O Barreiro Rocks completou 15 anos em 2015 e o rock voltou à cidade nos dias 4, 5 e 6 de Dezembro. Este foi o ano de reafirmação do festival – por onde já passaram artistas como os Black Lips, Ty Segall ou Billy Childish – que esgotou mesmo antes de abrir portas e com o lançamento do documentário que conta a história deste pequeno grande evento. Pequeno na dimensão, local e genuíno no carácter, grande na escolha e coerência musical e exemplar na militância dos que o frequentam.

4 de Dezembro

Repetentes no Barreiro Rocks mas com uma visão refrescada graças ao documentário com o mesmo nome, partimos para esta edição quinze à procura da tal “festa do liceu que saiu fora de controlo”. Também repetentes no cartaz os Cave Story viram ser trocada a presença num palco exterior pelo interior e principal palco do festival. Não faltou no argumento o balanço do trio entre o pós-punk e o noise rock, jogando-nos as Spider Tracks uma a uma para se apresentarem, uma vez mais, uma das grandes valências do novo rock português. Repetentes idem, mas com um intervalo de treze anos, os d3ö surgiram para relembrar o que é uma lição de rock and roll puro e duro, musculado e dançante. Foi aqui que começámos, de certa parte, a ver-nos na tal prometida festa do liceu, onde já identificámos o amigo x ou y a tentar subir uma grade ou a pedir um pezinho para se jogar ao crowdsurfing. Tudo certo, o Barreiro Rocks estava oficialmente no seu trilho.

E a festa estava agora restrita aos duros. O Barreiro Rocks esgotara o dia que havia de vir e, pela primeira vez, antes de abrir as suas portas. Quem já lá morava, de pulseira rosa, não quis de forma nenhuma perder as meias doses de 60’s britrock e garage punk dos States dos The Baron Four, ou The Baron Trio nesta noite já que apenas três actuaram. Com eles chegou a folia, sem números e estendida a todo o Pavilhão dos Ferroviários, combatendo-se o frio com canções orelhudas. Foi hora de elevar os copos e os amigos sobre as cabeças do público e não muito depois assistimos ao primeiro parecer do grande Crooner Vieira. Chegou atrasado, pois como já reza a lenda, jogou o Benfica nessa noite e o senhor não lhe perde um jogo.

Chegou para nos apresentar os The Routes, já com os japoneses em palco, mas sem deixar de nos apresentar excertos das suas histórias intercaladas com as interpretações de “Only You” e “Sex Bomb”, estendendo o sorriso colectivo do Barreiro Rocks a todos os cantos do pavilhão. Esse sorriso chegou às pálidas caras dos Routes que, com os seus estranhos gadgets que haveremos de conhecer daqui a um par de anos, registaram o momento. E o que se seguiu foi fuzz, garage punk, rock em ritmo crescente, martelando dança atrás de dança para um festa já fora de si, com o público a dispersar-se entre os copos no bar, a festa lá à frente ou a conversa lá fora, onde se espreitavam as fotografias de uma exposição colectiva a marcar os quinze anos de festival.

Ao bar todos voltaram. Ou todos deviam ter voltado. Já os The Sunflowers se tinham fechado naquele canto da sala e o público já ansiava pelos primeiros acordes… e o resto foi história: rega de cerveja, pés no tecto, chão lamacento e uma agitação tremenda para acompanhar a dupla portuense. Deve ser o sonho de qualquer banda de garage rock dar um concerto assim, jogando ainda para a galhofa umas versões de “Atirei o pau ao gato” e uma muito séria – e, céus, que loucura – de “I Wanna Be Your Dog”. Quem dera até ao Iggy Pop ter lá estado.

A fechar a noite e com nota de surpresa, uma espécie de showcase, ou perninha, dos Pista, a dar a primeira actuação à sua cidade depois do lançamento oficial de Bamboleio. Bastaram “Puxa” e os dez minutos de “Queráute”, a cidade conhece-lhes o resto de trás p’ra frente e tem tanto orgulho nisso como nesta histórica primeira noite dos quinze anos de Barreiro Rocks.

Fotografia e Texto: Nuno Bernardo

 

5 de Dezembro

No sábado, o festival começou mais cedo e voltámos à escola para começar a ouvir a primeira banda do programa “Jovens Músicos”, os Postcards From Wonderland, e testemunhar ao vivo a tal passagem do legado entre gerações de que Nick Nicotine, um dos organizadores do festival, nos havia falado em entrevista. O trio do Barreiro foi o primeiro a actuar no pátio da Escola Conde Ferreira, num palco improvisado. Miúdos cheios de garra, com adereços engraçados, que tocam punk no país do fado. E parte do encanto do Barreiro Rocks reside nisto mesmo, numa simplicidade e despretensiosismo, apenas com o objectivo de escutar boa música e passar bons e divertidos momentos.

Os The Brooms, também eles do Barreiro, decoraram a sua bateria com vassouras e vieram vestidos a rigor, com chapéus de bruxa e capas. Já a sua música não precisa de adereços, é rock n’roll puro e duro, com teclas sonantes e vocais por vezes guturais, como ouvimos em “Bang”. Antes disso, os 800 Gondomar, banda de Rio Tinto, trouxeram do Norte do país um humor muito peculiar, com músicas como “Tenho de ir para casa” ou “Cabeçudo”, uma postura irrequieta e uma pedalada acelerada. A fechar o sábado no palco Escola, os Fabuloso Combo Espectro, que passaram o tempo anónimos no meio do público do festival, como o nome indica, foram fabulosos a explorar os limites do rock, pós-punk ou até no wave, e mesmo a “incendiar” a multidão e alguns fãs mais efusivos.

Mas, mesmo depois de concertos tão enérgicos, o dia ainda só ia a meio. Nos Ferroviários, os norte-americanos The Jay Vons, fizeram uma pausa no registo do garage rock muito sentido até então e trouxeram os seus temas e revivalismo soul. E ainda que os The Government apanhem um pouco desta onda, deram-lhe o seu toque de desgoverno rock and roll e abriram as hostes para o homem do blues do Barreiro, o único Fast Eddie Nelson. Estando em casa e em cima de um palco que lhe é mais do que familiar, não se coibiu de dar um espectáculo intenso, cheio de garra e com convidados de outra bandas a fazer uma perninha aqui e ali. Recordamos especialmente o regozijo de “Baptize Me in Wine”. O ambiente era de festa e camaradagem no “pavilhão dos espaldares” quando os espanhóis Los Chicos chegaram ao palco. Um regresso muito esperado no Barreiro e pela própria banda, a celebrar o aniversário do vocalista Rafa Suñén. Os gémeos, em pontas opostas do palco, criavam uma estranha e engraçada ilusão de simetria, enquanto Rafa, irrequieto passava mais tempo a dar cambalhotas no palco, a subir aos espaldares e às colunas e no meio do público, que rapidamente se deixou levar pelos riffs dançáveis dos madrilenos, numa alegria contagiante.

Mas se o relato desta loucura (saudável) já impressiona, os The Parkinsons, rebentaram com a escala, como já era de esperar. De regresso ao festival e também a celebrar o seu 15º aniversário, a banda, apresentada pelo querido anfitrião Crooner Vieira, ganhou a alcunha temporária de “Capri Sonnes” e começou por abrir as hostes com o tema “Bad Girl”. Daí em diante foi um turbilhão enérgico e um descontrolo de pessoas que voavam por cima do público, incluindo um rapaz – que depois ficámos a saber que se chamava Renato – para quem a cadeira de rodas não foi impedimento. Com as emoções à flor da pele e a sentir as malhas de punk cru desfiadas pela banda, foi mesmo preciso conter as grades que separavam a multidão no palco, enquanto Afonso Pinto passeava pelos espaldares – que por esta altura já se haviam tornado quase uma extensão do palco – e Victor dava os seus saltos de Torpedo. Quando damos por nós, são quase 4h da manhã, estamos a sair de um dos melhores concertos do ano e quiçá dos últimos anos, com o sangue a pulsar nas artérias, o coração a bater mais forte e com baterias miraculosamente recarregadas para dançar ao som dos discos do DJ Shimmy, o americano barreirense.

Fotografia: Nuno Bernardo
Texto: Rita Bernardo

 

6 de Dezembro

No dia seguinte a adrenalina passou e o cansaço só nos deixou chegar à escola a tempo de Conan Castro & The Moonshine Piñatas, que, sem sair do Barreiro, foram buscar o rock à fronteira entre o México e os Estados Unidos. Também os Mighty Sands, que havíamos visto no Barreiro numa outra vida, enquanto Los Black Jews, nos fizeram viajar pelo psicadelismo de temas como “100 Villains”, “DK” ou mesmo a bonita “I’m So Thankful”. Músicas inspiradas em viagens ao Gerês ou na Dinamarca, a noção de deslocação, inerente às músicas é constante. “La Muerte”, terminou em beleza o concerto com uma onda de camaradagem e partilha de coros. Despedimo-nos do Barreiro Rocks com Los Santeros, a banda de Chihuahua, México, que nada tem a ver com a organização do evento (nada mesmo nada). Ainda assim, estes simpáticos mexicanos de sotaque um pouco macarrónico, não se pouparam em elogios à mesma e a Portugal (e ao Ronaldo), enquanto despejavam copos da bela cerveja portuguesa, nos intervalos da música sempre a rasgar. Fecharam com uma poderosa versão de “She Said” dos The Cramps e ficou provado que não necessitam de lições de rock, mas de português talvez.

Na mesma referida entrevista, Nick Nicotine referiu que quem andava a perder o Barreiro Rocks andava a perder vida. E, terminada a experiência do festival – para nós, que este ainda seguiu para o espaço da ADAO – Associação Desenvolvimento Artes e Ofícios – podemos dizer que confirma-se. Ao regressar, depois destes três dias bem passados, sentimos que tirámos a “barriga de misérias” dos concertos de rock arrebatadores, e sentimo-nos mais vivos e felizes, como o rock no Barreiro.

Fotografia: Nuno Bernardo
Texto: Rita Bernardo

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