Como se tornaram os Idles nos “meninos” queridos da cena alternativa em Portugal é uma pergunta que não estamos equipados para responder. Teríamos todos os argumentos para explicar porque é que é merecido, mas outras bandas também mereceriam a mesma defesa e não é por isso que beneficiam do mesmo estado de graça. Quando os vimos no NOS Primavera Sound, à luz do dia, o público parecia estar maioritariamente a ter o seu primeiro tête à tête com os britânicos; como é que em tão pouco tempo tantos se converteram não é se não perto de um milagre. No entanto, cinco meses depois cá estamos: concertos esgotados em Lisboa e no Porto, guedelhas crescidas, barbas cofiáveis e uma pequena legião de fãs devotos.

Nesta segunda passagem por Portugal num ano os Idles trouxeram consigo os John. A banda que odeia o conceito de SEO apresenta-se vinda do sul de Londres. O baterista deste duo faz as apresentações, «Olá, I’m John, he’s John, we’re John. Do you get it?». Sim, percebemos. A abordagem directa ao nome fará parte da mesma filosofia que se expressa musicalmente. Punk rock directo, sem tempo para coisas supérfluas como letras bonitinhas, solos, melodias vocais harmoniosas ou um baixo. Há sobretudo energia, volume, spoken word e uma voz que soa a gravilha molhada. «Enough talking», diz o John sentado, «Let’s get on with the show». Estivesse a sala cheia talvez o público se manifestasse de outra maneira. Assim, a meio gás ficou só a promessa de que os John podem ser a prece para aqueles que gostavam que houvesse no universo uns Japandroids em modo exclusivamente zangado. “God Speed In The National Limit” foi o momento alto desta apresentação e a recomendação com carimbo que oferecemos.

Depois de elogios ao nosso país e à facção mais bonita do público o espetáculo chega ao fim. «We’ll leave you in the capable hands of Idles», a banda a que agradeceram pela oportunidade de visitar Portugal.

Venham daí essas mãos, então.

 

São as 22 horas em ponto – talvez, ninguém olhou para o relógio a confirmar – quando a banda que já foi descrita como o “projecto mais revolucionário desde os Sex Pistols” pisa o palco do Lisboa ao Vivo. Não é um elogio despiciente, os Idles são contra-cultura que tem na sua vertente estética uma vantagem capaz de subverter o status quo sem que o dito dê por isso. Mas já lá iremos.

“Colossus” dá o mote ao concerto. Primeiro só voz e baixo que cedem lugar a uma explosão de som que deixaria os Joy Division com sentimentos de inadequação. Daqui em diante a energia jamais esmoreceria. Em palco há três figuras de movimentos fascinantes: temos Joe Talbot, que pisoteia o palco furiosamente e acompanha as letras com uma pantomina explicativa, e os dois guitarristas, Lee Kiernan e Mark Bowen. O primeiro é o mais frenético e espasmódico, o segundo é a prima-dona de movimentos andróginos que gostaríamos de ter em qualquer festa. Mais tarde, no fim do concerto, Talbot atiraria a laracha «Is someone not getting enough attention?» quando Bowen o incita a continuar o espetáculo em vez de falar. Foi tudo em brincadeira, mas é bom saber que os Idles são “self aware.”

«This song is about how much we love immigrants», explicava Talbot antes de “Danny Nedelko”. Estas explicações repetir-se-iam; os Idles são inimigos da subtileza e cada canção vêm com as suas declarações de interesse. Não que fizessem falta, as letras falam por si e a mensagem é imediata.

Ou devia sê-lo.

A certa altura do alinhamento “Cry To Me” deu lugar a um momento memorável. A banda traz a palco o público feminino junto às grades e cede as guitarras a duas delas enquanto os donos vão dar um mergulho.

Há maneiras de trazer um grupo particular a palco. Há a versão Marilyn Manson, com moças escolhidas a dedo que com sorte estão disponíveis para participar na sua própria objectificação, e há a versão Idles. Aos nossos olhos, porque interpretamos no contexto de alguns temas dos britânicos, a ideia é trazer o feminino para uma festa que tende a ser dominada pelo masculino. Dar-lhe visibilidade e um momento para moldar aquele momento de música ao vivo à medida do género. É por estas razões que achamos os Idles, como dissemos acima, a banda mais subversiva do momento. Porque a estética é hiper-masculina, dos bigodes, à linguagem, à agressividade, mas o conteúdo rejeita essa ideia de masculinidade. E assim, sob este véu, a mensagem chega a quem mais precisa de a ouvir. O que torna a escrita das linhas que se seguem um exercício em desapontamento.

Não nos cabe dizer que há formas certas e erradas de ser fã de uma banda. Mas quando és um dos tipos que se ouviu gritar «mostra as mamas», «quero aquela» e outras pérolas, exactamente o que é que podes estar a retirar destas canções? Imaginámos que “Mother” começa com a declaração «I am a Feminist?». Interpretámos mal o que era a «mask of masculinity» em “Samaritans”? Tudo isto é retórico, mas fica a preocupação: é a estética dos Idles tão apelativa que está a atrair os demasiado densos para compreender o conteúdo?

No entanto, a festa continuaria inafectada. Os Idles continuavam a sua revolução enquanto acto de alegria com doses recomendáveis de sentido de humor. Quando alguém no público grita “Well Done”, ficámos a conhecer mais um estereótipo. «You sir are a person that shouts a band’s most popular song on a show. It’s like shouting Wonderwall at an Oasis concert. We have four well known songs, we’re gonna play them all». Esse senhor, a propósito era António Costa. Não esse, um outro, e mesmo isso é dúbio. Como piada resultou melhor do que levar um peluche de um sapo para o espetáculo. Mas a festa é de todos e os Idles dão graças pelo público português a quem chamaram de “melhor público da europa – não – do mundo”.

O concerto terminaria com “Rottweiler” e sem direito a encore porque «encores are fucking weird». O Lisboa ao Vivo já estava para lá de suado enquanto via a banda abandonar o palco deixando para trás Mark Bowen que ia tocando bateria e cantando qualquer coisa que nos pareceu indecifrável. Era um fim gutural e primário que seria a catarse perfeita para uma noite musculada. Os Idles vieram para pregar a sua mensagem e Lisboa converteu-se.

Texto: Jorge de Almeida
Fotografia: Inês Silva

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