Noites frias de Inverno requerem passatempos quentes para esquentar a alma e o corpo. E talvez nenhum outro passatempo seja tão caloroso quanto o de participar num concerto dedicado às velozes sonoridades do deathgrind. O mote anticonformista e antifascista estava dado e, apesar de acontecer a meio da semana, a sala do Popular Alvalade encher-se-ia para receber uma boa dose de caos na sua forma mais pura, não fossem as três bandas a subir ao seu palco das mais conhecidas do género dentro e fora de Portugal.

As hostes foram abertas pelos lisboetas Bas Rotten, donos de um som bem potente e enraizado no punk, e com um novo álbum a surgir muito em breve – Surge será editado já no próximo mês de Junho. Presença assídua e já com alguma quilometragem nestas andanças, os Bas Rotten não se demoraram muito em apresentações, optando pela abordagem mais directa que tomou a forma de uma descarga feroz de blast beats constantes, breakdowns avassaladores e vocais intensamente vorazes. Um óptimo começo de noite, o qual fora seguido pelos Manferior, colegas dos lisboetas mas vindos de Leiria. Sem grandes demoras, o caos continuou numa sala a romper pelas medidas cada vez mais, não fossem os corpos dos presentes a voar, a chocar e a cair ao chão. Autênticas ondas humanas convidavam ao stage dive e ao crowdsurf, numa autêntica demonstração de violência que não deixou a banda indiferente, que por sua vez tocava mais agressivamente, puxando pela sua sonoridade mais suja presente no álbum que apresentavam naquela noite, Birth As Punishment.

A terceira banda a actuar nesta noite era também aquela que os presentes mais queriam ver. Oriundos de terras germânicas e conjuradores de um som notavelmente agressivo e extremo, os Implore são uma banda que não está para brincadeiras no que toca a criar impacto. À boa maneira da cena DIY, o quarteto raramente se encontra parado, constantemente em digressão por esse mundo fora, contando-se pelo menos duas vezes as actuações em solo nacional – no Burning Light Fest em 2015 e no Vagos Metal Fest em 2017. Neste seu regresso a Portugal, trariam consigo um novo disco na bagagem, Alienated Despair, de onde basearam grande parte do seu alinhamento, que se somara a pouco menos de 50 minutos de pura devastação e adrenalina. Temas como “Despondency” e “Parallax” ecoaram fortemente nas nos corpos e nos ouvidos dos presentes que se amontoavam para subir ainda mais a parada da destruição criada ao longo da noite. Houve até tempo para o vocalista Gabbo de fazer uma dedicatória aos patrões dos presentes – um «Fuck your boss!» bem mandado precederia a brutal “Never Again”.

Contas feitas, suor limpo e cerveja digerida, tomava-se o rumo de volta a casa. O dia seguinte seria dia de regresso à rotina diária, mas desta vez, o espírito do underground ardia bem forte dentro de cada um de nós. E sem dúvida alguma que esta noite marcou todo e cada um dos presentes, de uma maneira ou doutra. O underground está vivo e recomenda-se.

Texto: Filipe Silva

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