A 11ª edição do OUT.FEST, o denominado Festival Internacional de Música Exploratória do Barreiro, aconteceu, em vários pontos da cidade, de 2 a 5 de Outubro. Desta vez existiram workshops colaborativos de Carla Bozulich, masterclass de Peter Evans e ainda concertos de entrada livre durante as tardes de dia 4 e 5, onde se evidenciaram os nomes Open Mind Ensemble, Rodrigo Amado Wire Quartet, Charles Cohen e Rabih Beaini. À semelhança das edições de 2012 e 2013, estivemos pela cidade da Margem Sul à descoberta, como se quer.

2 de Outubro, Be Jazz Cafe

Peter Brötzmann & Steve Noble + Norberto Lobo

A guitarra de Norberto Lobo já se ouvia quando virámos a esquina em direcção ao Be Jazz Cafe. À entrada, um amontoado de pessoas permanecia na esperança de conseguir bilhete, mas sem sucesso – num cartaz poderia-se ler «Lotação Esgotada». A entrada fez minuciosamente, procurando um espaço para expor os olhos no espectáculo. O que encontrámos foi uma cabeça coberta por um chapéu, envolvendo em mistério a comunicação que fazia com a sua guitarra.

A sala escura e recheada de gente tinha a música de uma guitarra sensual e carismática, cujos acordes preenchiam os poucos espaços vazios. Os olhos lá fitavam as cordas e quase que podíamos sentir a música a sair por entre os seus dedos, ora suavemente, ora com uma força frenética e explosiva, neste misto que perfaz o universo de Lobo – há uma verdadeira arte no dedilhar de várias texturas em sobreposição, com uma subtileza na agressão aos trastes na hora de projectar dissonâncias às paredes.

Um pouco no campeonato do injusto as atenções iriam recair mais na prestação do alemão Peter Brötzmann. Não é que este não seja digno de um olhar atento e perspicaz na sua performance, que se alternava entre o saxofone e clarinete de pulmões, alma e coração, mas porque a relação que Steve Noble tem com a bateria é algo singular. Foi uma viagem progressiva à descoberta das potencialidades da bateria, que culminou num incrível deslumbramento por todos os sons que dela se podem extrair, à parte do comum que já conhecemos. Uma jornada de quem conhece os cantos à casa e de quem supera a exactidão de um metrónomo, aliada à influência da lenda viva que é o decano Brötzmann, uma espécie de pai ou padrinho do free jazz na Europa.

Este duo de pulmões e relógio fizeram da sua estreia em Portugal uma celebração do género, numa oportunidade que se adivinha rara ou, pelo menos, excêntrica, pois a nobreza do acto mediu-se pela forma como respeitam os silêncios pendulares da aceitação. Magnífico.

Fotografia: Nuno Bernardo / Rute Pascoal
Texto: Nuno Bernardo / Rute Pascoal

 

3 de Outubro, Casa da Cultura da Baía do Tejo

Dean Blunt + Fennesz + Peter Evans Quintet

O dia 2 do Out.Fest 2014 iniciou-se com a mesma toada do anterior, ou seja, exploração jazzística a cargo de Peter Evans Quintet obviamente liderado pelo trompetista nova-iorquino Peter Evans.

Entre as arrumações e desarrumações free que foram desfilando durante mais de uma hora, a performance teve a capacidade de se ir reinventando muito graças à manipulação electrónica e sobretudo a um invulgar som de bateria cuja intensidade marcou de sobremaneira toda a actuação. De resto, todo o espaço que ia sendo deixado foi nota dominante criando um ambiente de confortável vertigem muito ao sabor da direcção do próprio Evans.

Seguidamente o (excelente) auditório da Casa da Cultura da Baía do Tejo foi transportado para o mundo de Christian Fennesz (ou simplesmente Fennesz). Reconhecido pelo trabalho de exploração ambiental tricotada por uma guitarra transformada em mil fagulhas sonoras, o músico austríaco trazia na bagagem Bécs, um registo que não será exagerado dizer, remete para o clássico obscurecido Endless Summer.

Foi precisamente o ruído melancólico que comprime treze anos de diferença entre um e outro que se foi deslocando a sala para mais perto do rio até entrar por mar adentro onde as ondas investiram ora punitivas ora benevolentes. Não é demasiado complicado enquadrar Fennesz na fotografia evolutiva da exploração de seis cordas nas últimas década,s mas a verdade é que há um frame bem vincado que pertence ao austríaco e foi por demais evidente que a mestria continua ali bem patente. O único sobressalto foi mesmo um final adiantado quando a viagem poderia ter durado para sempre ou, em insuficiente alternativa, um pouco mais.

Se pouca luz havia, com a chegada de Dean Blunt a iluminação morreu. Os minutos incontáveis de um jogo cego embalado pela água a correr foram quebrados por uma figura frágil (Blunt) e uma montanha de figura logo atrás (respectivo guarda-costas). Sempre a ausência de luz mesmo quando as palavras começam a surgir como pedras atiradas do palco e o saxofone vai deambulando desconcertante.

Segue-se um rasgo com a entrada em cena de uma figura feminina que é simultaneamente libertadora e opressora: de épico momento quase operático a riffs rasgados numa guitarra quase Shoegaze, quase Post-Rock… quase nada. Porque, no fundo, é de nada que se trata. Nada há de bela, da mesma forma que nada há de feio. Nada tranquiliza porque nada agita. É esse o ponto do londrino. Algo como “50 Cent”, do altamente esperado Black Metal, é niilista como nenhum russo novecentista poderia imaginar. O massacre de strobes serve apenas para crispar ainda mais o ambiente antes da despedida final e da mesma forma como começou: em sombras.

Fotografia: Nuno Bernardo
Texto: Filipe Adão

 

4 de Outubro, Pavilhão do G.D. Ferroviários

The Ex + Faust + Magik Markers + Putas Bêbadas

Quando foram abertas as portas do Pavilhão do G.D. Ferroviários, sala plantada à beira-Tejo e com vista privilegiada sobre os moinhos de Alburrica e a antiga estação ferroviária, um dos símbolos maiores da história do Barreiro, ainda deviam ressoar aquelas vibrações sonoras que acompanharam as sombras da despedida de Dean Blunt da noite anterior. Essa réstia sonora, física ou simplesmente encalhada nas paredes do ouvido, dissipou-se de vez com a entrada a pés juntos de Putas Bêbadas, nome associado à interessante Cafetra Records, despejaram as ideias que a própria editora parece transmitir: um sentimento pouco consensual, mas com imensa frescura acarretada. Acabou por funcionar como uma espécie de ‘balanço de brancos’ para antever a diversidade musical que havia de seguir.

«I don’t wanna be mean, but I’m not afraid!!» — e fazia-se ouvir o ‘grito do Ipiranga’ da voz robusta de Elisa Ambrogio, a frontwoman intrépida de Magik Markers, atirada sob a forma de refrão potente, por entre o groove das guitarras serpenteadas de “Don’t Talk In Your Sleep” (boa malha já do velho Balf Quarry, de 2009). Quatro anos depois de um período de hibernação após o lançamento do LP acima-citado, o grupo regressa com Surrender To The Fantasy, editado em 2013 pela Drag City, bem representado no passado sábado, nos Ferroviários. Um disco fantasioso, simples, vozes e guitarra numa harmonia ruidosa, fuzz, sem perder o groove, que, nas palavras de Elisa numa entrevista em tempos, se prende com o escapismo até um mundo meio-imaginário; uma fuga à paralisia da existência quotidiana. Um mundo imaginário. “American Sphinx Face” traz aos ouvidos um drone simples, quimérico, assombrado pela voz meio fantasmagórica de Ambrogio. A fantasia continua em “Empire Building” e o cordel entre a guitarra e os dedos de Elisa, qual marioneta de ruído extasiado, em perfeita obediência aos movimentos animalescos desta, num pleno cenário de tensão entre mestre e submisso, até passar pelo shoegaze mais colorido de “Crebs” e “Screams of Birds and Girls”. No final, ficámos com um pacote completo que nos deixaria uma óptima sensação auditiva de satisfação.

Em vésperas do lançamento do seu novo Just Us, os Faust vieram ao Barreiro mostrar aquilo que foram, são e serão – uma das influência maiores surgidas no movimento do krautrock no início dos anos 70, contribuindo no preenchimento do vazio cultural deixando na Alemanha  pós-Segunda Guerra, quase em negação à apreciação da música britânica e americana em território germânico. Lição de história à parte, pudemos contar com o duo nuclear e membros originais dos Faust, Jean-Hervé Péron e Werner “Zappi” Diermaier, assim como músicos locais, como os portugueses Ernesto Silva (guitarra) e Francisco Andrade (saxofone), para além da contribuição de Carla Buzolich, na construção de padrões fabris e colagens sonoras originais. Testemunhámos de tudo: figuras femininas a tricotar durante todo o espectáculo, um jovem pintor a ilustrar uma tela, berbequins, bilhas de gás, placas de metal (recolhidas pela cidade, acrescente-se) e ainda uma betoneira. Somadas as coisas, os autores do célebre The Faust Tapes deram-nos ‘apenas’ aquilo que sempre fizeram ao longo de mais de quatro décadas de existência. Existe, porém, uma sensibilidade e um cuidado na interacção com a plateia que consegue renovar estes sons – é irrepreensível a pureza do acto, que nos remete para uma Alemanha industrialmente tensa e com fome de estabelecer ligações com o próximo da única forma possível: através das cinzas da sua própria cultura.

O encerramento da noite ficou a cargo dos The Ex, cujo o legado já caminha deste os 80’s e conta ligações a Sonic Youth e Steve Albini, bem iluminados em palco, que, ainda a abraçar a sua fama «anarco-punk» (isso agora fica ao critério de cada um) nos trouxeram um punhado de malhas para mexer a anca. “27 Passports” a meter umas quantas cabeças a mexer, “Top of My Lungs” continuou no mesmo ritmo, e assim se terminou energicamente, à bom punk – energia, pontapés ao ar, saltos e uns quantos corpos frenéticos. Aquele final agitado, quase em jeito de after-party, a deixar-se entrar pela noite com ritmos contagiosos.

Fotografia: Nuno Bernardo / Telma Correia
Texto: Nuno Bernardo / Telma Correia

 

Cada vez mais o OUT.FEST se assume como uma ocasião ímpar de soltar os ouvidos e os olhos à liberdade da criação, onde há quem compreenda o que se passa e há quem vá à descoberta. Há ainda quem não entende, nem quer entender, desfrutando à sua maneira a experiência completa dos ruídos e dos pormenores deste mini-universo difícil de fazer antecipar o acorde seguinte.

O OUT.FEST é sim feito das pequenas grandes coisas, onde tanto antecipamos a oportunidade de testemunhar a grandeza dos Faust ao vivo, como poderemos estar sentados à mesma a beber uns copos com os mesmos durante a tarde. Trata-se da música feita em prol da música, onde os músicos são fãs e os fãs são músicos, não sendo impostos limites nesta união de ondas sonoras que tornam a distância entre as margens do Tejo mais curtas.

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