Vodafone Paredes de Coura. Quatro dias intensos no regresso ao Couraíso

Fotografia: Ana Ribeiro (Grifus) | Texto: Margarida Dâmaso

A 31ª edição do Vodafone Paredes de Coura trouxe-nos, entre 13 e 16 de Agosto, aquilo que já se espera mas nunca se repete anualmente: quatro dias intensos de música, encontros e expressão livre num dos recintos mais especiais do circuito de festivais europeus. Foram mais de 120 mil as pessoas que voltaram a ocupar a Praia Fluvial do Taboão, esse vale florestal que se torna palco, acampamento e casa.

Este ano algo pairou no ar: um sentido de urgência, uma atmosfera politizada e também uma entrega emocional mais densa. Deu-se um retorno dos festivaleiros de Coura e talvez também os filhos de muito, resultando num ambiente mais alternativo e menos televisivo. A poeira colou-se à pele e os corpos misturaram-se no calor de Agosto; muitos artistas e público deixaram também claro que o festival é mais do que apenas música – é também lugar de afirmação colectiva, luta e pertença.

Dia 13 de Agosto

O primeiro dia evocou um ar mais quente do que o habitual, apesar da chuva ligeira da madrugada anterior. Logo pela tarde, Cass McCombs ofereceu no Parque das Portas de Corno de Bico uma Vodafone Music Session rara e intimista. Uma doce e melancólica “County Line” ecoou entre árvores e silêncios, deixando um sabor a saudade e reverência. Com uma vista privilegiada para a vila, passou por vários dos seus temas, entre sorrisos ternos com os seus companheiros de banda.

No recinto que viria a lotar, o sol caiu de frente no palco principal, criando uma luz quase mística — metálica e quente — sobre um público que já parecia em casa. Depois de Being Dead iniciarem o secundário Palco BacanaPlay, coube a Samuel Úria o primeiro grande momento de comunhão no Palco Vodafone, num festival a que chama de família. Trouxe um alinhamento afinado com o estado do mundo e do país, revisitando temas como “A Contenção” ou “É Preciso Que Eu Diminua”, convidando Carol para cantar “Daqui pra trás”. Ofereceu um “Lenço Enxuto”, comentado no público como «a mais bonita» [canção] e, sem dúvida, de arrepiar.

Fotogaleria de Cass McCombs (Vodafone Music Session) e Samuel Úria

 

Unsafe Space Garden, recomendados pelo antecessor Samuel, entregaram um dos concertos mais caóticos e apaixonados do festival: guitarras esquizofrénicas, gritos que soaram a libertação e uma entrega física total — palco, chão, público, entoando «bem-vindos à empresa de demolições!». Já Nilüfer Yanya contrariou a festividade extrema com o seu oposto: um ar de poucos amigos, demasiado relaxada e de pouco se importar, comunicou somente por alguns sorrisos. Contida e introspectiva, a sua voz firme mas doce criou momentos de suspensão no ar, como quem faz amor com o silêncio, servindo que nem uma luva num final de tarde quente através de canções como “Call it love” ou “midnight luv”.

Cass McCombs, que tocara na sessão desta primeira tarde, percorreu canções menos conhecidas do público, até chegar a “Sleeping Volcanos” com um instrumental irrepreensível merecedor de um grande aplauso. No palco secundário, encontrámos Don West, uma banda tipo sweet jazz de seis rapazes a que se adiciona um vocalista estilo super homem, pintarolas, musculado e de voz cheia e quente.

Fotogaleria de Nilüfer Yanya, Cass McCombs e Don West

 

Zaho de Sagazan entrou de rompante com muitos aplausos e comandou o palco com uma força crua e libertadora, «je t’aime Coura!», alternando entre o francês, o português e o inglês. A banda electrónica de quatro elementos foi recortando as suas músicas, como um live remix, parcialmente cantado. No final, ergueram-se bandeiras da Palestina e da diversidade, gritou-se «Liberdade!» e Zaho de Sagazan foi ovacionada de pé por milhares. A energia era eléctrica, emocional, quase revolucionária. Antes de abandonar o palco partilhou que terá sido «o melhor concerto do seu Verão». Para quem lá esteve foi mais do que um concerto — foi um acto, e provavelmente um dos mais bonitos do festival, em La symphonie des éclairs.

De seguida houve uma correria para o Palco BacanaPlay para assistir ao concerto-manifesto Um Gelado Antes do Fim do Mundo de Capicua. A rapper do Porto não poupou críticas à opressão, ao machismo, ao racismo e à indiferença: “Medusa” incendiou o público; bandeiras da Palestina foram erguidas no meio da multidão e um keffiyeh foi orgulhosamente elevado pela artista. Os corpos, juntos, tornaram-se uma massa rítmica de protesto e esperança. “Chiaroscuro”, “Medo do Medo” e “Brava” foram alguns dos temas que, entre declarações de apoio à Palestina, uniram o público que entoou «Free Free Palestine!».

Fotogaleria de Zaho de Sagazan e Capicua

 

Vampire Weekend, surgindo no festival com estatuto de headliners, trouxeram a festa. Com um concerto recheado de clássicos como “A-Punk” e “Oxford Comma”, misturados com a apresentação do novo álbum Only God Was Above Us e até uma versão de SBTRKT à qual Ezra Koenig dá voz (“New Dorp, New York”), mostraram que Coura também é lugar para sorrisos e leveza.

Fotogaleria de Vampire Weekend

 

Dia 14 de Agosto

A Music Session do segundo dia coube a Unsafe Space Garden e, apesar do calor que se fazia sentir, os festivaleiros parecem acorrer cada vez mais cedo para o recinto principal na Praia Fluvial do Taboão.

Com Bed Legs encarregues de abrir o Palco BacanaPlay, coube aos Linda Martini fazer o mesmo no Palco Vodafone, não deixando ninguém ficar indiferente. O concerto foi político, intenso e sonoro. A banda falou abertamente da situação na Palestina, erguendo bandeiras, e dedicou canções a um povo em sofrimento. O público respondeu prontamente ao desfile de temas da banda lisboeta que celebrou vinte anos desde a sua primeira actuação no festival. Passaram por “Boca de Sal”, “Putos Bons” e “Gravidade”, fechando com “Cem Metros Sereia”; cantadas com raiva e emoção, num momento marcante.

Fotogaleria de Linda Martini

 

Terno Rei, vindos de São Paulo do Brasil, ofereceram um concerto calmo e quente como o fim de tarde. Foi um momento de interioridade, dançante e melancólico — ideal para quem precisava de respirar e conectar-se na chamada golden hour. O palco secundário abriu depois espaço para La Lom, o trio masculino californiano situado no eixo de Khruangbin e Los Bitchos, com um instrumental dançante e mais hispânico.

Perfume Genius, já repetente neste Vodafone Paredes de Coura, subiu desta vez ao palco principal com uma performance densa e teatral, mas que dividiu o público e causando alguma dispersão. A circulação era patente, mas quem não arredou pé deixou-se absorver pelo erotismo e intensidade. As canções foram rituais — ora sussurradas, ora explosivas — e o corpo de Mike Hadreas pareceu em constante comunicação com o universo. Afastado da subtileza feminina que há uns anos pautava os seus concertos, mantém no entanto os seus movimentos sensuais e delicados, numa confluência entre voz, chão, corpo, cadeira e microfone. Hits como “Slip Away” e “Queen” não ficaram de fora.

Fotogaleria de Terno Rei, La Lom e Perfume Genius

 

A verdadeira surpresa do dia foi Lola Young que prometeu muito e entregou ainda mais. Pouco mais se parecia conhecer da estrela em ascensão de quem todos falam devido ao sucesso de “Messy”. Com uma voz rouca e segura, foi crescendo ao longo do concerto, quebrando barreiras com o público. Entre lágrimas e fascinada com o público português, disse: «Quero viver aqui. Quero mudar-me para Portugal. Este é o meu show favorito!». No final o êxito óbvio foi cantado em uníssono, num coro de empatia e aceitação.

A noite seguiu com em modo punk de Soft Play e mais tarde os já conhecidos Portugal. The Man encabeçaram o festival com o seu indie mais usual. No Palco BacanaPlay a ausência de Maruja, que cancelaram a sua actuação, foi suplantada pelos bracarenses Travo.

Fotogaleria de Lola Young

 

Dia 15 de Agosto

Ao terceiro dia foi-se confirmado a harmonia do festival, praticamente sem filas. De referir tal coisa porque provavelmente os festivaleiros optam por realizar as suas refeições no campismo, junto ao rio, na vila, ou mesmo à porta do recinto nos bares que ganham vida nesta altura do ano. Eram, no entanto, poucos os presentes que numa sexta-feira e feriado se deslocaram para assistir ao concerto de abertura de Memória de Peixe.

Pouco depois e já no principal Palco Vodafone, Dino D’Santiago de fato negro, contrastando com a sua banda toda de branco, fez lembrar que Coura é também lugar de ancestralidade e amor. Dirigiu-se logo à plateia com um «muito boa tarde, Couraíso», referindo ainda ter aguardado muito para actuar no festival. O concerto foi uma viagem musical pelas ilhas, pelo corpo e pela alma. Tocou ferrinho de Cabo Verde, desceu ao público, falou de liberdade e gritou que «Coura é amor!», fascinado. O público, que no final já se estendia ao longo da colina, esteve todo com ele.

Fotogaleria de Dino D’Santiago

 

Cassandra Jenkins carregou consigo um momento mais contemplativo, talvez até demasiado suave para o calor da tarde. O mesmo se pode dizer de Geordie Greep, cuja performance pareceu mais cerebral do que emocional — um contraste estranho do guitarrista de black midi depois da intensidade anterior. Com muitas dúvidas sobre o que Coura queria escutar nesta tarde, pareceu que este dia se construiu de picos e vales, como as colinas onde assenta, pouco eficaz como um remédio mal prescrito. Safaram ao londrino a simpatia e tentativa de humor.

Bar Italia trouxeram o ruído certo ao palco secundário para quem já precisava de sair do torpor. Foram recebidos em apoteose ao som de “Mambo No.5”, versionada por Lou Bega, mas o som sujo do trio contrastou pela sua urgência como se tratasse de uma banda de garagem que está agora a sair da adolescência.

Fotogaleria de Cassandra Jenkins, Geordie Greep e Bar Italia

 

Black Country, New Road, que prosseguiram a programação no Palco Vodafone, mostraram porque são a banda de culto da nova geração: canções longas, narrativas fragmentadas, violino, desespero e beleza. Já era uma das mais aguardadas bandas do festival, desde há vários anos, pelo que a sua boa recepção seria evidente. A verdade é que estes miúdos sabem muito e têm vozes e instrumental incríveis. Encontra-se aqui uma banda muito completa e algumas melodias a la Disney com alma antiga, que dá alguns ares dos primeiros anos de Arcade Fire ou Mumford & Sons na imensidão de instrumentos e músicos em palco.

Prosseguindo-se na senda britânica que marcou este dia, o duo feminino de punk Lambrini Girls, que se identifica como “banda política”, encheu a sua plateia bem antes da hora certa. Daí para a frente houve crowdsurf e mosh a comando da vocalista, que desceu para organizar as tropas. Triunfal a passagem da banda que editou a estreia Who Let the Dogs Out este ano.

Fotogaleria de Black Country, New Road e Lambrini Girls

 

Já de volta ao palco principal, King Krule e os seus cinco músicos transportaram-nos para 2017,  a sua última passagem por este recinto. Desta vez houve mais rock, uma aura mais pesada e menos chill e fofo. O concerto aqueceu a noite, mais fresca do que as anteriores, que continuou com a guitarra de Mk.gee e ainda os pés de dança de La Jungle, Ela Minus e Jersey no palco secundário.

Fotogaleria de King Krule

 

Dia 16 de Agosto

O derradeiro dia trouxe consigo a exaustão e a euforia de quem não quer que acabe o festival. A energia no recinto lotado foi apocalíptica – suada, feliz e meio alucinada. Mas afinal um dia esgotado deixa também de ser tão convidativo às tradicionais sestas na relva, sobretudo perante tanto calor e poeira.

No Palco BacanaPlay houve doçura de Cassete Pirata, responsáveis por inaugurar o dia com uma actuação delicada e marcada pela emoção. Ana Frango Elétrico criou um momento tropical, mesclando humor com groove no anfiteatro natural do principal Palco Vodafone. Com muitos fãs nas primeiras filas, que entoaram de cor as suas canções, a artista carioca motivou comparações pelo relvado – «é a Rita Lee contemporânea», pôde-se ouvir.

Ainda no palco principal, DIIV entraram à boleia de um vídeo de apresentação. Ao longo do espectáculo as músicas foram também apresentadas, como estivéssemos a assistir a uma transmissão televisiva. Ofereceram um concerto denso onde as guitarras criaram um nevoeiro sónico quase palpável. Shoegaze ideal para desaparecer do mundo ou recriar outro.

As madrilenas Hinds, que passaram pelo festival oito anos antes, regressaram com apenas duas das quatro integrantes originais, Ana Perrote e Carlotta Cosials. A introdução contou com excertos do poema Story of an Artist, de Daniel Johnston, e trouxeram consigo a alegria e a leveza com um concerto que teve tanto de espanhol como de inglês, cerveja e guitarras. “Boom Boom Back”, “Riding Solo” e uma versão de “Girl, So Confusing”, de Charli xcx, foram alguns dos temas apresentados. «Coura é o melhor festival do mundo», gritaram-nos. Quem estava presente não teve coragem de discordar.

Fotogaleria de Chastity Belt, DIIV e Hinds

 

O cume emocional do dia deu-se com Sharon Van Etten & The Attachment Theory: a voz da norte-americana tanto cortou como uma navalha como acariciou como colo. Foi um momento de vulnerabilidade partilhada de uma artista próxima da veterania, passando com a sua banda pelas recentes faixas “Live Forever” ou “Afterlife” e guardando mais para o final peças assinadas a solo, como “Every Time the Sun Comes Up” ou “Seventeen”.

Os muito aguardados AIR foram recebidos já de noite firme num recinto completamente preenchido. Os franceses proporcionaram um dos momentos mais cinematográficos do Vodafone Paredes de Coura, ou não fossem eles autores da soundtrack de The Virgin Suicides de Sofia Coppola. O espectáculo visual, a pender entre o futurismo e a nostalgia, casou na perfeição com clássicos como “La Femme d’Argent”, “Sexy Boy”, “All I Need” e “Kelly Watch the Stars” ao percorrerem o álbum de estreia Moon Safari. Até a chuva chegou para assistir, num timing quase surreal, porém a multidão não arredou pé – dançou na chuva como se de uma cena de um filme se tratasse.

Fotogaleria de Sharon Van Etten & Attachment Theory e AIR

 

Para encerrar a programação principal do festival, os Franz Ferdinand desfilaram um alinhamento que é já património do indie rock. A banda escocesa liderada por Alex Kapranos já soma duas décadas de explosão ao som de “Take Me Out” e continua a provocar crowdsurfing, mosh e poeira no céu. O público, em êxtase, mostrou saber todas as letras. O concerto acabou por se revelar tanto sobre o passado – ou não se tratasse deste de um regresso ao Taboão – como sobre o presente de Coura, onde várias gerações se unem focadas na música alternativa.

Fotogaleria de Franz Ferdinand

 

Coura voltou a mostrar que é mais do que um festival. Aqui respira-se liberdade e há um ritual colectivo: os corpos dançam e protestam, os artistas choram e agradecem, o público canta e ergue bandeiras. Este ano, mais do que nunca, a política também passou pelo palco, pela plateia e pelas conversas.

Na edição de 2026, o Vodafone Paredes de Coura vai coincidir com um eclipse solar total e visível em Portugal – uma metáfora perfeita para um festival que já é, por si só, uma interrupção mágica do mundo real. Até lá carregamos connosco a poeira, as canções e a certeza de que, no meio daquele verde e calor do verão, existe um lugar onde todos pertencem.