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A evolução dita há já algum tempo a possibilidade das mais incríveis fusões entre o jazz e o universo mainstream. O jazz, enquanto indomável força de exploração sónica, encontra em todos os outros géneros musicais as suas possibilidades de expansão. O saxofonista Shabaka Hutchings é, provavelmente, o nome de jazz britânico mais empolgante do momento – se não lhe bastasse os Sons Of Kemet e a forma como participa em Melt Yourself Down, Shabaka é também um impulso do trio que se estreia com Channel The Spirits. Soma-se a Dan Leavers nas teclas e de Maxwell Hallett na bateria e surgem assim estes The Comet Is Coming.

Não bastando ser um dos nomes que mais barreiras virtuais tende a esmagar, Hutchings figura agora numa colisão de jazz espacial, funk inquietante e electrónica incisiva. Definem-se como funk espacial apocalíptico – pois o cometa está a caminho – mas são tão afrofuturista como rock psicadélico sem guitarras. Ensinou-nos Sun Ra Arkestra em 1973 que o espaço é o local ideal (Space Is The Place, à letra) e desde que existe uma nova vaga de sci-fi jazz cósmico que há novos aliens a praticar encontros imediatos de terceiro grau entre géneros de fusão. Kamasi Washington e Thundercat, tal como Flying Lotus, fazem-no à sua maneira, mas também o krautrock de Amon Düül soube encontrar formas de proporcionar misturas intergalácticas. É na mesma linha que estes The Comet Is Coming se poderão contextualizar.

Claramente inspirados pelos mitos de Sun Ra, o trio adopta nomes diferentes: Dan Leavers é aqui Danalogue the Conqueror, Maxwell Hallett revela-se como Betamax Killer e Shabaka Hutchings é na verdade King Shabaka. Este último é uma clara aproximação à doutrina do Kemetismo egípcio, tal como aborda nos seus Sons Of Kemet. A união espiritual está bem viva na temática mitológica e espacial de faixas como “Slam Dunk In A Black Hole” , “Journey Through The Asteroid Belt”, “Cosmic Dust” e “Star Furnace”, vias de transmutação sideral.

O disco tende a perder o carácter melódico inicial no seu miolo, embrulhando a consciência numa penumbra artificial. A memória restabelece-se com o vigor primitivo nas bass lines criadas na faixa-título, trazendo a percepção à tona de um modo bruto e pouco ortodoxo. “Lightyears” dá-nos as únicas palavras do álbum por Joshua Idehen com uma mensagem emocionante, abrindo o caminho para a distopia terminal de “End Of Earth”.

Channel The Spirits é a prova de que o jazz tem sempre novos caminhos para explorar. As faixas confundem-se com odes tribais – “Space Carnival” bem podia ser um ritual de dança – e até com locomotivas de rock progressivo, duplicando o número de estupefacientes a A Saurceful Of Secrets de Pink Floyd. É um disco a não perder para os fãs de música desafiante e que brinca com os moldes complexos dos cânones e das identidades de cada género musical. Escrever assim sobre o apocalipse é tão exuberante como arrebatador – o cometa está a chegar e é preciso dançar o fim do mundo.

Autor: Nuno Bernardo

A evolução dita há já algum tempo a possibilidade das mais incríveis fusões entre o jazz e o universo mainstream. O jazz, enquanto indomável força de exploração sónica, encontra em todos os outros géneros musicais as suas possibilidades de expansão. O saxofonista Shabaka Hutchings é, provavelmente, o nome de jazz britânico mais empolgante do momento - se não lhe bastasse os Sons Of Kemet e a forma como participa em Melt Yourself Down, Shabaka é também um impulso do trio que se estreia com Channel The Spirits. Soma-se a Dan Leavers nas teclas e de Maxwell Hallett na bateria e…
"Channel The Spirits" é a prova de que o jazz tem sempre novos caminhos para explorar.

Álbum. The Leaf Label. 1 Abril 2016

Classificação

8.5

"Channel The Spirits" é a prova de que o jazz tem sempre novos caminhos para explorar.

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