Rui Pedro Dâmaso é um dos fundadores da OUT.RA, uma associação cultural sediada no Barreiro que tem desenvolvido um trabalho notável na área da música nesta cidade. Não só organizam anualmente o OUT.FEST, como produzem vários concertos e eventos ao longo do ano. Falámos com o Rui para perceber um pouco como nasceu a associação e o que move estas pessoas a dinamizar a música no Barreiro.

Como é que surgiu a ideia de fundar a OUT.RA?

A história da OUT.RA está ligada ao OUT.FEST e o festival, por sua vez, está ligado a uma série de outras coisas que aconteceram anteriormente. Isto é um pouco uma história de amizade de pessoas do Barreiro que tinham uma vontade brutal de descobrir música nova. A partir aí dos vinte anos começamos a querer descobrir música que não chegava até nós de forma natural. Tivemos a sorte de formar um pequeno grupo que tinha os mesmos interesses e essa vontade de descobrir. Estávamos sempre a falar de música. Eu e o Vítor, que é também um dos fundadores da associação, fizemos uma banda em 1999 que era os Frango e começamos a aprender música juntos. Descobrimos o gosto pela improvisação. Em 2004, o Vítor estava a estagiar no Matadouro do Barreiro, como técnico de som, e pensamos em organizar um festival. Nessa altura começámos a frequentar a ZDB e descobrimos que existiam pessoas com gostos semelhantes aos nossos em Lisboa. Fomos conhecendo pessoal que fazia música, tanto em Lisboa como no Porto, e surgiu a ideia de fazer o festival. Foi uma coisa espontânea e nessa mesma altura criamos uma editora, que era a Searching Records, onde lançamos uma dúzia de CDs e cassetes. E andamos assim alguns anos, a organizar o festival anualmente e a lançar projectos. Em 2009 achámos que estava na altura de levar o festival mais além e criamos a associação para ter uma estrutura formal. Assim que formámos a associação, surgiu também a vontade de fazer concertos mais espontâneos, para além do festival.

É visível que esta espontaneidade de concertos começa a ser cada vez mais regular. Como é que se deu esse crescendo? Foi uma necessidade que sentiram?

A verdade é que por muito que o OUT.FEST continue a ser o nosso bebé, e que tem já um grande impacto na cidade, o quotidiano das cidades é que tem de ser rico. A minha geração apanhou uma altura no Barreiro onde as vários tribos e grupos se misturavam e havia dezenas de bares abertos. Há dez anos que isto morreu um pouco, porque era vida nocturna mas era também vida cultural, por uma série de razões. Por isso é importante criar esses momentos culturais ao longo do ano. Hoje em dia somos quatro pessoas a trabalhar na OUT.RA e essa é a nossa profissão, e não é apenas fazer só um festival. Para fazermos um verdadeiro serviço público, não podemos enriquecer uma cidade com apenas um festival por ano, e por isso a cidade precisa de mais. As pessoas encontram-se mais nos concertos, serve como substituto do bar. Por isso queremos ser cada vez mais regulares e neste momento conseguimos ter dois concertos por mês. E também temos sentido nos últimos dois ou três anos que têm aparecido pessoas novas para ver os espectáculos e a quererem também criar música.

 

Falaste da questão da vida cultural do Barreiro, e do seu declínio nos últimos anos. Achas que foi uma questão geracional ou a mistura de vários factores económicos e sociais que contribuíram para esse declínio?

Foi um pouco de tudo, sim. Há a parte económica que é visível desde o fecho das fábricas após o 25 de Abril, mas não foi imediato. As coisas demoraram a sentir-se e acho que foi na viragem do milénio que se começou verdadeiramente a perceber o impacto. Deixou de haver trabalho no Barreiro. E por causa disso, houve muita gente que cresceu e nem sequer olhava para dentro, para o Barreiro. Olhava logo para Lisboa e procurava esses estímulos culturais em Lisboa. A verdade é que o Barreiro é um dormitório e era uma cidade auto-suficiente até aos anos 80. Nós chegamos a ter seis lojas de discos abertas só aqui no centro e nalgumas delas podias comprar cenas refundidas. Havia muita diversidade. Não tinhas de sair daqui para ter acesso a coisas diferentes.

No entanto, parece que agora as pessoas mais novas, o pessoal da minha geração, na casa dos 20, voltou a interessar-se pelo que se faz na cidade. Vê-se já pessoal mais novo a procurarem por algo que ouviram falar vindo das gerações mais velhas.

Sim, talvez. Nos últimos três anos temos notado muito pessoal novo a aparecer. Pessoal entre os 20 e os 30 que já aparece mais, que já tentam organizar cenas e criar música. Estou agora mais optimista dessa continuidade e mais esperançoso do futuro. Daí a nossa vontade de ser cada vez mais regulares na programação. Vemos sempre uma ou outra pessoa nova a aparecer nos concertos, e isso é muito bom.

 

O que é que ainda ambicionavam para o futuro da OUT.RA? Que novos caminhos querem explorar?

A verdade é que mesmo com 30 anos, eu não acreditava que poderia estar a trabalhar nisto todos os dias. Não é suposto, no Barreiro, haver uma estrutura dedicada só à cultura, e neste caso só a música experimental. Era totalmente utópico. Eu nunca tive essa ambição na vida e nenhum de nós teve. As coisas foram surgindo, porque senão, quem é que se metia nisto? Mas claro que queremos fazer muito mais. Queremos que o OUT.FEST tenha mais impacto, queremos que o festival cresça. E a falta de meios também é uma realidade. Nós conseguimos fazer mais e melhor, se tivermos os meios para isso. Mas não podemos queixar, já fizemos dezasseis edições do festival numa cidade como esta. Mas no fundo, o que nos dá verdadeiramente mais gosto é saber que o nosso trabalho ajudou as pessoas a fazerem cenas parecidas, ou a cena deles. Nós trabalhamos muito a individualidade das pessoas a nível criativo. Mas sobretudo, queremos que haja massa crítica na cidade. Pessoas que queiram fazer coisas. E a verdade é que a nossa cidade, para a nossa escala, até temos algum movimento cultural. Queremos que haja mais pessoas envolvidas e que o Barreiro seja um sítio onde se façam cada vez mais coisas.

Se pudesses destacar assim um concerto que te tenha marcado ou que nunca pensaste conseguir trazer ao Barreiro, qual seria?

Há tantos. Podia falar de ter trazido os The Fall ou os Faust. Mas para te ser honesto, aquilo que me lembro sempre, já nem tem que ver com o festival mas com coisas mais recentes que temos feito e da nossa relação com a cidade. Aquela tarde que fizemos no depósito de água dos Casquilhos, eu cresci ali até aos dezasseis anos. E imaginar que fizemos algo ali, metemos pessoas lá dentro a ver concertos, é assim um paradigma porque foi a uma escala pequena, porque aquilo não suportava muita gente, mas aquela sensação de conseguir interagir com aquilo que para ti também faz parte da tua identidade enquanto barreirense. Vivi aqui ao lado, gravitei aqui e agora estou a pôr pessoas e músicos aqui dentro. Ou quando fizemos a apresentação da bolsa do José Bica na estação dos comboios do Barreiro. Que eu saiba até agora foi a única cena que se fez ali, mesmo que tenha sido para 100 pessoas. Mas era aquele sonho antigo e de repente, consegues executar isso. É um marco identitário para muitos barreirenses. Ou ter colocado o Panda Bear na Casa da Cultura, que era onde eu ia ver cinema quando era puto. Esse tipo de cenas tem uma importância pessoal e dá um gozo tremendo. Por isso é que estamos sempre a procura de sítios diferentes. Já fizemos concertos em 60 sítios diferentes no Barreiro. Mas há outros 60 à espera.

Entrevista: Gonçalo Cardoso
Fotografia: Vera Marmelo

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