Os não tão desconhecidos Unknown Mortal Orchestra pisaram novamente um palco português, habitual aposta em contexto festivaleiro, desta feita surgem mais próximos dum público mais sossegado, não fosse a constrição das confortáveis cadeiras da Aula Magna. Um dia depois de se apresentarem no Hard Club, no Porto, cidade que os acolheu no NOS Primavera Sound neste mesmo ano, a banda liderada pelo neozelandês Ruban Nielson mostrou Sex & Food, o mais recente disco, a uma preenchida plateia que usou o auditório da Cidade Universitária para fugir ao temporal “lá fora”.

Mas com Sex & Food bem fresco e um IC-01 Hanoi instrumental acabado de lançar, foi a nostalgia que reinou, mantendo a forte presença de temas criados em trabalhos anteriores que foram capazes de gradualmente empolar o entusiasmo sentido na sala. Assim se jogou a uma “From The Sun” a abrir, em visita ao segundo disco, para se estender numa longa jam que culminou com a caminhada de Ruban Nielson ao topo do auditório, subindo cada um dos seus patamares, para cumprimentar um fã aleatório e partilhar uma cerveja no trajecto. Assim resulta uma grande abertura de concerto quando se tem “Ffunny Ffrends” ou, neste caso, até familiares em palco para um excelente suporte para os seus devaneios – o seu eterno baixista e amigo Jacob Portrait também à frente no palco, o irmão Kody Nielson na bateria e até o seu pai, Chris, nas teclas e no saxofone.

Essa familiaridade permitiu que transições de “Swim And Sleep (Like A Shark)” para a nova “Ministry Of Alienation”, passando por “Necessary Evil”, fosse tão natural algumas relações de proximidade que se mantém ao longo dos anos. Os Unknown Mortal Orchestra visitam-nos, visitam-nos muito. E ainda assim é sempre tão urgente vê-los pela sua imprevisibilidade e brilhantismo ao socar uma “So Good At Being In Trouble” antes de uma linha de temas de Sex & Food, com especial destaque para a distorção de “American Guilt”.

Apesar de se alongarem em algumas faixas, foi com alguma surpresa que “Multi-Love”, o décimo tema da noite, tenha ditado a primeira saída de palco a troco de muita dança pela plateia, já maioritariamente de pé e a dispensar os lugares sentados da Aula Magna. Um regresso com “Hunnybee”, acarinhado tema do álbum em apresentação, e “Can’t Keep Checking My Phone” tratou de arrumar o concerto de vez num total de uma hora de concerto em nome próprio.

Coesão não foi coisa que faltou ao longo dessa hora, nem tão pouco entusiasmo ou ganas de a fazer valer, tanto em alinhamento como em prestação em cima do palco, mas talvez uma boa parte do público esperasse um concerto de uma dimensão superior àquela que nos têm habituado nas inúmeras presenças em festivais de norte a sul. Não que estejamos a contar o tempo, mas talvez tenha sido até ainda mais curta do que a visita feita em nome próprio em 2015. Felizmente parecem estar longe de se ausentarem dos palcos portugueses com tanto carinho demonstrado, apesar de tanta recorrência. Ainda bem, que esta orquestra (que nem sequer é uma orquestra) está bem e recomenda-se – mas, de preferência, em sala e sem lugares sentados.

A primeira parte do concerto, tal como na data no Porto, esteve a cargo de Iguana Garcia, que apresentou os temas do seu álbum de estreia, Cabaret Aleatório, e arrancou os primeiros aplausos e abanares de anca um pouco pelo auditório ao longo de meia-hora.

Texto: Ricardo Silva
Fotografia: Nuno Conceição/Everything Is New

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