Alexandra Ramos

David Bruno no Lux Frágil. Amor eterno e a vida enquanto problema técnico

Não tenho por hábito passear o corpo pelos altos clubes e discotecas da zona lisboeta; confesso ser um moço mais de andanças calmas ou até caseiras. Mas na passada noite de dia 27 de Maio, havia um chamamento um tanto especial e incrivelmente charmoso que me levou a vaguear pelos corredores meio escuros e avermelhados do Lux Frágil até chegar à sua pista de dança. O chamamento em si tinha por seu nome David Bruno, o irresistível artista gaiense que, através da mistura da arte do sampling com a sua voz apaixonante, tem vindo a professar o seu eterno amor pela cultura portuguesa e a sua singular vida urbana, mais precisamente à que ao Norte de Portugal diz respeito. Os seus discos, que contam com a presença do igualmente sensual guitarrista Marco Duarte, são uma verdadeira colectânea de tempos vividos e situações caricatas presenciadas por David Bruno ao longo do tempo.

Na noite acima referida, David Bruno actuaria no Lux Frágil, acompanhado não só por Marco Duarte, mas também por António Bandeiras, o DJ e guru do romance que, aliás, abriu a pista com uma boa dose de house da década de 90 e inícios de 2000, acalorando os presentes que já preenchiam o espaço até à pinha. Apesar de uma espera um pouco longa, nenhum membro do público perdera o seu entusiasmo e assim que David Bruno e companhia deram o toque de partida com “Praliné”, o deboche começou. Entre flexões em palco e gritos por Gondomar e pelo Marquito, até ao crowdsurf de Bandeiras após este se ter pendurado no sistema de PA da discoteca, assim como a referência à vida como um problema técnico devido à guitarra de Marco Duarte não querer cooperar e o mesmo sentir os calores do whisky a afectarem a sua alma, a euforia e o contentamento estiveram imparáveis de início ao fim.

Enquanto fazia desfilar tema atrás tema, David Bruno dava introduções recheadas de bom humor, como o contar da história de um colega de escola que o assaltava e aos amigos em “N Gosto K Me Mentem”, a ode às bifanas à lavrador e aos tascos portugueses como o famoso Carpa e o Maçã Verde, que a trupe teria visitado naquele dia, em “Lamborghini na Roulotte” e “Mesa Para Dois no Carpa”, e ainda os repetidos pedidos ao técnico de luzes para iluminar a sala como se estivesse no seu quarto com a sua mulher ou se tivesse assistido a um acidente e tivesse chamado a CMTV, em “Salamanca by Naite” e “Interviente Acidental”. Por entre estes temas, todos eles cantados entusiasticamente pelo público presente, tivemos também o relato de um amigo da trupe ter sido impedido de entrar com vinho na discoteca, o que levou a que o mesmo tivesse consumido o vinho na íntegra, e ainda o exclusivo bailarico em palco por parte de uma membro do público com o próprio António Bandeiras, enquanto “Regula-me o Termostato”, “Festa da Espuma” e a já mítica “Bebe & Dorme” ecoavam ainda pela pista de dança.

A terminar este belíssimo espectáculo, e em jeito de encore, David Bruno e companhia declararam-se românticos como o Marante e apaixonados tipo Toy em “Amor Anónimo”, finalizando o concerto com uma visita aos inícios da carreira a solo de David Bruno com “#150mL” – alegadamente, tinham eles de bazar e passar no McDrive. Os mitos dizem que ocorreu mesmo, mas só Deus sabe na verdade. No entanto, seja realidade ou pura ficção, o que se pode realmente dizer com toda a convicção é que durante uma hora, David Bruno, Marco Duarte e António Bandeiras encheram o peito e a alma de todos os presentes no Lux Frágil. E se alguns depois decidiram apanhar o metro de volta a casa logo a seguir, outros ficaram para aproveitar a noite que ainda se tinha como jovem, dançando ao som dos temas de house que António Bandeiras voltaria a rodar pouco tempo depois. Uma noite em cheio que termina apenas com um pedido; volta sempre, DB. Volta sempre e bem depressa.

Texto: Filipe Silva
Fotografia: Alexandra Ramos