A meio da tarde, no jardim mesmo em frente ao Le Trianon, podia ver-se um amontoado considerável de gente, onde predominava o cabedal preto, a maquilhagem carregada e o cabelo à personagem de anime. Em grandes grupos, falavam alto, tiravam fotos ou rabiscavam nos seus blocos. Percebia-se que aguardavam algo importante: todos estavam ansiosos com a ideia de apanhar Dir En Grey durante a sua tour europeia de duas semanas, a primeira no continente desde 2015. Não sendo a banda grande frequentadora destas paragens, a multidão compunha-se de variadíssimas nacionalidades, e não tardou que ouvíssemos falar português entre o babel de línguas.

Ao entrar na sala de espectáculos, o entusiasmo era quase palpável; com o relógio cada vez mais perto das 20h, os cânticos com o nome da banda cresciam de intensidade. O chão tremia violentamente com toda a gritaria e saltos, colocando em evidência o contraste entre o requinte do espaço e a agitação do público. A banda veio finalmente ao encontro dos cânticos do público, ao som de uma intro instrumental, com animações em cores vivas enchendo o background, no estilo da capa do novo The Insulated World. Sem querer retirar qualquer tipo de mérito ou importância aos outros membros da banda, o que é certo é que quando o vocalista Kyo entra em palco, sempre com uma energia absolutamente selvagem e um look excêntrico – desta vez, lentes de contacto amarelas, manchas de tinta fluorescente na cara que incluíam um ponto de exclamação na testa e uma camisola com a cara de Keith Flint – é impossível evitar que os olhos nos fujam sistematicamente para a sua figura.

A primeira música do set foi “Utafumi”, lançada como single em 2016. Das doze músicas que compõem The Insulated World, parece ser uma das que melhor funcionam ao vivo, com o público a mostrar saber a letra. O facto de o público estar tão familiarizado com as letras, quase sempre escritas em japonês – que não é propriamente uma língua acessível – foi das coisas que mais me chamou a atenção. Esta revelou-se a música perfeita para dar início ao concerto, ilustrando bem a nova fase de Dir En Grey: reflecte a energia violenta e crua do novo trabalho, sem deixar no entanto de lado os refrões catchy, a puxar ao pop, que denunciam as suas raízes j-rock e quase exigem a participação do público.

Falando do novo álbum, devo dizer que não fiquei imediatamente fã. Se é fácil gostar de imediato de alguns dos temas, outros levam algum tempo para nos habituarmos. Não existe consenso entre as muitas opiniões, desde comentários de fãs em redes sociais a reviews de álbuns: enquanto alguns adoraram o álbum desde a primeira audição, outros suspiram, com um nadinha de nostalgia, por álbuns como Dum Spiro Spero ou Uroboros. É possível encontrar comparações de The Insulated World com muitos dos seus trabalhos prévios – algumas, naturalmente, mais razoáveis que outras, mas embora este novo trabalho reúna elementos de cada um destes álbuns, consegue não soar a nada que tenham feito anteriormente. É como assistir a uma era pós-Arche de Dir En Grey, o extremamente elaborado e experimental álbum de 2014, que tem um certo sabor a “auge” do trabalho da banda e serve como conclusão de uma série de três álbuns completamente distintos (Dum Spiro Spero-Uroboros-Arche), mas excelentes, cada um à sua maneira. Agora tomam um novo caminho, sabendo que não seria sensato tentar replicar a fórmula para o sucesso de Arche, tampouco parece ser esta a sua intenção. Kyo afirmou em entrevistas recentes que, durante o processo de escrita de The Insulated World, a banda se limitou a deixar-se ir, a explorar caminhos ainda por percorrer e ver onde estes levavam. Mesmo que não intencionalmente, este álbum mostra uma banda em constante inovação, que escapa a clichés, e isto por si só dá-lhes mérito, mesmo que não facilite tanto a tarefa aos ouvintes.

O concerto, conforme esperado, teve como maior foco o novo álbum, mas ainda assim existiu um bom equilíbrio entre este e os seus trabalhos mais antigos. O estilo directo e agressivo das músicas deste álbum pareceu fazer as delícias dos fãs, mas houve igualmente espaço para “Fukai” e para a semi-thrashy “Ash”, ambas regravadas este ano; para a energia frenética deathcore de “Revelation of Mankind”, e para um agradável momento de nostalgia j-rock, cortesia de “Wake”, do segundo álbum, Macabre. Foi bom constatar que tinham voltado a incluir esta música nas setlists, já que é um hino marcante dos seus primeiros anos, e constituiu um dos momentos mais emocionantes do espectáculo.

Entre videoclips e projecções preparadas especificamente para o espectáculo ao vivo, todo o set provou que a música dos DEG vai muito além da experiência auditiva – o que não é de todo uma surpresa numa banda que habitualmente aposta bastante na imagem. Os fãs cantavam a plenos pulmões, particularmente em músicas como “Ningen wo Kaburu” ou “The Final”, provando que conhecem tão bem as novas músicas como os clássicos. Houve também alguns momentos mais calmos, com “Rinkaku” (que serviu para comprovar que a voz de Kyo continua de boa saúde, sobretudo nos agudos) e “Ranunculus”, uma música com um certo tom de esperança, um pouco fora da vibe habitual de Dir En Grey que quase a faz parecer deslocada, sobretudo quando em contraste com a música imediatamente anterior, “The Blossoming Beelzebub”. Este tema contou com uma performance perturbadora de Kyo, que simulou um estripamento, emaranhando o cabo do microfone junto ao estômago e puxando-o depois de forma violenta, atirando-o ao chão e pisando-o repetidamente, tudo isto ostentando um sorriso maníaco, para gáudio da assistência. As imagens de uma câmara apontada directamente à sua cara enquanto gritava eram projectadas no background em alto-contraste em tons de roxo, conferindo-lhe uma aparência particularmente demoníaca, intensificada pelas lentes amarelas que faziam os seus olhos parecer os de um réptil. Mesmo sendo uma música de Dum Spiro Spero, esta cena teatral fez-me pensar que representava bastante bem o desespero das letras de The Insulated World; a sensação geral do álbum é a de que algo (ainda mais) obscuro se apoderou da escrita de Kyo.

Já perto do fim da última música, “Beautiful Dirt”, um Kaoru aparentemente frustrado com falhas no som atirou a guitarra para um canto e abandonou o palco, deixando o baixista Toshiya e o segundo guitarrista, Die, na linha da frente, num esforço conjunto para compensar um dos muitos problemas técnicos que assombraram a banda durante esta malfadada tour. Seguiu-se uma pausa, durante a qual ninguém mostrou qualquer intenção de abandonar o seu lugar: esperava-se, obviamente, um encore. Depois de alguns momentos de suspense, voltaram ao palco para tocar “The Final”, que parece ser sempre uma das favoritas e desencadeou um dos maiores sing-alongs. Seguiu-se uma agradável surpresa com “Sustain the Untruth”: os agudos deste tema, à semelhança dos de “Rinkaku”, são o marco de Arche; tinha baixado as expectativas no que tocava à voz de Kyo, já que a idade começa a fazer-se sentir e seria talvez um pouco irrealista esperar uma voz na sua melhor forma, sobretudo tendo visto vídeos ao vivo dos últimos anos, mas ele deu, e bem, conta do recado.

As despedidas ainda duraram algum tempo, com aplausos intermináveis e gritos pelos vários membros da banda, com os fãs a nunca perder a esperança de conseguir um contacto breve com um deles ou ser agraciado com uma das baquetas, palhetas ou garrafas de água que atiravam em direcção à plateia. Absolutamente extasiados, atropelavam-se à saída da sala para serem os primeiros a chegar à muito concorrida mesa do merch. Mas a loucura que aqui se testemunhou, com pessoas quase a chegarem a vias de facto por um lugar na fila, é apenas um dos muitos exemplos da devoção dos fãs de Dir En Grey: horas após o fim do concerto, ainda se viam os mais persistentes à porta do local do evento, na esperança de conseguir até um simples vislumbre de um dos membros. A fanbase de Dir En Grey é, a julgar pela amostra, até bastante diversificada, e embora os fãs mais novos e obstinados que associamos a este género musical possam ter alguma dificuldade em gerir o entusiasmo, dá-se-lhes o devido desconto: foi de facto um espectáculo que lhes ficará na memória durante anos.

Texto: Joana Ribeiro
Fotografia: Daniel Sampaio

Dir En Grey @ Le Trianon, Paris

The ever-mutating japanese band returns to Europe after a 3-year absence

Mid-afternoon, in the garden right opposite Le Trianon. A considerable amount of people, some with outlandish anime-character hair, sporting heavy makeup, black leather and other goth hallmarks sat on the floor, in big groups, talking excitedly loud, snapping pictures or doodling on their notebooks. You could tell something big was going to happen. Everyone was stoked for the chance to catch Dir En Grey during their two-week European tour, the first one since 2015. As they aren’t exactly habitués around here, there were people from several nationalities and it didn’t take us long to hear our native Portuguese spoken amongst several other languages.

Walking inside the venue, the excitement around us was almost palpable; as the clock neared 8:00p.m. everyone chanted the band’s name, urging them to enter the stage. Within moments, the ground was violently shaking from all the jumping and screaming, pointing out the contrast between the classiness of Le Trianon and the agitation of the audience. The band finally attended to the audience’s chants, to the sound of an instrumental intro, with the background displaying a brightly colored animation, in the style of their new album cover. Now, I’m not trying to imply that some band members are more important than others, and you can tell the fans love them all, but as soon as vocalist Kyo comes forward, with his ever-exquisite looks – this time, some yellow sclera contacts, fluorescent ink spots on his face that included an exclamation mark on his forehead and a shirt with Keith Flint’s face on it – and his feral energy on stage, that’s pretty much where your eyes are going to keep being drawn to.

“Utafumi”, released as a single in 2016, was the first song to be played. Out of the 12 songs that make up The Insulated World, it appears to be one of the most-well suited ones for a live performance, and everyone promptly sang along. I found it worthy of note that the fans were so familiar with the lyrics, since they’re almost always written in Japanese, which is not exactly an approachable language. Anyway, this was the perfect song to open the show with, being illustrative of Dir En Grey’s new phase: it reflects the violent, raw energy they went for with this new work, without neglecting the catchy, poppy choruses that denounce their j-rock roots and almost demand some audience participation.

Speaking of their new album, I must say I wasn’t an immediate fan of it. While I acknowledge that a few tracks are instant killers, others definitely take some getting used to. There’s no consensus to be found in either social media comments or album reviews: while some loved it from the first listen, others sigh, with a tinge of nostalgia, for albums like Dum Spiro Spero or Uroboros. I’ve seen The Insulated World being compared to these two, but also Arche, Marrow of a Bone or even good old Macabre. Some of these comparisons are more reasonable than others, but while The Insulated World may combine some elements from each of these albums, it doesn’t sound like anything they have done before; it’s like we’re witnessing a post-Arche Dir En Grey era. Arche, their previous album from 2014, is a highly-experimental, extremely elaborated one, and feels like a kind of “peak” to their work; it wraps up a sequence of three distinct, but excellent albums (Dum Spiro Spero-Uroboros-Arche), each in their own way.  Now they are stepping away from it and embracing a whole new route, knowing it wouldn’t be wise to try to replicate Arche’s success, and having no intention to do so. Kyo stated in recent interviews that, while writing The Insulated World, the band was just going with the flow, exploring untrodden paths and seeing where it lead them. So, even if unintentionally, this album shows a constantly innovating band, escaping clichés, and this alone gives them merit, even if it takes a little longer for listeners to sink it in.

The show was naturally more focused on the new album, but they still managed to find a good balance between this and their other works. While the aggressive, very direct style of the songs from the new album seemed to work well with the audience, there was still time for “Fukai” and the semi-thrashy “Ash”, both re-recorded this year; for the frenetic deathcore energy of “Revelation of Mankind”, and for a nice moment of j-rock nostalgia provided by “Wake”, taken off Macabre, their second album. I was happy to see they recently started including it again in setlists, as it is a remarkable anthem of their earlier years, and it was indeed one of the most heart-warming moments of this show. Dir En Grey have this terrible habit of leaving my favorite songs out of their setlists, but I don’t mind too much, cause even when they play songs that are not so great their delivery makes them enjoyable.

Animations that suited the mood of each song were displayed in the background throughout the show, intertwined with lyrics and video clips, which comes as no surprise from a band that is so visual-oriented. The fans were singing at the top of their lungs, especially during songs like “Ningen wo Kaburu” or “The Final”, proving that they know the new songs just as well as the classics. There were also some calmer moments provided by “Rinkaku” (which served to attest Kyo’s voice’s good health through his clear highs) and “Ranunculus”, a song with a kind of positive, hopeful feel to it which, compared to Dir En Grey’s usual vibe, almost makes it sound out of place, especially by contrast with the song immediately before, “The Blossoming Beelzebub”. On this one, Kyo had an absolutely disturbing performance, which included the simulation of a disembowelment, tangling up the mic cable close to his stomach and then pulling it violently, then proceeding to toss it on the floor and repeatedly trampling on it – all this with a manic smile on his face, to the great thrill of the audience. He screamed with a camera pointed right at his face, projecting it to the background as a high-contrast image in shades of purple, with a particularly demonic look to it, enhanced by the contacts that made his eyes look like a reptile’s – it was like watching a meltdown with zoom. Even though it’s a song from Dum Spiro Spero, I thought it was a perfect depiction of the despair portrayed in The Insulated World’s lyrics; the overall tone of the album seems to suggest something even darker took over Kyo’s lyric writing.

Towards the end of the last song, “Beautiful Dirt”, a pissed-off Kaoru suddenly throws his guitar (frustrated with what I assume was some kind of technical issue) and leaves the stage, while bassist Toshiya and guitarist Die stepped up, in an effort to make up for yet another of the many technical problems that haunted the band throughout the tour. A break ensued, during which nobody showed the slightest intention to move away from their place: they were obviously coming back for the encore. After taking enough time to create the right amount of suspense, they returned to the stage to play “The Final”, which seems to always be a major favorite for everyone and triggered one of the biggest sing alongs. A pleasant surprise followed with “Sustain the Untruth”: the highs in this song, along with “Rinkaku”’s, are Arche’s trademarks. I had lowered my expectations concerning Kyo’s voice, since age starts to take its toll and it would be a bit unrealistic to expect a voice in its best shape, especially having watched videos of shows in recent years, but he totally nailed it.

The show ended with “Rasetsukoku”, a final nod to the past. The send-off took quite some time, with neverending applause and cheering for each member of the band, while hoping to be blessed enough to catch a drumstick, guitar pick or a water bottle.
Fans with ecstatic expressions elbowed their way out of the room so they could get to the merch table as quickly as possible, which became absolutely packed in no time, with people almost literally fighting for a place in line. But this is only one of the many examples of Dir En Grey’s fans devotion: hours after the end of the show, some of them still hung around the door of the venue, hoping to get even a glimpse of one of the members. While their fanbase is actually pretty diversified, the mostly young, die-hard fans can be a bit obnoxious sometimes, but one can sympathize with all the hysteria: it was indeed a great show.

Written by Joana Ribeiro
Photography by Daniel Sampaio

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