Omie Wise preparam uma tomada de assalto ao mundo da música portuguesa com um rock progressivo e psicadélico afinado e inspirado em sons clássicos e contemporâneos. A banda proveniente de Braga conta já com um EP e um disco de longa-duração que promete pôr em alerta os fãs do rock instrumental altamente adornado.

Ruído Sonoro: O vosso projecto surgiu em 2017, contem-nos como surgiu a ideia deste projecto?

Fábio Pinto: Os primórdios banda surgiram há coisa de 6/7 anos quando eu e outro guitarrista começámos a trabalhar numa demo com o intuito de procurar malta para formar uma banda de rock progressivo. No espaço de 7 ou 8 meses, depois de lançarmos a demo, tínhamos uma formação de cinco instrumentistas (curiosamente essa demo serviu depois de base para um dos temas do EP). Entretanto, várias pessoas saíram e entraram até esta formação que apresentamos actualmente, que estabilizou desde há três anos para cá.

Eduardo Almeida: Basicamente, desde o secundário que sonhava ter um projecto de rock progressivo, a ideia de ter uma banda de múltiplos elementos e músicas com mais de cinco minutos atraía-me bastante, até porque era algo raro, em Portugal. Quando o Fábio me enviou uma mensagem em Julho de 2013, não sabia o que viria dali, acho que aquela demo me encantou.

RS: Que bandas vos inspiram?

FP: Muito difícil responder sucintamente a essa pergunta dado que difere bastante de membro para membro. Da minha parte, posso dizer que o rock progressivo/psicadélico é uma enorme influência, principalmente o da década de 70, onde o género provavelmente atingiu o apogeu. Há algumas bandas mais recentes que também foram uma grande influência, como The Mars Volta, Porcupine Tree/Steven Wilson, Opeth, etc. Sou também grande fã da cena escandinava, onde destaco bandas como os Anekdoten, Landberk (o Reine Fiske é provavelmente o meu guitarrista favorito), Anglagard, etc. E ainda o jazz, folk, tanta coisa… recentemente tenho andado vidrado num álbum de folk psicadélico da Linda Perhacs, chamado Parallelograms. Aconselho vivamente!

João Machado: A minha “escola” é mais o metal, mas em termos de influências na onda do rock progressivo diria Mike Oldfield, King Crimson, Emerson Lake & Palmer, Yes, etc. Um estilo que me tem fascinado nos últimos anos é o chamado “minimalismo” na onda de compositores como Terry Riley, Steve Reich, Philip Glass, etc.

EA: Eu acho que vou beber tanto ao jazz-fusão como à electrónica, mas durante alguns anos, só ouvia rock. Quando comecei mesmo a ouvir música, tinha um quarteto de jazz com uns amigos e passávamos tardes a apreciar  solos do Mingus e do Shorter. Não consigo dizer muitos nomes, mas ainda esta semana percorri a discografia dos Return to Forever. Acho que temos todos gostos bastante diversos e mesmo assim não há grande intersecção nos estilos que populamos.

RS: Curiosamente, lançam “1808” no próprio ano de fundação, o que nem sempre é comum. O que significa esse EP para a banda?

FP: O EP foi particularmente importante para nos ajudar a encontrar e consolidar a nossa sonoridade como banda. O Miguel Santos tinha entrado para a banda poucos meses antes, quando começámos a gravar esse EP, acho que tivemos pouquíssimos ensaios com a formação completa, antes das gravações. O EP foi totalmente gravado e produzido por nós, o que ajudou imenso nessa busca pela nossa sonoridade.

EA: Sim, o EP foi acima de tudo uma aprendizagem e um amadurecimento musical. Um ponto de partida para aquilo que queríamos realmente fazer. Principalmente pelo que o Fábio mencionou, o processo foi realizado por nós de uma ponta à outra. Isso dá-te outra sensibilidade sobretudo quando, como no nosso caso, não tens escola o formação nessa área. Foi um período bastante importante.

RS: No dia 27 de Setembro, “To Know Thyself” saiu para as lojas. É o vosso álbum de estreia e significa um passo muito em frente na vossa sonoridade. Como foi gravar o disco? Que diferenças sentem com o novo álbum?

FP: O LP foi gravado e produzido já num contexto profissional, no AMP Studios do Paulo Miranda, em Viana do Castelo (o EP foi gravado na nossa sala de ensaio, em casa do Eduardo e na cave dos meus pais). Gravar num estúdio foi um pequeno sonho tornado realidade! Em termos de sonoridade, sim, concordo que é um passo em frente na sonoridade que apresentamos no EP. Mais madura, mais diversificada e ainda assim mais focada.

EA: De certa maneira foi algo por que ansiávamos, mas para o qual não estávamos preparados. No sentido em que, de um dia para o outro te vês com uma responsabilidade gigantesca, e ao mesmo tempo, queres dar o teu melhor e ainda assim tirar prazer de toda a experiência. Foi sem dúvida uma semana intensa e do qual nos podemos orgulhar do resultado.

RS: Sobretudo após o lançamento de “1808”e de “To Know Thyself”, como pensam que tem sido o feedback do público em relação a um projecto tão inovador?

FP: Para mim, fazer música é um processo bastante egoísta. O objectivo principal é criar algo que eu goste de ouvir no final de um dia de trabalho. Obviamente, não nego que me agrada quando outras pessoas gostam da nossa música, e nesse aspecto temos tido sorte, o feedback tem sido bastante positivo. Mesmo pessoas que não são fãs do género conseguem encontrar músicas ou passagens que lhes dizem alguma coisa. E partilhar isso é sempre bonito.

EA: É sem dúvida um desafio fazer algo como Omie Wise no contexto musical português. Óbvio que nos perguntamos várias vezes se haveríamos de ter alguém a ouvir e a gostar da nossa música. Mas, reflectindo também o que o Fábio disse, fizemos sempre isto para nós e com o desejo de concretizar algo realmente nosso.

RS: Contam já com dois videoclips na bagagem, “Something Wicked Stand Behind Me” e “Make a Knot”. A experiência dos vídeos pode ser muito enriquecedora. Contem-nos como correram as gravações?

FP: Os vídeos surgiram em contextos diferentes: o da “Make a Knot” foi produzido e realizado pelo José Crispim, um amigo do Eduardo. Como essa música tinha sido escolhida para primeiro single, foi o primeiro a ser gravado. O da “Something Wicked Stands Behind Me” foi inesperado e não planeado. Surgiu por iniciativa do Gonçalo L. Almeida que, logo depois do nosso concerto no Mercado Negro, em Aveiro (literalmente depois, dado que ele me abordou imediatamente no segundo que saí do palco), nos propôs um videoclipe na linha do estilo que ele tem estado a explorar enquanto estuda cinema. Acabámos por escolher a “Something Wicked Stands Behind Me” e, de certa forma, transformámos esse vídeo numa espécie de curta que tenta resumir o conceito do álbum. Foi uma experiência muito gira, envolveu muita gente talentosa. Estamos bastante orgulhosos!

RS: O grupo é ainda muito jovem. Como se imaginam daqui a cinco anos, em termos da vossa sonoridade?

FP: Há muita coisa que gostava de explorar musicalmente com Omie Wise, daí, esperaria uma sonoridade bastante diferente daquilo que apresentámos no 1808 ou no To Know Thyself. Se assim não for, vou ficar um pouco desapontado.

RS: Por vezes, uma banda de rock progressivo tem o apanágio de lançar muito conteúdo e de se mostrar pouco ao público. Planeiam lançar muito ou dar muitos concertos? Qual é o vosso objectivo discográfico?

FP: É difícil de prever. Gosto muito de dar concertos, mas o que me move mesmo é a parte criativa. Se tivesse de escolher entre as duas, escolhia fazer música.

JM: Tipicamente a minha preferência recairia sobre o acto de compor e produzir, mas ultimamente a minha preferência tem sido mais nos concertos. Mas julgo que seja algo de fases.

EA: Objectivo discográfico? Não temos.

RS: Querem seguir carreira e viver da música ou é ‘impossível’, tendo em conta o mercado português?

FP: O mercado português torna esses sonhos bastante longínquos e tendo em conta a nossa sonoridade de nicho, ainda mais difícil se torna. Daí, diria que isso não está de todo nos nossos planos.

JM: Reforço o que o Fábio disse e até diria que isto também não é possível em mercados maiores como o dos Estados Unidos ou do Reino Unido. O ter-se um “day job” e seguir-se as aspirações musicais no tempo que resta é de longe a situação mais comum em sonoridades que não sejam “mainstream” e não antevejo que isto tão cedo vá mudar.

EA: É impossível tendo em conta, diria eu, qualquer mercado. Pode haver mais gente a ouvir prog-rock em Inglaterra, mas também há mais aspirantes a músicos desse tipo de sonoridade. É de facto um estilo menos procurado, mas não será por isso que deixaremos de nos alimentar criativamente.

Texto e entrevista: João Braga
Edição: Nuno Bernardo
Fotos: Shootsounds | Joana Rita

 

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