Adivinhem quem está de volta para mais um diário de bordo musical. Bem sei o quanto vocês adoram este meu segmento por isso, e sem grandes demoras, vamos nos situar na acção em mão. Até porque desta vez, este vosso escriba vem deveras atrasado, mas adiante, pois esta noite de Novembro da qual vos venho falar foi tudo menos fria. Antes pelo contrário – o caos tomou posse, o calor corporal manifestou-se, o êxtase fora atingido. Passo a detalhar.

A abertura da noite esteve ao encargo dos dinamarqueses Baest. Relativamente recente dentro do panorama do death metal mundial, este quinteto apresentava-se pela primeira vez em Portugal e com dois álbuns ainda bem quentes do forno – Danse Macabre de 2018 e Venenum de 2019. Podia-se dizer que estavam a apresentar este último, mas dadas as circunstâncias e consequente alinhamento, eu diria que se vinham apresentar a si mesmos. Com “Vitriol Lament” e “Sodomize” a provocar a destruição sonora logo de entrada, o grupo dinamarquês arrasou de início ao fim, apresentando um som e postura bem refrescantes, com o vocalista Simon Olsen a incentivar o público a iniciarem o ritual do mosh. Após temas como “Hecatomb”, “Nihil” e “As Above So Below” terem ecoado na sala, tivemos a primeira de três participações especiais e também o primeiro exemplo desta noite do que acontece quando temos três bandas que se adoram na mesma digressão. O carismático Sven de Caluwé, vocalista dos Aborted que actuariam a seguir, junta-se aos dinamarqueses em palco para cantar “Crosswhore”, tema com o qual a banda fecharia a sua actuação. Um dos momentos altos da noite, sem dúvida.

Tal como mencionado em cima, de seguida subiriam a palco os Aborted (na foto). Sendo uma banda já bem conhecida pelo público português e tendo mesmo actuado no Vagos Metal Fest no mesmo ano, as apresentações eram totalmente dispensáveis. Com o seu mais recente disco, Terrorvision, na bagagem, os belgas procederam a arrepiar todos os presentes com o seu poderio bélico e altamente veloz, disparando temas como “Deep Red” e “Necrotic Manifesto”, assim como “Bathos”, “Retrogore” e a faixa-titulo do álbum anteriormente mencionado. A grande qualidade de um concerto dos belgas não reside apenas no seu som caracteristicamente feroz, mas também no seu humor e boa disposição. Leia-se quando Sven introduz “Cadaverous Banquet” como sendo uma música sobre batidos ou “A Whore D’ouvre Macabre” como pertencente ao seu álbum Television – um trocadilho com o titulo do seu mais recente disco. Neste último exemplo, tivemos a presença de Simon Olsen em palco, que decidiu agradecer a participação de Sven no concerto da sua banda, retribuindo da mesma moeda e mergulhando para cima do público, como manda a lei. Um grandioso concerto que terminaria com a combo “Sanguine Verses” e “The Saw and the Carnage Done”, ambas do álbum Goremageddon.

Antes do pensamento de regressar a casa sequer bater na cabeça dos presentes, havia ainda uma última banda para presenciar: Entombed A.D.. Formados por membros antigos dos clássicos Entombed e de certa forma actuando como uma espécie de sucessor espiritual para a banda sueca, os Entombed A.D. são também uma banda que o público português conhece bastante bem, não tivessem já eles vindo a Portugal duas vezes no espaço de três anos. Isto é, se nem contarmos com as actuações da banda original no país. Liderados pelo carismático L.G. Petrov, a banda procedeu a tocar um misto entre originais e covers, embora eu me vá distanciar um pouco desse termo dadas as circunstâncias. “Elimination” e “Fit for a King” de Bowels of Earth dão o toque de partida para uma hora de intensidade, suor e sangue que contara com a presença de clássicos como “I For an Eye”, “Stranger Aeons” e “Left Hand Path”, assim como músicas novíssimas como “Second to None” e “Bourbon Nightmare”. Em “Wolverine Blues”, Simon Olsen decide aparecer uma vez mais para um dueto com a banda – a cara de felicidade do vocalista dinamarquês era extremamente notória, quem não gostaria de cantar um clássico tão grande quanto aquele ao lado de um dos vocalistas mais icónicos da cena? “Serpent Speech” e “Supposed to Rot” dão por terminada uma actuação espectacular e uma noite caótica, daquelas que já tinha saudades. Venham mais assim, por favor.

Texto: Filipe Silva

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