Fotos e texto: David Matos | Agradecimentos: Free Music Events
Fúria, caos, destruição. Palavras comummente distantes do amor, mas que foram a sua expressão no passado dia 14 de fevereiro de 2026. Naquele que pode muito bem ter sido o Dia de São Valentim mais apocalíptico da história lisboeta, uma umbrosa multidão esgotou a sala Lisboa Ao Vivo para, nos seus lúgubres desígnios, manifestar inequivocamente o seu amor ao trio sonoro composto por Immolation, Marduk e Mayhem. Registamos para a posterioridade os ecos de tão estrondoso cataclismo sonoro nas linhas que se seguem.
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Immolation
Precisamente à hora marcada, o quarteto encabeçado por Ross Dolan e Robert Vigna reclamou para si o palco, num exercício de quarenta minutos onde o death metal pincelado de técnica e dissonância foi lei. Abrindo com o tema (quase) homónimo do seu mais recente álbum, An Act Of God, ficou claro desde o primeiro minuto o porquê de os Immolation serem uma banda de culto; absurda precisão técnica, cada batida uma sentença, cada riff uma agressão calculada, um portento gutural cavernoso e uma presença em palco que foi a chama necessária para incendiar toda a sala.
As dez músicas da setlist percorreram 35 anos de história, com oito álbuns representados. O maior salto temporal foi mesmo da quarta para a quinta música: depois de tocarem Adversary, primeiro single do álbum Descent (que sairá em abril deste ano), os norte-americanos recuaram até ao álbum de estreia, com o tema título de Dawn Of Possession a conjurar os sons de 1991, quando o death metal ainda era uma criança. A máquina do tempo continuou entre extremos, regressando a 2022 com Blooded, para logo de seguida Higher Coward nos levar mais de vinte anos para trás, para mais perto do mundo inferior.
Os hereges sonoros na plateia vibraram com Rise The Heretics, primeiro de uma trilogia final absolutamente devastadora, onde o mosh pit se tornou obrigatório, uma fúria de corpos em movimento. A última viagem ao passado foi com Nailed To Gold, do longínquo Here In After de 1996, para finalmente a banda se remeter de volta às trevas com The Age Of No Light. Sólidos e majestosos, os Immolation sacrificaram os fãs num ritual do qual todos saíram purificados.
Setlist: Abandoned | An Act Of God | Swarm Of Terror | Majesty And Decay | Adversary | Dawn Of Possession | Blooded | Higher Coward | Rise The Heretics | Nailed To Gold | The Age Of No Light
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Marduk
Depois do calor intenso do death metal norte-americano, o frio gélido do black metal sueco. A duas horas do dia completar a sua plenitude, o LAV transformou-se num campo de batalha, onde sons bélicos de raiva descontrolada ecoaram qual artilharia cerrada. Frontschwein abriu as hostilidades, com a bateria a disparar fúria e a voz suja de Mortuus a evocar um campo de batalha sangrento e lamacento.
Num exercício semelhante aos seus antecessores em palco, também os Marduk atravessaram três décadas de história, com nove álbuns representados na setlist. Depois da Wolves de 1993 uivar, um salto de uma década até a Throne Of Rats nos infectar com a peste negra, seguida de mais um salto de uma década, até 2023 e ao épico arrastado Shovel Beats Sceptre, um dos momentos mais lentos mas também mais intensos da noite.
A caótica batalha travada em palco trespassou para a plateia, com o público em tremenda ebulição a deixar-se levar pelas rajadas de tiros certeiros dos suecos, mantendo o mosh pit aceso. A segunda metade do concerto trouxe clássico atrás de clássico: Sulphur Souls, On Darkened Wings, Infernal Eternal, nem o álbum de estreia Dark Endless de 1992 foi esquecido, com The Black… a ser um dos momentos altos do concerto.
Vencidos pela inevitabilidade do tempo, o enegrecido exército bateu em retirada, primeiro com os irascíveis tanques de Panzer Division Marduk a dar uma última salva de tiros, e, por fim, com a inevitável The Blond Beast a morrer no campo de batalha, uma hora depois de ter iniciado o ataque. Claramente mais talhados para concertos em sala fechada, este concerto de Marduk foi vários patamares de qualidade acima daquele que deram no Milagre Metaleiro, e um verdadeiro atestado de competência de uma das bandas mais importantes da história do black metal.
Setlist: Frontschwein | Wolves | Throne Of Rats | Shovel Beats Sceptre | Cloven Hoof | Sulphur Souls | On Darkened Wings | Infernal Eternal | The Black… | Panzer Division Marduk | The Blond Beast
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Mayhem
Há bandas cujo legado perdurará eternamente. Em 1994, dando seguimento ao pioneiro Deathcrush de 1987, De Mysteriis Dom Sathanas cimentou um marco histórico no black metal; testemunhar ao vivo as lendas responsáveis por tão importante obra é um privilégio. Foi precisamente essa honra que uma fervilhante LAV teve durante hora e meia, num concerto a roçar a perfeição, com Necrobutcher, Hellhammer e Attila a resumir quatro décadas de criação musical num espetáculo teatral, intenso e frenético.
Depois de uma curta projeção introdutória, Realm Of Endless Misery, do novíssimo Liturgy Of Death, explodiu com fúria incontida. Daí fomos logo à primeira de quatro visitas ao já referido De Mysteriis Dom Sathanas, com Buried By Time And Dust. A temperatura subia com o calor dos corpos que se arrastavam no mosh pit, cujo sangue se precipitava vertiginosamente pelas veias ao som de Bad Blood e logo de seguida Life Is A Corpse You Drag.
Psywar foi uma explosão de ritmo tão vigoroso, que só Hellhammer conseguiria manter com tanta mestria. Attila, vestido de papa demoníaco neste arranque de concerto, trocou as suas vestes por algo mais bélico em View From Nihil. Whore foi o culminar do caos, com metal a tinir e riffs de imundo deleite. Mas o momento alto do concerto, tanto a nível de público como de impacto visual, foi quando uma lua gélida se viu projetada no pano de fundo e o riff introdutório de Freezing Moon se fez ouvir, evocando sons de aprovação em toda a sala, enquanto Attila subia a um lugar mais alto do palco para cantar o maior clássico da banda numa figura que quase parecia um quadro ao vivo.
Apesar deste apogeu, o concerto ainda estava longe do fim. Depois da longa e mais intricada Chimera, mais dois clássicos antigos, Cursed In Eternity e From The Dark Past, antes do concerto “fechar” com Weep For Nothing, de 2026. Depois de uma curta pausa para recuperar o fôlego, o quinteto norueguês regressou para um encore absolutamente épico, com músicas exclusivamente da década de 80, onde o EP Deathcrush foi a estrela. Foi neste verdadeiro serviço aos mais fiéis dos fãs que a banda se despediu, deixando para trás um rasto de destruição que deixará saudade.
Setlist: Realm Of Endless Misery | Buried By Time And Dust | Bad Blood | Life Is A Corpse You Drag | Ancient Skin | Psywar | To Daimonion | View From Nihil | Whore | Freezing Moon | Chimera | Cursed In Eternity | From The Dark Past | Weep For Nothing | (encore) Silvester Anfang | Deathcrush | Chainsaw Gutsfuck | Carnage | Pure Fucking Armageddon

















































