Cellar Darling na Sala Mouco. Por mares progressivos com timoneiras exímias

Nos últimos suspiros de março e em pleno despontar da primavera, as hostes de paixão progressiva deram um salto à invicta, para o derradeiro concerto da dose dupla dos suíços Cellar Darling em Portugal. A noite amena trouxe um número modesto de pessoas à Sala Mouco, poucas para o que a qualidade das bandas merecia, suficientes para o espaço parecer bem composto e existir uma atmosfera envolvente entre artistas e público.

O som de partida foi dado pelos locais Phase Transition, banda de metal progressivo a dar os primeiros passos, destacando-se pela vocalista Sofia Beco tão habilmente emprestar os seus dotes no violino às composições. Um minuto antes da hora marcada, a introdução soou e o quarteto subiu a palco, surpreendendo quem poderia deduzir alguma inexperiência, advento do seu ainda curto trajeto, com uma prestação sólida, enérgica e musicalmente envolvente.

Durante 40 minutos, fomos presenteados com meia dúzia de temas onde diversas influências tiveram eco, com a Sofia a diversificar a abordagem vocal (num dos momentos, a lembrar Haken), um exímio Fernando Maia na bateria a servir e colorir as músicas com detalhes discretos, mas essenciais (numa das passagens invocando o estilo de Mike Portnoy), e claro, com Luís Dias na guitarra a dar uma alma mais técnica e progressiva às músicas, com tapping, solos e riffs, que no final de uma das músicas lembraram Meshuggah.

Com uma interação salutar com o público, alguns momentos claramente pensados que acrescentaram dinâmica ao concerto (como aquela pequena battle de solos entre violino e guitarra) e com a promessa de um novo álbum para breve (a atuação terminou com os singles Veil Of Illusions e Becoming Revolution desse mesmo trabalho), os Phase Transition mais do que justificaram a aposta e mereceram por inteiro o forte aplauso final.

Após uma pausa de 20 minutos, foi a vez dos suíços Cellar Darling tornarem o palco seu, recebidos logo nos primeiros segundos efusivamente pela plateia. Pain foi o mote de abertura para 80 minutos de concerto, onde o metal progressivo se fundiu com agradáveis melodias folk e algum experimentalismo enriquecedor. À Anna Murphy não chega ter uma voz fascinante e versátil; ao longo do concerto, também tocou flauta, piano e, claro está, o hipnotizante hurdy-gurdy, uma das suas imagens de marca.

Depois de Pain e Death do mais recente álbum The Spell, seguiu-se Black Moon, um dos primeiros singles do álbum de estreia This Is The Sound, que provocou uma reação ainda mais entusiasta nos presentes, bem energia mantida em Hullaballoo e na mais alucinante The Hermit. Pode-se cair no erro de pensar que, na sua abundância de talento e carisma, a banda gira em torno da Anna Murphy; um ouvido mais atento rapidamente compreende que a guitarra inquieta do Ivo Henzi e a bateria sublime (e francamente viciante) de Merlin Sutter são igualmente importantes para as composições soarem tão brilhantes e de forma tão viva, passo o pleonasmo, ao vivo.

The Spell, Insomnia, Freeze, sucediam-se músicas atrás de músicas, todas com a sua identidade, todas com a sua magia, todas contribuindo para uma noite inesquecível. Nas intervenções entre as músicas, a vocalista não só foi agradecendo como enriquecendo a experiência com histórias da banda (lamentando a triste realidade de, no seu país natal, dificilmente encherem uma sala assim, ou do desastre que tinha sido o seu último concerto uns bons meses antes) e falando um pouco da origem de algumas músicas, como a inspiração que deu origem a Dance, a bizarra história real da “praga” da dança de 1518 em Strasbourg.

Outro tópico repetido múltiplas vezes foi, num tom quase jocoso, foi o quão lenta a banda é no processo de composição; talvez esteja aí o segredo do resultado final ser tão especial e fazer tanto sentido. Mas para brindar os fãs pacientes, houve tempo para uma música nova ser tocada, Drone, ainda incompleta, mas já completamente viciante. A banda saiu de palco após Redemption, voltando para um encore anunciado com a apoteose final que foi Avalanche.

A magia de concertos como este talvez se sinta mais por haver menos pessoas através da qual ela se dilui. O ambiente intimista, o prazer genuíno dos músicos em palco e dos ouvintes na plateia, a atmosfera imersiva de composições feitas para serem saboreadas por ouvidos pacientes mas exigentes. Os Phase Transition merecem um futuro brilhante, e os Cellar Darling já brilham tanto que se torna quase ridículo não serem um nome mais sonante. Mas talvez seja melhor assim.

Setlist: Pain | Death | Black Moon | Hullaballoo | The Hermit | The Spell | Insomnia | Freeze | Dance | Drone | Redemption | Avalanche

 
Texto: David Matos
Fotografia: Marina Silva
Agradecimentos: Free Music