Earthless no Hard Club. Parada noturna de cem demónios

Depois de duas passagens em anos consecutivos pelo SonicBlast (habituaríamo-nos bem a visitas anuais dos Earthless a Portugal), acabou por ser preciso esperar três anos para voltar a ver a banda californiana por cá.

A noite começou chuvosa, precisamente a fazer lembrar a última visita da banda, em 2019. Se na altura, ao ar livre, o público não arredou pé face às contrariedades meteorológicas, também não eram as pingas que caíam nesta noite de Maio que iriam deter a esperada casa cheia para receber as três bandas que viriam a actuar.

Devido à chuva, que tornava o exterior do Hard Club menos aconchegante que o habitual, não foi preciso ouvir-se as primeiras notas para que a sala 2 do Hard Club se começasse a compor. As honras de abertura cabiam aos The Black Wizards, uma já instituição da cena fuzz nacional. O agora trio apresentava-se aqui no final de uma tour europeia e, durante 40 minutos, com a missão de aquecer os corpos ainda frios dos presentes que foram enchendo o espaço ao longo do concerto.

A missão não demorou muito a ser cumprida logo com “Symphony of the Ironic Sympathy”, num regresso a 2019 e ao álbum Reflections, o mais recente da discografia e no qual o foco do concerto se manteve. Também se ouviu “Rings Can’t Buy You Dreams”, novo single lançado este ano, ao longo de um concerto que terminou com “56th Floor”, noutra visita a Reflections e uma inesperada alusão a King Crimson com “21st Century Schizoid Man”.

À semelhança dos Earthless, também o quarteto sueco MaidaVale estava de volta a Portugal depois de uma última passagem pelo SonicBlast em 2019. “Trance” foi o tema que deu início ao concerto e o seu nome não podia ser mais relevante no momento. O público começou, precisamente, a entrar em trance com os ritmos hipnotizantes a obrigarem os corpos a mexer. Ao longo da actuação, o som que saía das colunas nem sempre tinha a clareza a que estamos habituados a ouvir naquela sala, o que acabou por não ajudar totalmente a que a entrega à música fosse total.

Foram também cerca de 40 minutos que a banda, liderada por Matilda Roth que se apresentava ora de guitarra na mão, ora com maracas, ora de mãos livres dançando ao som da música, teve para actuar no Porto. A banda escolheu dedicar o alinhamento quase total (houve apenas um par de excepções) a Madness Is Too Pure, disco de 2018, com o destaque a ter de ser dado a “Spåktrum”, numa prova (não que houvesse qualquer dúvida) do poder vocal da frontwoman.

Tempo houve para um regresso ao disco de estreia, que após o lançamento imediatamente tornou as suecas numa presença habitual nos festivais europeus, com “(If You Want the Smoke) Be the Fire”.

Não foi preciso esperar muito tempo para o palco estar preparado e os Earthless se apresentarem à nossa frente. Isaiah Mitchell faz questão de começar por agradecer às bandas anteriores e dizer-nos o quão bom é estar de volta, algo que viria a repetir várias vezes. O que se seguiu não é, de todo, fácil de descrever. De uma maneira curta: Earthless a fazer coisas à Earthless.

Ver a banda ao vivo dá sempre a sensação que estamos perante um ensaio onde tudo sai perfeito; Onde é ténue a linha que separa a aparente improvisação daquilo que está mais que treinado e tem sido repetido concerto após concerto ao longo da tour. Motivo pelo qual não nos é possível deixar de pensar que cada actuação do trio norte-americano se devia, quase obrigatoriamente, transformar num álbum ao vivo. Seja como for, e não obstante do facto de que os ouviríamos a todos, não há nada como viver Earthless ao vivo.

A mais de hora e meia de concerto serviu para apresentar Night Parade Of One Hundred Demons, lançado este ano, com “Death To The Red Sun” a ser o destaque da actuação. Aparentemente incansáveis em cima de palco, apenas por um par de vezes ao longo do concerto não se ouviu um único instrumento a ser tocado. Sempre com pausas curtas mas com um público também incansável deste lado, os presentes respondiam de forma efusiva com aplausos, crowdsurfing e até algum infrequente mosh.

Dada a escolha de alinhamento, acabou por raramente se ouvir a voz de Isaiah Mitchell. Só durante o encore é que o microfone posicionado à sua frente foi utilizado para algo que não os agradecimentos anteriores. Foi, assim, preciso esperar pela recta final do concerto para ouvir o guitarrista cantar, algo que aconteceu com a já mais que conhecida “Cherry Red”, cover cheia de psicadelismo da original dos ingleses The Groundhogs à qual se seguiu a saída definitiva de palco.

Texto: Bruno Correia