O festival Super Bock em Stock esteve de regresso às diversas salas da Avenida da Liberdade, em Lisboa, nos dias 22 e 23 de Novembro para mais uma edição.

22 de Novembro

Ive Greice foi um dos primeiros nomes desta edição e subiu ao palco na Casa do Alentejo, com cinco músicos, todos diferentes, tocando instrumentos de várias partes do mundo. A vocalista, em vestido de cetim branco, ultrapassou os problemas técnicos no início do concerto com o microfone – «a gente vai, enfim, puder cantar». Brasileira de tom grave a fazer lembrar as vozes antigas, com uma forte presença em palco e olhar intenso. A sala esteve composta, ou cheia, mas não enlatada.

Logo depois, seguiu-se para uma onda mais soul e blues em português com Amaura, no Capitólio. Para a dimensão desta sala e a hora do dia, a intérprete considerou que muitos foram aqueles que se deslocaram para a ver. Na nossa opinião, poucos foram os que tiveram o prazer de assistir ao poder vocal desta artista de timbre bonito e calmo que invade o corpo e a alma. Sempre de óculos escuros, no meio da sua banda, foi uma senhora entre homens. Além dos seus títulos “Em Contraste”, “Só Sinto”, “Blues do Tinto” e “TPM”, apresentou-nos uma versão de “Valerie”, dos Zutons e tornada célebre por Amy Winehouse. Primeiro a capella, lento, e depois ao estilo mais soul, com o seu cunho pessoal. No final, com o público enérgico, deixou-nos com “Dança”, com a qual terminou a sua prestação neste Super Bock em Stock.

A uns poucos metros desta sala, encontrámos Marinho no Maxime. De camisa vermelha, assim como as cores do festival e a luz que a acompanhava, teve a sala cheia mesmo antes de começar. À semelhança de concertos anteriores, entrou depois dos rapazes que a acompanham na banda e começou por tocar a sua música introdutória ao piano. Depois de “I Give Up”, veio o espanto – «tanta gente!»,  partilhou -, e lá seguiu com umas “Ghost Notes”, da sua parte «numa tentativa de soar a intelectual». Apesar do lançamento do seu álbum ~ (leia-se Til) no mês anterior, continua a incluir covers de músicas que lhe são queridas, como o caso de “In Spite of All the Damage”, original das The Be Good Tanyas, a que se referiu como «um pedido de desculpa muito bonito», e mais tarde “I’m On Fire” na qual se apresentou sozinha em palco. Podemos ainda escutar “Freckles” – destacando as sardas da velhice, da sua avó materna e da sua mãe, presente na sala e a quem pediu uma salva de palmas -, “Not You” – com participação de Monday -, “Window Pain” e “Joni” (Mitchell) para terminar.

Um dos nomes mais esperados desta edição foi responsável pela enchente no Coliseu dos Recreios. Michael Kiwanuka teve sala cheia para escutar o poder da mistura da poderosa voz soul com a música rock, fruto do seu terceiro disco e trabalho homónimo lançado neste ano. O artista fez as vontades ao público com “Black Man in a White World”, “You Ain’t the Problem” ou “Home Again”, tendo a plateia sempre do seu lado, guardando “Cold Little Heart” e “Love & Hate” para o final, como se se tratasse de uma carta que escrevia para casa.

Nilüfer Yanya, que esteve ainda este ano no nosso país para actuar no NOS Primavera Sound, regressou para apresentar Miss Universe no Cinema S. Jorge, e embora se apresentasse no seu estilo habitual e não ter desfeito quem assistiu ao seu espectáculo, parece não ter mexido assim tanto com a Avenida como se esperaria.

 

23 de Novembro

No segundo dia deste festival urbano que traz à cidade os ritmos de outros locais, deslocámo-nos cedo à Casa do Alentejo, um dos sítios mais bonitos do festival, para assistir ao concerto de Tainá. Além da beleza natural que este espaço apresenta, a sua combinação com algumas vozes e figuras parece, ano após ano, fazer deslumbrar conscientemente algumas das pessoas que ali se deslocam, encontrando-se este local lotado várias vezes antes do início dos concertos. Para esta actuação, apareceu apenas a jovem brasileira de voz doce, com guitarra, envolta num xaile azul que caía até aos pés, destacando os tons do seu corpo. Como a voz de uma criança inocente, cantou histórias de gente grande, ali, sozinha, vulnerável, e descreveu o local como “mais íntimo, tocando isso como da forma que eu fiz na minha casa”.

Começou a capella – «é tanta gente… eu tenho fome de escrever» -, mas as suas letras são bem transportadas até aos ouvintes que saboreiam palavra a palavra, como em “Caminho”, que explicou ser uma «música que fala sobre quando descobrimos que a dimensão do nosso corpo é pequena para tudo aquilo que somos», ou “Sonhos”, que escreveu aos seus dezoito anos quando teve uma conversa com o seu corpo, «pare de ser quem você não é». Surpreendentemente e para sua felicidade, o público cantou o refrão, fazendo os seus olhos brilhar e gerando um sentimento de comunhão no salão. Ao longo da sessão partilhou ainda duas versões, uma de Gilberto Gil, “A Paz”, e outra de Tom Jobim, “Corcovado”, importantes no seu percurso desde que chegou a Lisboa, quando tocava nas ruas. Para marcar a sua ascendência indígena, explicou ainda o significado da sua música “Apuana”, representando-se por alguém que não tem morada fixa, como ela. «Morei em muitos lugares e podemos morar nos corações das pessoas e vamos sempre sentir em casa», confessou-nos. Convidou depois Janeiro, a única participação masculina do seu disco, para subir consigo a este palco das emoções, onde também eles se cruzaram.

Talvez pela já não tão novidade, Curtis Harding, que esteve há um ano em Paredes de Coura, rumou desta vez a sul e parou pelo Coliseu de Lisboa. Embora a arena se fosse preenchendo, só quando chegou “Next Time” é que os presentes se fizeram mais ouvir. Confirmou a felicidade por estar de regresso a Portugal, embora se apresentasse um pouco doente desta vez.

Regressámos à Casa do Alentejo para escutar, desta vez, Orville Peck, uma estreia no nosso país. Foi possivelmente um dos nomes mais esperados, seja pelo misticismo associado à sua máscara preta e dourada, como pela música que representa através do estilo cowboy da banda. O cruzamento entre country, folk, ‘love songs’ e inclusive temas tão actuais como a apreciação de shows de drag queens… enfim… foi como se estivéssemos num rodeo de emoções. Este é mais um exemplo que, apesar de formar uma brilhante conjugação de local e voz, o que tem acontecido neste e em outras edições é que estes artistas são tão esperados e esgotam tão rapidamente as salas que, por vezes, até a sua dimensão vocal e instrumental são demasiadas para a pequena estrutura que os recebe, deixando tantos curiosos à porta.

Se houve correria para algum concerto da edição deste ano, falaremos sempre de Slow J, que encheu um Coliseu inteiro para escutar-se a si próprio, como um eco, através das vozes dos outros. É que o rapaz nem precisava de cantar, o público fazia-o por ele, com ele, através dele. E que bonito foi! Sabe-se já que o patriotismo português sai à rua sempre que algo de grande impacto se faz notar e, neste caso, foi uma geração mais jovem, cheia de tradições mas a abrir caminho à inovação. Logo à entrada do intérprete em palco, o público gritou “Também Sonhar” – é um dos seus mais recentes êxitos, que divide com Sara Tavares no seu álbum. De arrepiar a entrega do público a cantar todas as letras, ao que Slow J expressou, «é um prazer estar  aqui em Lisboa a apresentar o meu álbum», e agredeceu aos companheiros que construíram o álbum com ele. Recebeu os maiores aplausos do festival e por momentos pareceu até que este evento tinha sido organizado para si, só por si. Em “Water”, a música de Richie Campbell em que participa, contou que perdeu o avô, de Setúbal, este ano e que no ano passado nasceu o filho, a quem atribuiu o mesmo nome, Augusto, dedicando o concerto aos dois. Sempre a reforçar a necessidade de se acreditar em si próprio e não corresponder as expectativas dos outros passou por “Ás Vezes” e “Onde é que Estás?”. Chamou depois Francis Dale (guitarra) e Nuno Castro (guitarra portuguesa) para uma versão da sua “Lágrimas”, em fado; cantou-nos “Teu Eternamente” e “Só Queria Sorrir” e recebeu a maior ovação do festival, duradouros. Surpreendido e com um sorriso no rosto e no olhar, confessou «vocês vão me deixar mal habituados, Coliseu»,  depois do público que lhe roubar o primeiro refrão de “Serenata”.

Para o encore e já de barriga cheia, guardou “Fome” e “Comida” e despediu-se com uma das mais antigas ,”Cristalina”, sentou-se com as pernas para fora do palco, como um puto que se entretém com algo muito valioso. Só lhe falta agora levar a bandeira ao resto do mundo, porque aqui, em casa no nosso Portugal, Slow J já cumpriu a missão.

Para a despedida, só poderia restar aquele momento que contou com a habitual fila da curva para o Cinema São Jorge. Este ano coube aos Balthazar. Mais um possível erro na escolha de lugares, pois por mais particular e inalcançável que se queira fazer parecer um concerto no meio de um festival destes, quem paga para assistir procura, sobretudo, assistir no seu conforto. Ao contrário de edições anteriores, as correrias que se faziam notar e que acalentavam até as noites frias e chuvosas, aos quais os festivaleiros se sacrificavam para aproveitar ‘aquele’ concerto, este ano não sucederam. Nem em número de lugares, nem em espaço, nem em disposição, Balthazar foi para se ver de pé e dançar e os assentos, ali, serviram sobretudo para malas e casacos.

Aguardamos por uma próxima odisseia pela Avenida da Liberdade, deverá restar um ano para que a música volte a preencher o centro da capital.

 

Texto: Ana Margarida Dâmaso
Fotografia: Ana Ribeiro

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