O festival urbano de outono da capital, outrora designado por Mexefest, associado à marca Vodafone, apelidou-se este ano de Super Bock em Stock, nome que já anteriormente havia envergado, associando mais uma vez a tão já conhecida marca de cerveja portuguesa ao mundo da música.

Realizado em diversos locais emblemáticos localizados ao redor e entre Avenida da Liberdade e o Rossio, este é um festival que já tem a sua presença garantida na época fria do ano, aliviando a saudade do bom clima dos festivais de verão. Conhecido pela sua captação nacional e internacional de nomes alternativos recentes capazes de saciar a curiosidade dos mais atentos, preza também por nos trazer um pouco daquilo que já conhecemos e de que, sem dúvida, gostamos.

23 de Novembro

No primeiro dia arrancámos no Maxime – o antigo cabaret agora transformado em hotel -, que foi o cenário escolhido para Beatriz Pessoa apresentar as suas canções jazzísticas. Um espaço pequeno, mas clássico e burlesco ao mesmo tempo, acolheu a voz doce da menina mulher que tocou para uma geração de gerações, ali bem representada pelas poucas dezenas que completavam o espaço. Pegou em “Everyday Fights”, “You Know”, cantou em português o fado que escreveu para Cristina Branco e terminou com uma das suas mais conhecidas, “Vento”.

Foi também de ritmos quentes que se fez este evento e neste mesmo dia, assistimos a um dos concertos “top”, com Fogo-Fogo na Casa do Alentejo. No caminho para a sala tivemos ainda a possibilidade de assistir a uma celebração de cantares alentejanos, de Serpa, com grupos de crianças e adultos que nada tinham a ver com o Super Bock em Stock mas que alegraram o subir da escadaria. Além destes, cruzámo-nos ainda com patinhos de borracha numa banheira, uma activação de marca EDP. Mas foi a música instrumental da banda de cinco senhores com camisas de folhos a trazer os sons nativos, levando a natureza ao palco. Entre funaná e palavras mais ou menos compreendidas que aqueciam a sala, o público jovem depressa encheu o espaço numa dança conjunta. Interactivos, mostraram-nos simpatia e as tão conhecidas da rádio “E Si Propi” e “Oh Minina”.

Numa corrida ao Cinema São Jorge parámos para escutar Public Access TV e resumimo-los àqueles que escutávamos em casa, antes do festival, porque nos traziam sons de outros artistas rock à memória. No entanto, os rapazes de fato e cabelo bem penteado pareciam saídos de um filme antigo, tendo ainda um salto que dar até convencer a meia plateia que ali estava.

Já do outro lado da Avenida, no Teatro Tivoli BBVA, que se reuniram em palco duas gerações distantes do panorama nacional da música: Lena D’Água e Primeira Dama que já trabalham em conjunto faz uns anos. Aproveitaram para trocar umas palavras sobre a vida na cidade e os contrastes inter-geracionais. Trouxeram-nos “Carrossel”, enquanto Lena dançava e o público batia palmas ao ritmo da tarola,  e seguiram-se “Dou-te um Doce” e “No Fundo dos Teus Olhos D’Água” combinadas com as originais da banda como “Mariana” e “Rita”. Guardaram “Nuclear Não, Obrigado”, com mais de 30 anos mas ainda actual, como um gesto revolucionário e “Perto de Ti”, representando o romantismo pop que deram à sala. A despedida fez-se com beijos e abraços de Lena a todos os elementos da banda e um adeus caloroso ao público.

Cruzámos de novo a passadeira para assistir, na nossa opinião, à maior descoberta deste festival: IAN, a violinista russa residente na cidade do Porto que se apresentou ali vestida de bailarina de metal e cabelo branco, espetado, encarnando uma postura robótica, contrastante com o violino e com o piano, clássicos e que constituem as suas músicas. “Hipnotizante” foi a palavra mais escutada sobre quem estava a assistir. Guardaram-lhe uma das mais pequenas salas do festival, mas ainda bem, pois pudemos ver de perto todas as capacidades desta artista, que ocultam a sua humildade e simpatia, partilhada com os presentes. Cativante, a sua música faz os corações palpitar como se estivéssemos num filme de suspense que não nos permite tirar os olhos do ecrã. Por vezes com uma mensagem confusa ou difícil de captar, leva-nos a mergulhar profundamente no nosso interior, conjugando o som (em voz e melodia electrónica e clássica) com imagem e luzes. Referiu que Jimi Hendrix era um dos seus ídolos e por isso tentou do violino fazer uma guitarra, e conseguiu! A já tocada nas rádios “Spring Or Desire”, que partilha com Tweezy, o rapper sul africano, enche-nos de sensações que nos ficam na memória. Não a percam de vista.

 

Ainda faltavam uns bons minutos e as filas à porta do Tivoli começavam a crescer para o artista do momento – Conan Osiris aka “o-que-é-que-vês-nele?”. Pois é, de facto o rapaz gera muita controvérsia à volta da sua produção musical. Há quem o compare com Variações e há quem não perceba nada do que ele faz nem metade do que se passa em palco… ou sequer como chegou ao estrelato. Uma coisa é certa, este tinha sido até a esta hora o concerto com maior lotação. Sala repleta, luzes apagadas. Ouve-se declamar um poema sobre videojogos. Arranca logo com uma das mais conhecidas, “Borrego”, e o público não se acanha: todos de pé, a cantar e a dançar, influenciados pelo bailarino de excelência que o acompanha. Conta-nos com orgulho que «tudo o que ‘tá aqui foi comprado por mim, com o meu dinheiro, a trabalhar numa sex shop!». Traz consigo mais um amigo, flautista coreano para partilhar uma faixa. Faz rodar desde “100 Paciência”, “Barcos”, “Titanique”, “Nada nada nada nada” às mais cantadas pelo público, “Adoro Bolos” e “Celulitite”. As referências vão desde o fado à música popular portuguesa, com particular enfoque nos temas dos anos 90 até à actualidade, com ritmos que fazem abanar o esqueleto – «chuta que eu quero ver se eles tarraxam ou se não tarraxam hoje». A sua emoção é expressão por um «Putos, não sabem há quanto tempo eu queria estar aqui com vocês», ao que se ouve em resposta do público: «Devias era ‘tar no Coliseu!».

Sendo este o festival ping pong, fomos levados a cruzar de novo a avenida para chegar a horas do concerto de Natalie Prass. Muitas expectativas, pouco contentamento. À parte da bonita figura de vestido azul e da sua voz melodiosa, um tanto ou quanto radiofónica, esboçou sorrisos discretos por detrás do fumo do palco. Entre “Oh My” e “The Fire”, há uma clara simbiose na artista e nas músicas, como se esta vive dentro delas, como se coabitassem num mundo próprio. Ao contrastar com as sensações do dia, os aplausos mais calmos, a voz como a de quem conta uma história ou a quem vai no fim de tarde beber um copo. “Hot For The Mountain” faz-nos considerar que esta teria sido uma jogada mais segura para o segundo dia do festival. Embora “Short Court Style” fizesse parte do alinhamento, a vontade de ficar foi desaparecendo e demos uma corrida até ao Capitólio onde se encontrava Masego, o rapper calmo, com piano e back vocals que se encontrava mais do que lotado.

O final do dia esteve a cabo de Capitão Fausto. Trouxeram-nos as mesmas, as de sempre e as novas que já se esperavam, no mesmo estado. Deram o concerto que a sua legião de seguidores esperava que dessem no Coliseu. Tomás Wallenstein não parecia estar no seu melhor estado vocal, tendo passado inclusive essa impressão para quem escutava o concerto via rádio. Mais velhos, mais emotivos, deixaram registo de um abraço a Tim Bernardes que actuaria no dia seguinte do festival.

 

24 de Novembro

O segundo dia arrancou com chuva e com Éme, no palco montado na Garagem EPAL, ainda meio cheia. De olhar fixo, começou sozinho a dedilhar uma guitarra, na qual mais tarde apostou uns acordes de fado. Os seus reforços, como lhe chamou, foram entrando aos poucos e ficando. Talvez o artista em cartaz mais nacional na composição e instrumentos.

Uma das maiores revelações deste festival ocorreu cedo, pela hora de jantar. Cinco minutos antes da hora marcada e a Casa do Alentejo já estava lotada para receber Dino D’Santiago. Reservou a primeira música, a mais calma, para a introdução como método de aquecimento. Mas à segunda faixa, “Nôs Funana”, era preciso ter cuidado com a estrutura daquele edifício, tal era a energia vinda da dança do público. Com um smile inegável, interage com o público e dança de olhos fechados, sentindo a música no seu corpo. Explicou um pouco da sua vida, agradeceu aos pais, também presentes. “Como Seria” e “Nova Lisboa” ficaram para a sobremesa, servida em prato de ouro.

Still Corners, ainda não tão conhecidos do público em geral (o que poderá explicar a pouca audiência), vieram para se afirmar com a mais conhecida “Black Lagoon”, que apesar de serem só três em palco – com importante destaque à bateria e ao baterista, de chapéu, e à voz da vocalista -, são capazes de dar uma tonalidade assertiva e qualidade concentrada à actuação. Embora simples e humilde, a energia, a figura e a simpatia destes queridos vão fazê-los regressar a estas bandas, certamente. «Thank you. Obrigada. Thank you for choosing to see us, thank you» e após umas “Fireflies” e “Lost Boys”, tinham enchido quase metade do Coliseu.

Depois de uns problemas técnicos no soundcheck que permaneceram durante a actuação, o concerto de SOAK na Estação do Rossio arrastou apenas alguns curiosos. Antes de subirem a palco, foi possível observar um terno abraço de banda. Entre algumas falhas técnicas, Bridie atenua-as com a sua voz angelical, merecedora de uma sala com melhor acústica. Há quem diga que teve a melhor vista do festival, o terraço, mas a pior sorte. À segunda música lá melhoraram e acertaram o compasso com “Knock Off My Feet”. Os pingos da chuva, visíveis nas luzes que o cruzam, permitem um momento especial para a jovem artista, que canta de olhos fechados “B a noBody”. Traz-nos “Deja Vu” e apresentam algumas das suas novas faixas, deixando as mais conhecidas “Sea Creatures” e “Everybody Loves You”. Terminou-se com “Oh Brother” e com poucas pessoas, que foram abandonando o local.

 

O que se seguiu foi um Cinema São Jorge cheio e tranquilo, em silêncio, para receber The Saxophones. O casal aqui acompanhado de baixista, que na sua simples e humilde música conecta mais pessoas e suas emoções pela doces letras de “Singing Desperately” ou “If You’re On the Water”. Paixão, sorrisos e conforto, é o que nos inspiram. A clareza dos seus ritmos transporta-nos para o nosso sofá ou para quando nos deitamos na cama, em casa, mergulhados num álbum onde incluem “New Tradition” e “Best Boy”. Guardam os sentimentos pelo país, na primeira vez que dois dos elementos do grupo o visitam, ponderando a permanência em terras lusas.

Pouco depois Jungle arrasam, num concerto lotado até ao último andar do Coliseu, onde se vivia um espaço de dança multigeracional. Possivelmente um dos grupos mais esperados depois do concerto que tinham dado no verão, em Paredes de Coura. Do grande número de elementos da banda, todos dançam e tocam ao mesmo tempo, interagindo com o público e comprovando pela sua descontração que o trabalho também diverte, especialmente ao som de “The Heat”, “Julia” ou “Happy Man”.

Depois de uma pausa de dez minutos, com os incansáveis fãs na primeira fila a apoiar, regressaram ao estilo Saturday Night Fever. O público vibra com as músicas recentes como “House In LA” e a banda devolve «Hey oh Lisboa, is good to be here» mesmo antes de terminar com “Busy Earnin” com um expressivo agradecimento – «Every time we come to this country we have an amazing experience. Thank you so much». Mas como o público não desarreda, guardam “Time” para a despedida. Deixaram nos tudo. E nós demos-lhes tudo.

Texto: Ana Margarida Dâmaso
Fotografia: Ana Ribeiro

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