Fotografia: Ana Ribeiro (Grifus) | Texto: Margarida Dâmaso
A noite de 30 de Janeiro começou com um aviso quase ritualístico no “Central” de La Louvière, na Bélgica: a campainha tocou e, à entrada da sala, foram oferecidos protectores de ouvidos como cortesia, um prelúdio cuidadoso para a imersão sonora que se seguiria. Em palco, Hooverphonic reafirmaram a sua mestria no trip hop e dream pop, numa noite carregada de simbolismo e tensão emocional para a comemoração dos 25 anos de The Magnificent Tree.
A vocalista Geike Arnaert, que em Dezembro último anunciou o seu afastamento da banda pela segunda vez devido a «divergências artísticas», manteve o compromisso de integrar esta digressão de 2026. O espectáculo abriu envolto num manto de fumo e misticismo, com as luzes a rasgarem a penumbra sob um forte aplauso de receção. Os nove músicos entraram um a um, deixando a entrada da décima figura para o fim: a vocalista surgiu das sombras, vestida com longas vestes negras que contrastavam com o seu cabelo louro, sendo aplaudida logo nos primeiros acordes de “Autoharp”. Foi apenas após a interpretação da icónica “Mad About You”, e enquanto se pedia palmas à plateia, que Geike se libertou do manto negro, revelando-se por completo. A voz imaculada da vocalista, por quem parece que o tempo não passou, deixou-nos na incerteza sobre estarmos perante um concerto ao vivo ou a escutar um álbum sem imperfeições.
Acompanhada por um trio de violinos cuja subtileza enalteceu a sua voz, e por um jogo de luzes delicado, a banda navegou por temas sombrios e belos sobre relações e sentimentos. A noite provou que os Hooverphonic não precisam de excessos para encher uma sala; valem-se de uma atmosfera desenhada ao milímetro, onde cada detalhe comanda mais do que o volume.
A ligação com o público foi testada e superada durante um imprevisto técnico com uma falha na guitarra durante “Jackie Cane”. Longe de quebrar o ritmo, o momento tornou-se especial e divertido; a banda improvisou uma versão sem guitarra, sustentada pelas palmas e pela cumplicidade da vocalista com a plateia. “Badaboum” foi partilhada em inglês e francês com o guitarrista Pieter Piersman e o peso emocional crescente em palco, entre “Anger Never Dies” que sublinhou que há músculo por baixo da elegância, uma das mais aplaudidas; a intemporal “Romantic” que tal como “Eden” que a seguiu, possibilitou um desses momentos em que a sala se reconhece a si própria, entre sorrisos e um refrão dito em coro sem pedir licença.
Apesar de divergir dos anteriores, o alinhamento principal culminou com o êxito “Amalfi”, que incluiu um excerto surpreendente de “Video Games” de Lana Del Rey. O momento transformou-se numa comunhão coletiva, com o público a entoar a canção a cappella.
A banda regressou para dois momentos de encore – o primeiro trouxe “Nirvana Blue” e “The World Is Mine”. Após a apresentação dos músicos, jogaram-se a “Sometimes” com a sala já de pé, despedindo-se finalmente com um segundo regresso para uma única e derradeira canção, “Hidden Stories”.
Como uma mistura sólida e homogénea de identidades, podemos assumir que este foi um concerto imprescindível. Há uma assinatura Hooverphonic que não precisa de explicação: electrónica contida, linhas de baixo que seguram o corpo das canções e uma produção ao vivo que parece sempre ‘clean’ sem ser fria. Afastando a sensação de catálogo, houve uma narrativa como se cada tema servisse para afinar o foco do seguinte.
Num ambiente familiar de sala esgotada, sem idades e sem preconceitos e onde a música serviu para respirar, o concerto teve a qualidade rara de fazer o tempo abrandar, suportando uma entrega que circulava com facilidade entre palco e plateia; quem veio pela memória ficou pelo presente, e quem veio pelo presente percebeu rapidamente porque é que estas canções atravessam gerações sem precisarem de se reinventar a cada estação. Esta digressão, invariavelmente lotada, mostrou ser menos sobre provar algo e mais sobre a reafirmação de uma identidade, deixando a certeza de que, ao sair da sala, o silêncio lá fora já não era o mesmo.



















































