Texto: David Matos | Fotos: Marina Silva | Agradecimentos: Free Music Events
No dia de chegada do outono, a República da Música testemunhou folhas sonoras de variadas cores. Dos tons claros evocados pela jovialidade leviana dos Jovian Moons, ao negrume subjacente ao talento abismal de Raphael Weinroth-Browne, passando pelas cores quentes e vibrantes dos Royal Blood e terminando com o ouro sobre azul do inadjectivavelmente talentoso Einar Solberg, foi uma noite inolvidável onde uma amálgama absurda de talento se juntou debaixo do mesmo tecto.
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Jovian Moons
A noite abriu ao som do quarteto parisiense Jovian Moons, que pode ser descrito como uma fusão de pop alternativa com indie rock. Criado pelo produtor e guitarrista Lucas D’Angelo, mais conhecido pelo seu trabalho com os Betraying The Martyrs, este novo projeto marca uma diferença sonora vincada. Aqui, as músicas fluem com leveza, assumindo o Lucas também o papel vocal com uma voz doce, e com o baixo de Louise Decouflé a emprestar um groove meio funky incrível às músicas.
Os teclados e guitarra de Simon Meuret elevam a atmosfera da música a um nível mais etéreo e sonhador, sendo que a bateria de Jeremy Norris mostrou uma fluidez incrível, guiando o ritmo com mestreza. A curta atuação da banda, que não chegou a meia hora, focou-se inevitavelmente no seu álbum de estreia, X Amount Of Time, sendo muito bem recebidos por uma sala que ia enchendo. Faltavam cinco minutos para as 21 horas quando a banda se despediu, agradecendo ao público que vibrou com eles.
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Raphael Weinroth-Browne
Depois de já ter impressionado quando atuou com Leprous o ano passado, Raphael Weinroth-Browne já não era nenhum desconhecido para o público português, sendo prova disso a efusividade com que foi recebido ao subir a palco, cinco minutos depois das 21 horas. Com o seu violoncelo mágico, que tocou com uma destreza indescritível, o música canadiense usou uma loop station para sobrepor melodias, com crescente complexidade e genialidade.
Também com um álbum novo na bagagem, Raphael levou a plateia ao êxtase com Speed Of Light, tema que abre Empyrean, lançado este mês de setembro. Bastante expressivo e comunicativo, o multi-instrumentista desafiou a solenidade normalmente associada à música clássica com uma atitude bem metal, como provou a sua despedida com Ophidian, que terminou com um riff da música Deliverance, dos Opeth. Foi meia hora intensa que terminou com um mar de merecidos aplausos e gritos.
Setlist: Reflection | Ricercare | Speed Of Light | Ophidian
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Royal Sorrow
A estreia dos Royal Sorrow em Lisboa era para ter acontecido em novembro de 2025, não fosse o tour bus ter avariado em Espanha e impedido a banda de atuar. Foi por isso com palpável entusiasmo que o público da capital recebeu o quarteto finlandês, quando passavam quarenta minutos das 21 horas. O que se seguiu foi meia hora de energia absurda, conjurada num misto de metal progressivo e alternativo com laivos de djent e detalhes eletrónicos.
Com vestimentas a rigor, a banda abriu com Evergreen, que abriu logo o jogo mostrando a sua amplitude sonora, desde passagens mais calmas a breakdowns poderosos e uma voz que dançava entre suavidade, aspereza e screams com uma naturalidade invejável. O vocalista e guitarrista Markus Hentunen foi desde já o elemento que mais se destacou, não só pela técnica vocal variada, como pela presença dinâmica e cativante.
Depois de Release Your Shadow, Bloodflower trouxe mais um breakdown poderoso, onde o baixo de Eero Maijala brilhou ao lado da bateria de Janne Mieskonen num jogo de groove hipnotizante; logo depois, a música surpreendentemente enveredou por um momento mais tranquilo, com a guitarra bluesy a dar um toque de classe antes de um solo divinal.
Give In mostrou a facilidade da banda em criar refrões simples mas memoráveis, que foi acompanhado por um público em êxtase. Houve ainda tempo para o novo single Covert, com um crescendo que prende o ouvido e antevê um próximo álbum que irá fazer as delícias dos fãs. A fechar, Metrograve, com aquele riff viciante que apetece ouvir em loop, assinando uma despedida com chave de ouro.
Setlist: Evergreen | Release Your Shadow | Bloodflower | Give In | Covert | Metrograve
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Einar Solberg
Passavam trinta minutos das 22 horas quando Einar Solberg subiu a palco, acompanhado de oito músicos, para uma atuação mais orquestral, a fazer jus ao seu mais recente trabalho, Vox Occulta. Stella Mortua viu os músicos subir a palco vestidos como uma espécie de monges, numa dimensão teatral que não foi tão forte no resto do concerto, mas ainda assim se fez sentir. Ficando os violoncelos a ressoar, os restantes músicos retiraram-se para despir os hábitos, sendo que depois também Raphael Weinroth-Browne e mais tarde Maya Fridman saíram, revezando-se para manter pelo menos um violencelo a soar.
Vita Fragilis trouxe o primeiro momento de gutural da noite, estilo que curiosamente o Einar parece explorar mais a solo do que nos últimos trabalhos de Leprous. Mas foi com Liberatio a primeira explosão da noite, com o público entoar o refrão contagiante a plenos pulmões. O entusiasmo continuou quando Einar voltou ao álbum de estreia, 16, servindo A Beautiful Life como uma celebração da sua vida atual, que confessou ser perfeita. Continuando num registo mais alegre e suave, Serenitas foi um momento de doce contemplação, com a guitarra de Quentin Godet a mostrar um pouco da sua magia, que seria surreal ao longe de toda a noite.
Contando uma pequena história sobre como conheceu Ihsahn quando era criança, o gigante norueguês partiu para Splitting The Soul, encarregando-se das partes de gutural rasgado do Ihsahn na ausência deste. Vox Occulta abriu com o violino do exímio norte-americano Chris Baum, fechando a primeira metade do concerto. A segunda parte traria depressão e melancolia, com The Glass Is Empty a contar a história da maneira como o pai se foi afastando cada vez mais das pessoas que o amavam; a história continuou com The Last Milestone, sobre o suicídio do pai, numa prestação carregada de emoção, evocando lágrimas na plateia.
A trilogia final de músicas arrancou com 16, com o violoncelo de Raphael novamente em destaque. Antes de encerrarmos o nosso testemunho, convém dar uma palavra de apreço ao baterista Hrafnkell Örn Guðjónsson, um verdadeiro monstro, que festeja o seu aniversário nessa noite. Medulla, um dos destaques do novo álbum e talvez o tema mais semelhante a Leprous de toda a noite, foi novamente entoada por uma plateia há muito rendida à voz impossivelmente talentosa do Einar, que apresentou a banda nesse momento. A noite fechou com um épico de doze minutos, Grex, um final triunfal digno de um concerto onde a excelência vocal e instrumental foram do outro mundo.
Setlist: Stella Mortua | Vita Fragilis | Liberatio | A Beautiful Life | Serenitas | Splitting The Soul (Einar told a funny story about the first time he met Ihsahn) | Vox Occulta | The Glass Is Empty (Einar talked about seeing his dad spiraling further down into depression while living together) | The Last Milestone
(Leprous song) (Einar talked about his father’s suicide) | 16 | Medulla | Grex








































































