Já se passava uma hora de concerto no Lisboa Ao Vivo quando o público efusivo, no momento de total ebulição da noite, gritava “Bomb Disneyland” a plenos pulmões, faixa arrancada do álbum de estreia dos Fat White Family que explica mais do que se pensa sobre o percurso da banda.

Essa mesma faixa jura «Leaving with your mind and the fat white family, learn everything off every job on every street in everyone», máxima arrancada para os conturbados anos desta malograda família britânica. Para nos situarmos neste concerto na capital na passada quarta-feira, é preciso reter toda a contestação que a banda liderada pelos irmãos Lias e Nathan Saoudi, de origem argelina, e Saul Adamczewski já enfrentou. A evidência desse trabalho de casa surgiu na apresentação de “Feet”, single maior de Serfs Up!, disco que apresentaram nesta visita a Portugal. A faixa foi dedicada aos «racistas da Pitchfork», sem mais nem menos, lançando farpas directas à forma como a banda e essa referência da imprensa musical entraram em conflito em 2017, isto depois do grupo do sul de Londres se direccionar a Boris Johnson. Três anos depois aqui estamos. O Reino Unido fora da União Europeia ao comando de Johnson e os Fat White Family numa espécie de nova vida, apesar da sua ainda curta carreira.

Os irmãos Saoudi e Saul já antes haviam enfrentado outra controvérsia com o derradeiro tema do anterior álbum, Songs For Our Mothers, intitulado “Goodbye Goebbels”, onde sugeriram um romance entre duas figuras centras do terceiro Reich. Daí Adamczewski formou Insecure Men e juntamente com Lias Saoudi investiram o tempo nos Moonlandingz. Mas a superação chegou na forma de Serfs Up!, apesar de em bicos de pés. Em palco observa-se essa frieza do parentesco. Cruzam-se alguns olhares e há alguma desconexão visual e comportamental, mas aceitam-se as diferenças em prol daquilo que os une: a música e o ódio. No entanto, as “discussões” instrumentais respeitam-se mutuamente. Há tempo e espaço para escapes dos teclados, para fills mais extensos da bateria ou para rasgos eloquentes de saxofone.

Eles sabem bem o que é encarnar essa presença niilista, não tivessem eles uma música sobre isso logo no arranque do concerto, “I Am Mark E. Smith”, que recorda a explosão do eterno líder dos The Fall. Mas do niilismo provocante também se passa depressa ao romantismo em “Heaven On Earth” e para uma conotação mais sexual, como “Touch The Leather”. Estão todos os ingredientes de uma boa expressão do post-punk dos anos 80, mas com o peso de mais trinta anos de história somados, com eles mais algum pessimismo e maior necessidade de manifestar a frustração. O que antes era um par de guitarras embebidas em reverb, agora é um sintetizador viciante e abrasivo como em “I Believe In Something Better”; o que antes era uma atmosfera sombria, agora é um estouro psicadélico que tanto se inspira no anos 60, como o tema “Bobby’s Boyfriend” que bem podia ser um descendente distante dos Beatles.

Por tantos motivos, seja por contexto sócio-cultural ou político, os Fat White Family são em palco o mesmo que são enquanto banda fora dele. Uma peça importante para a contestação, um pedaço de completo desprezo por tudo aquilo que fingimos ser importante. Eles sabem-no e colocam-nos também em bicos de pé na forma aparentemente abrupta com que deram o concerto como terminado. Sem encore e sem palavras, no preciso auge da noite. Ficámos a querer mais e mais, mas voltámos quentes para casa, completamente entregues e cheios de ansiedade. Nada importava.

A primeira parte do concerto esteve entregue a Cancro, nova banda portuguesa que dispõe de uma potência digital, guitarradas em esteroides e um sentido pós-industrial/apocalíptico instrumental. O que se compensou em robustez física, pecou em som orgânico capaz de prender a médio-longo prazo.

Texto: Nuno Bernardo
Fotografia: Inês Silva

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