«Faz tudo como se alguém te contemplasse», terá saído de entre as páginas do epicurismo em épocas longe de imaginar o milagre do sintetizador. O alemão Nils Frahm, qual mago desse instrumento nas suas mais diversas especialidades e utilizações, há já vários anos que mede as matrizes do classicismo do piano e as traduz numa rede de escapes sonoros, aos quais achega o mais óbvio dos rótulos – o da música neoclássica.

Frahm apresentou em Lisboa, no passado dia 18 de Novembro, o seu mais recente álbum, All Melody. Esse mesmo disco marca um ponto de viragem na sua própria musicalidade, dando o passo “extra” além de um possível movimento neoclássico. Os seguimentos límpidos ao piano quase românticos foram gradualmente substituídos por um conjunto de sons embebidos de delays e por batidas viciantes que fazem a música dever mais ao movimento das ancas do que ao virar da pauta. Esse corolário foi comprovado meses antes, no NOS Primavera Sound, no Porto, debaixo de chuva e já a altas horas. Tamanha memória não só ficou gravada para os que estiveram em frente do palco, mas também para quem esteve em cima dele – Nils recordou essa noite de forma bastante nostálgica em jeito de gratidão.

Não terá sido a primeira nem a última das várias intervenções do músico na Aula Magna. Com a noite só para si, arrancando pontualmente às 22 horas, teve tempo para se justificar e para explicar alguns dos seus métodos como se estivesse a dar uma masterclass de sintetizadores com meio estúdio ali diante dos olhos de um auditório cheio. Sempre com um humor bem apurado, por vezes sem precisar de dirigir a palavra e apenas com um fitar de olhos sobre o ombro, fez questão de aproveitar cada minuto para devolver ao público português aquela quase infinita contemplação no Porto. Isso obrigou mesmo à comunhão de temas “novos” e “velhos”, com as batidas a alternar momentos de maior tensão minimalista e de enorme tranquilidade, como aquela sequência de “My Friend The Forest”, “More” e “Ode”.

Ora, se Epicuro defendia a procura por um conjunto de prazeres em quantidades moderadas para atingir um clímax ou um cenário de plena tranquilidade, Frahm fá-lo de uma forma que se pode ler em muitos outros estilos de música. O paralelismo com os crescendos do post-rock foi feito para uma longa apresentação para “Says”, aquela faixa que o próprio admite ser uma das mais fáceis de interpretar do seu catálogo devido ao automatismo da repetição, mas sobretudo da própria contemplação que o seu virar de notas pode oferecer. O segredo está mesmo no crescendo ou, neste caso em particular, no epicurismo de Frahm.

Disse que tenta sempre escrever uma faixa melhor e os fãs continuam a aplaudir mais aquela. “The Whole Universe Wants To Be Touched” e “All Melody”, interpretadas antes, vivem muito mais da complexidade de um turbilhão de beats de mãos dadas com pequenos órgãos de igreja e toda uma dança pessoal do músico por botões e mais botões, nas centenas ou milhares de opções que aquele seu estúdio em palco parecia ter à disposição. Ainda que desconstruído o clímax de “Says”, o seu efeito não perdeu nem elegância nem poderio. O próprio sabe disso e brincou com o assunto por ter noção daquilo que tem em mãos. Com essa tamanha certeza e a virar as duas horas de espectáculo, quis também desconstruir o conceito de encore mas sem o dispensar. “For – Peter – Toilet Brushes – More” abriu a oportunidade para novo agradecimento, para aplauso geral de pé mas, acima de tudo, para uma ode à contemplação mútua.

Texto: Nuno Bernardo
Fotografia de Carolina dos Santos/Rua de Baixo

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