De regresso ao Meco, esta 25ª edição do festival Super Bock Super Rock decorreu nos dias 18, 19 e 20 de Julho e trouxe consigo lembrança de bons momentos passados nos arredores desta aldeia à beira-mar plantada, mas também o vislumbre de adversidades decorrentes de uma nova experiência à moda antiga.

18 de Julho

No primeiro dia, pelas 16h00 ainda as portas não tinham aberto e o fluxo de trânsito e as filas na bilheteira, sob um sol e calor abrasadores para aquele que seria o mais preenchido, estavam já em concordância. As pessoas sentadas à pequena sombra dos palcos, a única disponível a esta hora da tarde de uma semana que guardou os raios de sol, mas também (e felizmente) algum vento, para o fim de semana do festival.

Após o festival arrancar com Sallim no Palco LG, às 17h30 os também portugueses Glockenwise abriram o Palco EDP. Vieram de Barcelos para apresentar o seu disco Plástico, agora na língua de Camões, depois de três propostas em sentido contrário. Todos de camisa azul, tal como o fundo que os protege, enfrentaram um público “hipster” e jovem para lhes dar um “Dia Feliz” em jeito “Moderno”, num estilo que se destaca nos dias de hoje. De seguida foi no Palco LG que passámos pelos GrandFather’s House, nome de código para duas raparigas e dois rapazes em tons de vermelho e branco, a condizer com as cores do festival. Num palco inteiramente dedicado à nova música portuguesa, a banda de Braga aproveitou ainda para chamar Lince ao palco para partilhar a música “Drunken Tears”, perfumando um bonito momento de amizade.

Vindos da Nova Zelândia e Austrália, Marlon Williams e os seus companheiros trouxeram-nos uma canção sobre o facto de se estar vivo, “Being Somebody”. O frontman, no seu jeito muito humilde e gentil, voltou a mostrar-se a Portugal como se estivesse sentado com os seus amigos num bar a tocar para quem lá aproveitava o fim de tarde. Muito simpático, como sempre, só partiu depois de escutarmos a magnífica “What’s Chasing You”.

Cat Power surpreendeu ao não permitir ser fotografada; mais tarde, percebemos que talvez a revelação das marcas do tempo que deixou admirados quem a esta senhora presta atenção, tenha sido uma possível razão para nos deixar guardar deste concerto apenas a sua voz, incomparável e inigualável. Apresentou-se emocionada, sorridente, tranquila, com pouco público para o que uma figura da sua dimensão supostamente esperava – mas lembremos que neste dia, as filas de trânsito pareciam o Meco parecer ainda mais distante. Ainda que tenha subtilmente feito uma passagem por alguns dos seus temas mais conhecidos, como “Me Voy”, os seus dois microfones à luz de um Sol que baixava ao fundo, no mar. Após agradecer em português, «obrigada», e despediu-se com “Wanderer”, ficámos com a sensação de que a artista tivera feito tudo bem. Mas para alguns não chegou. Demasiado perfeita? Espaço errado? Muitas expectativas? Fica o desejo de assistir a um concerto mais intimista, numa sala desse Portugal.

Já no Palco EDP, Dino D’Santiago abriu espaço a uma grande concentração de festivaleiros. Vestido com uma t-shirt que anunciava que «Não é sonho nenhum», integrou nos seus sons algumas referências a Buraka Som Sistema e convidou o amigo Pedro Mafama para “Se tu fores eu vou contigo”. Aproveitou a ocasião para estrear um tema novo, que revelou a sua amplitude vocal em alguns agudos. Como esperado e habitual, bastaram os primeiros acordes de “Como Seria” para os telemóveis subirem ao alto; o público cantou e bailou, abrindo espaço para a pista de dança afro mais tarde em “Nôs Funaná”, momento em que desceu e se juntou à festa na plateia. Possivelmente o melhor concerto até ao momento do dia, cheio de energia e com maior número de espectadores.

Depois de nos cruzarmos com os portugueses Madrepaz no Palco LG, rumámos para o Palco Super Bock para receber os Jungle – a banda que tem marcado presença em vários dos maiores festivais nacionais nos últimos tempos. Com a herdade já bem composta numa “golden hour” que aquece os corpos e o coração, surge um «Hi Lisbon, how are you guys doin’?» após “Smile” e “Heavy California”. Trata-se de uma banda da qual não precisamos de esperar por “aquela” música, pois todas no seu geral chegam de uma maneira especial, particular, para fazer cantar ou dançar. Após “Heat”, sobrevoando o olhar pelo público em fim de tarde, com os últimos raios de sol, expressam «what a beautiful evening» e arrancam para “Casio”.  Agradecem então e realçam a admiração pelo nosso país, com “Drops”, “Busy Earnin’” e “Time” como docinhos guardados para o final do lusco-fusco

Um pouco depois, Branko levou o seu cenário habitual à herdade, desta vez convidando novos nomes da música nacional com quem partilha o seu trabalho, como o caso de Cosima, a jovem que dá voz a “Hear From You”. Já mais aquecidos, dividiram-se os festivaleiros entre The 1975, no Palco Super Bock, e Conan Osiris, no Palco Somersby, arriscaríamos dizer mais dedicado ao público nacional. Este último, canta acapella antes de entrar em palco de vestido vermelho. Ouvem-se gritos do público em “Barcos” e, quando finalmente se apresenta, partilha «’Tão cá todos hoje. Hoje comecei diferente. E pensar que comecei com o “Borrego” lá naquele programa na [RTP] 1». Com João, o seu bailarino, e dois músicos a seu lado, percorre “100 Paciência” e entre algum vocabulário menos adequado, em “Pró Baralho”, espanta-se com o facto de o público ser capaz de cantar as suas letras de cor. Questiona «O que é que vocês veem de vocês em mim?» e arranca “Borrego”, com uma discreta referência a “Summertime Sadness”, da headliner do dia Lana Del Rey, no final. Destaca-se a notável ligação com o público e a mensagem que deixou no fim: «Como é que eu não posso ser humilde a ter este amor que vocês me dão? Já gastei demasiado tempo a dizer à  minha cabeça que sou uma merda, mas ‘tamos cá, não ‘tamos? ‘Tá-se bem. Então se eu sou merda, vamos chafurdar».

Pouco antes das 23h30 começou-se a revelar alguma movimentação no sentido do Palco EDP para o concerto de Metronomy, um dos nomes mais aguardados desta edição. “Heartbreaker”, “The Bay”, “Everything Goes My Way” fazem-nos lembrar de um local situado entre Jungle e Arcade Fire, onde a dança se encontra com o feliz acaso da canção sonante a plenos pulmões. Teriam pois de fazer as delícias com “Reservoir” e apresentar as mais recentes “Lately” e “Salted Caramel Ice Cream”, que não ficam nada longe dos sucessos anterior e desvendaram o véu do novo álbum, Metronomy Forever, a lançar em Setembro.

Lana Del Rey, a mais tardia e única com direito a uns quinze minutos de atraso. Possivelmente justificado pelo cenário tropical montado no Palco Super Bock, de jardim, com direito inclusive a palmeiras. As colunas acendem-se em tons de azul e arranca com “Born To Die”. Ela, Lana, igual a sempre: de vestido preto, estilo de menina, com duas bailarinas que a acompanham nesta sensualidade inocente. Deitou-se, depois, entre as suas ninfas para cantar “Pretty When You Cry” e por diversas vezes convidou o público para cantar as suas canções. Em “Blue Jeans” desceu mesmo até junto dos seus fãs nas primeiras filas e encheu-os de selfies, autógrafos e afectos. Uma das suas mais recentes composições, “Mariners Apartment Complex”, surgiu no alinhamento e após uma tríade “Change /  Young and Beautiful / Ride”, sempre acompanhada de coreografia e back vocals, foi utilizado o baloiço no palco. “Video Games” quase dispensou a voz da artista, que guardou “National Anthem”, “Summertime Sadness”, “Off To The Races” e “Venice Beach” para a última parte do concerto, que pouco passou de uma hora.

Quando chegou o momento de Roosevelt actuarem, o trânsito para sair do recinto já era mais que muito. Ainda com as facilidades e (tentativa de) organização deste ano, os problemas continuaram. Embora perto de Lisboa, talvez a opção passe não por ir e vir mas sim pernoitar perto. Nesta primeira noite foram várias as queixas decorrentes das horas de espera pelos autocarros do festival.

 

19 de Julho

No segundo dia do festival, ao contrário do anterior, o trânsito para chegar ao recinto teve muito menos impacto face ao dia anterior. Não se pense que foi devido à maior utilização de transportes, não, pois o que se verificou na realidade foi um recinto muito menos preenchido. No início da tarde, foram os Galgo os primeiros a ter algumas pessoas a assistir ao seu concerto no Palco LG.

Já a tarde estava a avançar quando os também portugueses Conjunto Corona subiram ao Palco EDP. Mesmo com o calor que se fazia sentir, o homem do robe veio de meia na cabeça e não dispensou a meia branca no chinelo. Tratou-se do primeiro concerto do dia com algumas (poucas) dezenas de pessoas. Começaram por “187 no Bloco”, convidaram PZ para “Perdido na Variante” e entre “Não Bebo Coca Cola Eu Snifo” e “Santa Rita Lifestyle” gritou-se «Gondomar! Gondomar!». Como habitual, o Homem do Robe distribuiu shots de hidromel gratuitos pelo público durante “Funk & Dopamina” e, logo depois, convidam da Margem Sul o MC Frankie Dilúvio para “Pontapé nas Costas”, com “Chino no Olho” e “Pacotes” a ficarem para o final do concerto.

Outro dos aspectos que o público continua a verificar e a tomar nota é a clara distinção entre público “comum mortal” e os ditos VIPs, com a enormidade de zonas criadas nas frentes de palco para manter a “classe” separada da ralé inconveniente. Triste é observar que tais zonas permaneceram grande parte do evento vazias ou com um reduzido número de pessoas, inviabilizando o acesso mais próximo ao palco a quem, de facto, interessa assistir aos concertos.

Com o avançar da hora, ainda assim foram muito poucos, talvez menos de uma centena, os que pararam para ver Shame. A energia destes rapazes foi claramente maior do que a dimensão do próprio festival; eles até que se esforçaram para convencer os poucos presentes mas com pouco retorno, acabaram por conseguir fazer um concerto intimista, pois quem os foi ver conseguiu chegar às primeiras filas e contar com a presença do vocalista a contribuir para levantar o pó, no corredor central. Na apresentação do post-punk de Songs Of Praise houve ainda direito a crowdsurfing do frontman, sem camisola mas de botas pesadas, e despediram-se com um «obri-fuckin’-gado».

Surgem algumas questões. Será necessário reduzir a quantidade de palcos, principalmente em simultâneo? Estaremos perante uma nova dinâmica dos festivais de verão? Bastante diferente do primeiro dia, este contou com mais famílias e menos festivaleiros a guardar lugar.

O concerto mais cheio da tarde, com pessoas muito jovens a correr para o Palco EDP, que mais poderia ser o principal, para assistir àqueles que cumprem sempre bem a sua função, Capitão Fausto. Depois de “Santa Ana”, destacou-se um solo de bateria que se ligou com “Amanhã ‘Tou Melhor” – aqui o público bate palmas e acompanha a canção. Partilham com o público «é um prazer estar de volta aqui ao Meco, o primeiro grande concerto que demos foi aqui», num feliz reencontro do público com a banda no cenário idílico do Meco. Continuaram com “Corazón” e a mais recente “Amor, a Nossa Vida”. São sempre um sucesso, estes rapazes.

A noite seguiu em ritmo francófono. Charlotte Gainsbourg invocou no Palco EDP a pop dançante, luminosa e cénica de Rest, sentada ao piano ou em pé de microfone nas mãos, para temas fortes como “Ring-A-Ring O’Roses”, “Sylvia Says” ou “Deadly Valentine”, que alternaram com temas dos discos anteriores. Não muito depois, foi a vez dos Phoenix terminarem de vez a digressão de apresentação de Ti Amo no Palco Super Bock. A banda de Versalhes deu destaque a esse trabalho mais recente da sua discografia, mas foi sobre o ponto maior da carreira que se sentenciou o alinhamento – Wolfgang Amadeus Phoenix foi recordado, dez anos depois do seu lançamento, com os seus singles maiores. “Lasso”, “Lisztomania”, “Armistice”, “Rome” e “1901” fizeram as delícias do público concentrado na frente de palco, que por várias vezes acarinhou a presença do vocalista Thomas Mars. O cenário colorido deu ainda brilhantes silhuetas de “J-Boy”, “Entertainment” ou “Trying To Be Cool”, com “If I Ever Feel Better”, “Fior di latte” e “Ti amo di più”, esta com crowdsurfing de Thomas, a constarem na recta final de concerto de consagração.

No Palco Super Bock a noite prosseguiu com as batidas repetitivas de Kaytranada que, pese-se o talento e as interessantes colaborações que mantém, não foi além de uma enorme tela pouco dinâmica para quem encontrou no hiphop a forma certa de fazer o seu clubbing. Naturalmente quem procurou ritmos mais frenéticos para se manter acordado, foram os britânicos Ezra Collective a dinamizar o Palco Somersby com um afro-jazz futurista, bem-disposto e hipnótico.

20 de Julho

Não se sabendo medir se foi o acaso de ser sábado ou do preenchimento do festival depender pouco dos passes gerais em contraste com os bilhetes diários, a verdade é que num dia tendencialmente inclinado para o hiphop voltou-se a receber mais público. Isso ainda assim não impediu de alguns (mas raros) momentos que dispensaram a batida, mas esses notoriamente deslocados até na hora: The Blinders, Rubel e Superorganism, todos no Palco EDP, foram as notas diferenciais do dia em termos sónicos.

Sensivelmente à mesma hora em que o fenómeno ProfJam angariou as suas vestes brancas e o seu auto-tune artístico para “Matar o Game” no Palco Super Bock, os Superorganism liderados pela jovem Orono Noguchi mostraram como viciar a pop britânica através de sintetizadores, samplers e formas mais tradicionais de criar uma diversidade musical quase ímpar – ouvimos tanto de Kanye West ou Katy Perry como de Pavement ou Weezer e a verdade absoluta é que “Everybody Wants To Be Famous”. Também no Palco EDP, logo a seguir, foi a vez de Masego implementar o R&B com fusão de jazz, house e trap, como é evidente no álbum de estreia, Lady Lady, aqui apresentado.

No entanto foi no Palco Super Bock que se deu a sílaba tónica do dia. Janelle Monáe, ainda que com público dedicado à sua presença, fez do Meco a sua sala do trono como uma rainha caída dos céus – a entrada em palco com “Also Sprach Zarathustra” de Richard Wagner não foi acaso. Em cima da mesa esteve a apresentação de Dirty Computer, o disco mais humano da sua pop energética rica em fantasia. Enquanto uns procuram a fama e o sucesso, Janelle pretende uma “Crazy, Classic, Life” e conquistou tudo e todos. Fez do palco a pista de dança para si e para as suas bailarinas, encenou, mudou de guarda-roupa, dominou a área e no fim das contas só faltou mesmo um público à altura da sua mestria, pois a maioria dos presentes só já guardava lugar para a estreia nacional de Migos. A artista ainda assim suou como tivesse uma arena na expectativa e fez valer cada segundo do seu tempo, com os pontos altos a assinalarem “Make Me Feel”, “Pynk”, “Tightrope” e na chamada anti-Trump em prol do movimento Black Lives Matter e da população LGBTQ+. Concerto do festival? Muito provavelmente.

A noite prosseguiu com a dupla londrina Gorgon City e o seu house algo esquecível no Palco EDP, antes de Migos darem ao público jovem do Palco Super Bock o motivo de ali estarem – a par de Lana Del Rey, o trio de Atlanta era o nome mais aguardado para esta edição do festival. O trap é um fenómeno de popularidade de escala global e os Migos os seus principais artilheiros. Aqui há uma chuva de adlibs e versos balbuciados, diversas paragens e constantes backtracks, com Offset, Quavo e Takeoff várias vezes a agarrar o microfone para alguns gritos de guerra em vez de serem fieis às letras registadas no estúdio. Não houve mensagem, não houve também uma relação muito clara com o público, mas todos estiveram dispostos a passar um bom bocado com saltos, gritos, selfies e até moshpit, a pedido da banda num empréstimo concedido pela cultura punk. Mas tudo isto para contribuir para um final anti-climático – não houve encore nem qualquer palavra de despedida, com o DJ Durel, à semelhança do que aconteceu no arranque do concerto, a lançar mais umas faixas até sair de cena.

No sentido inverso da sensação deixada pelos Migos ficou esta edição do festival Super Bock Super Rock. Corrigidas algumas dificuldades do primeiro dia, tornaram-se evidentes as mais-valias do Meco. A fuga dos centro-urbanos, com ou sem filas, cria o cenário de refúgio musical, de co-existência e de partilha, seja pelos que ali acampam ou pelos que se deslocam todos os dias. O recinto é amplo, há espaço para vários palcos e também margem para aprimorar esta nova fórmula de regresso ao Meco, seja em infra-estruturas ou cartaz, de forma a criar uma cultura de visitantes habituais, por oferecer por três dias aquilo que nenhum outro grande festival perto da grande Lisboa consegue garantir. Pense-se já em 2020: o festival regressa nos dias 16, 17 e 18 de Julho.

Texto: Ana Margarida Dâmaso & Nuno Bernardo
Fotografia: Ana Ribeiro (apenas dia 18 Jul)

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