Foundations Of BurdenDe tempos a tempos vemos surgir uma banda capaz de romper com qualquer barreira de género, de ascender de forma notável por entre as definições. Não podendo deixar de pensar no que representaram os Deafheaven com “Sunbather” em meados do ano passado, em que se podem apontar as nítidas influências do shoegaze duns My Bloody Valentine ou Ride como a chave para a abrangência das fronteiras do black metal praticado pelos norte-americanos, com estes Pallbearer já em 2012 e com “Sorrow and Extinction” tinha ficado perceptível o peso que a banda poderia vir a tomar num futuro próximo.

Não pode ser dito que a fórmula tenha mudado, nem precisava. Os elementos que fizeram de “Sorrow and Extinction” o grande álbum que é continuam todos bem presentes. A construção elaborada, os riffs cativantes, a gestão do tempo e a densidade e sobreposição cuidada de texturas e pormenores. Logicamente nada disto pode ser falado sem que se faça menção à voz e liricismo de Brett Campbell. Não sou capaz de esconder a admiração pelos Warning de Patrick Walker. Terei mesmo de ir mais longe e considerar o “Watching from a Distance” como um dos marcos mais importantes do doom na última década, ficando difícil imaginar que este mesmo Brett Campbell não exponha o disco ao lado de um óbvio “Masters of Reality” na sua estante.

Em termos práticos, o que se ouve em “Foundations of Burden” parece ter sido deixado maturar em cascos de madeiras nobres.  A música dos Pallbearer ganhou uma dimensão espacial que podemos afirmar agora que não tinha. No pináculo de ‘Vanished’, a faixa que fecha o disco, fica a impressão de que os céus se abriram e de que o som daquelas guitarras podia estar a sair de trompas no meio das nuvens. Em ‘Watcher In The Dark’ há espaço para solos de guitarra que parecem arrancados à psicadelia dos 70’s via máquina do tempo. Existem vales e montanhas em ‘Foundations’. A voz de Campbell parece ter aberto para um universo de dinâmicas de que não era capaz. Os Pallbearer mostram-se uma banda crescida, que somou ideias e que as multiplicou por mil. Todas as seis faixas parecem tiradas a escorrer dum caldeirão de rock progressivo, a complexidade das estruturas é notável e a maneira como a banda as faz crescer revela uma mestria técnica inegável. Há tanto a acontecer nos dez minutos que perfazem a duração média duma faixa do álbum: as variações de tempo, a maneira como os riffs se fazem fundir e transformar num e mais noutro e como se fazem aparecer de forma sucessiva ganchos e ganchos de melodia – ainda assim “Foundations of Burden” nunca se perde em intenções, mantendo a sua atmosfera de forma coerente durante o que é praticamente uma hora de duração total.

Há algo na música dos Pallbearer a que fica difícil apontar o dedo mas que parece ser o que no fundo faz tudo isto resultar. A verdade é que esta aparenta possuir um carácter quase feminino e que lhe está bem intrínseco. Há uma suavidade inerente à maneira como encaram o doom metal, algo que tem tanto de método como de misterioso. Da capa ao conteúdo, “Foundations of Burden” assume-se como parte do espectro dos sonhos, daqueles que falam acima de tudo ao coração.

Autor: Rui Andrade

De tempos a tempos vemos surgir uma banda capaz de romper com qualquer barreira de género, de ascender de forma notável por entre as definições. Não podendo deixar de pensar no que representaram os Deafheaven com "Sunbather" em meados do ano passado, em que se podem apontar as nítidas influências do shoegaze duns My Bloody Valentine ou Ride como a chave para a abrangência das fronteiras do black metal praticado pelos norte-americanos, com estes Pallbearer já em 2012 e com "Sorrow and Extinction" tinha ficado perceptível o peso que a banda poderia vir a tomar num futuro próximo. Não pode…
Da capa ao conteúdo, "Foundations of Burden" assume-se como parte do espectro dos sonhos, daqueles que falam acima de tudo ao coração.

[Álbum / Profound Lore Records / 19 Agosto 2014]

Classificação

88%

Da capa ao conteúdo, "Foundations of Burden" assume-se como parte do espectro dos sonhos, daqueles que falam acima de tudo ao coração.

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