminina. Um contraste acentuado se olharmos para o primeiro  trabalho da banda, mas que ganhou grande relevância em <strong>October Rust</strong>.  Além da mencionada música, baladas como (não tanto por o serem, mas  sobretudo pelas letras) como <em>Love You To Death</em> ou <em>Die With Me</em> mostram igualmente esta nova abordagem. A figura feminina é, aliás, a  grande fonte de inspiração de <strong>Steele</strong> para a componente lírica do  trabalho visto que, das mais variadas formas (mais sérias ou mais  humorísticas), a temática vai sempre surgindo e devido às desventuras de <strong>Steele</strong> com antigas paixões (aliás, o álbum é dedicado à  ex-namorada <strong>Elizabeth</strong> que também surge no vídeo de <em>Love You To  Death</em>) se torna no elemento que mais provoca e inspira o sentimento  melancólico que percorre todo o álbum.<br
/> É verdade que as letras centram-se fundamentalmente na temática já  enunciada, mas temos ainda músicas muito mais fúnebres como <em>Red Water  (Christmas Mourning)</em> que descreve o sentimento de perder um ente  querido. <strong>Steele</strong> aborda a questão de forma quase &#8220;infantil&#8221;, mas  de forma brutalmente real e quotidiana:</p><p
style="text-align: justify;"><em>My tables been set for but seven,<br
/> just last year I dined with eleven.</em></p><p
style="text-align: justify;">Da mesma forma, que quase surge inconscientemente e com uma leve  ponta de humor, surge a letra existencialista de <em>Green Man</em> (o  nome é referência directa à cor dos uniformes usados por <strong>Peter Steele</strong> quando trabalhava nos parques públicos de Nova Iorque), que acaba por  resumir um pouco todo o conjunto de emoções melancólicas transmitidas  pela música e letras do álbum, sendo simultaneamente a melhor letra do  álbum:</p><p
style="text-align: justify;"><em>Sol in prime sweet summertime,<br
/> Cast shadows of doubt on my face.</em></p><p
style="text-align: justify;"><em>A midday sun, its caustic hues,<br
/> Refracting within the still lake.</em></p><p
style="text-align: justify;">Sendo um álbum com uma coesão e compatibilidade (características que  não equivalem a repetição ou aborrecimento) e sendo o sentimento geral  maior do que a soma das (excelentes) partes que o constituem, torna-se  complicado destacar algum momento. Porventura músicas como <em>Love You  To Death</em>, <em>Green Man</em> e <em>Wolf Moon (Including Zoanthropic  Paranoia)</em>, pela forma como estão notavelmente compostas, surgem como  alguns dos temas mais representativos da majestosidade de <strong>October  Rust</strong>, mas são insuficientes para perceber a qualidade do álbum como  um todo. Mesmo uma referência à arrepiante <em>Die With Me</em> (que  pessoalmente considero o melhor momento do álbum) seria injusta se não  enquadrada com tudo o que o trabalho representa e atinge&#8230;</p><div
style="text-align: center;"><strong>Conclusão</strong></div><div
style="text-align: justify;">Em <strong>October Rust</strong> as influências externas foram bastante mais deixadas  de lado (pelo menos directamente) e caminhou-se numa direcção mais  homogénea. Não querendo com isto dizer que a diversidade vincada que  pautava os trabalhos anteriores era um factor negativo (muito pelo  contrário), a direcção mais clara do álbum beneficia o resultado final  sem o tornar excessivamente formulado ou previsível.</div><p
style="text-align: justify;"><strong>October Rust</strong> surge, ironicamente, como um momento de definição  para <strong>Type O Negative</strong>. Ironicamente porque sendo uma obra de  retracto emocional de um conceito específico, abrange sensibilidades que  não costumam estar associadas a momentos de segurança (mesmo para a  definição do som de uma banda). É talvez este sentimento de  vulnerabilidade que percorre a obra em tons de melancolia que a tornam &#8211;  juntamente com a enorme qualidade de execução &#8211; tão apelativa e  essencial (um clássico pode-se até dizer, alargando o sentido do termo)  dentro do estilo em que se insere.</p><div
style="text-align: center;"><strong>PhiLiz</strong></div><div
style="text-align: center;"><strong>Originalmente    escrito em:</strong></div><div
style="text-align: center;"><a
href="http://philiz.wordpress.com/2009/11/16/typeonegative-octoberrust"><strong>PhiLiz   @ WordPress</strong></a></div></div> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://ruidosonoro.com/2010/06/26/type-o-negative-october-rust/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>3</slash:comments> </item> <item><title>Samael &#8211; Ceremony Of Opposites (1994)</title><link>http://ruidosonoro.com/2010/06/22/samael-ceremony-of-opposites-1994/</link> <comments>http://ruidosonoro.com/2010/06/22/samael-ceremony-of-opposites-1994/#comments</comments> <pubDate>Tue, 22 Jun 2010 18:26:54 +0000</pubDate> <dc:creator>PhiLiz</dc:creator> <category><![CDATA[Reviews]]></category> <category><![CDATA[Ceremony Of Opposites]]></category> <category><![CDATA[Samael]]></category><guid
isPermaLink="false">http://ruidosonoro.com/?p=1989</guid> <description><![CDATA[Introdução Se há palavra que pode definir genérica mas precisamente a carreira de Samael (formados em 1987), essa palavra é mutação. Não fazendo sequer uma incursão ao que foi lançado pela banda depois de Ceremony Of Opposites (uma vez que ai a mudança é drástica e facilmente verificável) e sendo a análise apenas em relação [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<div
style="text-align: center;"><strong>Introdução</strong></div><div
style="text-align: justify;">Se há palavra que pode definir genérica mas precisamente a carreira  de <strong>Samael</strong> (formados em 1987), essa palavra é mutação. Não fazendo  sequer uma incursão ao que foi lançado pela banda depois de <strong>Ceremony  Of Opposites</strong> (uma vez que ai a mudança é drástica e facilmente  verificável) e sendo a análise apenas em relação aos primeiros tempos do  conjunto suíço, existe uma clara intenção de experimentar (esta  característica manteve-se e acentuou-se bastante nos anos que se  seguiram a 1994) novas coisas e expandir o universo musical do grupo com  elementos anteriormente não incorporados.</div><div
style="text-align: justify;"><p
style="text-align: justify;">Para se perceber esta dinâmica &#8220;mutante&#8221; é preciso olhar para os dois  álbuns anteriores da banda. Nada mais nada menos que <strong>Worship Him</strong> e <strong>Blood Ritual</strong> de 1991 e 1992, respectivamente. Não estamos  perante dois trabalhos vulgares. Numa altura em que uma verdadeira  revolução se dava a uns bons milhares de quilómetros do território suíço  (na Noruega, claro), estes dois trabalhos tornaram-se verdadeiros  clássicos do que mais tarde se viria a chamar Segunda Vaga de <strong>Black  Metal</strong>. Expandindo o que os conterrâneos <strong>Hellhammer</strong> e <strong>Celtic  Frost</strong> (entre outros, claro) haviam feito nos anos 80, os dois  primeiros álbuns de <strong>Samael</strong> tornaram-se verdadeiros clássicos do <strong>Black  Metal</strong> moderno. O mais surpreendente (uma vez que são álbuns  habitualmente prezados de forma mais ou menos igualitária) é que são  dois trabalhos que em si já encerram algumas diferenças: <strong>Worship Him</strong> tem bastantes variações entre os tempos rápidos (seja nos riffs, seja  na bateria) e algumas passagens mais atmosféricas enquanto que <strong>Blood  Ritual</strong> acentua a toada lenta sem nunca perder o som poderoso e  ritualístico da banda. Atendendo a este historial é possível antever  mais uma mudança em <strong>Samael</strong> ainda que sempre dentro do prisma do <strong>Black  Metal</strong> (isto falando apenas o que foi feito imediatamente a seguir  com <strong>Ceremony Of Opposites</strong>, entenda-se).</p><p
style="text-align: justify;">Na verdade, <strong>Ceremony Of Opposites</strong> é porventura o último  trabalho da banda associado ao que se pode de alguma forma chamar <strong>Black  Metal</strong> &#8220;tradicional&#8221;. Seguindo as pisadas de constante mudança  sonora de outra (já mencionada) banda suíça, os seminais <strong>Celtic Frost</strong> (embora por caminhos totalmente diferentes dos seguidos pela banda de <strong>Tom  G. Warrior</strong>), os <strong>Samael</strong> enveredaram, após <strong>Ceremony Of  Opposites</strong>, por caminhos mais ligados ao som <strong>Industrial</strong> (direcção que de alguma forma pode ser vislumbrada neste trabalho de  1994) e maximizaram ainda mais o carácter experimental e ecléctico da  banda.<br
/> Este facto (ser o último trabalho mais ligado ao <strong>BM</strong> de <strong>Samael</strong>)  não é por si só razão suficiente para uma atenção especial ao álbum  (essas serão descritas na análise ao álbum) mas do ponto de vista do  exame evolutivo de uma das bandas pioneiras da Segunda Vaga de <strong>Black  Metal</strong> (ainda antes de alguns dos grandes lançamentos da cena  norueguesa) torna-se essencial compreender este trabalho da banda em  toda a sua plenitude.</p><p
style="text-align: center;"><strong>Alinhamento</strong><br
/> 01 &#8211; Black Trip<br
/> 02 &#8211; Celebration Of The Fourth<br
/> 03 &#8211; Son Of Earth<br
/> 04 &#8211; &#8216;Till We Meet Again<br
/> 05 &#8211; Mask Of The Red Death<br
/> 06 &#8211; Baphomet&#8217;s Throne<br
/> 07 &#8211; Flagellation<br
/> 08 &#8211; Crown<br
/> 09 &#8211; To Our Martyrs<br
/> 10 &#8211; Ceremony Of Opposites</p><p
style="text-align: center;"><strong>Ano </strong>1994</p><p
style="text-align: center;"><strong>Editora </strong>Century Media</p><p
style="text-align: center;"><strong>Faixa Favorita </strong>04 &#8211; &#8216;Till We Meet Again</p><p
style="text-align: center;"><strong>Género </strong>Black Metal</p><p
style="text-align: center;"><strong>País </strong>Suiça</p><p
style="text-align: center;"><strong>Banda</strong><br
/> Masmiseim &#8211; Baixo<br
/> Rodolphe H. &#8211; Teclado<br
/> Vorphalack &#8211; Guitarra, Voz<br
/> Xytras (Christophe Mermod) &#8211; Bateria</p><p
style="text-align: center;"><img
class="aligncenter" src="http://img122.imageshack.us/img122/6425/000ue4.jpg" border="0" alt="" width="350" height="231" /></p><div
style="text-align: center;"><strong>Review</strong></div><div
style="text-align: justify;">Aquando de um contacto inicial com <strong>Ceremony Of Opposites</strong> há a  constatação de duas ideias antagónicas: por um lado é indubitavelmente  um álbum de <strong>Black Metal</strong>, mas por outro lado estamos perante uma  execução dentro do estilo &#8220;sui generis&#8221; e que foge a muito dos &#8220;padrões  instituídos&#8221; para se praticar bom <strong>BM</strong>. Um &#8220;je ne sais quoi&#8221; de  diferente em relação ao que costuma ser o som mais comum dentro do  género.</div><div
style="text-align: center;"><p
style="text-align: justify;">Penso que isto pode ser explicado por diversos factores mas em termos  gerais percebe-se uma aproximação a alguns géneros fora do <strong>Black  Metal</strong> como seja o <strong>Industrial</strong>. Obviamente que isto não quer  dizer que estejamos perante um trabalho de <strong>Industrial Black</strong>,  longe disso. Fazer tal observação seria incorrer num erro de observação  (ou de audição se assim for preferido) por exagero. O que se nota é a  utilização subtil de alguns elementos que lhe dão uma roupagem diferente  dentro do <strong>BM</strong> mas que não o afastam da linha condutora do género.  Em momento algum se ouve algo que não seja BM em <strong>Ceremony Of  Opposites</strong>.<br
/> Refiro-me sobretudo à forma como a bateria e os teclados (que muitas  vezes utilizam samples) estão misturados e produzidos ou a forma como um  dos elementos mais fortes do álbum (os riffs e todo o trabalho de  guitarra em geral) é executado, não recorrendo ao habitual tremolo  picking mas sim a riffs arrastados e não raras vezes lentos. Por último,  em relação a este aspecto do trabalho isto há que destacar também a  produção que confere um efeito maquinal e &#8220;industrializado&#8221; às músicas.<br
/> Para sintetizar o porquê deste efeito de estranheza pode-se dizer que a  banda arranjou uma maneira interessante e eficaz de integrar diferentes  influências sem no entanto por em causa a essência que, por exemplo, <strong>Worship  Him</strong> e <strong>Blood Ritual</strong> encerram.</p><p
style="text-align: justify;">Referi a bateria como um dos motores da forma peculiar como o álbum  se movimenta dentro do <strong>BM</strong> mas é muito mais que isso. A forma  infernal como <strong>Xytras</strong> (enorme baterista) se apresenta é um dos  grandes destaques do álbum. O poder que emana da percussão do álbum é  enorme e por si só digno de registo mas o mais fantástico é a maneira  como a bateria soa grandiosa e energética mesmo sendo maioritariamente  executada em tempos médios.<br
/> Num dos clássicos saídos deste álbum &#8211; <em>Baphomet&#8217;s Throne</em> &#8211; a  intensidade e energia que são imensas mas o tempo nunca acelera muito.  No entanto, a bateria (juntamente com os teclados) dá uma grandiosidade e  acutilância que fazem a faixa sobressair.<br
/> Além de eficaz e poderoso, o trabalho de <strong>Xytras</strong> caracteriza-se  pela sua complexidade e variação. Os tempos são geralmente lentos  (sobretudo se comparados com algumas propostas dentro do <strong>Black Metal</strong>)  mas existem momentos mais rápidos como nalgumas secções de <em>Flagellation</em> e no geral o trabalho é sempre bastante variado. Desde os ocasionais  (ainda que raros) blast beats, até aos tempos mais lentos (que  acompanham os riffs igualmente menos acelerados como superiormente  demonstrado em <em>&#8216;Till We Meet Again</em>) passando pelas introduções em  jeito de marcha imperial (como na faixa-título), o trabalho é  simplesmente perfeito para criar uma atmosfera quase épica mas acima de  tudo muito poderosa e&#8230; cerimonial.</p><p
style="text-align: justify;">A complementar na perfeição o que é criado pela bateria estão os  teclados. Neste departamento há uma combinação inteligente entre o uso  de teclados sombrios e as samples que durante todo o trabalho se vão  ouvindo com alguma frequência. Seja a enfatizar a vibração misteriosa  criada pela execução relativamente lenta dos outros instrumentos ou  simplesmente a adicionar novas atmosferas aos temas, os teclados têm um  papel bastante evidente e importante na condução das músicas.<br
/> Não são usados com enorme frequência (até porque um exagero ou um mau  uso deste elemento pode tornar-se fatal para um álbum de <strong>BM</strong> como  já foi muitas vezes provado) mas aparecem quase sempre em cada faixa. A  incursão já referida por caminhos mais virados para o <strong>Industrial</strong> tem a sua consubstanciação nos teclados e sobretudo no uso de samples.  Faixas como <em>Flagellation</em> perderiam todo o seu ambiente mecanizado  se os teclados estivessem ausentes ou porventura usados doutra maneira.  Da mesma forma, o uso de samples insere subtilmente (aliás, os teclados  resultam bem precisamente porque são usados cirurgicamente) outras  texturas a momentos mais atmosféricos como é o caso da última faixa <em>Ceremony  Of Opposites</em>.</p><p
style="text-align: justify;">Um ponto comum a todo o álbum, mas que em relação ao uso dos teclados  se torna ainda mais evidente, é a forma como a composição está  elaborada e cuidada. Nada parece ser prolongado por demasiado tempo ou  acabar cedo demais. Veja-se, para exemplificar este aspecto, a quinta  faixa <em>Mask Of The Red Death</em> onde o acompanhamento dos teclados  aos riffs é evidente e como inteligentemente toma conta da música antes  de se tornar, de novo, numa parte que enfatiza o trabalho de guitarra e  baixo&#8230; tudo pensado e executado ao pormenor para não parecer demasiado  forçado ou enfadonho.</p><p
style="text-align: justify;">Como não poderia deixar de ser esta última característica que  descrevi estende-se ao que é provavelmente o elemento mais importante na  condução instrumental do álbum: a guitarra de <strong>Vorphalack</strong>. Os  riffs de guitarra que dominam o álbum são variados, apresentam-se sempre  bastante originais e&#8230; têm um groove fenomenal. Apesar de não ser um  termo conotado com o <strong>Black Metal</strong> (de todo) não há outra forma de  denominar aquilo que invade todo o álbum e compreende-se precisamente  porque este não é um <strong>Worship Him</strong>. Ouça-se o início de <em>Black  Trip</em> e percebe-se que há um groove muito próprio em todo o trabalho  de guitarra. Escusado será dizer que não é um som comparável ao que  geralmente mais está associado com o termo groove&#8230;<br
/> Na realidade, o que temos neste campo é um som muito próprio criado  pelas guitarras brutalmente distorcidas que inundam o álbum. Vamos desde  as progressões que criam uma atmosfera densa e negra até aos momentos  mais melódicos nalguns refrões (a faixa <em>Son Of Earth</em> é  paradigmática deste aspecto) ou simplesmente aos riffs destruidores que  acompanham a toada mais maquinal da secção rítmica.<br
/> Embora os riffs sejam claramente compostos no horizonte do <strong>Black  Metal</strong>, é possível reconhecer algumas influências de outras formas  extremas de <strong>Metal</strong> como o <strong>Death Metal</strong> nomeadamente quando  se ouvem alguns momentos mais melódicos. Não é algo que seja muito  evidente porque a produção, distorção e colocação dos riffs é muito  ligada ao <strong>BM</strong> mas o tal groove que se ouve é muitas vezes devido a  estes sons mais próximos do <strong>DM</strong>.<br
/> Para completar todo este panorama há que salientar um dos aspectos que  torna este trabalho tão fluído e bem construído: o quão &#8220;catchy&#8221; é todo o  trabalho de guitarra. Para além do som de guitarra ser facilmente  relembrado, muitos dos riffs são memoráveis e resultam na perfeição.  Assim se compreende que tenham saído deste álbum muitos clássicos da  banda como <em>Baphomet&#8217;s Throne</em>, <em>Black Trip</em> ou <em>Son Of  Earth</em>.</p><p
style="text-align: justify;">A acompanhar a guitarra temos o baixo que apresenta muitas  características que se podem verificar na guitarra. A distorção confere à  execução de <strong>Masmiseim</strong> uma enorme relevância, seja a acompanhar  as guitarras nos momentos mais pesados, seja a preencher o som de forma  ainda mais intensa.<br
/> No entanto, o baixo (sempre perfeitamente audível) faz mais do que  simplesmente &#8220;completar&#8221; o que vai sendo feito pelo resto dos  instrumentos como se pode notar em <em>Mask Of The Red Death</em>. Embora  pontuais existem momentos em que <strong>Masmiseim</strong> se destaca mais e  torna o ataque sonoro ainda mais acutilante e variado.</p><p
style="text-align: justify;">Para agregar toda esta potência temos, claro, a voz de <strong>Vorphalack</strong>.  Num gutural poderoso e que dá o toque final a toda a energia do  instrumental, <strong>Vorphalack</strong> espalha no álbum uma agressão genuína e  acaba por se tornar num dos elementos que mais se destaca.<br
/> Sempre num registo muito semelhante, a voz de <strong>Vorphalack</strong> é  profunda mas mantém a rispidez que caracteriza os vocais do <strong>Black  Metal</strong>. A forma como a voz consegue ser preponderante face a um  registo instrumental tão poderoso (que requer uma voz igualmente  poderosa para resultar bem) é um mérito da produção mas também da forma  como <strong>Vorphalack</strong> aborda a questão da colocação de voz. Mais do que  uma vocalização musical temos um registo quase recitado em que o  vocalista vai declamando as (excelentes) letras como se de ensinamentos  se tratassem. Isto resulta muito bem: quer do ponto de vista musical  pela forma como se conjuga com tudo resto, quer pela forma como se  integra com a idiossincrasia das próprias letras. Cria-se assim uma  atmosfera que está em consonância com o nome do álbum: uma verdadeira  cerimónia.</p><p
style="text-align: justify;">Em relação à parte lírica esta é na maior parte das vezes excelente.  Digo na maior parte das vezes e não sempre porque existem (muito poucos)  momentos que caem demasiado nos clichés ou não resultam porque a  linguagem agressiva se torna demasiado absurda. <em>Son Of Earth</em> ou <em>To  Our Martyrs</em> sofrem deste mal, não obstante a primeira ser uma das  melhores faixas do álbum. Contudo, estes pequenos &#8220;acidentes&#8221; não devem  ofuscar todo o restante conteúdo lírico que é de elevada qualidade. As  letras que lidam com os temas religiosos do ponto de vista filosófico  fazem-no de uma perspectiva mais ateísta que nos álbuns anteriores (<strong>Worship  Him</strong> é auto-esclarecedor) embora ainda se verifiquem referências  mais viradas para o Satanismo (apenas na sua vertente mais teísta,  ressalve-se). Algumas temáticas como o sofrimento pessoal (aqui visto de  uma forma guerreira e não como forma de auto-comiseração) também são  abordadas de forma inteligente como se pode verificar em <em>Crown</em>: &#8220;<em>Into  pain, I exist/And if my brain is numbed/The thorn in my flesh/Can  overcome apathy</em>&#8220;.</p><p
style="text-align: justify;">Todos os elementos descritos anteriormente acabam por estar em cada  uma das faixas. No entanto, é raro as &#8220;peças&#8221; estarem dispostas da mesma  maneira o que providencia uma dinâmica que permite ao álbum uma  longevidade maior sem se tornar demasiado formatado.<br
/> A produção também ajuda na forma como o álbum não se esgota: sendo (a  produção) bastante polida ajuda a ir descobrindo novos detalhes em cada  faixa e torna o álbum &#8220;agradável&#8221; (com as ressalvas em relação ao gosto  de cada um pela banda e género em questão) de ouvir ainda para mais  quando este tem verdadeiros hinos de <strong>BM</strong> como: <em>Black Trip</em>, <em>Baphomet&#8217;s  Throne</em>, <em>&#8216;Till We Meet Again</em> (melhor faixa do álbum) ou a  faixa-título cujos teclados finais encerram na perfeição esta  &#8220;cerimónia&#8221;.</p><div
style="text-align: center;"><strong>Conclusão</strong></div><div
style="text-align: justify;">Os <strong>Samael</strong> nunca foram uma banda convencional. Mesmo nos tempos  de <strong>Worship Him</strong> ou <strong>Blood Ritual</strong> os ritmos eram mais  contidos e dava-se mais ênfase à atmosfera e negritude imprimidas nas  faixas. Com <strong>Ceremony Of Opposites</strong> os suíços dão um passo em  frente na exploração de novas texturas embora nesta proposta de 1994  ainda tenham muito do que os fez inicialmente destacar-se.</div><p
style="text-align: justify;"><strong>Ceremony Of Opposites</strong> é um dos melhores trabalhos de <strong>BM</strong> saídos de 1994 (o melhor será provavelmente um tal de <strong>De Mysteriis  Dom Sathanas</strong>), mas acima de tudo uma forte proposta de <strong>BM</strong> (a  última completamente associada ao género por parte da banda) cheia de  inteligência e intencionalidade que &#8220;usa&#8221; elementos estranhos ao <strong>Black  Metal</strong> para engrandecer o género.</p><div
style="text-align: center;"><strong>PhiLiz</strong></div><div
style="text-align: center;"><strong>Originalmente   escrito em:</strong></div><div
style="text-align: center;"><a
href="http://philiz.wordpress.com/2009/11/16/samael-ceremonyofopposites"><strong>PhiLiz  @ WordPress</strong></a></div></div></div> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://ruidosonoro.com/2010/06/22/samael-ceremony-of-opposites-1994/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>2</slash:comments> </item> <item><title>Judas Iscariot – The Cold Earth Slept Below… (1996)</title><link>http://ruidosonoro.com/2010/05/27/judas-iscariot-the-cold-earth-slept-below/</link> <comments>http://ruidosonoro.com/2010/05/27/judas-iscariot-the-cold-earth-slept-below/#comments</comments> <pubDate>Thu, 27 May 2010 20:16:41 +0000</pubDate> <dc:creator>PhiLiz</dc:creator> <category><![CDATA[Reviews]]></category> <category><![CDATA[Judas Iscariot]]></category> <category><![CDATA[The Cold Earth Slept Below…]]></category><guid
isPermaLink="false">http://ruidosonoro.com/?p=1945</guid> <description><![CDATA[Introdução Em 1995, a sigla USBM, a ser utilizada, seria uma vazia agregação alfabética sem qualquer consubstanciação musical. Não apenas enquanto ideia colectiva de hipotético movimento musical, mas também porque encontrar, no início dos anos 90, bandas norte-americanas a praticar Black Metal (sem influências exógenas demasiado evidentes, nomeadamente de Thrash e Death Metal) era uma [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<div
style="text-align: center;"><strong>Introdução</strong></div><div
style="text-align: justify;">Em 1995, a sigla USBM, a ser utilizada, seria uma vazia agregação alfabética sem qualquer consubstanciação musical. Não apenas enquanto ideia colectiva de hipotético movimento musical, mas também porque encontrar, no início dos anos 90, bandas norte-americanas a praticar Black Metal (sem influências exógenas demasiado evidentes, nomeadamente de <strong>Thrash</strong> e <strong>Death Metal</strong>) era uma tarefa exequível &#8211; desde os anos 80 existiam bandas pequenas com um som ainda mais sujo que <strong>Venom</strong> como <strong>N.M.E.</strong>, por exemplo &#8211; mas extremamente complicada.</div><div
style="text-align: justify;">Há a famosa imagem de <strong>Varg Vikernes</strong> a usar uma t-shirt de <strong>Von</strong> no julgamento do homicídio de <strong>Euronymous</strong> e de facto esta era uma das poucas bandas a praticar este estilo, cujo contexto e origem, é demarcadamente europeu. No entanto, mesmo <strong>Von</strong> tinha um som ligeiramente diferente, muito mais ligado ligado à brutalidade e velocidade e menos à atmosfera (principal característica distintiva do <strong>Black Metal</strong> que se fazia na Europa).<br
/> Só mais tarde é que surgem bandas como <strong>Krieg</strong> (mais tarde e não surpreendentemente membros desta banda haveriam de tocar como músicos convidados em <strong>JI</strong>) e <strong>Black Funeral</strong> a praticarem um estilo próximo do ia sendo feito na Noruega. No entanto, tanto <strong>Krieg</strong> como <strong>Black Funeral</strong> só surgem em 1995 e 1993, respectivamente, isto é, um pouco mais tarde que <strong>JI</strong> que inicia as suas actividades em 1992.</p><p>Assim sendo, <strong>The Cold Earth Slept Below&#8230;</strong> surge como uma das primeiras demonstrações de (puro) <strong>BM</strong> norte-americano a ter alguma relevância na cena mundial. Fruto da insistência do fundador e único membro fixo da banda <strong>Andrew Jay Harris</strong>, mais conhecido pelo seu pseudónimo <strong>Akhenaten</strong>. À semelhança de grandes nomes do estilo, <strong>Judas Iscariot</strong> foi predominantemente uma &#8220;one-man band&#8221;. O uso do pretérito deve-se ao facto de <strong>JI</strong> ter cessado as suas actividades em 2002&#8230; mais concretamente a 25 de Agosto desse mesmo ano. Neste caso o dia e mês são bastante importantes para perceber a ideologia por detrás do projecto: <strong>Judas Iscariot</strong> acabou 102 anos depois da morte do filósofo que mais influenciou o seu mentor, ou seja, <strong>Friedrich Nietzsche</strong>.</p><p>Indivíduo com formação académica na área da Sociologia, <strong>Harris</strong> sempre se pautou pela integridade que incutida ao projecto, quer a nível ideológico (com persistentes ataques niilistas às religiões organizadas sendo o Cristianismo o foco particular), quer a nível artístico. Exemplo disso é a <a
href="http://www.anonym.to/?http://judasiscariot.no.sapo.pt/statement.htm" target="_blank">declaração</a> que explica o fim da banda após 10 anos em actividade.<br
/> <strong>The Cold Earth Slept Below&#8230;</strong> mostra o lado mais primitivo e frio da perseverante luta de <strong>Akhenaten</strong> contra a moral cristã através da sistemática desconstrução niilista aqui traduzida em ódio sonoro.</p></div><p
style="text-align: center;"><strong>Alinhamento</strong><br
/> 01 &#8211; Damned Below Judas<br
/> 02 &#8211; Wrath<br
/> 03 &#8211; Babylon<br
/> 04 &#8211; The Cold Earth Slept Below<br
/> 05 &#8211; Midnight Frost<br
/> 06 &#8211; Ye Blessed Creatures<br
/> 07 &#8211; Reign<br
/> 08 &#8211; Fidelity<br
/> 09 &#8211; Nietzsche</p><p
style="text-align: center;"><strong>Ano</strong> 1996</p><p
style="text-align: center;"><strong>Editora</strong> Moribund Records</p><p
style="text-align: center;"><strong>Género</strong> Black Metal</p><p
style="text-align: center;"><strong>País</strong> EUA</p><p
style="text-align: center;"><strong>Banda</strong><br
/> Akhenaten (Andrew Jay Harris) &#8211; Todos os Instrumentos e Voz</p><p
style="text-align: center;"><a
href="http://ruidosonoro.com/wp-content/uploads/2010/05/915photose3.jpg" rel="lightbox[1945]" title="915photose3"><img
class="aligncenter size-full wp-image-1961" title="915photose3" src="http://ruidosonoro.com/wp-content/uploads/2010/05/915photose3.jpg" alt="" width="216" height="320" /></a></p><div
style="text-align: center;"><strong>Review</strong></div><div
style="text-align: justify;">Por motivos de honestidade analítica há que dizer logo no início e  muito claramente que o <strong>Black Metal</strong> de <strong>Judas Iscariot</strong> não é  exactamente o que poderíamos chamar de singular. Mesmo atendendo ao ano  em que foi lançado, <strong>The Cold Earth Slept Below&#8230;</strong> já denota  muitas influências do que outros nomes tinham feito antes.Neste aspecto surge, de forma algo natural, a referência a <strong>Darkthrone</strong>.  Em 1996 já tinham sido lançados trabalhos como o <strong>A Blaze In The  Northern Sky</strong> e <strong>Transilvanian Hunger</strong>, e este trabalho de <strong>JI</strong> vai buscar vários elementos a esses dois marcos do <strong>Black Metal</strong> moderno.</p><p>Não obstante o primeiro álbum de estúdio de <strong>Judas Iscariot</strong> caminhar em terreno já conhecido, <strong>Akhenaten</strong> consegue fazer uma  interpretação bastante interessante do que havia sido desbravado até  então. Não havendo propriamente inovação a nível musical (nem é esse o  objectivo de <strong>Harris</strong>), a unicidade de <strong>TCESB</strong> advém da  atmosfera transmitida. O sentimento niilista é muito forte, não só  devido ao conteúdo lírico ou à abordagem vocal, mas porque toda a  obscuridade do álbum remete para uma ideia de profundo anti-conformismo  para com o mundo envolvente. Se existem semelhanças musicais mais ou  menos evidentes com nomes predecessores a <strong>JI</strong> (<strong>Darkthrone</strong>,  por exemplo), a atmosfera criada é bastante única, quer pelo extremismo  da mesma, quer pela forma como as variações (não sendo exactamente  original, é um trabalho que varia bastante embora sempre dentro do  espectro do <strong>Black Metal</strong>) vão mantendo sempre o mesmo nível de  intensidade.</p><p>A música de <strong>Judas Iscariot</strong> (não somente neste álbum)  reveste-se de uma complexidade conceptual que contrasta com a abordagem  puramente musical que pode ser ouvida em <strong>The Cold Earth Slept Below</strong> que é substancialmente mais simples. Está claro de ver que a intenção  de <strong>Akhenaten</strong> não era fazer um álbum tecnicamente complexo, pelo  que a questão não se põe em termos de capacidade, mas é interessante  olhá-la numa perspectiva contrastante que maximiza o efeito pretendido.<br
/> Abordando a produção do álbum é possível vislumbrar esta simbiose: o  conteúdo filosófico inerente é na sua génese extremo, quer em  complexidade quer em valores (ou se se preferir, na falta dos mesmos&#8230;)  e a produção bastante minimalista e crua acentua esta mesma atmosfera,  fazendo com que o trabalho seja fiel retratador a escrita aforística e  poderosa de Nietzsche, a grande inspiração ideológica do projecto. O  mundo das ideias (complexo) e o mundo musical (simples) unem-se sob o  signo do extremismo da mensagem: a comunicação é cruamente poderosa mas a  mensagem assume-se como ambiciosamente complexa.</p><p>A produção rude e (propositadamente) pouco &#8220;trabalhada&#8221; (ou  trabalhada exactamente para parecer pouco cuidada&#8230;) não mascara  algumas passagens mais turbulentas no que diz respeito a um elemento do  álbum: a bateria. Se na maioria das vezes a repetição ajuda apenas a  manter a atmosfera do álbum, quando se dão algumas passagens mais  velozes ou há uma tentativa de imprimir outras dinâmicas, nota-se alguma  falta de experiência e habilidade. Não sendo expectável (ou mesmo  recomendável) um trabalho de grande perfeccionismo, algumas falhas  notam-se um pouco mais do que o devido. Até neste caso (que não é  positivo, diga-se claramente) a integridade musical de <strong>Harris</strong> é  denotada, sendo que seria porventura mais &#8220;fácil&#8221; substituir a bateria  real por uma qualquer caixa de ritmos.<br
/> No entanto, as pequenas (mas evidentes) falhas na bateria não afectam  todo o sentimento geral que o álbum emana pelo que não deve ser visto  como algo castrador da fluidez do trabalho. Até porque a bateria surge  apenas, como já tinha referido, para dar relevo à atmosfera violenta e  odioso de <strong>The Cold Earth Slept Below</strong> e nesse campo não se podem  apontar quaisquer lacunas.</p><p>Num plano de bastante maior destaque que a bateria (e que o baixo que  é inaudível) encontram-se as estridentes e cortantes guitarras que  atravessam todo o álbum. O trabalho é maioritariamente assente em riffs  gélidos repetidos várias vezes durante as musicas. O trabalho é simples,  mas é possível escutar uma grande variedade no mesmo: existem momentos  de <strong>Black Metal</strong> mais furioso (remanescente do trabalho de <strong>Darkthrone</strong> em <strong>Transilvanian Hunger</strong>) como é o caso de <em>Damned Below Judas</em>;  passagens mais lentas e com riffs épicos, algo que pode ser encontrado  na faixa-título; melodias atmosféricas com um efeito altamente  hipnotizante que pode ser ouvidas, por exemplo em <em>Babylon</em>.<br
/> O interessante neste aspecto é o facto de quase todas as músicas  apresentarem esta diversidade. Não pela mesma ordem nem seguindo sempre o  mesmo padrão, o que tornaria a escuta monótona rapidamente, mas várias  faixas têm as variações descritas e apesar de pintarem uma paisagem  bastante monocromática, fazem-no de uma maneira bastante interessante. <em>Fidelity</em> &#8211; uma das melhores faixas do álbum, diga-se &#8211; é um dos bons exemplos  deste aspecto que <strong>The Cold Earth Slept Below</strong> apresenta, indo dos  caóticos às melodias soturnas e mais lentas.</p><p>Com as guitarras a conduzir, o álbum vai-se movimentando em diversos  campos dentro do <strong>Black Metal</strong> com o objectivo de criar uma  atmosfera desoladora e vazia em consonância com a filosofia niilista  seguida por <strong>Akhenaten</strong>, onde se constata a falta de valor ou  propósito da existência (humana). De facto, esse é o sentimento que  enche e percorre o álbum. Mesmo não sendo possível o acesso às letras  (tudo o que se pode perceber é através de audição directa), o sentimento  de invasão por parte de um enorme vácuo é a mais perceptível  característica dos quase quarenta e quatro minutos que compõe o álbum.<br
/> Contudo, não se pense que este efeito é atingido calmamente. Como  mencionado, existem momentos mais lentos e arrastados, mas a incursão  pelo lado mais rápido e agressivo do <strong>Black Metal</strong> está bem  presente e o ódio surge como transporte precisamente para a desolação.  Atente-se logo ao início do trabalho com <em>Damned Below Judas</em> onde a  primeira palavra vociferada é precisamente: <em>Hatred</em>. Uma  declaração de intenções bem directa logo nos primeiros segundos do  álbum.</p><p>Para completar o ambiente geral do álbum, temos a voz de <strong>Harris</strong>.  As vocalizações são bastante típicas do género (arriscaria até dizer  que este é o padrão de voz para o <strong>Black Metal</strong> moderno): guturais  poderosos que, por se encontrarem um pouco enterrados na produção, têm  um som abafado e distante, o que enfatiza a atmosfera odiosa e cinzenta  do álbum. Não sendo exactamente originais (são bastante na linha do que <strong>Nocturno  Culto</strong> já fazia em 1996), as vocalizações neste primeiro álbum de <strong>Judas  Iscariot</strong> ganham dimensão e destaque muito maior devido à  sinceridade por emanada por <strong>Akhenaten</strong> e pela forma como se  encaixam nos riffs arrastados (os vocais resultam melhor nas partes  menos rápidas das músicas), criando uma ideia de narração filosófica. A  última faixa do álbum, que tem o sugestivo nome de <em>Nietzche</em>, é o  melhor exemplo do que acabo de referir, nomeadamente devido à entoação  quase profética que os vocais assumem.</p><p
style="text-align: justify;">Todo o trabalho é bastante homogéneo no seu todo. As variações que  referi surgem sobretudo dentro de cada faixa, mas a atmosfera de faixa  para faixa é sensivelmente a mesma. Não se esperava outra coisa e é  precisamente este envolvimento que o trabalho tem que o torna  interessante.<br
/> Como já foi amplamente exposto, não se trata de um trabalho original em  termos estritamente musicais (embora hoje possa soar ainda menos uma vez  que muitas bandas trilharam o mesmo caminho que os antecessores de <strong>JI</strong> ou do próprio projecto norte-americano) pelo que vale fundamentalmente  pela qualidade imprimida ao álbum.<br
/> Neste caso em concreto, a mais valia do álbum é conseguir manter a  qualidade e interesse por dois motivos: por um lado, há uma envolvência  geral muito bem conseguida e que consegue transmitir na perfeição o  sentimento niilista que <strong>Harris</strong> pretende; por outro lado, existem  vários momentos (sejam riffs arrepiantes, passagens melódicas de cortar a  respiração ou simplesmente instantes de <strong>Black Metal</strong> executado  com o sentimento certo) que por si só se tornam verdadeiros hinos e o  melhor é que há muitas alturas em que isso acontece.<br
/> Os momentos arrastados e tenebrosos de <em>Damned Below Judas</em> ou <em>Fidelity</em>,  os riffs bastante inspirados em <em>Babylon</em> ou no riff principal de <em>The  Cold Earth Slept Below</em> e ainda a hipnótica e longa viagem de <em>Nietzsche</em> (tema que de alguma forma se torna no paradigma máximo do trabalho e  porventura do próprio projecto), são (por si só) tudo fantásticas  demonstrações de como deve ser feito <strong>BM</strong>, mas quando integrados  num álbum com a capacidade de proporcionar um efeito de abstracção  exterior para uma maior exploração individualista, tornam-se ainda  melhores e transcendem a qualidade intrínseca que cada uma dessas  demonstrações teria já por si só.</p><div
style="text-align: center;"><strong>Conclusão</strong></div><div>Quando  se fala da cena norueguesa do final dos anos 80 e início dos  anos 90, é  preciso ter em conta que são muitos os álbuns de referência e  ainda  mais aqueles álbuns que são esquecidos, apesar de serem de  elevado  nível. <strong>&#8230;Again Shall Be</strong> está na melhor tradição  qualitativa dos  álbuns de <strong>Black Metal</strong> norueguês da altura (apesar  da sua  abordagem diferente da maioria das bandas). Por ser num estilo  que já  estava cimentado por <strong>Bathory</strong> talvez não tenha o crédito  que  álbuns mais distantes da sonoridade praticada até então e que se   tornaram em autênticos marcos do <strong>BM</strong> moderno. No entanto, isto não   invalida que o primeiro álbum de <strong>Hades</strong> consiga ombrear com   algumas das melhores criações saídas na altura por parte de bandas   norueguesas&#8230; e a &#8220;concorrência&#8221; é bastante grande.</div><p>É  admirável a forma como os jovens músicos de <strong>Hades</strong> se  conseguem  movimentar nas inúmeras influências que têm, criando um álbum  essencial  dentro do <strong>Viking Metal</strong> e paradigmático naquilo que a  cena  norueguesa tinha de melhor: pintar sonoramente a paisagem e  história do  país em questão.</p><div
style="text-align: center;"><strong>PhiLiz</strong></div><div
style="text-align: center;"><strong>Originalmente  escrito em:</strong></div><div
style="text-align: center;"><strong><a
href="http://philiz.wordpress.com/2009/11/16/judasiscariot-thecoldearthsleptbelow">PhiLiz @ WordPress</a></strong></div></div> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://ruidosonoro.com/2010/05/27/judas-iscariot-the-cold-earth-slept-below/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>0</slash:comments> </item> <item><title>Hades &#8211; &#8230;Again Shall Be (1994)</title><link>http://ruidosonoro.com/2010/05/13/hades-again-shall-be-1994/</link> <comments>http://ruidosonoro.com/2010/05/13/hades-again-shall-be-1994/#comments</comments> <pubDate>Wed, 12 May 2010 23:47:10 +0000</pubDate> <dc:creator>PhiLiz</dc:creator> <category><![CDATA[Reviews]]></category> <category><![CDATA[Again Shall Be]]></category> <category><![CDATA[Hades]]></category><guid
isPermaLink="false">http://ruidosonoro.com/?p=1858</guid> <description><![CDATA[Introdução A infame e bem conhecida vaga de Black Metal norueguês que nasceu nos anos 80 e explodiu nos anos 90 permanece como um dos fenómenos mais intrigantes, surpreendentes e polémicos (com especial ênfase para este último aspecto) dentro do universo alargado em que se insere. Pelo meio de todos os acontecimentos mediáticos (e fora [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><a
href="http://ruidosonoro.com/wp-content/uploads/2010/05/hades-again-shall-be-front.jpg" rel="lightbox[1858]" title="hades-again-shall-be-front"><img
class="aligncenter size-full wp-image-1860" title="hades-again-shall-be-front" src="http://ruidosonoro.com/wp-content/uploads/2010/05/hades-again-shall-be-front.jpg" alt="" width="489" height="490" /></a></p><div
style="text-align: center;"><strong>Introdução</strong></div><div
style="text-align: justify;">A infame e bem conhecida vaga de <strong>Black Metal</strong> norueguês que  nasceu nos anos 80 e explodiu nos anos 90 permanece como um dos  fenómenos mais intrigantes, surpreendentes e polémicos (com especial  ênfase para este último aspecto) dentro do universo alargado em que se  insere.</div><p
style="text-align: justify;">Pelo meio de todos os acontecimentos mediáticos (e fora do contexto  musical) surgiram projectos e bandas de importância ímpar para o género,  como é o caso de <strong>Mayhem</strong>, <strong>Burzum</strong>, <strong>Emperor</strong>, <strong>Immortal</strong>, <strong>Darkthrone</strong>, <strong>Thorns</strong>, etc. A inclusão de <strong>Hades</strong> neste  ilustre lote surge um pouco mais tarde (a banda forma-se em 1992, numa  altura em que o movimento já ia numa fase bastante adiantada), mas isso  não impediu a associação de <strong>Hades</strong> em relação à cena norueguesa,  embora os principais trabalhos (incluindo o que está em análise) &#8211; tanto  enquanto <strong>Hades</strong> como depois enquanto <strong>Hades Almighty</strong> uma  vez que a banda mudou o nome em 1999 &#8211; datam de anos em que o movimento  já tinha ultrapassado o seu apogeu.</p><p
style="text-align: justify;">Na verdade, <strong>&#8230;Again Shall Be</strong> é lançado em 1994, já depois de  alguns acontecimentos marcantes perpetuados por alguns membros famosos  de bandas de <strong>Black Metal</strong>: o suicídio de <strong>Dead</strong> em 1991, o  assassínio de <strong>Euronymous</strong> por <strong>Varg</strong> em 1993 ou as inúmeras  igrejas queimadas.<br
/> Este último aspecto assume especial importância na carreira (fora dos  limites musicais, claro) da banda aqui em questão, uma vez que um dos  seus membros fundadores, <strong>Jørn Inge Tunsberg</strong>, foi condenado  (juntamente com <strong>Varg Vikernes</strong>) por fogo posto a uma igreja da  cidade norueguesa de Bergen em 1992, o que lhe valeu uma condenação no  ano a seguir.</p><p
style="text-align: justify;">Não deixa de ser curioso o facto de <strong>Hades</strong> ser uma banda  associada com alguns dos actos mais mediatizados da cena norueguesa, mas  por outro lado nunca ter tido um reconhecimento tão grande como algumas  das bandas de lá saídas. Apenas o factor temporal (como já referido, a  banda forma-se numa fase já avançada do &#8220;movimento&#8221;) pode explicar este  aspecto em relação à banda de Bergen, porque tanto a nível de qualidade  musical como de criatividade, <strong>Hades</strong> (e claro, o álbum aqui a ser  revisto) ombreia com as melhores propostas de <strong>Black Metal</strong> norueguês da altura.</p><p
style="text-align: center;"><strong>Alinhamento</strong><br
/> 01 &#8211; Pagan Triumph<br
/> 02 &#8211; Hecate (Queen Of Hades)<br
/> 03 &#8211; The Ecstacy Of An Astral Journey<br
/> 04 &#8211; An Oath Sworn In Bjorgvin<br
/> 05 &#8211; &#8230;Again It Shall Be<br
/> 06 &#8211; The Spirit Of An Ancient Past<br
/> 07 &#8211; Unholy Congregation<br
/> 08 &#8211; Glorious Again The Northland Shall Become<br
/> 09 &#8211; Be-Witched<br
/> 10 &#8211; In The Moonless Sky</p><p
style="text-align: center;"><strong>Ano</strong> 1994</p><p
style="text-align: center;"><strong>Editora</strong> Full Moon Productions</p><p
style="text-align: center;"><strong>Faixa Favorita</strong> 03 &#8211; The Ecstacy Of An Astral Journey</p><p
style="text-align: center;"><strong>Género</strong> Black/Viking Metal</p><p
style="text-align: center;"><strong>País</strong> Noruega</p><p
style="text-align: center;"><strong>Banda</strong><br
/> Janto Garmanslund &#8211; Baixo, Teclados, Voz<br
/> Jørn Inge Tunsberg &#8211; Guitarra, Teclados<br
/> Stig Hagenes &#8211; Guitarra<br
/> Remi &#8211; Bateria</p><p
style="text-align: center;"><img
class="aligncenter" src="http://img520.imageshack.us/img520/4855/46315photokq3.jpg" alt="" width="255" height="354" /></p><p><strong> </strong></p><div
style="text-align: center;"><strong>Review</strong></div><div
style="text-align: justify;">A música de <strong>Hades</strong> &#8211; para além da qualidade intrínseca da mesma  &#8211; poderia perfeitamente ser um objecto de estudo no que diz respeito a  criar algo bastante surpreendente, pegando na conjuntura que rodeava a  banda e nas influências passadas, de forma bastante improvável e ter um  belo resultado, sem soar pouco coeso ou demasiadamente colado ao que  estava em seu redor.</div><p
style="text-align: justify;">Isto sucede porque genericamente podemos classificar <strong>Hades</strong>, como  uma banda de <strong>Viking Metal</strong> (por muito que o rótulo seja  tradicionalmente pouco dissociado do <strong>Folk Metal</strong>, mas até neste  campo a banda consegue mover-se com mestria) sendo que ao mesmo tempo a  banda também bebe naturalmente daquilo que se passava na Noruega a meio  dos anos 90, pelo que são notórias as influências do <strong>Black Metal</strong> mais gélido e que hoje é visto como o padrão para todo o género, dada a  influência das bandas norueguesas de <strong>Black Metal</strong> mais famosas.</p><p
style="text-align: justify;">O curioso e único em <strong>Hades</strong> (e com ênfase considerável em <strong>&#8230;Again  Shall Be</strong>) vem da forma como as influências são mescladas. Tanto o <strong>Viking  Metal</strong> como o som saído da Noruega nos anos 90 têm primordial e  vital inspiração: <strong>Bathory</strong>. Por um lado, álbuns como <strong>Blood Fire  Death</strong>, <strong>Hammerheart</strong> ou <strong>Twilight Of The Gods</strong> estão na  base do que se chama hoje <strong>Viking Metal</strong>. Por outro lado, trabalhos  como o homónimo <strong>Bathory</strong> ou <strong>Under The Sign Of The Black Mark</strong> iluminaram (ou escureceram) o caminho para o que viria a ser o <strong>Black  Metal</strong> moderno tendo grande impacto (até a nível da morfologia da  criação musical) em compositores futuros como foi o caso de um tal <strong>Varg  Vikernes</strong>&#8230;<br
/> Mais do que perceber o que está em pano de fundo para a criação deste <strong>&#8230;Again  Shall Be</strong> é importante compreender o seguinte: estando a banda  inserida num &#8220;movimento&#8221; que absorve muito do que <strong>Quorthon</strong> fez  nos seus primeiros álbuns, <strong>Hades</strong> escolhe uma via diferente (e  temporalmente mais próxima, visto que a primeira fase <strong>Viking</strong> do  projecto sueco é já no fim dos anos 80 e início da década de 90),  absorvendo da influência óbvia, a parte que seria menos de esperar,  sendo este aspecto uma das principais razões para a abordagem de <strong>Hades</strong> ser bastante única no contexto das bandas de <strong>Black Metal</strong> suas  contemporâneas e conterrâneas.</p><p
style="text-align: justify;">Como toda a envolvência sugere o álbum apresenta-se como uma viagem  ao terreno glaciar norueguês. Todo o trabalho está revestido de uma  áurea gélida que remete para a imponência dos fiordes e para  majestosidade das montanhas cobertas de gelo, dois aspectos que dominam a  paisagem do país,<br
/> Há semelhança do que sucede com álbuns (<strong>In The Nightside Of The  Eclipse</strong>, lançado também em 1994, surge como referência imediata) de  várias das bandas que formavam o núcleo duro do &#8220;movimento&#8221; norueguês o  ambiente do álbum transporta imediatamente o ouvinte para as paisagens  descritas acima e que fazem parte do quotidiano dos membros das bandas  nessa altura.<br
/> Além da recriação geográfica através da música, <strong>&#8230;Again Shall Be</strong> é uma viagem histórica aos tempos da &#8220;Noruega&#8221; viking (evidentemente as  aspas aludem ao facto do estado norueguês da altura ser  substancialmente diferente daquele cimentado no século XX), com uma  sonoridade épica, bélica e remanescente de todo o imaginário pagão que  dominou o território &#8220;norueguês&#8221; a partir do século IX.</p><p
style="text-align: justify;">Todos os elementos do álbum são direccionados na tentativa de recriar  uma ancestralidade épica, recorrendo frequentemente a passagens  acústicas, riffs melódicos, tempos médios e acima de tudo a uma poderosa  atmosfera (esta é de resto a característica que, sendo diferente em  todas as bandas, mais define o <strong>Black Metal</strong> norueguês da altura)  que conduz o álbum de forma grandiosa em quase todos os seus momentos.<br
/> O resultado é bastante homogéneo e o álbum tem grande coesão, muito em  virtude do seu cariz épico e atmosférico que dão uma ideia de  perseverança quase bélica a toda a experiência sonora. No entanto, o  facto do efeito geral ser bastante compacto não faz o álbum cair na  monotonia uma vez que se assiste a uma variedade de recursos  considerável e ao desfilar de pequenos arranjos que vão criando uma  abordagem diferente em cada faixa de <strong>&#8230;Again Shall Be</strong>, embora  sempre dentro de uma sonoridade épica e melódica. Estes últimos traços  são uma constante durante todo o álbum enriquecendo especialmente a  atmosfera geral e tornando o álbum numa experiência sempre bastante  diversificada. A produção ajuda no discernimento destes pormenores,  porque embora seja algo crua nalguns aspectos (nomeadamente na voz), no  geral o som dos instrumentos é bom e tudo se ouve com clareza (inclusive  o baixo). Este aspecto é essencial para a abordagem ao <strong>Black Metal</strong> que a banda tem, porque o cariz mais elaborado das composições da banda  comparativamente ao que algumas bandas do género (inclusive da mesma  altura deste álbum) assim o requer, caso contrário a atmosfera mais  fantasiosa perder-se-ia consideravelmente.</p><p
style="text-align: justify;">Instrumentalmente o álbum é dominado pelas duas guitarras, pela  bateria tendencialmente lenta mas dinâmica e pelos guturais agudos de <strong>Janto</strong>.<br
/> Em relação ao primeiro aspecto, as duas guitarras fazem um trabalho  bastante apreciável no que diz respeito à melodia envolvente que todo o  álbum apresenta. Os riffs são tradicionalmente melódicos e as  progressões épicas são uma constante em quase todas as músicas. As  introduções acústicas ou os momentos acústicos também estão presentes  variadas vezes contribuindo em muito para o toque <strong>Viking</strong> já  referido (e a inspiração para este pormenor é fácil de localizar, basta  ouvir faixas como o <em>The Lake</em> de <strong>Bathory</strong>&#8230;). Este uso de  guitarras acústicas resulta em pleno, nomeadamente numa das melhores  faixas do álbum, <em>Glorious Again The Northland Shall Become</em> onde a  dupla de guitarristas (com especial destaque para <strong>Jørn Tunsberg</strong>,  o principal mentor da banda) está em grande destaque, quer com os já  referenciados momentos acústicos, quer com alguns dos melhores momentos  melódicos e poderosos (sem nunca aumentarem muito a velocidade) que o  álbum tem para oferecer.</p><p
style="text-align: justify;">No capítulo rítmico, a bateria é praticamente sempre executada num  tempo relativamente lento, apresentando todavia um grande dinamismo. Os  momentos rápidos não são muitos, mas quando surgem são precisos e  frenéticos, em forma de castigo. Nalgumas faixas como em <em>The Spirit  Of An Ancient Past</em> ou <em>An Oath Sworn In Bjorgvin</em>, os  blastbeats estão perfeitamente colocados, sendo que a aceleração não  retira a sensação de misticidade que paira sobre todo o álbum. Pelo  contrário, os tempos mais rápidos estão ligados na perfeição às partes  mais lentas e épicas que dominam a maioria do trabalho de <strong>Stig  Hagenes</strong> em <strong>&#8230;Again Shall Be</strong>. Na maioria das faixas  assistimos a um trabalho de bateria que encaminha a música em ritmos  vagarosos e com passos pesados, dando a ideia de uma sensação de uma  jornada épica e dura por entre terras distantes no tempo e espaço. À  semelhança do que sucede com o baixo é usado como um forma de acentuar a  melodia através do uso de ritmos condizentes com a mesma, mais do que  para serem instrumentos destacados na música. No entanto, isto não  impede que o baixo seja bastante audível e razoavelmente interventivo,  graças a uma distorção muito própria que confere à música um peso  acrescido. Apesar de quase sempre só acompanhar as guitarras, há faixas  em que o baixo surge como algo mais do que um complemento, sendo este  aspecto particularmente notório em <em>Hecate (Queen Of Hades)</em> ou na  faixa-título, quando <strong>Garmanslund</strong>, para além dos excelentes  vocais, tem algumas linhas de baixo bastante interessantes e que devido à  distorção pronunciada confere aos temas uma obscuridade ainda maior.</p><p
style="text-align: justify;">No que concerne aos vocais, temos um dos elementos que são mais  característicos do <strong>Black Metal</strong>: guturais agudos e rasgados que,  não obstante as semelhanças com bandas e projectos da mesma época (como <strong>Burzum</strong> a título de exemplo), conseguem ter uma originalidade e interesse  individual considerável na medida em que o timbre (nos momentos de voz  limpa) e a forma poderosa como <strong>Garmanslund</strong> vai expelindo a lírica  bélica sobre o glorioso passado nórdico fazem com que o trabalho vocal  seja sempre bastante interessante de acompanhar. A voz limpa é quase  sempre apresentada através dos coros que ocasionalmente surgem nas  músicas, como na introdução <em>Pagan Triumph</em> (que apesar de ser uma  intro não é apenas uma pequena composição e mostra logo sinteticamente  alguns dos moldes em que todo o álbum se baseia), mas também surge de  forma mais individualizada em <em>Be-Witched</em>. No entanto, são os  guturais que predominam, sendo uma das marcas mais características do  álbum.</p><p
style="text-align: justify;">A presença dos teclados é curta e bastante limitada (excepto na  última música que é praticamente toda ambiental), mas quando surgem  ajudam a reforçar a atmosfera negra e obscura do trabalho, enriquecendo  ao mesmo tempo a parte melódica, uma das particularidades do álbum.</p><p
style="text-align: justify;"><strong>&#8230;Again Shall Be</strong> é um álbum, que para além da sua qualidade  sonora, consegue encaixar-se na perfeição num subgénero que por vezes  acaba por ser contestado face a alguma falta de identidade. Distancia o <strong>Viking</strong> do <strong>Folk</strong>, na medida em que cria melodias épicas e poderosas  através de um som atmosférico e sombrio, ao invés de recorrer a  elementos mais característicos do folclore norueguês. É certo que a  lírica remete para este último aspecto, mas instrumentalmente o álbum  separa perfeitamente um subgénero de outro. Há de facto um som épico,  mas é bastante mais negro do que o <strong>Folk</strong> costuma ser e é esse o  sentimento geral que mais se acentua (devido ao uso de instrumentos  tradicionais do folclore a recriar) ao contrário do que acontece no <strong>Folk  Metal</strong> onde a ênfase vai tradicionalmente para a parte das  sonoridades mais locais. Apesar, de ser discutível a existência de tal  divisão dentro do Metal (devido ao facto da divisão ser muitas vezes  feita só através das letras), em <strong>&#8230;Again Shall Be</strong> a linha parece  ser menos ténue entre <strong>Folk</strong> e <strong>Viking Metal</strong>.</p><p
style="text-align: justify;">Todavia, o álbum é acima de tudo um (exímio) trabalho de <strong>Black  Metal</strong> (o que também acentua a divisão referida acima). As estruturas  musicais e a complexidade de camadas de som está ao serviço da criação  dum álbum tenebroso e gélido. Apesar dos elementos já referidos e que  são exteriores ao género, o peso e a atmosfera são claramente de um  álbum de <strong>Black Metal</strong> ainda que com um tom muito único. O som é  epicamente refinado, mas cru e directo. As próprias melodias têm um tom  apocalíptico e bélico bastante característico do <strong>BM</strong>.<br
/> É enquanto álbum de <strong>Black Metal</strong> que <strong>&#8230;Again Shall Be</strong> se  realiza completamente. Através da força que transmite e da sua  capacidade de retractar sonoramente toda a ancestralidade em que a banda  se inspirou para realizar a obra.</p><div
style="text-align: center;"><strong>Conclusão</strong></div><div
style="text-align: justify;">Quando se fala da cena norueguesa do final dos anos 80 e início dos  anos 90, é preciso ter em conta que são muitos os álbuns de referência e  ainda mais aqueles álbuns que são esquecidos, apesar de serem de  elevado nível. <strong>&#8230;Again Shall Be</strong> está na melhor tradição  qualitativa dos álbuns de <strong>Black Metal</strong> norueguês da altura (apesar  da sua abordagem diferente da maioria das bandas). Por ser num estilo  que já estava cimentado por <strong>Bathory</strong> talvez não tenha o crédito  que álbuns mais distantes da sonoridade praticada até então e que se  tornaram em autênticos marcos do <strong>BM</strong> moderno. No entanto, isto não  invalida que o primeiro álbum de <strong>Hades</strong> consiga ombrear com  algumas das melhores criações saídas na altura por parte de bandas  norueguesas&#8230; e a &#8220;concorrência&#8221; é bastante grande.</div><p
style="text-align: justify;">É admirável a forma como os jovens músicos de <strong>Hades</strong> se  conseguem movimentar nas inúmeras influências que têm, criando um álbum  essencial dentro do <strong>Viking Metal</strong> e paradigmático naquilo que a  cena norueguesa tinha de melhor: pintar sonoramente a paisagem e  história do país em questão.</p><div
style="text-align: center;"><strong>PhiLiz</strong></div><div
style="text-align: center;"><strong>Originalmente escrito em:</strong></div><div
style="text-align: center;"><strong><a
href="http://philiz.wordpress.com/2009/11/16/hades-againshallbe">PhiLiz @ WordPress</a></strong></div> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://ruidosonoro.com/2010/05/13/hades-again-shall-be-1994/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>5</slash:comments> </item> <item><title>Corpus Christii &#8211; Tormented Belief (2003)</title><link>http://ruidosonoro.com/2010/04/17/corpus-christii-tormented-belief/</link> <comments>http://ruidosonoro.com/2010/04/17/corpus-christii-tormented-belief/#comments</comments> <pubDate>Sat, 17 Apr 2010 19:01:51 +0000</pubDate> <dc:creator>PhiLiz</dc:creator> <category><![CDATA[Reviews]]></category> <category><![CDATA[Corpus Christii]]></category> <category><![CDATA[Tormented Belief]]></category><guid
isPermaLink="false">http://ruidosonoro.com/?p=1750</guid> <description><![CDATA[Introdução Quando em 2007, Nocturnus Horrendus finalizou a trilogia &#8220;Tormented&#8221; fechou-se um ciclo que representa provavelmente a melhor sequência de álbuns dentro das criações feitas no Black Metal nacional. Se quisermos olhar para a evolução temático-filosófica desta mesma trilogia, podemos conceber uma ascensão que começa na mais desesperada das agonias e vai de alguma forma [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<div
id="msg_28871"><p
style="text-align: left;"><img
class="aligncenter" title="CC-TB" src="http://img402.imageshack.us/img402/9713/32223fq1.jpg" alt="" width="500" height="501" /></p><div
style="text-align: center;"><strong>Introdução</strong></div><div
style="text-align: justify;">Quando em 2007, <strong>Nocturnus Horrendus</strong> finalizou a trilogia  &#8220;Tormented&#8221; fechou-se um ciclo que representa provavelmente a melhor  sequência de álbuns dentro das criações feitas no <strong>Black Metal</strong> nacional.</div><p
style="text-align: justify;">Se quisermos olhar para a evolução temático-filosófica desta mesma  trilogia, podemos conceber uma ascensão que começa na mais desesperada  das agonias e vai de alguma forma caminhando em direcção à luz do  conhecimento e da perfeição (a própria ideologia do mentor de <strong>Corpus  Christii</strong> ajuda a entender a procura por este último aspecto).</p><p
style="text-align: justify;">O início desta &#8220;viagem&#8221; deu-se com o mais negro e doentio álbum da  trilogia: <strong>Tormented Belief</strong>. Conforme é dito por <strong>Nocturnus  Horrendus</strong>, o álbum surge na mais conturbada altura da vida do mentor  de <strong>Corpus Christii</strong> e dado o cariz (muito) pessoal do projecto  (especialmente nesta trilogia) é natural que todas as perturbações  vividas nessa altura por <strong>NH</strong> sejam transpostas para o álbum&#8230; em  forma de dolorosas e odiosas ondas sonoras.</p><p
style="text-align: justify;"><strong>Tormented Belief</strong> marca igualmente uma viragem no som de <strong>CC</strong> (que acompanha a própria mudança de conceitos abordados), tornando o  som &#8220;melancolicamente&#8221; mais refinado (embora mantendo a agressão e  brutalidade dos trabalhos anteriores), com especial atenção à composição  dos temas de forma a conferir aos mesmos uma carga negativa e emocional  maior, factor que enriquece (bastante) a atmosfera global do trabalho.</p><div><p
style="text-align: center;"><strong>Alinhamento</strong><br
/> 01 &#8211; Melancholy Beginning<br
/> 02 &#8211; Forgotten Dead Crow<br
/> 03 &#8211; My Blood In Your Hands<br
/> 04 &#8211; Arising From The Ashes<br
/> 05 &#8211; Devouring Your Essence<br
/> 06 &#8211; Being As One With Hatred<br
/> 07 &#8211; Me, The Hanged One<br
/> 08 &#8211; Constant Suffering</p><p
style="text-align: center;"><strong>Ano</strong> 2003</p><p
style="text-align: center;"><strong>Editora</strong> Nightmare Productions</p><p
style="text-align: center;"><strong>Faixa Favorita</strong> 08 &#8211; Constant Suffering</p><p
style="text-align: center;"><strong>Género</strong> Black Metal</p><p
style="text-align: center;"><strong>País</strong> Portugal</p><p
style="text-align: center;"><strong>Banda</strong><br
/> Nocturnus Horrendus &#8211; Baixo, Guitarras &amp; Voz<br
/> Necromorbus &#8211; Bateria</p><p><img
class="aligncenter" title="http://img697.imageshack.us/img697/1622/semttulow.jpg" src="http://img697.imageshack.us/img697/1622/semttulow.jpg" alt="" width="502" height="329" /></p></div><div
style="text-align: center;"><strong>Review</strong></div><div
style="text-align: justify;">O cenário de mudança em <strong>Tormented Belief</strong> começa logo a ser  desenhado na própria morfologia da banda no álbum. Pela primeira vez, <strong>Corpus  Christii</strong> tem em estúdio um baterista real (substituindo a habitual  &#8220;drum machine&#8221; que vinha sendo utilizada nos álbuns anteriores).</div><p
style="text-align: justify;">O baterista escolhido foi Necromorbus, prolífero músico da cena <strong>Black  Metal</strong> europeia e de reconhecidos (trabalhou, entre outros, com <strong>Watain</strong>, <strong>In Aeternum</strong> e <strong>Funeral Mist</strong>).</p><p
style="text-align: justify;">Começando precisamente por este (primeiro) factor de mudança, <strong>Necromorbus</strong> faz um trabalho bastante competente a dar uma furiosa alma rítmica a  todo o disco. Os ganhos são por demais evidentes, sobretudo porque a  maior variedade do álbum face aos anteriores exige uma melhor  articulação entre os momentos mais rápidos e as partes mais lentas, algo  que <strong>Necromorbus</strong> faz com bastante eficácia (vejam-se, a título de  exemplo, as mudanças de ritmo em <em>Melancholy Beginning</em>).<br
/> Além do mais, um trabalho com uma abordagem tão &#8220;humana&#8221; (do ponto de  vista da exploração dos aspectos mais negativos da espécie, entenda-se),  não se compadecia com a limitação maquinal de uma &#8220;drum machine&#8221;, pelo  que, além de um factor de maior interesse, era algo absolutamente  necessário para que a globalidade do álbum não sofresse um duro revés.</p><p
style="text-align: justify;">No entanto, apesar do bom desempenho de <strong>Necromorbus</strong>, a  principal personalidade do álbum (em toda a plenitude da afirmação) é,  naturalmente, <strong>Nocturnus Horrendus</strong>. É da mente de <strong>NH</strong> que o  álbum toma forma, se concretiza e, claro, se torna verdadeiramente  interessante.<br
/> Quer sejam os riffs melancólicos, os vocais tresloucados de sofrimento  ou a conceptualização da dor em forma de música (as letras aqui  desempenham um papel fundamental), a verdade é que <strong>Tormented Belief</strong> sai directamente do consciente de <strong>NH</strong>.</p><p
style="text-align: justify;">Não se trata de um expurgar de polémicas, mas de algo mais (ao  contrário do que muitos dizem e disso fazem uma estúpida bandeira para  criticar <strong>CC</strong>). <strong>Tormented Belief</strong>, pela mão de <strong>NH</strong> é um  cruel exercício misantrópico, onde a criação artística é uma extensão  do interior do compositor. Claro que isto acontece inúmeras vezes, em  inúmeros álbuns, mas raros são as bandas que conseguem fazê-lo de forma  interessante, sem entrar no campo da intransmissibilidade ou de cair nos  clichés fáceis que são apanágio das tentativas frustradas do relato de  algo tão pessoal.</p><p
style="text-align: justify;">É evidente que devido a ser um álbum tão particular, ninguém está em  condições de compreender totalmente o que é que se pretende transmitir,  mas é possível absorver a atmosfera melancólica, o ódio, a agonia e todo  um turbilhão de emoções carregadas de negatividade. Nestes aspectos  pode, de facto, haver uma identificação (ou dar-se o fenómeno contrário,  obviamente) de quem ouve o álbum e surgir um interesse redobrado pelo  trabalho. No meu caso, isto é um dos principais factores que me faz  ouvir <strong>Tormented Belief</strong> bastantes vezes&#8230;</p><p
style="text-align: justify;">Claro que tudo isto seria completamente inútil se não fosse suportado  musicalmente por um trabalho poderoso e esmagador, como nos é  apresentado em <strong>Tormented Belief</strong>.<br
/> Neste campo, de destacar a produção, que não sendo cristalina, constrói  um ambiente claustrofóbico e perfeito para o género em questão. Nota-se  também aqui uma notória mudança em relação ao trabalho anterior da  banda.</p><p
style="text-align: justify;">Instrumentalmente falando há um destaque natural para as guitarras e  consequentemente para os riffs. O trabalho de guitarra do álbum  acompanha &#8211; obviamente &#8211; todo o ambiente geral do álbum, pelo que se  podem esperar riffs a transbordar de melancolia, raiva e ódio.<br
/> Não sendo um trabalho de guitarra complexo, do ponto de vista técnico  (como <strong>Rising</strong>, por exemplo), a sobreposição de guitarras, a forma  como tudo está colocado no sítio certo de forma a tornar a experiência  auditiva (ainda) mais agonizante revelam uma das grandes virtudes deste  álbum: as qualidades de composição que são por demais evidentes em <strong>Tormented  Belief</strong>.<br
/> O clima de mudança (prefiro o termo &#8220;mudança&#8221; ao termo &#8220;evolução&#8221; em  relação a <strong>CC</strong> devido ao carácter qualitativo que o segundo muitas  vezes encerra) é também evidente, uma vez que o surgimento de várias  &#8220;camadas&#8221; de riffs contrasta claramente com o trabalho mais directo dos  álbuns anteriores.</p><p
style="text-align: justify;">No entanto, e apesar de tudo, há algo que se consegue sobrepor aos  aspectos que positivamente destaquei anteriormente: a voz e a lírica de <strong>Nocturnus  Horrendus</strong>.<br
/> Claro que a compreensão (ou talvez a assimilação individual que cada um  faz) das emoções e dos estados de espírito que os temas (e o álbum em  geral) transmitem passam muito pela leitura das letras que <strong>NH</strong> vai  soltando odiosamente durante todo o disco.<br
/> Isto é algo que acontece em quase todos os álbuns, no entanto, neste  caso (e pela própria produção do álbum que põe em destaque a voz)  torna-se em algo único, porque não há um verdadeiro trabalho vocal da  parte de <strong>Nocturnus</strong>&#8230; existe sim um soltar animalesco de momentos  homicidas, misantrópicos, demoníacos (e provavelmente dos demónios  pessoais do vocalista&#8230;): uma enorme dimensão de viscerais vocalizações  que consubstanciam toda a negritude adjacente a <strong>Tormented Belief</strong>.</p><p
style="text-align: justify;">O trabalho vocal é perfeitamente complementado com uma lírica que  lida com uma série de sentimentos de obscuros e perversos que vão desde  assassínios, puro ódio e a abordagem da morte como a libertação única de  todo o sofrimento.<br
/> Este último aspecto leva-nos a algo que todo o álbum transmite (não  apenas as letras): o desesperante mergulhar na agonia e dor como única  forma de existência. Não por um qualquer desejo de auto-flagelação  mental, mas porque são estas as emoções que surgem como as mais  verdadeiras.<br
/> Tal como tudo no álbum, as letras apresentam-se num plano bastante  pessoal que apesar de poder ser, à partida, assimilado, torna a sua  interpretação sempre muito relativa (ainda mais que o habitual na  maioria dos álbuns).<br
/> Ainda para mais algumas letras são bastante alegóricas (sobretudo no que  diz respeito à expurgação homicida perpetuada pelo &#8220;narrador&#8221; das  letras) o que reforça ainda mais este aspecto.</p><p
style="text-align: justify;">Todo o álbum surge bastante homogéneo nos seus aspectos mais gerais,  mas encerrando a cada tema algo de novo, o que ajuda a manter o  interesse ao longo dos quase quarenta e cinco minutos de audição.<br
/> No caso de <em>Melancholy Beginning</em> temos bastantes variações de  tempo, sejam as velocidades dilacerantes impostas pelas guitarras, ou os  riffs mais lentos e melancólicos que suportam os arrepiantes (e  singulares) guturais de <strong>NH</strong>.<br
/> Os temas seguintes seguem a mesma linha, embora contendo sempre riffs e  variações que não são ouvidas em mais nenhum momento do álbum. Exemplo  disto são os riffs inicias de <em>Arising From The Ashes</em> que são um  dos destaques do álbum, ou os momentos que de alguma forma relembram <strong>Celestia</strong> (com as devidas diferenças, claro) em <em>Devouring Your Essence</em> e <em>Being  Us One With Hatred</em>.</p><p
style="text-align: justify;">Há, apesar de tudo o que já foi dito, um momento marcante em <em>Tormented  Belief</em> e que mesmo que todo o brilhantismo do trabalho não fosse  uma realidade, já faria valer a pena, por si só, ouvir o álbum. Falo do  meu tema preferido de <strong>Corpus Christii</strong>, <em>Constant Suffering</em>.<br
/> O tema é de alguma forma mais melódico e não apresenta (na maior parte  do tempo) a velocidade que o resto do trabalho tem, mas devido à  simbologia do mesmo no álbum, se compreende, aceita e depois de  absorvido, se louva. É um tema carregado de emoção&#8230; não de um qualquer  romantismo fácil, mas de sentimentos perturbados e cruelmente  odiosos&#8230; um perfeito resumo do que <strong>Tormented Belief</strong> (e a  própria banda nesta sua fase da carreira) representa&#8230; e na minha  óptica o tema é paradigmático daquilo que o próprio <strong>Black Metal</strong> deve ser.</p><div
style="text-align: center;"><strong>Conclusão</strong><strong></strong></div><div
style="text-align: justify;"><strong>Tormented Belief</strong> apresenta-se como um disco único na cena  portuguesa e sobretudo porque surgiu numa fase em que o <strong>Black Metal</strong> já não via algo tão refrescante há já algum tempo. Mesmo à esfera  global, é uma abordagem original ao próprio género. Mas mais importante  do que isso, é um grande álbum, uma prova inegável da qualidade que <strong>Corpus  Christii</strong> atingiu, muito especialmente com fase iniciada neste mesmo  trabalho.</div><p
style="text-align: justify;">Pessoalmente é o meu trabalho preferido de <strong>Corpus Christii</strong>.  Porque é musicalmente um trabalho sublime, porque é um álbum perturbado e  coberto de &#8220;texturas&#8221; que me dizem muito, mas acima de tudo porque a  identificação que sinto com <strong>Tormented Belief</strong> é enorme (os motivos  por detrás da mesma não os mencionarei) e por isso mesmo, faz com que  seja um trabalho essencial para mim.<br
/> Mas mesmo para quem não sinta tal identificação é uma obra sublime de <strong>Black  Metal</strong>.</p><div
style="text-align: center;"><strong>PhiLiz</strong></div><div
style="text-align: center;"><strong>Originalmente escrito em:</strong></div><div
style="text-align: center;"><a
href="http://philiz.wordpress.com/2009/11/15/corpuschristii-tormentedbelief/"><strong>PhiLiz @ WordPress</strong></a></div></div> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://ruidosonoro.com/2010/04/17/corpus-christii-tormented-belief/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>4</slash:comments> </item> <item><title>Corpus Christii &#8211; Rising (2007)</title><link>http://ruidosonoro.com/2010/04/06/corpus-christii-rising-2007/</link> <comments>http://ruidosonoro.com/2010/04/06/corpus-christii-rising-2007/#comments</comments> <pubDate>Tue, 06 Apr 2010 00:25:21 +0000</pubDate> <dc:creator>PhiLiz</dc:creator> <category><![CDATA[Notícias]]></category> <category><![CDATA[Corpus Christii]]></category> <category><![CDATA[Rising]]></category><guid
isPermaLink="false">http://ruidosonoro.com/?p=1662</guid> <description><![CDATA[Introdução Corpus Christii é hoje uma das maiores entidades do BM a nível mundial e em Portugal a banda de NH é provavelmente a referência máxima do género. Para este &#8220;estatuto&#8221; muito contribuem as três fazes da trilogia que Rising finaliza, que representam segundo NH: a devastação total (Tormented Belief), seguindo-se a raiva e a [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><a
href="http://ruidosonoro.com/wp-content/uploads/2010/04/Corpus_Christii-Rising.jpg" rel="lightbox[1662]" title="Corpus_Christii-Rising"><img
class="aligncenter size-full wp-image-1663" title="Corpus_Christii-Rising" src="http://ruidosonoro.com/wp-content/uploads/2010/04/Corpus_Christii-Rising.jpg" alt="" width="400" height="400" /></a></p><div
style="text-align: center;"><strong>Introdução</strong><strong></strong></div><div
style="text-align: justify;"><strong>Corpus Christii</strong> é hoje uma  das maiores entidades do <strong>BM</strong> a nível mundial e em Portugal a banda  de <strong>NH</strong> é provavelmente a referência máxima do género.</div><p
style="text-align: justify;">Para  este &#8220;estatuto&#8221; muito contribuem as três fazes da trilogia que <strong>Rising</strong> finaliza, que representam segundo <strong>NH</strong>: a devastação total (<strong>Tormented  Belief</strong>), seguindo-se a raiva e a auto-descoberta (<strong>The Torment  Continues</strong>), finalizando-se com a ascensão e subsequente descoberta  da luz nesta última proposta da banda.<br
/> Os registos de 2003 e 2005, de  enorme qualidade, deram ao projecto de <strong>NH</strong> ainda mais notoriedade ao mesmo tempo que mostravam os passos para um tipo de sonoridade mais trabalhada e distinta daquela seguida pela banda até então, embora o <strong>Black Metal</strong> se apresente hoje, como em  1998 (ano de formação da banda) como característica principal de <strong>Corpus  Christii</strong>.</p><p>No entanto, o <strong>Black Metal</strong> de <strong>CC</strong> a  partir de 2003 surge como uma criação muito pessoal do mentor da banda, <strong>Nocturnus  Horrendus</strong>. Um misto entre melancolia musical e satanismo filosófico, numa abordagem ao género bastante mais complexa do que a feita pela banda anteriormente.<br
/> Nesta linha <strong>Rising</strong> surge como uma criação ainda  mais ambiciosa (musicalmente falando) com elementos sonoros novos a <strong>CC</strong>,  transportando <strong>Rising</strong> para um nível de excelência ainda maior do  que o conseguido nos dois últimos trabalhos.</p><p
style="text-align: center;"><strong>Alinhamento</strong><br
/> 01  &#8211; Intro<br
/> 02 &#8211; Stabbed<br
/> 03 &#8211; Blank Code<br
/> 04 &#8211; Black Gleam Eye<br
/> 05  &#8211; The Wanderer<br
/> 06 &#8211; Torrents Of Sorrow<br
/> 07 &#8211; Void Revelation<br
/> 08  &#8211; Evasive Contempt<br
/> 09 &#8211; Heavenless Bliss<br
/> 10 &#8211; Untouchable  Euphoria<br
/> 11 &#8211; Bleak Existence<br
/> 12 &#8211; Revealed Wounds<br
/> 13 &#8211; Outro<strong></strong></p><p
style="text-align: center;"><strong>Ano</strong> 2007<strong></strong></p><p
style="text-align: center;"><strong>Editora</strong> Nightmare Productions<strong></strong></p><p
style="text-align: center;"><strong>Faixa  Favorita</strong> 12 &#8211; Revealed Wounds<strong></strong></p><p
style="text-align: center;"><strong>Género</strong> Black Metal<strong></strong></p><p
style="text-align: center;"><strong>País</strong> Portugal<strong></strong></p><p
style="text-align: center;"><strong>Banda</strong><br
/> Menthor &#8211; Bateria<br
/> Nocturnus  Horrendus &#8211; Baixo, Bateria, Guitarras, Voz</p><p
style="text-align: center;"><a
href="http://ruidosonoro.com/wp-content/uploads/2010/04/000cu5.jpg" rel="lightbox[1662]" title="000cu5"><img
class="aligncenter size-full wp-image-1665" title="000cu5" src="http://ruidosonoro.com/wp-content/uploads/2010/04/000cu5.jpg" alt="" width="455" height="300" /></a></p><div
style="text-align: center;"><strong>Review</strong></div><div>Gravado nos <strong>UltraSoundStudios</strong> e  produzido por <strong>Daniel Cardoso</strong> (o dono dos estúdios e antigo  membro dos extintos <strong>Sirius</strong>), <strong>Rising</strong> apresenta-se muito bem  produzido para o género.</div><p
style="text-align: justify;">Os instrumentos estão bastante audíveis: as guitarras têm uma afinação perfeita para o efeito pretendido, o baixo é perfeitamente perceptível (um dos pontos extra do álbum), a bateria é avassaladora e o trabalho com a voz está soberbo. Acima de tudo, tem alguma &#8220;sujidade sonora&#8221; e não é demasiado polido para um álbum de <strong>Black Metal</strong> o que por  vezes pode colocar em causa a atmosfera geral do álbum, o que não neste  caso.<br
/> Todos os instrumentos foram gravados na totalidade por <strong>NH</strong> à excepção da bateria, gravada quase inteiramente por <strong>Menthor</strong> dos <strong>Epping Forest</strong>. A este propósito é de referir o grande trabalho deste membro convidado. A bateria apresenta-se com uma força maquinal imensa, com diversas variações e uma execução imaculada. A produção ajuda muito a enfatizar a brutalidade que <strong>Menthor</strong> &#8220;empresta&#8221; a <strong>Rising</strong>. Sem dúvida  um ponto muito positivo.</p><p>O resto vem directamente da mente de <strong>Nocturnus  Horrendus</strong>. Os riffs melancólicos, mas ao mesmo tempo dilacerantes estão propositadamente mais destacados e são um dos maiores factores de interesse no álbum. Com diversas mudanças e sobreposições, o trabalho de guitarra vai de encontro à complexidade e evolução que a banda tem tido, mas são os momentos melancólicos e genuinamente deprimentes que dão um toque ainda mais pessoal a um trabalho pincelado pela dor e pelos tons negros da mente humana.<br
/> Nesta mesma linha, o baixo encontra-se bastante presente e de uma forma um tanto ou quanto surpreendente assume-se como um elemento que para além de completar dá uma atmosfera ainda mais distorcida e arrastada às músicas (como acontece, por exemplo em <em>Stabbed</em>).</p><p>A voz assume-se,  obviamente, como o elemento que mais transmite as emoções na música de <strong>Rising</strong> e neste ponto é preciso dar um grande destaque à excelente performance  de <strong>NH</strong>.<br
/> Variando entre um gutural bem reconhecível, angustiantes gritos de dor e momentos mais limpos, os vocais são um dos factores mais interessantes do álbum. <strong>NH</strong> expele o ódio e a misantropia através de alguns dos  mais arrepiantes momentos vocais alguma vez executados sob o nome de <strong>Corpus  Christii</strong> e o álbum ganha incomensuravelmente com isso.</p><p>Mencionei  anteriormente que este seria porventura o álbum (musicalmente) mais  ambicioso de <strong>Corpus Christii</strong> e isto é algo que se compreende assim que se começa a ter uma ideia das várias influências e dos pormenores bastante diversos que <strong>Rising</strong> encerra.<br
/> Os riffs e ritmos mais lentos e soturnos remetem para uma  atmosfera <strong>Doom</strong> que abrilhanta e diversifica ainda mais o álbum.  Neste sentido faixas como <em>The Wanderer</em> ou a emocional <em>Revealed  Wounds</em> têm sons que vão para além do espectro do <strong>Black Metal</strong>.<br
/> Há  algumas bandas que vêm à cabeça aquando da audição do álbum como <strong>Deathspell  Omega</strong> ou <strong>Ved Buens Ende</strong>, sobretudo devido à variedade  rítmica e à atmosfera criada, mas <strong>Corpus Christii</strong> tem uma  envolvência única devido à forma como tudo se passa muito no plano  pessoal, o que transparece bem para a música.</p><p>Outro factor que é  facilmente reconhecível no álbum é a religiosidade que lhe está  inerente. <strong>NH</strong> denomina <strong>Corpus Christii</strong> como uma banda de <strong>Black  Metal</strong> religioso, de cariz demarcadamente satânico. A <em>Intro</em> com o seu coro evangélico ajuda neste aspecto, mas todo o álbum remete para este sentimento religioso. No que concerne a esta matéria alguns momentos líricos demonstram bem que apesar de as letras estarem já longe de algo como <em>All Hail&#8230; (Master Satan)</em> a devoção a  Satanás, o espalhar da sua palavra e o encontrar da verdade através do  mesmo são o objectivo primordial de <strong>NH</strong>, como visceralmente  expelido em <em>Void Revelation</em>:<em>Satan! Life for those who seek the  truth!</em></p><p>Todas as faixas são bastante únicas e distintas (embora o sejam apenas o suficiente para manter o interesse e não soem demasiado díspares e desgarradas de uma linha comum) o que faz do álbum não só um conjunto bastante coeso e sólido, mas igualmente uma fonte de grandes hinos de <strong>Black  Metal</strong>.</p><p>Neste aspecto há a destacar <em>Stabbed</em>, logo a  primeira faixa do álbum (a seguir à <em>Intro</em>) e que deambula por  entre os riffs cortantes e momentos mais atmosféricos, tudo isto com <strong>Nocturnus  Horrendus</strong> exprimir os mais desesperantes sentimentos de forma  agonizante.<br
/> No momento que se segue a bateria de <strong>Menthor</strong> tem  um dos seus pontos altos. <em>Blank Code</em> tem um ritmo mais rápido na  maior parte do tempo, mas também é onde se pode encontrar um dos  primeiros momentos em que <strong>Nocturnus Horrendus</strong> usa uma voz mais  falada, o que dá uma ideia de ritual e que resulta muito bem.<br
/> Ainda  nesta toada mais tradicional encontramos <em>Untouchable Euphoria</em> (com alguns elementos mais <strong>Thrash</strong> à mistura) ou <em>Evasive  Contempt</em> que dão corpo à vertente mais rápida do álbum.<br
/> Os riffs  tristes são enfatizados em faixas como <em>The Wanderer</em>, <em>Torrents  Of Sorrow</em>, <em>Heavenless Bliss</em> ou no momento mais emocional (e  simultaneamente mais brilhante) do álbum <em>Revealed Wounds</em> onde  numa toada depressiva tudo flui numa corrente de pura melancolia.</p><p>Cada faixa  tem pormenores que só serão notados à medida que o álbum for absorvido. É este outro dos grandes pontos do álbum, onde as faixas vão ganhando de uma forma estranha nova força e nova dinâmica, seja individualmente, seja no contexto de um álbum que devido a uma atmosfera rica em vários elementos se torna numa autêntica surpresa, a cada audição.</p><p>Quando totalmente absorvido, a ideia geral que mais se retém é a expurgação de sentimentos negativos muito fortes e vincados. O arrepiante <em>Outro</em> é parte essencial disto mesmo e mais do que algo que soe esteticamente bem, é um grito (literalmente) libertador de tudo quanto a trilogia <strong>Tormented</strong> encerra.</p><div
style="text-align: center;"><strong>Conclusão</strong></div><div
style="text-align: justify;">O mínimo que se pode dizer é que <strong>Rising</strong> é mais um enorme passo em frente na carreira de <strong>Corpus Christii</strong> e  demonstra em especial todas as potencialidades de composição do seu  mentor, <strong>Nocturnus Horrendus</strong>. Desta vez <strong>NH</strong> conseguiu uma  obra extrema em sonoridade e complexidade, bem como cimenta a unicidade  de <strong>CC</strong> no panorama do <strong>Black Metal</strong> mundial.</div><p
style="text-align: justify;"><strong>Rising</strong> assume-se inevitavelmente como um dos melhores lançamentos de 2007 (seja em que dimensão territorial estejamos a falar), bem como uma das mais brilhantes criações de sempre na cena <strong>Black Metal</strong> nacional.</p><div
style="text-align: center;"><strong>PhiLiz</strong></div><div
style="text-align: center;"><strong>Originalmente escrito em:</strong></div><div
style="text-align: center;"><a
href="http://philiz.wordpress.com/2009/11/15/corpuschristii-rising"><strong>PhiLiz @ WordPress</strong></a></div> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://ruidosonoro.com/2010/04/06/corpus-christii-rising-2007/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>5</slash:comments> </item> <item><title>HIM &#8211; Venus Doom (2007)</title><link>http://ruidosonoro.com/2010/03/22/him-venus-doom/</link> <comments>http://ruidosonoro.com/2010/03/22/him-venus-doom/#comments</comments> <pubDate>Mon, 22 Mar 2010 18:22:25 +0000</pubDate> <dc:creator>PhiLiz</dc:creator> <category><![CDATA[Notícias]]></category> <category><![CDATA[HIM]]></category> <category><![CDATA[Venus Doom]]></category><guid
isPermaLink="false">http://ruidosonoro.com/?p=1499</guid> <description><![CDATA[Introdução Quando se fala na banda finlandesa de Ville Valo é normal pensar-se em estruturas musicais simples, tendencialmente a virar para o Rock mais acessível (sobretudo a partir do já longínquo e genial primeiro álbum). Não que seja um facto totalmente negativo (a própria natureza da banda assim determina este aspecto), mas a verdade é [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><a
href="http://ruidosonoro.com/wp-content/uploads/2010/03/kopie20von20him2020venuzp8.jpg" rel="lightbox[1499]" title="kopie20von20him2020venuzp8"><img
class="aligncenter size-full wp-image-1500" title="kopie20von20him2020venuzp8" src="http://ruidosonoro.com/wp-content/uploads/2010/03/kopie20von20him2020venuzp8.jpg" alt="" width="480" height="480" /></a></p><div
style="text-align: center;"><strong>Introdução</strong></div><div
style="text-align: justify;">Quando se fala na banda finlandesa de <strong>Ville Valo</strong> é normal pensar-se em estruturas musicais simples, tendencialmente a virar para o <strong>Rock</strong> mais acessível (sobretudo a partir do já longínquo e genial primeiro álbum). Não que seja um facto totalmente negativo (a própria natureza da banda assim determina este aspecto), mas a verdade é que do ponto de vista musical e se quisermos técnico, <strong>HIM</strong> não era, de todo, uma banda com grande complexidade (não que isto signifique que os músicos eram insatisfatórios a este nível). Esta ideia saiu reforçada com o lançamento de <strong>Dark Light</strong> (anterior álbum da banda, de 2005), um trabalho nitidamente mais acessível e <strong>Pop</strong>, mesmo tendo em conta os anteriores trabalhos da banda e o sucesso que alcançaram.</div><p
style="text-align: justify;">Logo quando saíram as primeiras informações sobre o álbum, a banda apontava para uma direcção mais pesada e ambiciosa do ponto de vista musical, apenas continuando liricamente a linha poética e alegórica que se encontra presente desde <strong>Love Metal</strong>. A opção pelos mesmos produtores (<strong>Tim Palmer</strong> e <strong>Hiili Hiilesmaa</strong>, este último o mesmo que produziu o primeiro álbum da banda) desse mesmo trabalho (datado de 2003), indicava que iria ser um trabalho mais virado para as guitarras e sons mais pesados do que, pelo menos, o anterior.</p><p
style="text-align: justify;">Estas indicações confirmam-se na totalidade. Se <strong>Dark Light</strong> foi uma grande mudança no som de <strong>HIM</strong>, <strong>Venus Doom</strong> também o é, mas numa direcção completamente oposta. Os factores que tornam o som imediatamente associável à banda, estão presentes (principalmente a voz), mas há vários elementos novos a qualquer álbum que a banda tenha feito e logo à partida este facto torna o álbum bastante interessante.</p><div
style="text-align: center;"><p><strong>Alinhamento</strong><br
/> 01 &#8211; Venus Doom<br
/> 02 &#8211; Love In Cold Blood<br
/> 03 &#8211; Passion&#8217;s Killing Floor<br
/> 04 &#8211; Kiss Of Dawn<br
/> 05 &#8211; Sleepwalking Past Hope<br
/> 06 &#8211; Dead Lover&#8217;s Lane<br
/> 07 &#8211; Song Or Suicide<br
/> 08 &#8211; Bleed Well<br
/> 09 &#8211; Cyanide Sun</p><p><strong>Ano</strong> 2007</p><p><strong>Editora</strong> Sire Records</p><p><strong>Faixa Favorita</strong> 05 &#8211; Sleepwalking Past Hope</p><p><strong>Género</strong> Gothic Rock</p><p><strong>País</strong> Finlândia</p><p><strong>Banda</strong><br
/> Emerson Burton (Janne Puurtinen) &#8211; Teclado<br
/> Gas Lipstick (Mika Karppinen) &#8211; Bateria<br
/> Linde (Mikko Lindström) &#8211; Guitarra<br
/> Migé Amour (Mikke Paananen) &#8211; Baixo<br
/> Ville Valo &#8211; Voz</p><p><a
href="http://ruidosonoro.com/wp-content/uploads/2010/03/vd1ng4.jpg" rel="lightbox[1499]" title="vd1ng4"><img
class="aligncenter size-full wp-image-1505" title="vd1ng4" src="http://ruidosonoro.com/wp-content/uploads/2010/03/vd1ng4.jpg" alt="" width="391" height="500" /></a></p><div><strong>Review</strong></div><div
style="text-align: justify;">O som de um isqueiro e de seguida um suspiro&#8230;</div><p
style="text-align: justify;">É assim que <strong>Ville Valo</strong> inicia o álbum, o sexto da banda: em tom  catártico. É bem compreensível que assim o seja, após vários  acontecimentos traumáticos com o vocalista da banda desde o lançamento  de <strong>Dark Light</strong> no fim de 2005. Os detalhes sobre os mesmos são  irrelevantes, mas o impacto que estes tiveram na banda são importantes  (como um todo e não como acontecimentos isolados) e ajudam a perceber a  toada reinventiva da essência da própria banda que <strong>Venus Doom</strong> toma.</p><p
style="text-align: justify;">O que se nota logo à partida no álbum é uma vontade experimental  enorme. Seja através das texturas musicais criadas pelas guitarras, as  partes instrumentais muito ao jeito de <strong>Black Sabbath</strong> (influência  confessa da banda), as peculiares intromissões do baixo ou ainda as  letras, cada vez mais complexas e literárias (uma clara mudança desde os  primeiros tempos da banda, onde o amor trágico surgia retratado de  forma bem mais directa e simples), a verdade é que todo o álbum é  envolto numa atmosfera bastante densa e que tem várias incursões a  géneros que a banda nunca explorara antes.</p><p
style="text-align: justify;">Concretizando, temos um claro piscar de olho a algumas ideias mais  progressivas, facto até aqui completamente inédito e corporiza-se  sobretudo na não utilização da habitual composição,  &#8220;verso-refrão-verso-refrão&#8221;, bem como alguns arranjos que fazem lembrar o  estilo. As próprias opções a nível da duração das músicas reflectem  algumas influências do estilo.<br
/> É ainda possível distinguir alguns elementos bem <strong>Doom</strong> (este facto  é uma das mais surpreendentes revelações de todo o álbum e está bem  presente em todo o trabalho) e que tornam o álbum soturno, negro e com  uma áurea profunda de melancolia. A música não é, obviamente, tão  arrastada ou pesada como a praticada nas bandas mais pesadas do estilo,  mas a simbiose suave das características principais do <strong>Doom</strong> (o  refrão neste aspecto é bem literal) com o som mais &#8220;rockeiro&#8221; da banda, é  uma das principais características dos <strong>HIM</strong> neste álbum.<br
/> Ainda neste campo, <strong>Black Sabbath</strong> surge como influência óbvia.  Muitos riffs têm essa influência claramente destacada e os próprios  momentos instrumentais que criam a atmosfera negra do álbum são  remanescentes da banda de <strong>Tony Iommi</strong>.</p><p
style="text-align: justify;">A guitarra assume-se como o motor desta evolução ocorrida em <strong>Venus  Doom</strong> comparativamente com os álbuns anteriores. <strong>Linde</strong> é um  excelente guitarrista, que sempre deu à banda um toque único, mas nunca  terá tido uma performance tão central num álbum. Se é certo que uma das  principais marcas de <strong>HIM</strong> era a distorção muito própria dos  primeiros trabalhos e esta desapareceu&#8230; mais certo ainda é que <strong>Linde</strong> tem um papel multi-facetado e essencial para a definição das principais  ideias do álbum, bem como para os objectivos da banda nesta fase.<br
/> Os riffs sujos e bastante &#8220;sabbathianos&#8221; são a nota dominante no álbum, a  par com os inúmeros solos que todas as músicas sem excepção apresentam.  Este foi de resto, um caminho pelo qual a banda explicitamente optou,  isto é, dar mais destaque e tempo à guitarra nesta proposta.<br
/> O trabalho de guitarra apresenta-se assim como um dos principais pontos  de interesse do álbum. Muito variado, pesado, como uma distorção  diferente da usada antigamente mas ainda assim distinta da maioria do  que se faz actualmente, com vibrantes passagens em várias músicas entre  muitos outros atractivos que se vão descobrindo a cada audição, pois os  pormenores com que <strong>Linde</strong> vai polvilhando o álbum são muitos e  variados.</p><p
style="text-align: justify;">Instrumentalmente, outro dos factores que se saúda é o regresso do  baixo a um papel de relevo num trabalho da banda. Depois de alguns  álbuns relegado para segundo plano, <strong>Migé</strong> volta a apresentar-se  como um elemento realmente importante na construção da atmosfera de um  álbum de <strong>HIM</strong>, tal como acontecia nos tempos de <strong>Razorblade  Romance</strong>, não se limitando a &#8220;encher&#8221;. Em consonância com a guitarra,  o baixo assume um papel importante para a atmosfera densa e profunda  que todo o álbum tem, através de riffs fortes e demarcados. Alguns dos  melhores momentos do álbum são quando o baixo e a guitarra como que se  interligaram e formam um par sonoro atmosférico e negro que em muito  beneficia o sentimento geral de <strong>Venus Doom</strong>.</p><p
style="text-align: justify;">A bateria de <strong>Gas</strong> encontra-se numa toada semelhante a tudo o  resto, com diversas variações de estilo em todo o álbum. Esta  versatilidade assenta bem a <strong>Gas</strong> que é um vocalista bastante  completo e cheio de ideias musicalmente distintas (é, por exemplo,  baterista numa banda de <strong>Grindcore</strong>), tal como provam os momentos  de espantoso relevo e exoticidade (a percussão em <em>Sleepwalking Past  Hope</em> é um destes momentos).<br
/> Os teclados por outro lado, estão menos presentes do que em <strong>Dark  Light</strong>, não deixando ainda assim, de dar um sentimento épico e  melancólico ao trabalho, sobretudo nos momentos onde os instrumentos  assumem uma posição privilegiada em relação à voz.</p><p
style="text-align: justify;">Falando nesta mesma voz, este é sempre um dos principais factores de  destaque em álbuns de <strong>HIM</strong> e sobretudo para os fãs da banda. A voz  de <strong>Valo</strong> apresenta uma expressividade e vulnerabilidade que  sempre foram muito apreciadas pelos fãs e por outro lado, criticadas por  alguns detractores da banda (embora a maioria das críticas neste campo  sejam absurdas demais para uma menção séria).<br
/> Em <strong>Venus Doom</strong>, <strong>Ville Valo</strong> exibe-se mais maduro e ciente  das suas capacidades vocais, variando entre registos mais agudos e  graves, com especial destaque para estes últimos, que sempre foram um  dos pontos fortes do vocalista de <strong>HIM</strong>. De resto, a voz acompanha  inteiramente toda a temática lírica do álbum. A dualidade entre o amor e  a tragédia é analogamente representada pela voz ora mais suave, ora  mais soturna de <strong>Valo</strong>.<br
/> Liricamente, o álbum apresenta-se como um dos mais ricos da banda, com a  poesia fantasmagórica, mas romântica de <strong>Valo</strong>, num estilo muito  literário e alegórico, sempre tendo o amor trágico como pano de fundo.  De resto, o álbum tem de alguma forma um conceito comum a algumas  músicas, conceito esse que se prende com uma paixão com o fim trágico no  clímax do álbum, <em>Sleepwalking Past Hope</em>.</p><p
style="text-align: justify;">De facto, as variações entre momentos mais habituais da banda e  devaneios &#8220;à lá&#8221; <strong>Doom</strong> que estão particularmente presentes em <em>Venus  Doom</em> ou <em>Passion&#8217;s Killing Floor</em> são de resto uma simbiose à  qual poderíamos de forma muito redutora chamar <strong>Doom Rock</strong> e que  representa todos os sentimentos que a banda quis por no álbum. A última  música do álbum, <em>Cyanide Sun</em> é o exemplo perfeito deste contraste  entre peso e delicadeza, tragédia e beleza.<br
/> Até a música escolhida para o single, <em>Kiss Of Dawn</em> (música  dedicada a um amigo da banda que faleceu pouco depois de finalizadas as  gravações de <strong>Dark Light</strong>) tem na sua versão álbum um momento final  muito mais exótico que o habitual na banda, com os teclados a  envolverem a música num misto de mistério e erotismo.<br
/> Todas as músicas são de resto bem mais pensadas, tendo o álbum menos  faixas que o habitual (apenas nove na edição normal) em <strong>HIM</strong> precisamente para evitar que houvessem músicas a mais o que se  materializou em mais faixas de grande qualidade como é o caso da mais  acelerada <em>Love In Cold Blood</em>, de um momento muito espiritual em <em>Dead  Lover&#8217;s Lane</em> ou <em>Bleed Well</em> num tom mais <strong>Pop</strong> e alegre  que acaba por ser distinto do resto, mas encaixar-se muito bem no álbum.</p><p
style="text-align: justify;">Todo o álbum é contrastante: se por um lado temos o peculiar acústico <em>Song Or Suicide</em> com pouco mais de um minuto muito caseiro e  introspectivo, temos por outro a opus do álbum, <em>Sleepwalking Past  Hope</em> que simboliza tudo o que <strong>Venus Doom</strong> tenta demonstrar e  fá-lo de forma brilhante. A mais longa faixa que a banda produziu até  hoje, com mais de dez minutos de duração, é uma épica e negra viagem por  um mundo onde várias emoções se cruzam de forma contagiante. Com  momentos mais calmos e tristes onde o teclado vai dando um sentimento  melancólico à música ou com momentos onde os solos de guitarra dão uma  vibração fantasmagórica ao tema, tudo está perfeitamente interligado e  redunda numa mensagem desolada, no momento mais pessoal e desolador do  álbum. Se necessário fosse resumir o álbum num simples minuto seria o  meio de <em>Sleepwalking Past Hope</em> onde a estrofe abaixo citada está  inserida, seria o ideal:</p><p
style="text-align: justify;"><em>I gave up long ago<br
/> Painting love with crimson flow<br
/> Ran out of blood and hope<br
/> So I paint you no more</em></p><p
style="text-align: justify;">Simplesmente arrepiante, uma das melhores músicas de <strong>HIM</strong> em  muito tempo.</p><p
style="text-align: justify;">Quase no fim deixo uma pequena consideração. Este álbum foi  &#8220;publicitado&#8221; como o mais pesado de <strong>HIM</strong>. Será o mais variado,  talvez o mais bem conseguido musicalmente e o mais ambicioso, mas não  concordo com o facto de ser o mais pesado. Nesse campo, a estreia da  banda com <strong>Greatest Lovesongs Vol.666</strong> (que permanece o meu  favorito) tem um ambiente que puxa muito mais para o <strong>Gothic Metal</strong>,  factores que se foram transformando ao longo da carreira da banda,  inclusive em <strong>Venus Doom</strong>.<br
/> O &#8220;<strong>Gothic</strong>&#8221; em <strong>HIM</strong> está presente mas deixou de ser o  principal &#8220;ambiente&#8221; presente nos álbuns e por outro lado a sonoridade,  sendo pesada, é-o doutra forma, mais suja e não de forma tão agressiva e  literalmente distorcida como o era no início.<br
/> Nenhuma destas considerações belisca a excelente qualidade deste álbum. A  banda mudou e essa mudança deu grandes frutos, como é o caso de <strong>Venus  Doom</strong>.</p><div><strong>Conclusão</strong></div><div
style="text-align: justify;">Formados já no longínquo ano de 1991(!), os <strong>HIM</strong> dão uma prova  cabal de reinvenção e ambição musical com <strong>Venus Doom</strong>, um álbum  cheio de grandes surpresas, talvez até mais para aqueles familiarizados  com o anterior trabalho da banda.</div><p
style="text-align: justify;">A sonoridade não é a mesma do início da carreira e alguns (ou  algumas&#8230;) poderão não compreender a profundidade e a evolução da  banda, mas é inegável que a qualidade é a mesma, simplesmente &#8220;aplicada&#8221;  de outra forma e com a maturação que o tempo sempre permite às grandes  bandas.</p><div><strong>PhiLiz</strong></div><div><strong>Originalmente escrito em:<br
/> <a
href="http://philiz.wordpress.com/2009/11/15/him-venusdoom">PhiLiz  @ WordPress</a></strong><strong><a
href="http://philizspace.spaces.live.com/blog/cns!1C08FE60A10C0332!1084.entry"><br
/> </a></strong></div></div> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://ruidosonoro.com/2010/03/22/him-venus-doom/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>0</slash:comments> </item> </channel> </rss>
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