Feitas as nossas escolhas de 2015, aproveitámos para passar a pente fino algumas das listas de final de ano. Tanto por cá como lá fora, temos a impressão que alguns discos passaram ao lado dos hypes que tão bem sabem colocar um artista a ser falado em todos os meios musicais. David Matos, Nuno Bernardo e Rui P. Andrade pegaram em dez discos de 2015 que [provavelmente] não ouviste, ou que nem sabias que tinham saído, e apresentam os seus argumentos.

Anopheli – The Ache of Want

Se o nome Alex Bradshaw não será estranho a muitos (Fall Of Efrafa, Light Bearer), menos conhecido será o seu mais recente projecto, Anopheli. Resultando de uma reunião de amigos com uma enorme paixão pela música, este projecto alia a brutalidade agressiva do Hardcore e Crust Punk ao melancólico gemido do violoncelo, num contraste de improvável beleza. Sufocante, negro e épico são os três melhores adjectivos para descrever este álbum de estreia, que conta ainda com uma pequena surpresa acústica denominada Ruminations. Seis músicos, seis músicas, seis instrumentos, um álbum de diabólica perfeição. [DM]

https://www.youtube.com/watch?v=w3UNOzdMXhk

Big ‡ Brave – Au De La

A massa sónica destes Big ‡ Brave pode ser dissecada em diversas direcções. Há quem possa reencontrar os corpos estranhos de Swans ao longo de Au De La na mesma proporção em que Björk poderia alinhar numa jornada de guitarras gritantes. Um soco estomacal para tomar o gosto a regurgitação, tal como outros registos já assinados pela Southern Lord – uma nova extensão das fronteiras entre a música extrema e o noise desconcertante. E a julgar a tenra idade da banda, quer-nos parecer que ainda terão melhor para lançar. [NB]

https://soundcloud.com/southern-lord-records/bigbrave-on-the-by-and-by-and-thereon

Braille – Mute Swan

É do coração de Brooklyn que nos chega o LP de estreia de Praveen Sharma a solo, produtor americano que não só encarna Braille como vem a ser a outra metade dos Sepalcure há um par de anos. Mute Swan é um oceano de R&B devastadora, soul caprichosa, síncopes de UK garage e vagas de noise capazes de trincar a mistura a meio. A influência de música africana palpa-se inclusivamente e de forma fácil em muitos momentos – veja-se a sublime “Shhhh” como exemplo máximo. As colaborações essas são várias e estendem-se de forma perfeita à voz de Angelica Bess e de Jesse Boykins III. O vosso historial amoroso recente é um poço de fantasmas e de noites que preferiam esquecer; Mute Swan é boa parte da caminhada até a cama vazia que vos espera em casa. [RPA]

Colin Stetson & Sarah Neufeld – Never Were The Way She Was

Parece irónico um disco da grande Constellation aparecer nesta lista, logo a casa das assinaturas de Godspeed You! Black Emperor, Thee Silver Mt. Zion, Matana Roberts, Esmerine ou Tindersticks, mas acreditamos veemente que este disco passou por baixo das atenções. Colaboradores regulares, Colin e Sarah já haviam registado a banda sonora para Blue Caprice e contribuindo com saxofone e violino, respectivamente, nos álbuns de Arcade Fire. O primeiro álbum conjunto non-score é este Never Were The Way She Was e alerta-nos para quão imponente pode ser um trabalho a quatro mãos, ocupado demais para cair no pote dos sons ambientais inconsequentes.  [NB]

Kerridge – Always Offended Never Ashamed

A música de Samuel Kerridge é o espelho de um mundo a arder que vos é colado à frente da cara, esfregado mesmo. Always Offended Never Ashamed é sujo, é lento e é atroz, em que cada batida é um crânio pulverizado contra uma parede de pressão acústica. É um deserto de maquinaria industrial como se narrado por Herzog em ’92. Há trompas e não homens à porta deste inferno. [RPA]

Kauan – Sorni Nai

Foi há quase 57 anos que nove jovens esquiadores morreram nos montes Urais, no coração da Rússia, em circunstâncias bizarras e sem explicação até hoje. Liderados por Igor Dyatlov, os estudantes foram encontrados dispersos na neve com múltiplas fracturas internas gravíssimas mas sem feridas externas; um dos corpos não tinha língua, e todos eles estiveram expostos a elevadíssimos níveis de radiação. Inspirados neste trágico e misterioso acidente, os russos Kauan lançaram Sorni Nai, um épico de Doom Metal atmosférico, frio e melancólico, com um subtil toque gótico e adornado com pormenores de folk com violino e guitarra acústica. O vento gélido faz-se sentir por entre os temas, criando um ambiente perfeito para o ouvinte viajar até ao Passo Dyatlov e por ele deambular na pele das vítimas, em todo o seu horror, medo e tristeza. [DM]

Lila Rose – We.Animals

Se apresentarem We.Animals como um álbum pop sobre a igualdade e defesa de milhões de criaturas e do próprio planeta Terra, o mais provável é jogá-lo para o lado. Mas a canadiana Lila Rose soube-se deslocar do humanismo e preferiu dar ouvidos aos sons da Natureza e conjugá-los com a orgânica negra que a rodeia. São onze faixas orelhudas, entre o melhor que a pop contemporânea pode oferecer algures entre Florence Welch e Chelsea Wolfe, cimentadas através da capacidade sensorial de Lila. Capacidade ainda mais surpreendente dada a autora sofrer de uma forma de hiperacusia, o que a impede de tolerar os sons do quotidiano. [NB]

Purple – Silence & Remorse

O nome de Luis Dourado (Purple) não nos devia soar estranho de todo. Nascido na cidade do Porto e residindo agora em Berlim, Purple é parte integrante do colectivo Wedidit em que ombreia com nomes como o de Shlohmo e Groundislava. Se foi com o EP Salvation que começou a mostrar ao mundo a montanha de potencial da sua electronica embaciada e sedutora, foi este ano com Silence & Remorse – o seu álbum de estreia – que ficou cimentada de forma absoluta a sua capacidade de conjugar melodias por entre uma atmosfera noctívaga muito própria. [RPA]

Seigmen – Enola

Apesar de terem 26 anos de existência e contarem com vários álbuns de grande qualidade (com destaque para o Metropolis de 1995), os noruegueses Seigmen nunca ganharam popularidade fora do seu país, provavelmente fruto de uma carreira intermitente com hiatos de 1999 a 2005, 2006 a 2008 e 2008 a 2012. Ao contrário das duas reuniões anteriores, sem material novo, esta última resultou no álbum Enola, pautado pela sua sonoridade característica de rock alternativo atmosférico, negro e melancólico. Da abertura mais enérgica com Hva Vi Elsker até ao final “post-rockiano” Hvit Stjerne Hvit Støy, passando pelo single mais sonhador Utopia I Mine Armer, é um álbum que respira maturidade do princípio ao fim, com dinâmica e camadas sonoras suficientes para prender o ouvinte e o obrigar a audições sucessivas. [DM]

https://soundcloud.com/haalandeidsvagstrom/seigmen-hva-vi-elsker-1

worriedaboutsatan – Even Temper

Even Temper surgiu em 2015 como o regresso aos discos pelos worriedaboutsatan seis anos após o lançamento de Arrivals – o último disco da banda lançado pela Denovali Records em 2009. O duo de Manchester move-se pela electronica entroncada em graves e por espaços mais ou menos ruidosos, sem nunca por de parte o carácter tribal que lhe é intrínseco. Even Temper é um abismo de dinâmicas que vos faz voltar vezes sem conta e em que os ganchos atirados não deixam ignorar minuto algum. Não anda longe de ser uma colecção quase perfeita de canções; música para a pista de dança no submundo de cada um. [RPA]

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