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Entremuralhas. Todas as cores do negro, todos os sons do silêncio

Caro(a) leitor(a),

Com quantas cores se pinta de negro?
Qual a fragrância da noite?
E a que sabe a escuridão?
Quantas texturas tem uma ruína?
Que sons preenchem o vazio da alma?

Na sétima edição do festival gótico Entremuralhas, no semi-gótico Castelo de Leiria, todas estas questões tiveram resposta. O negro pinta-se de todas as cores, num festival que abre as portas a novos e velhos, a simples curiosos e ferverosos melómanos, a suave música erudita e extremas manifestações artísticas. A noite cheira a reencontro de velhos conhecidos, cheira a novidade para os que vão pela primeira vez, cheira a magia para todos de igual forma.

A escuridão, essa, sabe a amizade de estranhos, sabe a libertação de preonceitos, sabe a fuga do dia-a-dia mundano. A ruína tem a textura das pedras irregulares que compõe o castelo, que juntas erguem aqueles palcos mágicos de outros tempos. Mas, na sua essência, o principal ingrediente do festival são os sons que nos preenchem a alma, que nos fazem sonhar acordados, que nos fazem viajar sem sair do lugar.

São muitos os rostos que compõe o quadro de visitantes de tão ilustre evento. Antes de começarmos a dissecá-lo, aqui ficam alguns deles.

 

Naquela que foi uma das melhores edições de sempre do festival, com casa cheia e sonoridades mais ecléticas do que nunca, foram dez as estreias em palcos lusos entre as quinze bandas que compunham o cartaz. Segue-se a análise desses concertos, na primeira pessoa do plural, porque a família gótica é una e fala a uma só voz: a voz do amor.

DIA 1 – 25 de Agosto

Chegara, finalmente, o grande dia (ou as grandes noites, melhor dizendo). Há um ano que por ele aguardávamos, pacientemente impacientes, primeiro curiosos com o cartaz, depois com as atuações. Os históricos Sex Gang Children? Os mestres Die Krupps? Depois de Igorrr em 2015, o que nos traria Corpo-Mente? E quão chocante poderia ser Grausame Töchter, para serem proibidos menores no recinto? O único refreio à excitação é a memória da penosa subida, mas no primeiro dia as pernas não pesam, pois a mente vai dormente de excitação.

Subindo, pedra ante pedra, iniciámos a nossa corrida silenciosa encosta acima, chegando a tempo do primeiro concerto da noite, dos holandeses Silent Runners. Abrindo com ‘Human Capital’, cedo se percebeu que estava ali um caso sério de qualidade, com um post-punk pincelado de um new wave obscuro e cantado com o timbre grave e penetrante do vocalista Dolf Smolenaers.

Não tardou a que a noite se pintasse de dourado com ‘Golden Nights’, retirada do seu EP homónimo de estreia, que de resto tocaram na totalidade. Sucediam-se os temas: ‘I Walk Away’, o novo single ‘Fire Escape’, ‘Again’ com aquele grito interminável no final (reza a lenda que ainda hoje o Dolf está a recuperar o fôlego); na plateia, dançávamos e celebrávamos a abertura do festival, deliciados com o som.

Vocalmente poderoso, o vocalista foi interagindo naturalmente com o público, anunciando a sua “canção mais rápida”, ‘Pockets Are Lighter’, agradecendo depois à organização de forma genuína, apesar do seu estado claramente “maltado”. Após uma hora e uma dúzia de temas, terminaram o concerto, uma das melhores aberturas de sempre do Entremuralhas.

 

Aproveitando a pausa para meter a conversa em dia, foi preciso esperarmos ate às 23:35 para vermos a modelo sueca Karin Park subir a palco, ao som de corvos, para com ‘Opium’ nos injectar mais uma dose da saudável droga que é a música. Acompanhada de dois bateristas, um deles seu irmão, iniciou o concerto a meio gás e foi subindo o ritmo, que atingiu o primeiro pico na magnífica ‘Restless’.

Com um sorriso doce, algo melancólico, uma voz suave mas assertiva e uma presença sólida sem efusividade, as músicas foram fluindo na sonoridade mais pop que alguma vez se ouviu entre aquelas muralhas, mas com um ligeiro toque sombrio, suficiente para mover o corpo e espicaçar a mente.

Antes de fechar com ‘Thousand Loaded Guns’, a revelação do seu lado mais rebelde, com a bizarra canção de protesto ‘Hard Liquor Man’, simultaneamente divertida e revoltosa, relaxada mas de mensagem intensa. Foi uma primeira, pequena amostra da afirmação feminina que marcou (e de que maneira!) a noite.

 

Vaginas com dentes. Ora aqui está uma perturbadora visão, que expressa em latim serviu de abertura do mais perturbador e hipnótico concerto que o Entremuralhas já assistiu. Grausame Töchter foi provavelmente a vocalista que mais vi comunicar sem interagir directamente com o público, num espectáculo coreografado ao pormenor, provocador, tenso, intenso.

Aranea Peel é a incorporação da força do novo sexo forte, bem acompanhada em palco por um bom número de meninas semi-nuas e por Arnaud Vansteenkiste, o baterista mais invisível da história da música. Logo ao segundo tema, ‘Angst entstellt den Menschen’, Aranea provou ser uma mulher pura, não guardando dentro de si impurezas por tempo algum.

Depois de ameaçadora faca em ‘Liebe will Beweise’ e da saída de palco após ‘Lust und Tod’ para regressar como veio ao mundo, o concerto pareceu atingir o pico de choque. O efeito surpresa desapareceu, e nem o bizarro circo ‘Die ganze Welt ist ein Zirkus’ ou a eroticidade de ‘Annika ist tot’ voltou a causar momentos de surpresa.

Hipnotizados, anestesiados, assistimos às quatro últimas músicas, com o momento derradeiro de ‘Mensch und Tier’ a ter o dom de fazer levantar muitos telemóveis e, depois da intensa ‘Ich darf das!’, o final de cortar a respiração ao termos uma arma apontada a público. Mais um tiro certeiro da Fade In, que não brinca com pólvora seca quando se trata de escolher o cartaz, nem se acanha com falsos moralismos.

Passavam doze minutos das duas horas da manhã; era tempo de descer, uns para a after party, mais para o descanso, mas todos satisfeitos. O segundo dia era em dose completa, prometendo desgastar o corpo e alimentar a alma.

AVISO: A galeria de imagens e o vídeo que se seguem contém imagens impróprias para menores ou pessoas susceptíveis.

 

DIA 2 – 26 de Agosto

Abrindo a porta negra ao inimigo angélico

Ainda era dia, mas já o castelo se pintava de noite, quando naquela primeira tarde do Entremuralhas completámos a suada e penosa subida à Igreja da Pena. Cinco anos depois de ter estado no Palco Alma com os Arcana, Annmari Thim regressou ao festival com o seu próprio projeto, Angelic Foe. Abrindo com ‘Shapes Without Shadows’, preencheu durante precisamente uma hora o apertado espaço com a sua angélica voz soprano, visivelmente feliz apesar do calor a parecer incomodar.

Depois de dois temas inspirados na deusa/demónio Lilith, o momento alto do concerto foi o épico de sete minutos ‘Enemies Of God’, que fecha o novo álbum mas não deu por concluído o concerto. Seguiram-se ainda mais três músicas, bem recebidas pela igreja cheia, na mais poderosa voz com que aquelas paredes alguma vez vibraram.

Seguiu-se a dupla italiana Dark Door, composta por Mario D’Aniello e Federica Velenia. Não conseguindo prender o público como outras bandas do género que pisaram aquele palco, os Dark Door foram um caso raro de desilusão no Entremuralhas. A magia de estúdio de músicas como ‘Respirerò Aria’ e ‘Abracadabra’ não se fez sentir ao vivo, parecendo a banda algo perdida em palco.

O que ninguém lhes tira é a apresentação, vestidos a rigor, com o negro das suas vestes a contrastar com o claro pano de fundo. Muitos aproveitaram para descer mais cedo para o jantar, enquanto que os mais fiéis resistiram até ao fim, naquele que, não tendo sido mau, foi o concerto menos interessante de todo o festival.

 

O velho gang e o rei no castelo

Repostas as energias com o repasto de porco e iguarias demais, qual banquete pobre em escolha mas rico em sabor, era altura de subir ao topo, até ao Alma, para ver o auto-proclamado rei. King Dude e companhia subiram a palco vinte minutos após a hora marcada, iniciando as hostilidades a todo o gás com ‘Black Butterfly’. Thomas Cowgill mostrou ser dono de uma voz de invejável profundidade e sobriedade, que foi contrastada pela leveza das suas palavras bem humoradas e pela garrafa de whiskey em palco que, como seria de esperar, saiu dele com uma leveza que antes se lhe desconhecia.

Na primeira parte do concerto foram debitados, por ordem, temas do mais recente álbum ‘Songs Of Flesh & Blood – In The Key Of Light’, tocado não na totalidade mas a três quartos, com destaque para ‘Deal With The Devil’, ‘Death Won’t Take Me’ e ‘Silver Crucifix’. A intensa ‘Fear Is All You Know’ marcou o início do quinteto final de músicas, com espaço para duas novas, ‘Holy Christos’ e ‘Sex Dungeon (USA)’. Agradecendo-nos pelo apoio e pelo bom comportamento, o rei despediu-se com ‘Miss September’, agradado com os seus súbditos e feliz por não o conseguirmos cheirar.

Uma hora antes da meia noite, foi a vez de Andi Sexgang e os seus “Children” subirem a palco, com a formação original, recriando história no Entremuralhas. Marcantes, desafiantes, únicos na sua génese, o inevitável desgaste do tempo fez-se sentir, e apesar da jovial atitude do vocalista, o concerto foi mais interessante pelo seu significado e pela nostalgia dos temas clássicos que foram interpretando, como ‘Oh Funny Man’, ‘Into The Abyss’ e ‘Sebastiane’.

Apesar de não estarem no auge da sua glória, os Sex Gang Children mostraram-se eficazes e proporcionaram um concerto agradável, longo nas suas dezoito músicas, com direito a um trio delas no encore e, sensivelmente a meio, uma versão de ‘Les Amants D’Un Jour’ de Édith Piaf. Missão cumprida, despediram-se de nós, que descemos o caminho serpenteante para as duas últimas atuações da noite.

 

A frustração dos metalurgos

Experience. Discomfort. Frustration. Por natureza inconformada, a sonoridade punk é um veículo purificador que traduz frustrações sociais em energia positiva, denunciando injustiças e promovendo o seu combate com armas sonoras. Durante uma hora, foi isso que os Frustration fizeram no Corpo. Liderados em palco pelo carismático vocalista Fabrice Gilbert, o quinteto francês abriu com ‘Insane’ e não demorou muito a levar o público à loucura, intercalando os temas dos seus dois álbuns de estúdio com os EPs mais antigos, numa rajada intempestuosa, mostrando estarem longe de uma ‘Midlife Crisis’.

Apesar de terem ainda uma discografia relativamente curta, são já vários os êxitos que prometem tornar-se incontornáveis, como ‘Too Many Questions’, ‘No Trouble’, ‘Blind’ e ‘Worries’, que obviamente não faltaram. Foi uma hora de dança ininterrupta, com direito a ameaças de mosh e ajuda à banda nos refrões a plenos pulmões. Apesar do inglês do vocalista ser sofrível, a mensagem passou e foi com sorrisos rasgados que nos despedimos deles, por entre pó e suor.

Um minuto antes das duas da manhã, ouvimos a entrada triunfal ‘Die Verdammten’ dos alemães Die Krupps. Somos esmagados por uma parede de som industrial com distorção demolidora, que por fim às duas em ponto explode no ritmo de corrida de ‘The Dawning Of Doom’. Mais rápida ainda foi ‘Kaltes Herz’, o single do seu mais recente álbum, ‘Metal Machine Music’, cuja apresentação terminou logo no tema seguinte, ‘Alive In A Glass Cage’; tudo o que se seguiu foi de registos mais antigos.

Com uma presença em palco que frisa os seus 36 anos de experiência, pergunta-se como é só agora pisaram um por cá, mas ainda bem que o fizeram. Juergen Engler é um líder carismático, com uma voz talhada para clássicos como ‘Metal Machine Music’, ‘Robo Sapien’ e a grande ‘Machineries Of Joy’. Também Marcel Zuercher se destaca com uma presença forte na guitarra, com o sereno Ralf Doerper a completar o trio. Antes do encore, uma palavra de ordem contra o nazismo em ‘Fatherland’ e uma despedida vampiresca com ‘Bloodsuckers’. Por fim, ‘Isolation’, uma última viagem cósmica pela banda que terá o instrumento mais pesado que já passou por aquele palco (mas não baterá o carrilhão de sinos dos Rosa Crxv no Palco Alma em 2011).

 

DIA 3 – 27 de Agosto

A visão geométrica das ruínas

Pela última vez, lá fomos nós encosta acima, com longos vestidos e preconceitos despidos, com vestes escuras e roupas futuras, prontos para mais um pedaço de céu (ou um raio de lua). Da vizinha Espanha, o duo de neofolk Har Belex juntou-se ao velho conhecido daqueles palco Sathorys Elenorth e ao violinista Luckth Montilla, para tocarem uma dezena de temas e receberem da mais de centena de pessoas presentes um milhar de aplausos. Abrindo com ‘A Ray of Moon’ e ‘Freedom’, cedo se fez sentir o nosso carinho pela banda, que se mostrou profundamente agradecida.

Além do inglês predominante, também o alemão em ‘Der Akerbeltz’ e o espanhol em ‘Camino de Brea’ se fizeram ouvir, com letras como a de ‘Ruins of Gebara’ tão adequadas ao cenário envolvente. O momento alto do concerto foi o trio final de temas, com ‘Springtime’ e ‘Pathways’ a evocarem emoções fortes e o final com ‘Gernika’ tocado de pé. Um começo perfeito para um dos melhores dias de sempre do Entremuralhas.

Com quase uma hora de atraso, os napolitanos Geometric Vision abriram com ‘Black Heaven’, primeira faixa do seu segundo álbum ‘Virtual Analog Tears’. A sua atuação não foi análoga à dos seus concidadãos no dia anterior, bem pelo contrário: marcando também pelo visual, mas desta feita pelo estilo excêntrico, a atitude foi bem mais descontraída e o Pena respondeu ao pedido ‘Never Stop the Dance’.

Apesar de abrir e fechar com músicas do álbum de 2015, foi o disco de estreia ‘Dream’ a grande aposta da tarde, tocado quase na totalidade, com pontos altos em ‘In My Cold Room’ e ‘Stranger’. Cheios de pinta, pintaram a igreja num mescla de post-punk, darkwave e synth, fechando com ‘Virtual Analog Tears’. A noite apoderara-se do dia; era hora de descer para jantar, antes de voltar subir para preencher a/o Alma.

 

O corpo e a mente da história ítala

Nós, “entremuralheiros” (ou como nos quiserem chamar), já vimos grandes concertos, de características únicas em palco surreais. No entanto, poucos tiveram tão forte empatia banda-público como a que assistimos nesta última noite no Palco Alma. Começando pelos Ianva, os italianos entraram algo abalados, vindos de um país ferido pelos recentes e trágicos abalos de 24 de Agosto. Também por isso, o concerto foi especialmente emotivo, a que ajudou a sua sonoridade melancólica e sonhadora.

Mal sabiam eles o fogo que traziam consigo para incendiar o carinho do público, quando Mercy entoava ‘Portatori del Fuoco’ com a sua voz quente e profunda; também Stefania brilhou, sobretudo em ‘Luisa Ferida’. Com uma sonoridade rica, em múltiplas camadas sonoras capazes de evocar a essência da Itálica Clássica, a banda mergulhou-nos no passado, e tão bem soube! Depois de fecharem com ‘Dov’eri Tu Quel Giorno’, um sentido agradecimento ao público, de uma banda que mereceu a noite que teve, e nós também.

22:50. O corpo, sedento de movimento, pedia mais. A mente, esfomeada de música, estava preparada. Mas nem o corpo esperava sons tão bizarros, nem a mente estava, afinal, verdadeiramente preparada para o que aí vinha. Com ‘Scylla’ na primeira linha, os Corpo-Mente subiram a palco para um concerto monstruoso, de sons divinos, finos detalhes e retalhos sonoros de vários estilos. Descalça e possuída, Laure Le Prunenec brilhou, “brincando” com a voz de forma séria, desenrolando novelos de notas agudas e gritos estridentes com pura mestria.

Laure foi, de resto, brilhantemente acompanhada por Gautier, NilsAntony e Vincent, que deram à diva o pano de fundo sonoro perfeito, sobretudo na intrincada ‘Fia’, na pesada ‘Ort’ e na complexa ‘Arsalein’. Com pequenas pausas constantes para cuidar da voz, ela mantinha uma atitude profissional e teatral em palco, enquanto que fora dele dançava livremente ao som do instrumental. Eles, sorridentes, satisfeitos, mestres da sua arte. Foi pura magia, tudo o que se queria e até mais, tendo o público “forçado” a banda a repetir uma música, ‘Lucil’, como encore, após terem esgotado todo o seu cardápio. Como superar isto em 2017?

 

Viver a festa com o papagaio colorido

O castelo encerrara os seus acessos cimeiros, empurrando-nos para o palco das emoções finais. Passavam vinte minutos da meia noite quando o duo sueco Kite subiu a palco num mar de luz. A entrada, ‘Nocturne’, foi um ritual de iniciação à sonoridade hipnótica, relaxada e profunda do seu synthpop. Seguiu-se ‘I Can’t Stand’, que subiu o ritmo e arrancou passos de dança. ‘Count The Days’ foi o primeiro grande momento da noite, com Nicklas Stenemo a mostrar todo o calor da sua voz ao ritmo da melodia contagiante.

Depois de mostrarem as suas “verdadeiras cores”, ao usaram as suas quatro mãos para tocar outros tantos aparelhos em ‘True Colours’, um regresso ao trabalho homónimo de estreia. com a romântica balada ‘My Girl and I’. Nos panos de fundo, projecções multicolores, padrões geométricos e um jogo de luzes ao ritmo de cada batida impulsionaram o concerto para uma experiência visual ao nível da sonora, simplesmente soberba. Na recta final, mais três grandes momentos: o épico de nove minutos ‘Up For Life’, a descontraída ‘Jonny Boy’ e, a fechar, todos voltámos a dançar com ‘Dance Again’. A banda voltaria ainda para ‘Castle Of Sand’, um final de sonoridades bizarras que pôs um ponto final àquele que foi para alguns o melhor concerto do Entremuralhas 2016.

Depois de Corpo-Mente e Kite, era hercúlea a tarefa dos Vive La Fête de manter o patamar de qualidade sobrenatural. Não tendo sido demolidores, os belgas fizeram jus ao nome ao lançar uma verdadeira festa em palco e fora dele. Contrastantemente apresentando-se à noite negra com ‘Nuit Blanche’, cedo abriram a pista de dança para nos arrancar as derradeiras energias. Toda a banda irradiava alegria, esta era ‘La Verité’, e fez ‘Exactement’ aquilo que se pedia para terminar o festival em ambiente festivo.

Já a vocalista Els Pynoo, ‘Mon Dieu’, apresentou-se com um decote que, não estivéssemos ao ar livre, seria preciso alguém ligar o ‘AC’. Até ao final, ‘Touche Pas’, ‘Maquillage’ e ‘Noir Désir’ foram momentos altos, já com o público plenamente integrado no ambiente. O encore final foi sobretudo instrumental, com a vocalista a dar os seus passos de dança aeróbica ao som daquela contagiante, quase irritante, melodia final de ‘Popcorn’. No fim, como sempre, o líder da Fade In, Carlos Matos, agradeceu-nos pela presença, ciente que chegara ao fim uma das melhores edições de sempre do festival que orgulha a cidade e o país. E porque não o mundo?

 

Como sempre, a oferta cultural não se limitou à música. Quem visitou o festival pode apreciar os Preenchimentos de Carolina Sepúlveda, a Subversão de Lisa Teles, a sessão de escuta Crowleymass com Júlio Mendes Rodrigo e a performance Ouroboros de Mafalda Silvgar. Em comum, o enorme talento, a vontade de fazer diferente, a vontade de desafiar a mente.

Despeço-me com um agradecimento especial à Fade In, por nos dar o prazer de estar em tão singular evento e por pôr tanta dedicação e esforço em tudo o que fazem. Um grande obrigado também às bandas, que proporcionaram momentos inesquecíveis. Por último, a todos com quem a equipa da Ruído Sonoro teve oportunidade confraternizar e partilhar o momento, que decerto se repetirá em 2017.

Entremuralhas escutamos.

Entremuralhas celebramos.

Entremuralhas vivemos.

Fotografia: Marina Silva
Texto e Vídeo: David Matos

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