Fotos e texto: David Matos | Agradecimentos: Cerco de Sortelha
Foi preciso esperar praticamente 800 anos para a aldeia histórica de Sortelha ver nascer o seu primeiro festival de metal. Quando D. Sancho II emitiu o foral, em 1228, estaria longe de imaginar que as batalhas pela reconquista do território português iriam parecer insignificantes perante a voracidade de uma multidão de metaleiros sedentos de som. Apesar de na década de 60 ter atingido o pico de população, com quase 1500 pessoas, Sortelha é hoje uma das muitas aldeias envelhecidas e em declínio populacional no nosso interior, com pouco mais de 300 habitantes. Pois bem, a primeira edição do Cerco de Sortelha decidiu voltar a encher aquele histórico chão empedernido com uma multidão digna da história local, com sons metálicos a ecoar ao sabor do vento, evocando mística e unindo pessoas pelo gosto partilhado das manifestações mais extremas da música.
Numa organização encabeçada por Duarte Pombo, recém-residente na aldeia, e pelo presidente da Junta de Freguesia de Sortelha, Jorge Lourenço, aquilo que era para ser um evento mais modesto cresceu em ambição e, em tempo recorde, montou-se um festival de oito bandas nacionais com todas as condições. Além de entrada e campismo gratuitos, o que ajudou na adesão e promoção do evento, contou com comida e bebida a preços bastante acessíveis, balneários, espaço de sombra com zona sentada, estacionamento q.b. e outros pequenos grandes detalhes que por vezes são descurados em festivais de maior dimensão. O palco, esse, tinha todas as condições técnicas e logísticas para um resultado profissional, aliado a uma equipa de som exímia, que fez soar cada banda com bastante nitidez, e uma equipa de gestão de palco rigorosa, que garantiu não haver atrasos nem imprevistos.
Numa primeira edição 100% nacional, o Cerco de Sortelha apostou maioritariamente em bandas do centro litoral e interior do país, com três representantes do distrito de Leiria (Eden’s Apple, Lord Of Confusion e Dallian), Sigilo e Crab Monsters a representar o talento local (de Sortelha e Sabugal, respetivamente) e os Congruity de Abrantes. Apenas os lisboetas Toxikull e Okkultist, nomes mais sonantes do cartaz, vieram da capital. Isto para não falar da lenda viva que é António Freitas, que fez não um, mas dois DJ sets, no dia de receção ao campista e no final do dia de concertos, numa louvável manifestação de apoio ao nascimento de mais um evento de música pesada no nosso país.
Registamos o nosso testemunho escrito do que sentimos por Sortelha nestes dias tão especiais, para que daqui a outros 800 anos ainda haja memória deste novo marco histórico da aldeia.
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Eden’s Apple
Coube aos Eden’s Apple dar início ao assalto a Sortelha, com a conquista de corações através do peso em mente. Eram 17 horas em ponto quando o quinteto de Leiria subiu a palco, perante uma plateia dividida entre a bravura de enfrentar o sol escaldante, e a sensatez de permanecer à sombra. Cedo se percebeu que a banda vinha com a energia certa, arcando a responsabilidade de ser a primeira banda de metal a tocar em Sortelha com uma naturalidade salutar e de saudar. Com uma dinâmica em palco interessante, a banda deambulou pelo seu álbum de estreia, Primordial Roots, onde o death metal melódico se funde com o metal alternativo e pinceladas sinfónicas.
A vocalista, Marina Silva, apresentou-se no campo de batalha vestida a rigor, com uma peça de armadura tão imponente como a sua presença em palco, dominando vários registos vocais, do gutural ao lírico. Nas guitarras, um evidente mas saudável contraste na postura, com Guilherme Rodrigues mais solene e focado, emprestando ocasionalmente backing vocals que, infelizmente, foram pouco perceptíveis. Já David Rodrigues mostrou-se mais efusivo, numa peculiar dinâmica em palco que manteve com o baixista João Carvalho, dupla irrequieta que chegou mesmo a andar em círculos à volta de um membro do público na parte final do concerto. O quinteto completava-se com Francisco Mendes na bateria, discreto mas preciso, com ocasionais momentos de pedal duplo que apenas pecaram por escassez, pois emprestava às músicas um peso necessário.
Com destaque para temas como Legacy Of The Stars e Eternal Cycle, a banda mostrou versatilidade, com riffs pesados, solos mais emotivos, voz doce precedendo gritos demoníacos, um baixo com um groove interessante e sobretudo uma enorme garra. O concerto terminou com um tema novo, Poison Grace, um pequeno brinde de despedida para o público que, apesar de maioritariamente afastado na sombra, se fez ainda assim ouvir e retribuiu com manifesto agrado. Para a estreia da banda em festivais, logo com a responsabilidade de abertura de uma edição de estreia, foram exemplares.
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Lord Of Confusion
A tarde continuou com mais uma banda nascida na zona de Leiria e com vocalista feminina, mas as semelhanças ficaram-se apenas por esta curiosidade constitutiva; o som, esse, não poderia ser mais diferente. No ano em que lançaram o seu segundo álbum, The Weight Of Life, os Lord Of Confusion começam finalmente a ganhar o reconhecimento merecido, como prova a frequência com que têm atuado dentro e fora de portas, e as excelentes reviews ao referido álbum.
Com um doom metal abrasador e implacável, o quarteto mostrou dominar o palco com uma postura profissional e cativante; a vocalista Carlota Sousa, sempre impressionante com os seus graves retumbantes, juntou à voz e aos teclados retro uma teatralidade em palco condizente com o caos arrastado criado pelos riffs sujos do Danilo Sousa. Mas os confins do abismo foram proporcionados pelo João Fonseca, cujo baixo e gutural cavernoso ganharam mais relevo neste novo trabalho e resultam muito bem ao vivo. Tal como no concerto anterior, a solidez sonora foi garantida pela bateria, neste caso nas mãos de Nelson Figueiredo.
Durante 45 minutos, assistimos a uma experiência com uma atmosfera intensa e quase cinemática; nem a luz do sol, que ainda brilhava com uma força inexorável, foi suficiente para afastar a escuridão do doom psicadélico que quase roçava no sludge. O público mostrou-se solidário e ajudou a banda a carregar o peso da vida, repartido por um mar de ombros negros que já era respeitável, mostrando que o público que se deslocou a Sortelha estava lá para não perder pitada deste leque respeitável de artistas nacionais.
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Dallian
Nem só sonora era a variedade brotante da cidade do Lis, mas também numérica. Depois de um quinteto e de um quarteto, um trio leiriense. Desta feita, os regressados Dallian, cuja travessia no deserto no que a concertos diz respeito finalmente chegou a um muito aguardado oásis sonoro. Com um álbum novo na calha, um dos mais badalados projetos a emergir do centro do país está de volta aos palcos, tendo o concerto em Sortelha sido apenas a segunda atuação depois deste longo interregno.
Liderados por Carlos Amado, vocalista, guitarrista e principal compositor, a banda compensou um palco algo despovoado e despido de adereços com a grandiosidade das suas composições de death metal sinfónico e progressivo. Apesar da enorme curiosidade do público para ouvir temas novos, continuou a ser o álbum Automata de 2018 a dominar a maior parte da setlist. Na outra guitarra, Leandro Faustino transmitia uma aura imponente, enquanto desferia com mestria notas com uma naturalidade equiparada à sua impressionante capacidade técnica; semelhante proficiência mostrava André Fragoso na bateria, uma verdadeira máquina humana que destruiu positivamente a bateria, numa nuvem difusa de braços e pernas em movimento frenético, qual espetáculo dentro do espetáculo.
Com bastante interação com o público, que foi desfrutando a dualidade de peso e melodia da banda, o concerto arrastou-se até perto das 20 horas. Os originais pequenos toques de fado, flamenco e outros, que transportam a banda para território avantgarde, diferenciam a proposta sonora dos demais projetos nacionais. Houve espaço para temas novos, intricados, promissores e marcadamente progressivos, mas ainda a precisar de algum polimento ao vivo para soarem em todo o seu esplendor. Os Dallian despediram-se com a certeza que, depois de voltarem a estabilizar a line-up e apostarem novamente na imagem e composição visual do palco, podem dominar a cena nacional e almejar palcos maiores.
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Congruity
Com um quarto de século de experiência nas lides extremas do underground nacional, os Congruity nunca foram um nome sonante, mas quem já os presenciou ao vivo não pode senão reconhecê-los como um dos segredos mais bem guardados do death/black nacional. Passavam quinze minutos das 20 horas quando o quarteto de Abrantes investiu com desmedida pujança sob as hostes sortelhenses, num assalto furioso liderado pelo carismático furacão que é o frontman Victor Hugo, mais conhecido por Sapage.
Um gutural poderoso, que alternava entre gutural cavernoso e shrieks capazes de envergonhar os Nazgûl de Mordor, foi acompanhado pelo baixo trovejante também nas mãos de Sapage. Na bateria, Hugo “Bezuga” desvendou um furacão de blastbeats, num exercício de resistência impressionante, emprestando às músicas uma velocidade vertiginosa. Mais sereno, Jorge André dominou o papel de guitarra principal, onde riffs demónicos eram cortados ocasionalmente por solos deliciosos. A banda surpreendeu ao apresentar em palco uma quarta e nova peça, Daniela Galrinho, que ajudou a compor o panorama sonoro de fundo com uma segunda guitarra; com expressão solene e focada, traz à banda uma juventude que augura um promissor futuro.
No cardápio musical, a banda deambulou pelos seus mais de 20 anos de história, com destaque para o mais recente EP Inferno, de 2024. O aceno de despedida foi dado com um sentido agradecimento à organização e ao público, que ao longo de quase uma hora aceitou o convite para elevar a cinética corporal. Aguardamos pelos próximos capítulos desta veterana e intensa viagem dos Congruity.
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Sigilo
O sol moribundo começava a extinguir-se no horizonte, cedendo ao avanço inexorável das trevas. Que melhor altura poderia haver para o black metal dos Sigilo enegrecer as hostes festivaleiras? O projeto liderado por Duarte Pombo, conhecido por Lord Selvmord nesta sua manifestação artística, não nasceu na histórica aldeia beirã, mas tem em Sortelha a sua atual residência. Foi com a natural frieza de um vento paradoxalmente nascido nos confins do inferno, que a banda apresentou perante casa o seu álbum de estreia, Gloria Ad Inferi, cujo lançamento físico (com selo da Alma Mater Records) coincidiu com o dia do festival.
Numa caótica revelação de riffs, irrepetíveis e inesquecíveis, este exercício de adoração simbólica a Satanás alternou entre fúria, melodia e elementos progressivos, provando vir para conquistar um lugar de respeito no black metal nacional. A acompanhar o mentor do projeto, tivemos Ricardo Carniça no baixo, recente adição à line-up ao vivo da banda, que se mostrou à altura do desafio de ser dono e senhor do espectro de frequências mais graves. Na bateria, João Santos agigantou-se, com a sua enganadora composição franzina a esconder uma entusiástica energia, que se manteve constante ao longo da atuação.
Num concerto com uma aura ritualesca, adereçado com ossos, velas, cálices e outros elementos visualmente apelativos para os amantes do género, foi impossível a Selvmord esconder a felicidade em palco, fazendo contrastar a agonia e melancolia das melodias com ocasionais sorrisos de genuína alegria. A ocasião não era para menos: tocar em casa, num evento impulsionado por si, perante um público perseverante que manteve o mosh pit aceso e no dia de lançamento de um álbum há muito à espera de ser libertado para o mundo, a noite foi de celebração. A banda que trouxe a noite consigo despediu-se pouco depois das 22 horas, abrindo caminho para a dupla de nomes mais sonantes do cartaz que estavam por vir.
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Okkultist
Viviam as 22 horas a sua meia existência, quando os Okkultist irromperam palco acima, qual lava em ebulição a galgar altura num vulcão de metal. O seu death metal implacável foi combustível para o público, que se mostrou incansável no pit ao longo de uma hora de concerto. No centro de todo este frenesim sonoro, Beatriz Mariano, impondo respeito com o seu gutural feroz e dilacerante, que contrastava com a doçura com que ia, entre músicas, agradecendo de forma sentida e repetida ao público, falando também um pouco dos temas que iam executando.
O resto da banda, apesar de se apresentar com uma line-up ao vivo um bocadinho diferente do habitual, mostrou também uma garra de impor respeito, com destaque para o animal de palco que é Leander Sandmeier, dono e senhor da guitarra. Viajando numa agenda em 2026 recheada de grandes palcos, com destaque para o Resurrection Fest em Espanha, foi bom sentir que a energia e entrega da banda não se medem pelo tamanho do evento, não tendo qualquer preconceito em arriscar num novo festival nacional mais modesto, mesmo sem saber se a adesão seria significativa. Felizmente, tanto o público como a banda superaram expectativas!
Death To Your Breed, Meet Me In Hell e Sign Of The Reaper foram alguns dos temas com mais evidência qualitativa e de elevação do ritmo de corpos na plateia. Depois de Reinventing Evil e O.M.E.N., a formação lisboeta prepara o seu terceiro álbum e tivemos direito a ouvir o novo single, Teeth Of The Hydra, mesmo sem a presença ao vivo do Fernando Ribeiro, que empresta os seus dotes vocais neste tema em estúdio. Pelo meio, houve ainda tempo para Sixpounder, uma homenagem da banda à lenda Alexi Laiho. A banda fez check-out sob fortes aplausos, após conquistar os corações de Sortelha.
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Toxikull
A noite seria coroada ao som de de old school heavy metal. A velocidade vertiginosa da ascensão da carreira dos Toxikull apenas encontra igual na rapidez com que riffs cativantes são tecelados pelas mãos de Michael Blade e Lex Thunder. Este último junta ainda aos seus dotes uma voz quente e exuberante, com agudos de exímia execução técnica, além de um carisma em palco que rapidamente seduziu a plateia. Na bateria, Tommy 666 golpeava com inclemência pratos, toms e tarola, numa bateria que, se se identificasse como comboio, seria um TGV. Já o ribombar no espectro mais grave era trovejado por Infernando.
Com apenas três meses desde o seu lançamento, o álbum Turbulence ganhou óbvio destaque na setlist, com Midnight Fire, Dragon Magic e Hard To Break em maior relevo. Night Shadows e Metal Defender, dois temas que são já clássicos na relativamente curta carreira da banda, também fizeram questão de se instalar no canal auditivo do magote beirão, que retribuiu com euforia.
Numa hora em que o dia 11 deu lugar ao 12, sob uma noite de céu limpo e temperatura amena, o fogo dos Toxikull foi a consagração de uma edição de estreia inolvidável do Cerco de Sortelha. Cumprindo com distinção as exigências de serem cabeça de cartaz, o quarteto lisboeta recolheu aos balneários com um sorriso nos lábios.
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Crab Monsters
Toda a gente sabe que, depois da tempestade, vem… a segunda tempestade, ainda mais caótica que a primeira? Representando a região, com raízes no Sabugal, os Crab Monsters tiveram o privilégio de fechar a primeira edição do festival com o seu híbrido de hardcore punk e crossover thrash. Não sei a origem da alcunha Granada, mas o que é certo é que o vocalista Tiago Guterres lhe fez jus; ele não explodia ocasionalmente, ele foi uma explosão constante durante todo o concerto! Deambulou pelo palco, instável e imprevisível, como um corpo em queda constante que até no chão parecia estar em queda livre.
Num duelo de cabeças entre Granada e o microfone, o último levou de vencida, juntando a todo o caos sangue a escorrer pela testa do primeiro. O resto da banda tentou acompanhar este pequeno tufão, mas foram todos eclipsados pela sua presença; todos menos Jordi, na bateria, uma força da natureza por si só, que martelou violentamente uma bateria que deve ter acabado a noite nos cuidados intensivos.
Todo este cataclismo sonoro arrancou a ferros o que restava da energia do público, que nas filas da frente e no mosh pit se deixou contagiar e levar em braços de pura loucura. O final do festival não foi uma cereja no topo do bolo; foi uma bomba no topo de uma pilha de pirotecnia, explodindo descontroladamente até perto das duas da manhã.
A noite ainda continuou com o DJ set do icónico António Freitas, com alguns resistentes corajosamente capazes de o aguentar; outros, derrotados por um dia de implacável surra sonora, recolheram às tendas para um merecido descanso, com o sorriso que só um metaleiro cheio de dor e satisfação sabe dar.







































































































































































































































