E mais um Barreiro rocks se passou! A trazer boa música ao Barreiro desde 2000, tornando-se cada vez mais um marco incontornável na história local e já com o título de melhor festival de Rock desta margem do Tejo – quiçá do Mundo – debaixo do braço, veio pela 18º vez tirar os “rockeiros” do armário e metê-los a curtir.

Como não podiam deixar de ser, porque já é tradição, manteve-se o espírito tão marcante do festival caracterizado pelo seu ambiente familiar e acolhedor de bar debaixo da ponte, banhado a cerveja, onde (o lo-fi cru é rei e) todos os anos se reencontram amigos e se fazem novos, abrangendo cada vez mais gerações, tanto no público como nas bandas que nos trazem, algumas frescas acabadas de sair da garagem dos pais e outras já com mais anos de estrada do que grande parte do público.

A primeira coisa que é notável ao chegar a este festival é a ausência de barreiras: os músicos são público e muito do público também são músicos tanto desta como de outras edições. Todos estão no mesmo patamar e tanto podemos ir comprar umas t-shirts à Beatriz e ao Ricardo (The Dirty Coal Train e Tiger Picnic) como fumar um cigarro com o Tó Trips (Lulu Blind). Há também uma grande probabilidade dos membros dos Kings Of The Beach nos caírem em cima quando estão a praticar o desporto com mais aderentes neste festival, o crowdsurfing.

Esta edição foi marcada pelo reencontro de bandas que já não tocavam juntas há anos e outras que voltaram ao Barreiro Rocks depois de outros tantos de ausência, assim como pela “rockalhada” que já é habitual e o ambiente único que somente é possível por ser um festival feito entre “amigos” e “para amigos”.

31 de Outubro

Por falar em reencontros, o primeiro dia e em noite de Halloween veio reforçar isso mesmo: bandas dos anos 90 que desaparecem ao longo dos anos e voltam à vida neste dia temático de reuniões inesperadas para nos trazer aquela nostalgia, principalmente para quem acompanha o festival desde os primórdios ou que passou pela adolescência nessa altura. Pode-se falar em vida após estes projectos, onde alguns dos seus membros acabaram por ganhar mais notoriedade noutras bandas, mas há sobretudo um sentimento de segunda vida quando bandas como estas se encontram numa noite só.

A primeira nota à chegada ao Pavilhão do GD Os Ferroviários dá-se na grande oferta de merchandising, no mural vistoso e colorido no fundo de palco e uma sentida homenagem a Crooner Vieira, esse ícone da música barreirense, que mais uma vez não deu ares da sua graça mas que foi recordado através da enorme pintura no exterior da sala e também nas fichas para o bar, com a sua silhueta.

Para abrir o palco principal, agora com o nome de Palco Crooner Vieira, estiveram Us Forretas Ocultos. Banda icónica do eixo Caldas/Alcobaça no que diz respeito ao rock alternativo dos 90’s, iniciaram de forma competente uma viagem nostálgica que ecoou no resto da noite. De seguida, a representar a mesma veia mas made in Barreiro, os Gasoleene de Fast Eddie Nelson e Tony, que haveria de fazer parte dos The Act-Ups, foram umas das bandas mais carismáticas desse tempo. Um quase-revivalismo do grunge, participações especiais e uma emotiva interpretação de “Dear William” fizeram deste um dos concertos mais celebrados a jogar “em casa”.

 

Para terminar os reencontros do dia, seguem-se os Lulu Blind. Adormecidos há quase duas décadas, vieram acordar de vez quem ainda não tinha entrado no espírito do Barreiro Rocks, com riffs agressivos que deram início aos primeiros moches desta edição do festival. Quem conhece Tó Trips de outras andanças – claro, Dead Combo – surpreende-se com a diferença de registo do mesmo como frontman desta banda de Punk Rock, qual adolescente revoltado com cabelo grisalho.

A fechar o Palco #PARTYFIESTA, situado no bar e a seguir a onda da nostalgia dos anos 90, directamente do Samouco os Duendes do Umbigo, conhecidos por uma noite só como Duendelvis do Umbigo, vestidos a rigor para o Halloween e com as suas versões alternativas com um toque de bizarro dos genéricos dos desenhos animados que todos nós víamos há coisa de vinte anos atrás. Nada como ouvir Pokémon ou Sponge Bob Square Pants cheios de energia e distorção para acabar a noite em grande.

 

1 de Novembro

De regresso às origens, o dia mais curto desta edição é passado no antigo El Matador, primeira localização do festival, agora sede da Associação Gasoline, para a transmissão do documentário “Dança Camarra”, de Eduardo Morais, sobre a evolução da música barreirense desde os anos 40 aos 90. Aqui surgem alguns membros das bandas do dia anterior, assim como muita história repleta de factos interessantes, funcionando como mais um dia de nostalgia para quem atravessou essa época.

Mais tarde, para contradizer o primeiro dia de festival, os Humana Taranja representaram o Programa Jovens Músicos da promotora Hey, Pachuco!, responsáveis pelo evento, com um grande concerto que veio revelar o que de novo de faz no Barreiro nas camadas mais jovens com direito a confetti e um arrojado final com uma dramática projecção visual.

 

2 de Novembro

Quando foi anunciado que Alex D’Alva Teixeira dava voz e guitarra à bateria de Ricardo Martins, nome directamente ligado a Lobster ou Jibóia, e ambos já conhecidos por estas andanças, foram criadas muitas expectativas ao apresentarem Algumacena. A abrir o terceiro dia de festival essas expectativas foram atingidas e percebemos que qualquer “cena” que façam, soa bem. Trouxeram o palco até ao público, com algo alternativo ao que estamos habituados neste ambiente com jardas em bom português e uma dualidade de sinais da guitarra a dispensar o recurso de um baixo com notas octavadas. Por fim, Alex somou umas das suas guitarras ao número de instrumentos destruídos ao longo das muitas edições de Barreiro Rocks.

Com sotaque do norte seguiram-se Fugly. Aquele garage rock com um q.b. de psych para nos restabelecer a sonoridades que mais facilmente associamos ao Barreiro Rocks. Dizem-nos que Millenial Shit é um disco e ao mesmo tempo um manual de iniciação ao garage para novos adolescentes. A infelicidade de terem falhado o festival há dois anos deu-lhes agora o Palco Crooner Vieira e essa oportunidade foi bem aproveitada por todos.

A excentricidade regressou ao Palco Crooner Vieira com o nome de Vaiapraia e as Rainhas do Baile, numa onda mais pop do que é comum se ouvir por aqui e com uma presença em palco no mínimo peculiar. Chamemos-lhe bedroom pop, se é coisa que se pode intitular às canções formuladas a partir do (des)conforto de sentimos em união com o DIY do garage. É um caso singular – não só de Setúbal de onde vem, mas de todo o país.

 

Com a tarefa de puxar os galões ao Palco #PARTYFIESTA neste penúltimo dia de Barreiro Rocks, os Sun Blossoms de Alex Fernandes, que mais facilmente associamos a Alek Rein, deram ao Barreiro um clima familiar de manifesto contra o tédio. Riffs giratórios e hipnotizantes, carregados de ruído e com uma simplicidade associada ao punk.Por falar em excêntricos e coisas estranhas, seguiram-se os Louder Than Death de King Khan, mais um “cromo repetido” nestas andanças, que soam a algo entre rock’n’roll e garage punk à inglesa, feio e bruto, mas que encaixa na perfeição com a indumentária de King Khan, que se apresentou em palco com os seus calções curtos e chapéu de polícia.

Quem fechou o Palco #PARTYFIESTA desta noite foi a dupla Tiger Picnic, membros dos já da casa Dirty Coal Train, com Beatriz na bateria e Ricardo na guitarra. É outra dupla que, venha com que nome vier, nunca desiludem e deixam sempre bem representado o ambiente lo-fi punk de garagem cru, com muita música provocativamente dedicada a políticos. Para provar que nem sempre é o homem que usa as calças, desta vez quem veio de vestido foi o Ricardo, enquanto Beatriz se assumiu uma ávida apicultora a despachar mel nas baquetas.

3 de Novembro

No dia 3 o palco principal teve a maior afluência de trios, sendo o primeiro da noite, Palmers, oriundos das Caldas da Rainha, com um registo mais soft e alternativo, com sonoridades meio-grunge e com referências ao universo Twin Peaks – caso o nome não fosse suficiente – a funcionar como novo veículo de transporte para os anos 90. Talvez tenham perdido alguma relevância por terem actuado num dia tão completo como este e logo de seguida outro trio se chegou à frente.

Kings Of The Beach, vindos de Espanha para conquistar o Palco Crooner Vieira e retornar a energia viciante do garage rock, bateram o recorde de “moches” por música deste ano. Pelo menos até ao momento. Crowdsurfing constante, cadência rítmica rápida e um público rendido antes de atravessar a Península Ibérica para os dois nomes franceses que se seguiam.

Com espírito vintage e certamente uma das bandas mais promissoras desta edição, que se destaca não só por serem o mais bem penteados de sempre, mas também por nos trazerem algo de diferente para os dias de hoje – os Howlin’ Jaws foram uma espécie de máquina do tempo que nos levou a meados do século passado. Rock dançável à 50’s e até umas versões pelo meio, como “Tutti Frutti”, mas pelo meio com um toque moderno e sempre com pente à mão, trouxeram-nos um dos concertos mais completos do Barreiro Rocks. Aqui a música, a aparência e a presença em palco jogaram de uma forma coerente e convincente de forma a transportar-nos para outra época, tornando mesmo impossível não nos deixarmos viciar pelo ritmo do contrabaixo e dos seus rodopios. Voilá.

 

No bar houve tamanha party fiesta caseira. Em casa, da casa e para os da casa, os Lisbon South Bay Freaks mostraram ser ao vivo aquilo que o nome sugere – aberração rock, num bom sentido, feita por gentes do Barreiro e com os todos amigos possíveis nas primeiras filas para partilhar temas e cervejas.

Também de França e de volta ao Palco Crooner Vieira chegam-nos os Magnetix, mais uma dupla repetente, estes da edição de 2005. Ambos constaram na formação de Louder Than Death no dia anterior, mas desta vez para dar quase uma lição de garage rock carregado de fuzz. Um par guitarra e bateria é suficiente para meter os rasgos do fuzz a mexer uma plateia e os Magnetix são prova viva e já experiente de que não é mesmo preciso muito para dominar uma arte que se julga perdida ou, quiçá, desprezada pelas massas dos dias de hoje.

Um dos concertos mais esperados desta edição, Fast Eddie Nelson, já nos apresentado como parte de Gasoleene e agora em nome próprio, chega para nos trazer aquele cheirinho a blues e country para o que pensávamos ser o fim deste Barreiro Rocks. Com inúmeras participações especiais a culminar numa recta de versões, como “A Crise Continua” de Crise Total com Scúru Fitchádu ou “Search & Destroy” dos Stooges, dá-se um grande alvoroço que passa por um concerto surpresa de The Act-Ups e termina em grande com mais uma aparição de Bro-X na casa.

 

A noite já ia bem longa, mas ainda havia pé de dança para dar com DJ set de Wap Shoo Wap, directamente da Holanda, para engrandecer o final deste Barreiro Rocks – o festival com mais rock de sempre, mais litros de cerveja, crowdsurf, destruição de material e moches per capita – antes de se darem início às despedidas para ficar o que há de pior: é só uma vez por ano e ter esperar doze meses para o próximo.

Texto: Tânia Mateus
Fotografia: Nuno Bernardo

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