O NOS Primavera Sound avançou para a sua oitava edição nos dias 6, 7 e 8 de Junho no cenário habitual do Parque da Cidade do Porto. Novamente um cartaz ecléctico e de gostos díspares – como é, cada vez mais, tradição da marca Primavera Sound – fez corresponder diferentes rotas de todos os festivaleiros. Uns orientados pelas guitarras, outros pela batida, o que é certo é que dificilmente o festival não pauta pela novidade, pela quantidade de estreias ou de nomes raros a encontrar em solo português.

6 Junho

Com a abertura de portas chegou também a chuva e o vento, tendo levado a um ligeiro atraso na entrada dos primeiros festivaleiros mas também ao brinde mais desejado do primeiro dia – as esperadas capas para a chuva com o patrocínio NOS. Encontrámos um público no geral mais velho a contrastar com a habitual conotação familiar, visível pelos carrinhos de bebé e crianças com os seus pais.

Pelas 17h00, no Palco Super Bock deu-se início ao primeiro concerto, com Dino d’Santiago. Eram poucos os que marcavam presença a esta hora, outros tantos foram chegando. Em palco surgiram três raparigas de branco: back vocals, teclas e percussão. Num concerto a correr, Dino passou pelos êxitos “Nova Lisboa”, trazendo a capital à invicta, “Como Seria”, “Nôs Funaná” e “Raboita Sta Catarina” – aqui o público tira capas, dança, beija, deixa-se aquecer pelos ritmos africanos. De seguida anunciou que «Esta vai para quem acredita que está tudo certo», e apresentou a música que partilha com Branko, precisamente intitulada “Tudo Certo”.

Às 18h50, Men I Trust subiu ao Palco Super Bock, tendo sido o concerto com maior público até ao momento. Foram aplaudidos desde o momento da sua entrada no palco. Uma típica banda de Primavera, se pudermos estandardizar alguma coisa: voz rouca da vocalista e pop sotisficada, como “Show Me How” e “Norton Commander (All We Need)”, esta a mais aplaudida. Meia-hora depois, a portuguesa Mai Kino arrastou algumas dezenas de festivaleiros para o Palco SEAT, que escutavam sentados nas bancadas laterais, levantando-se progressivamente para saudar a jovem de vestido vermelho. Cumprimentou o público, «Olá Primavera», com a sua vista também mais completa, no final da primeira canção. Partilhou com um sorriso, «Vencemos a chuva!» e deixou espaço para uma versão de “Eyes Without a Face”, de Billy Idol. Destacou ainda a importância de ter estado presente num festival no Porto e terminou com a sua faixa mais célebre, “Young Love”.

A norte-americana Miya Folick, no Palco Pull & Bear, vingou como um dos concertos com mais público e também um dos mais aplaudidos. Questionou «Do you like my sweater?», apontando para a sua camisola vermelha com referências à cidade do Porto, desconhecendo talvez ela que vermelho e Porto é uma combinação perigosa. Bastante jovem, com postura de adolescente irreverente, mostrou a maturidade na sua voz. Passou o seu concerto por faixas como “Premonitions”, “Cost Your Love”, em que usou a guitarra elétrica, e “Deadbody” com um grande presença em palco. Com bastante interação, apresentou-se de forma directa – «My name is Miya. What’s yours? Thank you for having us. We fucking love your city», juntando a salutação ao agradecimento. Criou um dos momentos mais melancólicos e sentimentais desta edição com uma versão de “Nothing compares 2U”, de Sinéad O’Connor, e reservou o seu hit “Stop Talking” para o seu grande final.

Neste primeiro dia abençoado pela chuva, muitos abandonaram o festival antes da cabeça de cartaz Solange ter subido a palco, que entre chuvadas e bem depois da hora esperada, lá nos trouxe, entre os restantes temas que a fazem um dos nomes maiores do R&B, “Cranes In The Sky” e “Don’t Touch My Hair”.

 

7 Junho

Apesar da brisa fresca que por vezes se fez sentir, estivemos perante um dia muito mais solarengo, especialmente comparado com a chuva da véspera. A arrancar no Palco SEAT logo pelas 17 horas e para quem ia chegando ao recinto, a ‘nossa’ querida Surma com João Hasselberg, lá se apresentaram ambos de macacão e os seus dois bailarinos de jardineiras. Os bailarinos, que começaram no lado do público, só se fizeram mostrar quando se foram aproximando da grade e saltando para o palco. No final da primeira música, o primeiro concerto da tarde que começara ao mesmo tempo que Profjam, já captava a atenção da maioria do público. Surma confessou, «’Tou a tremer por todo o lado. Adoro o Primavera desde sempre. Espero que gostem” e deu-nos uma “Hemma”, acompanha de violoncelo, e uma “Masaai” numa versão mais aguda pelos instrumentos a que agora recorre. Os bailarinos, ao acompanhar a música com movimentos complementares, despiram-se, como se algo de natural, básico à humanidade, neutro os chamasse… e reuniram se à volta da mala de viagem que Surma coloca sobre uma coluna, para um movimento de percursão em conjunto pelos quatro.

É em Aldous Harding, no gigante Palco NOS, que se cruzam os festivaleiros que surgem vindos dos outros palcos. Um aplauso à sua entrada em palco, apresenta uma postura assertiva, de voz anasalada. Crianças pelas mãos de seus pais, amigos mais novos, mais velhos e famílias são convidados a escutar estes sons. À segunda música senta-se com a sua guitarra. Fazendo malabarismo com o seu olhar, ora fixo em não-se-sabe-muito-bem-o-quê, ora a sobrevoar para trás da sua própria mente, arrancou em “Designer”, tocou “Treasure”, atravessou “The Barrel” e sentou-se ao piano, guardando “Old Peel” para a despedida.

Fosse pelo desconhecimento ou outras preferências musicais, dado número de pessoas que a esta hora já se movimentava pelo recinto, não foram muitos os que rumaram ao Palco Super Bock para escutar a britânica Nilüfer Yanya. A simpática rapariga, que suscitou um «Hello Primavera, how are you doing?», deliciou o público com “Golden Cage”, uma das suas faixas mais apreciadas. Ofereceu-nos ainda “Paradise”, que combinou muito bem com o ambiente de fim de tarde na encosta do festival. Um breve olhar pelo recinto deu para notar que, ao mesmo tempo que drones nos sobrevoam para imagens póstumas, também andorinhas se baixam para cruzar o nosso horizonte.

Um pouco depois, chega-nos a australiana Courtney Barnett para um concerto a puxar a energia das pessoas na golden hour. A bateria fala pelo grupo e faz referência ao mais recente álbum, Tell Me How You Really Feel. Uma boa recepção em “Avant Gardener” levou o público a aproximar-se para ver e escutar a rapariga rockeira com postura de princesa, que até dobra a sua perninha para inclinar a sua Jaguar encarnada. Em “City Looks Pretty” acenou com um adeus à audiência, que lhe respondem prontamente: uma imagem claramente divertida, de quem sabe o que está a fazer o que melhor que sabe na música. Em “I’m Not Your Mother, I’m Not Your Bitch” o público já estava quente, aos saltos, sem deixar de se passar pelos êxitos “Depreston”, “Elevator Operator”, a nova “Everybody Here Hates You” e, por último, “Pedestrian at Best”.

Por constrangimento dos voos, o concerto de Mura Masa agendado para as 20h50 no Palco SEAT foi cancelado, pelo que os festivaleiros reservaram a sua energia e dedicação para o colombiano J Balvin – momento surpreendente, com bastante público em êxtase e um relvado na frente de palco completo mesmo antes do concerto. O anúncio do arranque do concerto é feito através da torre NOS, habitualmente localizada à direita do palco, agora iluminada, após as interrupções pela chuva. Ainda que parecesse um festival para crianças, dada a quantidade de bonecos em palco, pode-se considerar que foi uma das loucuras destes festival, com a maioria do público a dançar e a cantar, que mais parecia ter saído de um outro festival que não um de música alternativa – pois ainda que o reggaeton não seja o grande ponto do Primavera no seu global, este ano estivemos perante uma viragem no panorama.

Entre “Machika” e “Con Altura”, que partilha com Rosalía, que haveria de subir ao mesmo palco no dia seguinte, foi notória a excitação dos rapazes que tiraram as camisolas e o histerismo das raparigas O bling bling ao pescoço, o dente de ouro, e uma bailarina em palco para J Balvin numa lap dance em “Downtown”, uma versão de Anitta, foram adereços que elevaram o concerto para outro patamar. Já perto do final, “I Like It”, de Cardi B, apresentou canhões de fumo e dois bonecos gigantes em palco – um a imitar Cardi B e outro o próprio J Balvin. Para último, e de forma a garantir o aplauso geral, guardou “Mi Gente”, enquanto exibiu uma t-shirt de Cristiano Ronaldo.

Antes do relógio bater a meia noite, subiram a diferentes e distantes palcos Branko (a suplantar o cancelamento de Kali Uchis) e Interpol, este último pontual e lotado nas bancadas. Entre muitas das suas sonoridades melodramáticas, escutámos uma das mais recentes “If You Really Love Nothing”, logo ao início. A banda de Paul Banks que fica bem e nunca falha num festival, voltou a não comprometer. Na verdade, tal como anteriormente com J Balvin, o público que estava para os ver poderia ter vindo apenas por um só nome, dada a envolvência.

James Blake, já na lonjura da noite, fez-se acompanhar de outros dois músicos em palco, cada um em sua plataforma num total de três. As palavras pronunciadas por James, sentado ao piano, levam-nos a uma introspecção, a um estado reflexivo, nocturno, solitário mas no entanto rodeado de pessoas, quase como o modo como nascemos e morremos – sozinhos mas rodeados do mundo. Assim funciona mais ou menos a sua música, tanto em estúdio como em palco. Músicas como “Timeless” ou “Are You In Love” fazem surgir comentários do público tão sinceros como «Esta música é muito relaxante». Um jogo de luzes contrasta com a tranquilidade dos artistas e  não podiam obviamente ficar de fora “Barefoot In The Park”, que ao contrário da edição de Barcelona não contou, infelizmente, com a presença de Rosalía, e a sua própria versão de “Limit To Your Love”.

 

8 Junho

Ao terceiro dia percebe-se que há muita mais movimentação pela quantidade de trânsito e ausência de lugares para estacionar ainda antes das 17 horas – talvez por ser sábado ou pela previsão optimista do tempo. À entrada do recinto, deparamo-nos com uns sons de rock que vêm de uma roda de pessoas – Shellac em concerto surpresa, como uma grande banda residente é capaz de convencer entre as pessoas, frente a frente.

Nesta última tarde de festival, fomos recebidos pelo conjunto brasileiro Terno: «Olá, boa tarde. Nós somos O Terno, sejam muito bem vindos». Três rapazes de branco a trazer a boa vibe canarinha, tranquila, sob um sol de primavera com uma leve brisa que faz esvoaçar cabelos, ali mesmo junto à praia de Matosinhos. “Tudo o Que Não Fiz”, “Pegando Leve” e “Não Espero Mais” retratam histórias de vida muitas vezes ainda não vividas, como se tratasse de uma espécie de inspiração de uma geração. A norte-americana Lucy Dacus surge depois, já noutro palco, com “Addictions” e queixou-se de que a única coisa que a incomoda no momento é ter o cabelo na boca, devido ao vento, mas reforça «I am so glad for being here». Dá-nos a sua incrível versão de “La Vie En Rose”, tema da incontornável Edith Piaf, para se despedir com um sentido lamento sobre o estado e a posição actuais do seu próprio país, «Sorry about the US everyone».

Com o público à espera, chegados em passo acelerado do concerto anterior, amealha-se a expectativa em frente do Palco SEAT para Big Thief. A vocalista Adrianne Lenker, agora de roupas largas e cabelo rapado, entregou-se de alma e coração:  desde “Shark Smile” a “Mythological Beauty”, na qual se constata um desejo das pessoas a escutar esta canção, até “Masterpiece”, igualmente bem sucedida. Um som tranquilo, capaz de satisfazer um vasto número de festivaleiros, condizente com a luz da hora do concerto. Nesta série de concertos de final de tarde, resta ainda lugar para Snail Mail. Uma banda de gente jovem, que embora ainda um pouco desconhecidos do público português, juntou muita gente em frente do seu palco. Depois da introdução, trouxeram-nos uma “Heat Wave” de início mais lento e não demoraram a agradecer quem os recebeu nesta sua estreia em Portugal.

Apesar do frio que se fazia sentir, nada era capaz de fazer mover os fanáticos pela catalã Rosalía que pouco depois das 22 horas subiu ao Palco NOS, com uma introdução bem à maneira espanhola. Num bom portunhol disse «Boa noite, como estão? Tudo bem? Porto, estou muito agradecida por estar aqui. Obrigada de coração», tratando prontamente de fazer a ligação ibérica muitas vezes forçosamente ignorada. Entre quem passava, comentava-se a época reggaetton pós hiphop – será que depois daquele estilo vingar, é a vez da música latina se destacar? Com J Balvin na noite anterior compreende-se o início de uma nova legião de seguidores, agora com lugar em festivais mais alternativos. Seguem-se gritos histéricos e letras sabidas, o que faz antever esta previsão como uma futura realidade.

À terceira canção, mais uma vez “Barefoot in a Park”, teve direito a um palco estrelado e as primeiras filas começam a estremecer só com o movimento da artista numa apreciação contagiante. Partilha «Quero muito saber falar português e espero voltar muitas vezes aqui», antes de um momento flamengo acapella. Uma doce e irreverente surpresa, tudo o que não estamos a espera de ver e ouvir. Cenários estudados e instrumentos, assim como descidas ao público para cantar, o que é certo é que Rosalía teve tudo para garantir o público do Porto – e de Portugal – com o seu «Vos quiero mucho» após descer da plataforma onde esteve durante grande parte do concerto. “Con Altura”, também mais uma vez neste Primavera, e a mais esperada “Malamente” foram machadadas finais da conquista.

Já de noite bem escura, Neneh Cherry subiu ao Palco Pull & Bear, talvez demasiado pequeno para o seu talento. Zona de palco cheia, com pessoas mais velhas sobretudo, a constrastar com os nomes de musicalidade mais jovem, testemenhou a sua energia. Para além desta o grande destaque foi a interpretação de  “7seconds”, a canção que partilha com Youssou N’Dour. Um momento de rara beleza que terá sido a sílaba tónica da palavra final deste NOS Primavera Sound, já que a o grande nome desta última noite, Erykah Badu, fez a sua passagem pelo Porto de forma agradável mas bastante discreta.

 

O NOS Primavera Sound regressa ao Porto em 2020 de 11 a 13 de Junho e já nos está garantido o regresso de Pavement. Apesar de este ser um nome mais ‘típico’ no que toca aos cartazes que o festival nos habituou, tanto na cidade invicta como em Barcelona, não é de todo certo que se possa supor um regresso às origens. O Primavera Sound no geral parece mesmo ter partido para o caminho da igualdade de oportunidades – de notar o número de projectos com presença feminina, tal como esta reportagem evidencia – assim como o de evolução musical, estanto simultaneamente atento e ousado no que toca a abordar as novas tendências da música alternativa. Quem disse que a alternativa não pode ser popular?

Texto: Ana Margarida Dâmaso
Fotografia: Ana Ribeiro

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