As sonoridades mais pesadas podem ter uma certa predominância na colecção de discos do leitor comum deste sítio, mas há sempre um espaço para guardar aquele disco que pouco tem a ver com o resto. Pelo menos é saudável este requisito mínimo: quem nunca optou por refrescar os ouvidos e sair da zona de conforto não sabe do que falo.

Este espaço de opinião da Ruído Sonoro visa dispensar formalidades e incentiva a falar na primeira pessoa e nas experiências envolvidas. Portanto, consultei a minha colecção e encontrei: “Mezzanine”. Quem gosta já disse para si mesmo: «Ah! É claro!». Quem não conhece sai um pouco indiferente a este nome, mas convém referir que este marco da carreira dos britânicos Massive Attack é um álbum que tende a agradar a todos os que se prezam pela música. Os seus números surpreendentes de vendas e a forma como algumas faixas integraram o mundo da televisão e do cinema valeram-lhes um maior reconhecimento com o passar dos anos, não estando, actualmente, muito longe de atingir um estatuto mais alto na música, mesmo após a controvérsia dentro dos seus limites nos anos seguintes ao lançamento deste registo, em 1998.

Escutar ‘Teardrop’ no genérico da série House M.D. fez disparar uma nova procura do nome liderado por Robert Del Naja e Grant Marshall, enquanto que ‘Angel’ fez furor ao longo dos anos em promoção a uma famosa marca de fragrâncias masculinas… mas quem acha que estas duas já valem a pena o disco, então tentem pegar no peru todo. Há muito por onde depenar. As samples utilizadas para compor as melodias e os panos de fundo vão desde The Cure e Velvet Underground a Isaac Hayes, Led Zeppelin e Manfred Man’s Earth Band. A capacidade de transformar a sua fonte de inspiração em algo verdadeiramente próprio é notável: quem diria que ‘Angel’ seria originalmente uma canção de reggae de Horace Andy? Ou que a fantástica ‘Man Next Door’ remonta a 1968 por John Holt & The Paragons? Os arranjos, o processamento e concretização espiritual com que os britânicos se meteram é tão natural como uma Santa aparição. Portanto a viagem envolvida na sua extensão pode até revelar-se uma excelente banda sonora para o consumo de frutas proibidas, mas creio que já existe nocividade suficiente para abrir os poros e dilatar as pupilas se for escutado no volume e em dose convencionais.

Esteja-se num dia difícil, precise-se de inspiração para finalizar um projecto ou procure-se apenas uma experiência nova no espectro musical, então está na hora de atar os sapatos e ir à procura de um par de incensos, uma dúzia de velas e um “Mezzanine” que tanto vale para ambientar o local, como para prender o ouvido à procura do mais exímio pormenor – é deixar-se emergir pelas suas camadas e vibrações como se de um mergulho no escuro Pacífico se tratasse. Se isso acontecer, prova-se que 1 + 1 = 3.

// Nuno Bernardo

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