Os contornos que trouxeram os Muse a Algés nesta digressão mundial de apresentação de Simulation Theory tornam-se contraditórios. A tese dos britânicos é que vivemos numa simulação, onde a exposição recorrente no mundo dos ecrãs revela uma simulação do que somos em vez do que realmente somos. Mostramos ser em vez de sermos e mostramos ter ideias em vez de as pensar. De certa forma nós somos os robôs que o futuro anunciado dos néones nos anos 80 tanto temiam e os Muse transformam essa ideia em disco e em cenário de palco.

Não falta simbolismo nas letras de Simulation Theory, bem patente logo na música de entrada. Bellamy surge no centro de uma passadeira avançada ao público para entoar “Algorithm”, «We are caged in simulations / Algorithms evolve / Push us aside and render us obsolete». Mais incoerente não podia ser esta luta pelos fãs em geral, que depressa se aprisionam pelas suas telas para dar início à sua própria simulação, através de posts, de stories e de lives para as redes sociais correspondentes. Enquanto se parte para “Pressure” e a personagem Drill Sergeant dá o mote para “Psycho”, entende-se também o espectáculo visual dos Muse é cada vez mais dependente de artifícios. As cores do synthwave, ora rosa ora ciano, somadas aos exosqueletos e a sua luta pela liberdade destes seres humanoides – como nós, presos nas nossas projecções simuladas – parecem ir ao encontro da resistência proclamada de “Uprising”. Já não é apenas música, mas sim uma mensagem ilustrada.

O trio ‘desce’ à realidade para unir as atenções em “Plug In Baby”, como sempre entoada em uníssono versos, refrães e o riff principal, antes de se partir para a fantasia com os enormes bombos de “Pray (High Valyrian)”, canção de Matt Bellamy para a série Game Of Thrones. A disparidade temática havia de se repetir na sequência de “Hysteria”, com direito a uma passagem de “Back In Black” de AC/DC, para o universo dubstep robótico de “The 2nd Law: Unsustainable” e o momento forçadamente humano, que foi a interpretação acústica e gospel de “Dig Down” junto dos fãs.

Em “Madness” o vocalista acaba por ser o rosto do fundo do ecrã, enquanto Chris Wolstenholme faz os graves da forma que a tecnologia permite. Esta acaba também por ser uma imagem que tem marcado a banda ao longo dos seus 25 anos de carreira: uma procura incessante do próximo passo, como a guitarra exótica de Matt aos pads vibrantes dos álbuns mais recentes, deixando o rock pujante e valvulado com uma sensibilidade mais digital: isso é ainda mais evidenciado pelo número de vezes que Matt acaba por dispensar a guitarra ou o piano, onde se desdobrava tantas vezes.

“Mercy” transforma Algés numa nova plataforma de ecrãs para filmar ou fotografar confetti, enquanto “Time Is Running Out” volta a dar potenciar uma resposta a plenos pulmões. “Take A Bow” continua a ser a melhor aposta retro-futurista do trio, mesmo volvidos treze anos, e a dada altura Matt segura uma caveira, qual Shakespeare e a sua questão de isto ser ou não ser rock no sentido lato da palavra. A componente cénica ascendente dá-nos uma projecção inspirada em 2001: A Space Odyssey, uma máquina de arcada em palco e todo um Kung Fury robótico, antes da entrada de um gigante insuflável de aspecto xenomorfo para um medley que uniu “Stockholm Syndrome”, “Assassin”, “Reapers”, “The Handler” e “New Born”, para além de atacarem “Head Up” dos Deftones pela jugular, naquele seu riff intemporal.

Um encore de pausa curta trouxe finalmente a harmónica de Ennio Morricone para um duelo no oeste de “Knights Of Cydonia”, que se materializou na perseguição das bolas gigantes lançadas ao público. Um final grandioso de um concerto ambicioso e de temática contemporânea, apesar das inúmeras referências aos 80’s, mas que terá ficado uns furos abaixo dos drones de 2016, no par de concertos na MEO Arena. Numa altura em que a realidade distancia-se da simulação partilhada através dos ecrãs, há algo de especial e cada vez mais invulgar em estar debaixo do mesmo tecto que uma banda. Se não estamos certos do que é a proximidade humana nos dias que correm, valha-nos pelo menos essa ideia de coexistência.

Fotografia e Texto: Nuno Bernardo

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