É raro podermos ouvir um álbum de estreia que nos encha as medidas, aliás, é muito difícil haver bandas tão jovens que apresentem um nível de maturidade, instrumental e conceptual, como os Travo aqui apresentaram. A jovem banda de Braga eleva o psicadelismo – até mesmo o progressivo, em certos momentos  – de uma forma tão criativa e contemporânea. Num trabalho de já três anos desde Santa Casa a n’O Silo, até este Ano Luz, denota-se uma mudança e uma caracterização mais aprimorada do seu rock, com uma preocupação mais psicadélica e não tão experimental, como se verificava nos primeiros trabalhos da banda.

A começar pela primeira faixa, “Tsar”, Ano Luz mostra-se como uma evocação aos grandes momentos do ‘post-rock’ e rock psicadélico, com muitas inspirações no ‘space rock’ e ‘krautrock’, servindo desde logo como tributo a grandes bandas como Pink Floyd e Eloy, por exemplo. Contém a suavidade e toxicidade dos Camel, e a imponência do enorme 10.000 Depois Entre Vénus e Marte de José Cid –  um álbum tão explanado aqui na vossa Ruído Sonoro – e, de facto, Ano Luz mantém todos esses elementos de conceptualidade, criatividade e espectacularidade.  Aliás, essa inspiração no ‘space rock’ e ‘krautrock’ é claramente perceptível na faixa homónima do álbum, “Ano Luz”, que é também a música de encerramento.

É um álbum inteiramente instrumental, que se renova a cada música e que larga traços de emoção, deixando-nos expostos a um submundo de desgosto, mas ao mesmo tempo esperança, com cada faixa a conter alguma positividade na descoberta de algo novo. É difícil destacar alguma faixa, já que todo o álbum tem uma qualidade de fazer inveja a qualquer banda antiga e contemporânea, que têm ou tiveram recursos que os Travo não têm. De forma inteligente, “Tsar” e “Ano Luz” abrem e fecham o disco, sendo também as faixas mais compridas com mais de dez minutos de duração. Nestas duas músicas, a conceptualidade atinge um pico superior e o psicadelismo torna-se ainda mais evidente, acompanhando a sonoridade de todo o álbum.

Até “Cascata de Leonte” – com dois minutos e meio de duração – apresenta-se de forma exímia, com os acordes e os sons de passarinhos a destacarem-se ao longo de toda a composição. Esperança? Tristeza? Que sentimento sentir ao ouvir “Cascata de Leonte”? É difícil responder. Os Travo tiveram a habilidade e a inteligência de produzir um disco que pergunta tanto, mas que deixa tantas respostas por dar. No entanto, a ideia é essa mesmo, ‘forçar’ os ouvintes a pensar e a perguntar-se sobre tudo o que este álbum nos sugere.

Ano Luz apresenta-nos um caminho, quase como um caminho espacial rumo a uma galáxia desconhecida. Um “Tsar” que pode representar um início e um “Ano Luz” que pode representar a explosão em atravessar uma camada estratosférica de algo desconhecido. Como referi, em cada faixa, a banda parece que se renova e que apresenta algo diferente da faixa anterior. Algo muito curioso: os Travo apresentam novos elementos ao longo do álbum, desde as ‘voice-overs’, à introdução de sons do ambiente e sintetizadores. A grande preocupação da banda é criar um ambiente espacial, inspirando-se nos artistas de renome que todos conhecemos, mas apresentando o seu próprio toque artístico. A produção está óptima, muito bem trabalhada e claramente morosamente desenvolvida. Os Travo apresentam um som que nunca foi apaixonante para os portugueses e, portanto, poderá não cativar as massas, no entanto, conseguem produzir algo de extrema qualidade que pode ter diversas interpretações enquanto capta tantos estilos musicais e conceptuais diferentes. Não acho de todo que a banda tenha atingido o seu extremo de criatividade, o que é melhor nestes Travo é a sua capacidade de se melhorar e renovar. Parece-me que Ano Luz é apenas o início, é apenas o “Tsar” da sua carreira e promete deixar os fãs da grande música em êxtase com um disco de tão elevada qualidade. Cada um pode ter uma interpretação, mas todos terão o prazer de ouvir um álbum que contém rock, ‘space rock’, ‘krautrock’ e rock psicadélico de excelente qualidade, com melhorias de faixa a faixa e com um conceito de encher o olho de tão inteligente e polivalente que é.

Autor: João Braga

É raro podermos ouvir um álbum de estreia que nos encha as medidas, aliás, é muito difícil haver bandas tão jovens que apresentem um nível de maturidade, instrumental e conceptual, como os Travo aqui apresentaram. A jovem banda de Braga eleva o psicadelismo - até mesmo o progressivo, em certos momentos  - de uma forma tão criativa e contemporânea. Num trabalho de já três anos desde Santa Casa a n'O Silo, até este Ano Luz, denota-se uma mudança e uma caracterização mais aprimorada do seu rock, com uma preocupação mais psicadélica e não tão experimental, como se verificava nos primeiros…

Álbum. Travo. 25/05/19

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