No âmbito da nossa saudável parceria, a Ruído Sonoro entrevistou a mente criadora do projeto Factory Of Dreams, o multi-instrumentista e compositor Hugo Flores. Aqui ficam as suas palavras, gentilmente cedidas e com uma boa dose de mistério!
 
 
Ruído SonoroCom seis anos de música cinco estrelas espalhada por quatro álbuns, Factory Of Dreams é um dos teus três projetos, constituído por duas pessoas e um conceito. Esperavas tanto sucesso em tão pouco tempo?
 
Factory Of Dreams: Quando me lancei na aventura de Factory of Dreams, o objectivo era ver se conseguia fazer algo que fosse mais acessível e menos complexo que o meu Project Creation. Foi aliás daí que surgiu o álbum Poles, cujas músicas, ou pelo menos a sua base, foram compostas em cerca de uma semana apenas. Foi mesmo uma necessidade espontânea, como que uma explosão criativa, e tinha de registar essas ideias e ver o que fazer com elas. De facto o álbum acabou por ser muito diferente da onda progressiva que vinha seguindo e na altura não sabia se iria ser um álbum solto, no meio da história do Project Creation, ou se seria algo para continuar.
 
Depois das músicas delineadas, e já com boa parte dos instrumentos gravados, tinha de encontrar uma voz adequada. Foi no meio de várias audições, que ouço a Jessica, dotada de uma voz magnífica e de um poder criativo notório. Factory of Dreams correu de facto tão bem que seria estranho não continuar após o Poles, e foi assim até agora.
 
O curioso nisto tudo, é que após Poles, e apesar de continuar com o estilo próprio de Factory of Dreams, os álbuns seguintes começaram a tornar-se um pouco mais complexos que o primeiro, o que evidencia que não consigo mesmo escapar à minha veia mais progressiva! Mas sei separar o tipo de som, e julgo que isso é bem patente sobretudo nos dois últimos álbuns de Factory of Dreams.
 
Portanto, alcançar tanto em tão pouco tempo, é sempre gratificante, mas quando dei início ao projecto não tinha ideia que iria ter este impacto. Nestes últimos anos a nossa base de fãs cresceu muito, temos tido grande apoio deles e dos media, que acolhem os nossos álbuns de forma efusiva. Isso é de louvar e é um estímulo para a continuação do projecto.
 
 
Factory Of DreamsRSA participação da Jessica continua a ser apenas a nível vocal, ou existe algum outro tipo de contribuição da parte dela? Parece-me que a voz dela se adequa cada vez melhor ao projeto, partilhas dessa opinião?
 
FOD: Na altura em que filmámos um dos vídeos para o 2º álbum, A Strange Utopia, cheguei a falar-lhe em ela poder contribuir com algumas letras, mas como a Jessica estava com pouco tempo disponível, acabámos por manter as coisas separadas desta forma, ou seja, eu a criar toda a componente instrumental e as letras/história, e a Jessica a gravar e compor todas as linhas vocais e backing vocals. Mas quem sabe se para um próximo álbum as coisas não mudem e ela até contribua com letras ou com mais ideias para a história, caso exista uma.
 
A evolução na música e na voz tem sido significativa, e eu procuro igualmente com a música puxar mais pelas capacidades da Jessica que parecem não ter limites. Há músicas que eu pensava ser impensável alguém as conseguir cantar, mas a verdade é que ela consegue adaptar as letras, melodias e encaixar tudo de uma forma perfeita na música, seja esta mais simples ou mais complexa.
 
Os dois últimos álbuns, Melotronical e Some Kind of Poetic Destruction, mostram uma Jessica numa forma invejável, e com capacidades versáteis ao nível vocal, já para não falar numa presença única nos videoclips.
 

A evolução na música e na voz tem sido significativa, e eu procuro igualmente com a música puxar mais pelas capacidades da Jessica que parecem não ter limites.

 
RSTodos os álbuns são conceptuais, de certa forma com uma temática interligada mas cada um com as suas diferenças. Onde vais buscar a inspiração para estes cenários complexos e futuristas? Muitos filmes e livros?
 
FOD: É verdade, os álbuns são todos conceptuais e podem interligar-se, pois têm sempre uma linha em comum, apesar de abordarem temas e histórias diferentes. Poles fala de uma Terra com um lado obscuro e outro lado luminoso e uma fábrica de sonhos enganadores que nos cega a todos; no fundo os governos atuais vendem-nos ilusões e mentiras, e julgo ser esta uma clara crítica na minha música. A Strange Utopia fala de vários mundos e de várias estações do ano numa única zona, muito scifiish, e sobretudo foi um álbum para explorar muitas ideias e temáticas de ficção cientifica que vinha desenvolvendo; Melotronical segue a criação da vida desde uma partícula subatómica até à ascensão para o cosmos, mantendo uma fortíssima crítica social, quase que revolucionária em algumas músicas como a potente Protonic Stream; este último álbum segue a história de Kyra, que leva a Terra até ao seu destino final. Este último irá interligar-se com o terceiro álbum de Project Creation que estou a compor.
 
Inspiração… Diria que é uma conjugação de tudo. Da forma como vejo o Mundo, como interpreto o universo, de filmes e histórias que leio; em tudo o que faço há sempre algo ligado ao cosmos, é algo de intrínseco a mim próprio. Mesmo que eu me queira afastar dessa temática, a verdade é que o tema vem sempre à baila.
 
O Some Kind of Poetic Destruction começa com uma cena terra-a-terra, um dia normal, que rapidamente se começa a transformar num inferno, com a estranha invasão de uma cidade por sons. Estranho, atípico. Ninguém sabe de onde vêm os sons, mas as suas frequências iniciam uma onda de destruição. Ora bem, esta ideia, para este álbum, partiu já do álbum Poles, só que agora traduz-se numa ‘guerra’ travada entre as nuvens, entre os sons positivos e os sons mais obscuros.
 
Há depois várias estações do ano, não propriamente as usuais, como Primavera, Verão, etc., mas sim espécies de microclimas, em certas partes do mundo, onde se observa uma Dark Season, e essa é outra das faixas do álbum onde a fantástica Magali Luyten canta, tendo sido uma convidada de honra no álbum.
 
Há muitas influências de filmes, como o 2001 Odisseia no Espaço ou o Dark City; são filmes que adoro e aliás tenho predilecção por tudo o que saia fora do normal. Gosto de ficção científica, gosto de mistério, de filmes de terror… O mesmo relativamente a banda desenhada e a livros.
 
 
Factory Of Dreams (Band)RSJá pensaste em fazer um álbum com um conceito completamente diferente dos restantes, mas mantendo as características sonoras de Factory Of Dreams? Algo, por exemplo, sobre eventos históricos, ou mais radical ainda, um álbum sem conceito apenas com temas soltos.
 
FOD: Boa questão 🙂 Já e não consegui! Quando começo a fazer temas soltos, acabo por querer sempre fechar o ciclo, tendo a última musica que concluir as temáticas anteriores. Ou seja, conseguir conseguia, mas não seria espontâneo, seria forçado e julgo que não estaria na minha natureza.
 
Sobre temas históricos não, não tenho essa pretensão, mas talvez venha a fazer sobre o que se passa com o Mundo actual e com Portugal e a Europa, nos próximos tempos. Quero fazer um álbum revolucionário! Um álbum que tente dar novo fôlego e importância à vida humana. Aliás, todos os meus álbuns têm sempre uma veia crítica bastante forte como já referi, basta reparar no porquê da invasão da Terra pelos raios sonoros da tal estrela escondida, a observar a Terra, neste Some Kind of Poetic Destruction. Esta estrela, torna-se num buraco negro, quando se torna Supernova, devido às ondas negativas que capta da Terra. A humanidade está a destruir o planeta, e com isto, a destruir-se a ela própria o que desencadeia a sequência de eventos que podem ouvir e ler no novo álbum.
 

(…) uma fábrica de sonhos enganadores que nos cega a todos; no fundo os governos atuais vendem-nos ilusões e mentiras, e julgo ser esta uma clara crítica na minha música.

 
RSO que distingue este novo trabalho, Some Kind Of Poetic Destruction, dos antecessores?
 
FOD: A história, menos abstracta que a do Melotronical, mas mais complexa na sua estrutura e nos pormenores intrínsecos que têm necessariamente que ‘jogar’ entre eles. Cada faixa tem que fazer sentido juntamente com as outras, e estas pontes tiveram de ser muito bem pensadas, repensadas e isso teve impacto no tempo despendido com este álbum e com as próprias letras.
 
O som deste álbum, apesar de seguir o som do seu antecessor Melotronical, também vai mais longe, sendo um pouco mais progressivo e ambicioso julgo eu. Esta multitude de géneros de som levou igualmente a ter a colaboração de alguns convidados na parte instrumental, e das duas vocalistas convidadas em duas faixas, para imprimir maior dinâmica às diferentes faixas.
 
 
RSFala-nos um pouco da história deste disco e das aventuras de Kyra. Qual é a mensagem mais forte que ela transmite?
 
FOD: Tudo começa numa manhã aparentemente calma, mas onde estranhos sons começam a ouvir-se a pouco e pouco e logo se tornam ensurdecedores, criando o pânico. Tudo isto é seguido de raios de luz vindos dos céus. Temos duas personagens, onde a principal acaba por ser a Kyra. As personagens fogem da cidade que entra em colapso, e a partir daí começam numa aventura onde desvendam vários mistérios até perceberem o que de facto se está a passar nesta estranha invasão do planeta.
 
Passam por uma praia onde o mar, por entre sonhos, mostra uma enorme estrela perto da Terra; assistem a estranhas guerras de sons nos céus; encontram um complexo gigante no meio de um vale onde uma aula está a ser dada, enfim, um número de situações até se desvendar o que se passa.
 
A mensagem é que temos de ter cuidado com as nossas acções num planeta que não é nosso, mas que apenas habitamos temporariamente. Vivemos pouco tempo, pelo menos fisicamente, e o planeta continua. O álbum tenta mostrar que o que conhecemos do universo não é nada. Não sabemos o que há lá fora, nem tão pouco o que se passa aqui dentro.
 
Factory Of Dreams (Banner 2)
Somos algo primitivos, basta olhar para o que se passa no mundo, é um inferno, e mesmo assim apesar de vermos as notícias, o passo seguinte é irmos para o sofá, ver um concurso de TV ou um reality show da treta… Não faz sentido e algo está a passar-nos ao lado, claramente.
 
A principal mensagem é também a de esperança, pois mesmo com essa ‘destruição’ do planeta vem uma nova vida, na qual a humanidade ascende a um nível superior, a uma dimensão de som. É esse o sentido da Join us into Sound e da Playing the Universe, as duas faixas que terminam o álbum.
 
A Kyra é como que uma representação das emoções da tal estrela, mas na Terra. Ela prevê o que se vai passar, sonha com essa estrela através da música Seashore Dreams, e a sua longa viagem acabará por descobrir os segredos e a levar a Terra a juntar-se à estrela. Esta Kyra irá reaparecer sob outra forma, no meu terceiro álbum de Project Creation, pelo que as duas histórias vão interligar-se.
 
Um outro ponto que destacaria seria o portal interholo, uma das ideias high-tech do álbum. É uma espécie de equipamento sofisticado, meio orgânico meio electrónico, que permite ligar a nossa mente a uma nuvem onde assentam notícias, filmes, etc…. Assim aumenta a emotividade atribuída a cada visionamento. Isto permite que as pessoas possam ter uma noção mais clara do que se passa e que isso lhes fique na cabeça para poderem agir com maior veemência.
 

A mensagem é que temos de ter cuidado com as nossas acções num planeta que não é nosso, mas que apenas habitamos temporariamente.

 
RSEste novo álbum conta com vários convidados internacionais. Como os conheceste e porquê as escolhas?
 
FOD: Nos instrumentos já os conhecia da Progrock Records; estou a falar do Tadashi Goto, o virtuoso dos teclados, do Chris Brown na guitarra e que também é o nosso mastering engineer, o Shawn, que é o dono da editora e toca também teclados, e, finalmente, e aqui a novidade, a Lyris Hung nos violinos. Não a conhecia, mas procurei por uma boa violinista na onda do metal, e a Lyris sobressaiu como sendo de facto ultra versátil e talentosa. Que grandes solos na Seashore Dreams e na Neutron Star!
 
Nas vozes, já conhecia a Magali de outros projectos e sempre foi uma das minhas vocalistas preferidas; a Raquel conhecia dos Hydria, e adoro a voz pop/rock e cristalina que ela tem, tendo assentado muito bem na Angel Tears. O melhor de tudo é que estas duas vozes são completamente diferentes da Jessica, o que foi bom, pois marcam presença em duas músicas distintas das restantes, como é o caso da agressiva Dark Season e da mais acessível mas melodiosa Angel Tears. Na Angel Tears, temos a particularidade de um dueto entre Raquel e Jessica a não perder!
 
 
RSEste projeto, à semelhança de, por exemplo, Ayreon, não tem uma logística adequada a tocar ao vivo. No entanto, já alguma vez ponderaste essa hipótese, nem que fosse só um evento singular?
 
FOD: Já, e ainda não se produziu, mas não quer dizer que não se venha a fazer. Vamos ver, a logística é complexa.
 
 
RSPor falar em Ayreon, podemos falar do Hugo Flores como o Arjen Lucassen português? Seria interessante para ti trabalhares com ele?
 
FOD: Seria interessante, mas eu acho que ambos somos muito donos dos nossos próprios projectos e gostamos de nos manter ao volante de tudo, como que a comandar uma nave. Mas falo por mim claro, não descartando essa hipótese que daria aso a certamente um enorme projecto ou super group, com potencial gigante certamente! Vejo o Project Creation como que equiparando-se mais a Ayreon, do que Factory of Dreams, pois este último assume-se como uma banda a dois.
 

(…) procurei por uma boa violinista na onda do metal, e a Lyris sobressaiu como sendo de facto ultra versátil e talentosa. Que grandes solos na Seashore Dreams e na Neutron Star!

 
RSVem também aí um novo álbum de outro projeto teu, Project Creation, cuja história vai ligar à de Some Kind Of Poetic Destruction. Queres dar-nos mais detalhes sobre esta interação multi-projetos?
 
FOD: Vai ser muito giro e um desafio! A história do último Project Creation terminou com um novo planeta Pyther a ser criado pelo Floating World, também o título do 1º álbum dessa série; o objectivo desse Mundo Flutuante é vaguear pelo espaço à procura de novos planetas habitáveis, ou de novos mundos que sejam potencialmente habitáveis. Pyther era um planeta deserto, morto e com a ajuda da nave e dos seus tripulantes, começou a desenvolver-se a ritmo acelerado. No terceiro álbum, uma scout ship, sob a forma de uma libelinha robótica (também ela aparece nos 2 primeiros álbuns de Project Creation), vai ser enviada em busca de uma visão. Essa visão é a de um planeta feito de gelo, e azul, mas que ninguém sabe onde está. Essa visão é-lhe transmitida pela pirâmide de Cheops, existente em Pyther.
 
É hora da partida, navegar pelo espaço, muito tempo passa e essa pequena nave acaba por ser engolida por um buraco negro; nessa viagem pelo buraco negro, luz e energia são apanhadas e fundem-se; parte dessa energia veio da Supernova da estrela, com a Terra e Kyra, no Some Kind of Poetic Destruction dos Factory of Dreams. Dá-se então uma alteração nessa libelinha, nessa scout ship… Assim, pode ser que Kyra volte a aparecer, sob outra forma, pois no final da viagem pelo buraco negro, esse planeta que aparece em visões vai aparecer, e com ele muitos mistérios para desvendar, entre eles um oceano que guarda segredos, uma cidade de gelo e um misterioso campo de energia que paira sob o planeta.
 
Abraços e obrigado pela excelente entrevista e pela parceira que temos mantido!
 

Related Posts

Leave a Reply

Your email address will not be published.