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Keso – KSX2016

ksx2016Entra Keso, impulsivo, com “Defeito Sério”. Coros operáticos, um kick e baixo maliciosos, a sua vulnerabilidade exposta. Diz-nos em “RoofTops” que «se tu não sabes o nome deste menino é porque és novo nisto». Efectivamente, há tempo atrás do rapper – Raios te Partam em 2003, O Revólver entre as Flores em 2011, passando por um EP de instrumentais – contudo, permanece um segredo atrasado da cidade. Uma mistura estranha de nitroglicerina, líquido cerebral e travo severo do Porto. No final de “Gente e Pedra”, vemos uma nuvem indelível de cinza – algo explodiu.

KSX2016 começa por se revelar numa postura activista. Com alguma pesquisa, descobrimos que o protagonista migrou para Londres durante 7 meses. Essa vivência toma proporções muito maiores em “Defeito Sério”: quebra-se da moldura pessoal para algo transversal, essencial na sua actualidade. O segundo verso é puro ouro em barras de rap, floreado por hooks doentes. Fica o remate: «Eles vão bater o punho empreendedor até se virem no teu dorso».

Agilmente passamos para “BruceGrove”. O tema é o mesmo, mas numa abordagem mais concreta. Keso vê-se rodeado de casas e pessoas vazias. Desesperançado, completamente alienado da corrupção da cidade, ele acena para o sistema de câmaras que abrange todo o meio londrino. Tem na mira os pais, o Porto (cidade Natal). No movimento de Keso coabitam o estilo, a agudeza e a sinceridade.

O início de álbum é intenso, e daqui seguimos. A visão abrangente do rapper muda para um exercício pessoal. Agora conta-nos o seu afecto pela crew que o precedeu, as datas em que lhe devem pagamentos, em “Underground” senta-se no divã, e confidencia-nos «o pior dos seus pesadelos». Estas situações parecem-nos banais num álbum de hiphop, e seriam-no, não fosse a complexidade da linguagem, o flow violento – tem algo de Regula, mas menos processado -, o finíssimo sarcasmo desta declamação.

Keso estudou cinema, e isso parece relevante: ouve-se o esforço em gasear as músicas com atmosferas. Cargas densas, cargas nostálgicas, bem fechadas entre as paredes sonoras. Cada música parece respirar num espaço, como um borboleta exótica num frasco. O conjunto das 11 faixas é uma colecção de insectos – de padrões visuais, de momentos de voo, de beats cheios de detalhe e de vida.

É simples perceber que este álbum sobe a fasquia. Que ele terá intimidado alguns músicos que pretendem fazer hiphop nos dias d’hoje. Não traz nenhuma revolução consigo, mas sim algo que, para um objecto artístico, é raro: um trabalho exímio. É um objecto translúcido à vida pessoal, impessoal e íntima de Keso. Difunde uma luz autêntica.

Voltamos a “RoofTops”, onde ele nos diz «I’m underground e vivo isto violentamente». Não percebemos o que foi necessário viver para gerar este álbum. Contudo, o resultado entra fluidamente nos nossos ouvidos.

Autor: Gonçalo Tavares

Não foi atribuída uma classificação por opção do autor.
Entra Keso, impulsivo, com "Defeito Sério". Coros operáticos, um kick e baixo maliciosos, a sua vulnerabilidade exposta. Diz-nos em "RoofTops" que «se tu não sabes o nome deste menino é porque és novo nisto». Efectivamente, há tempo atrás do rapper - Raios te Partam em 2003, O Revólver entre as Flores em 2011, passando por um EP de instrumentais - contudo, permanece um segredo atrasado da cidade. Uma mistura estranha de nitroglicerina, líquido cerebral e travo severo do Porto. No final de “Gente e Pedra”, vemos uma nuvem indelível de cinza - algo explodiu. KSX2016 começa por se revelar numa postura activista. Com alguma pesquisa, descobrimos que o protagonista migrou para Londres durante 7 meses. Essa vivência toma proporções muito maiores em “Defeito Sério”: quebra-se da moldura pessoal para algo transversal, essencial na sua actualidade. O segundo verso é puro ouro em barras de rap, floreado por hooks doentes. Fica o remate: «Eles vão bater o punho empreendedor até se virem no teu dorso». Agilmente passamos para “BruceGrove”. O tema é o mesmo, mas numa abordagem mais concreta. Keso vê-se rodeado de casas e pessoas vazias. Desesperançado, completamente alienado da corrupção da cidade, ele acena para o sistema de câmaras que abrange todo o meio londrino. Tem na mira os pais, o Porto (cidade Natal). No movimento de Keso coabitam o estilo, a agudeza e a sinceridade. O início de álbum é intenso, e daqui seguimos. A visão abrangente do rapper muda para um exercício pessoal. Agora conta-nos o seu afecto pela crew que o precedeu, as datas em que lhe devem pagamentos, em “Underground” senta-se no divã, e confidencia-nos «o pior dos seus pesadelos». Estas situações parecem-nos banais num álbum de hiphop, e seriam-no, não fosse a complexidade da linguagem, o flow violento - tem algo de Regula, mas menos processado -, o finíssimo sarcasmo desta declamação. Keso estudou cinema, e isso parece relevante: ouve-se o esforço em gasear as músicas com atmosferas. Cargas densas, cargas nostálgicas, bem fechadas entre as paredes sonoras. Cada música parece respirar num espaço, como um borboleta exótica num frasco. O conjunto das 11 faixas é uma colecção de insectos - de padrões visuais, de momentos de voo, de beats cheios de detalhe e de vida. É simples perceber que este álbum sobe a fasquia. Que ele terá intimidado alguns músicos que pretendem fazer hiphop nos dias d’hoje. Não traz nenhuma revolução consigo, mas sim algo que, para um objecto artístico, é raro: um trabalho exímio. É um objecto translúcido à vida pessoal, impessoal e íntima de Keso. Difunde uma luz autêntica. Voltamos a "RoofTops", onde ele nos diz «I’m underground e vivo isto violentamente». Não percebemos o que foi necessário viver para gerar este álbum. Contudo, o resultado entra fluidamente nos nossos ouvidos. Autor: Gonçalo Tavares Não foi atribuída uma classificação por opção do autor.

Álbum. Biruta Records. 6 Maio 2016

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