Marissa Rachel Nadler nasceu em 1981 e cresceu no estado de Massachusetts. A sua mãe, pintora abstracta, e o seu irmão, escritor que também toca guitarra, ditaram um pouco daquilo que Marissa havia de ser. Depois de estudar e de obter o mestrado em Pintura, chegou a dar aulas em Harlem, Nova Iorque, antes de se fixar na música. Em 2004, lançou o primeiro álbum oficial – “Ballads Of Living and Dying”. Dez anos depois, o seu nome atinge finalmente os palcos portugueses.

A apreciação geral de “July” pela crítica tem levado o nome de Marissa Nadler um pouco por todo o mundo. Este novo disco, que contém o selo da Sacred Bones e da Bella Union, motiva a sua estreia em Portugal para dois concertos. O primeiro será no Amplifest, onde pisará o mesmo palco que os Swans, no dia 4 de Outubro. Já no dia seguinte, desce a Lisboa para actuar na Galeria Zé dos Bois. Esta songwriter Norte-Americana contou-nos, numa entrevista a antecipar estes concertos, um pouco da sua carreira e da sua descarga emocional nas canções que escreve. Outrora a dividir-se entre as aulas de pintura e as digressões, é com enorme felicidade que encara os dias que vive na música.

Ruido Sonoro: Foste exposta às artes ainda muito nova. Sentes que herdaste a paixão pela pintura da tua mãe e o facto de tocar guitarra do teu irmão?

Marissa Nadler: Da minha mãe, de certeza que aprendi a pintar. Do meu irmão, foi um pouco diferente. Considero-me maioritariamente uma música auto-didacta, embora ele inicialmente me tenha ensinado algumas coisas e, em geral, o facto de ele tocar guitarra me tenha inspirado a aprender.

Marissa Nadler

RS: Cedo desenvolveste um certo estilo de assinatura de tocar guitarra. Quem te influenciou mais nesse processo?

MN: Bem, inicialmente foi o meu irmão. Depois foram Jack Rose, James Blackshaw, Glenn Jones, John Fahey e Joni Mitchell, apenas nomeando alguns.

RS: Conseguimos identificar algum ritual introspectivo nas tuas canções. As tuas experiências reais têm um papel importante nos teus aspectos narrativos?

MN: Sim. Todas as músicas de “July” são directamente pessoais. Todos os outros detalhes encontram-se nas letras das canções, para os mais interessados.

RS: Lançaste os teus dois primeiros discos através da Eclipse Records. Conseguirias adivinhar como se ia desenvolver a tua carreira depois destes? Estava na altura de perseguir a música depois de estudar e ensinar artes visuais?

MN: Eu acho que sempre fui ambiciosa para ser uma artista bem sucedida, embora fosse algo incerto o que fosse acontecer quando estava na Eclipse Records. Estava mesmo contente por alguém querer lançar a minha música e ainda estou agradecida pela exposição que o Ed Hardy me deu. Ia ensinando artes visuais de vez em quando até este ano enquanto também estava em digressões e ia lançando álbuns. É muito difícil para os artistas nos Estados Unidos fazer disto vida, portanto arranjei forma de ter vários trabalhos ao longo dos anos. Felizmente gosto mesmo de ensinar e de ajudar as pessoas a aprender. Agora parece que estou finalmente capaz de viver da arte por mim, mas não depois de tantos anos de luta.

RS: Com “Songs III: Bird On The Water” e “Little Hells”, o teu «eu» interior foi exposto à grande parte dos críticos pelo mundo fora. Foi um ponto crucial na tua vida? Como é que acabaste a lançar trabalhos sozinha depois destes?

MN: Ora, fui dispensada por uma editora em 2009. Não vendi álbuns suficientes para eles e a decisão foi financeira e não relacionada com a minha música e arte. Fiquei arrasada na altura e decidi juntar dinheiro através do Kickstarter para iniciar a minha própria [editora] por alguns anos para o meu álbum homónimo e também para o “The Sister”. Isto foi há quatro anos atrás, mas provou que se torna stressante e eu não gostava do lado negocioso das coisas. Sugou a vida à alegria de criar música. Então, felizmente, a Bella Union e a Sacred Bones apareceram e não podia estar mais feliz. Parece uma espécie de segunda oportunidade dada à minha carreira.

RS: Este ano lançaste “July” através da Sacred Bones Records e da Bella Union e contém um som delicado de um espírito assombrado a batalhar as suas complicações. Talvez seja o trabalho mais negro até agora e continua a incluir muitos elementos pessoais e uma ligeira essência auto-destrutiva. Conta-nos o que te inspirou mais neste disco e como te sentes com o seu resultado final.

MN: A inspiração foi a minha vida pessoal. Estou muito contente com o álbum, muito orgulhosa mesmo.

Marissa Nadler

RS: Embora estejas ligada a algo de que as pessoas gostam de rotular de «dream folk», contribuíste uma vez com vozes de suporte num álbum de Xasthur. Pode-se dizer que se trata de uma pista para adivinhar o teu alcance musical e o porquê de atingires pessoas com gostos mais pesados? Com que mais gostarias de colaborar?

MN: Estou a sentir-me cada vez mais pesada no interior e espero que o meu próximo álbum continue a mover-se para um território ainda mais negro. Gostava de colaborar com David Lynch, Jim Jarmusch, Earth, Sunn O))), Nick Cave, entre outros.

RS: Um dos teus dois concertos em Portugal vai acontecer no Amplifest, onde poderás encontrar algumas bandas pesadas. E também vais partilhar o palco com Swans, Ben Frost e Yob. Como te sentes em relação a isto?

MN: Sinto-me muito entusiasmada com isso. Dei concertos com o [Michael] Gira quando ele tocou a solo vários anos antes dos Swans se reunirem. Depois toquei com os Swans em Nova Iorque no ano passado. A minha música é pesada no seu próprio sentido e acho que se encaixa perfeitamente.

RS: No dia seguinte vais tocar em Lisboa, que é uma cidade conhecida pelo seu tempo solarengo e pelos seus grandes espaços abertos. Achas que a tua música se enquadra ou trata-se exactamente do oposto?

MN: Há muitas pessoas infelizes nas cidades de todo mundo, incluindo Lisboa. [risos] Com toda a seriedade, adoro Sol e estou muito feliz por tocar para as pessoas de Lisboa.

Entrevista por Nuno Bernardo.
Fotografias de Courtney Brooke Hall.

Amplifest 2014 - Marissa Nadler

Marissa Rachel Nadler was born in 1981 and raised in Massachusetts. Her mother, an abstract painter, e and her brother, a writer that also plays the guitar, pointed out a bit of what Marissa would turn. After studying and getting a master degree in Painting, she teached visual arts in Harlem, NY, before getting into music. In 2004 she released her first official album – “Ballads Of Living And Dying”. Ten years after her name finally gets the Portuguese stages.

The widespread acclaim of “July” got Marissa Nadler‘s name all over the world. This new record released by Sacred Bones and Bella Union is behind her debut in Portugal for two gigs. The first will happen at Amplifest where she’ll share the stage with Swans, on October 4. She plays in Lisbon the day after at ZDB. This north-american songwriter told us in this interview a little of her career and about the emotional discharge of her songs. Once both teaching arts and touring, she’s now really happy for these new days of her music career.

Ruido Sonoro: You were exposed to art at a young age. Do you feel you inherited the passion for painting from your mother and the guitar playing from your older brother?

Marissa Nadler: From my mother, I absolutely learned to paint. My brother, it was a little different. I consider myself a self taught musician for the most part though he initially taught me a few things and generally him playing the guitar inspired me to learn.

RS: You since developed an own signature style of playing the guitar. Who influenced you the most in that process?

MN: Well, initially it was my brother. Then it was Jack Rose, James Blackshaw, Glenn Jones, John Fahey, and Joni Mitchell to name a few.

Marissa Nadler

RS: We can find some introspective ritual on your songs. Do your real experiences take an important role on your narrative aspects?

MN: Yes. All of the songs on July are directly personal. All the rest of the details are in the song lyrics for those that are interested.

RS: You released your first two full-length records through Eclipse Records. Could you guess how your career would develop after those? Was it time to pursue music after studying and teaching visual arts?

MN: I think that I was always ambitious to be a successful artist, though it was unclear when I was on Eclipse what would happen. I was just happy that someone wanted to put my music out and am still grateful for the exposure that Ed Hardy gave my music. I was teaching visual arts on and off up until this year while I was also touring and putting out albums. It’s very hard for artist in the US to make a living so I’d patched together many jobs over the years. Thankfully I really love teaching and love helping people learn. Now, it seems I’m able to finally get by on art alone but not after many years of struggle.

RS: With “Songs III: Bird on the Water” and “Little Hells” your inner self was exposed to most music critics around the world. Was that a crucial event on your life? How did you end self-releasing records after these?

MN: Well, I was dropped by a record label in 2009. I didn’t’ sell enough albums for them and the decision was financial and not related to my music and art. I was devastated at the time and decided to raise the money through a Kickstarter and start my own for a few years for my self-titled album as well as “The Sister”. This was 4 years ago. But, it proved to be stress inducing and I really didn’t enjoy the business side of things. It sucked the life out of the joy got from creating music. So, luckily Bella Union and Sacred Bones happened and I couldn’t be happier. It seems like a second chance at having a career for me.

RS: This year you released ‘July’ through Sacred Bones Records and Bella Union and it contains a delicate sound of a haunted spirit trying to drop complicated entanglements. Maybe it’s your darker record yet and it still has a lot of personal elements and a light self-destructive essence. Tell us what inspired you the most on this record and how do you feel about its final result.

MN: The inspiration was my personal life. I am very happy with the album and really proud of it.

Marissa Nadler

RS: Although you are linked to what people like to label as ‘dream folk’, you once contributed with backing vocals to a Xasthur record. Is this a clue to guess your musical range and why your music reach people with a heavier taste? And who else would you like to collaborate sometime?

MN: I’m going heavier and heavier inside and expect my next record to continue to move into the darker territory. I would like to collaborate with David Lynch, Jim Jarmusch, Earth, Sunn O))), Nick Cave to name a few.

RS: One of your two gigs in Portugal will happen at Amplifest where you can find some heavy stuff. Also you’ll share the stage with Swans, Ben Frost and Yob. How do you feel about that?

MN: I feel very excited about that. I played shows with Gira when he toured solo for years before Swans reunited. Then I played with Swans in NYC last year. My music is heavy in it’s own way and I think it fits perfectly.

RS: You are going to play in Lisbon the day after, which is a city known for its sunny weather and big open spaces. Do you think your music fits or is it about the opposite? 

MN: There are plenty of unhappy people in cities all over the world, including Lisbon. [smile] In all seriousness, I love the sun and am happy to play for the people of Lisbon.

Interview by Nuno Bernardo.
Photos from Courtney Brooke Hall.

Amplifest 2014 - Marissa Nadler

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