O Outono aclamava a sua chegada pelas ruas de Lisboa. O vento soprava, gélido, calmo, e a rua cor-de-rosa fazia sentir o peso dos pés que escondiam a sua cor. Por caras estrangeiras e caras curiosas que percorriam as ruas angustiantemente à procura do seu destino, nós sabíamos que havia apenas um destino nessa noite. A porta do Musicbox abrira-se.

Naquela sexta-feira, os copos cumprimentavam o fim-de-semana. Mas os olhos estavam todos vidrados na tela que dava casa a um cavalo branco. O cavalo abriga-se no escuro e entra Jaye Jayle. No Trail and Other Unholy Paths, lançado em Junho deste ano, foi o álbum que se destacou numa actuação que não se deixou intimidar pelo pouco público que se apresentava no começo. A voz crua de Evan Patterson, vocalista de Young Widows, hipnotizava-nos. A sala ia-se preenchendo. Os corpos balançavam, e balançaram até à última nota.

A porta do Musicbox voltara a abrir. Ninguém saiu. Os minutos passavam, mas o que mais importava naquele momento, era estar o mais próximo do palco, ou pelo menos, no alcance dele. O cavalo escondeu-se novamente. Silêncio – o Outono chegou e com ele trouxe a sufocante voz de Emma Ruth Rundle. “Dead Set Eyes” quebrou o silêncio, e deixámo-nos levar pela sôfrega, apaixonante e melancólica voz que encheu cada canto daquela pequena sala, como se fosse um espaço sem fim.

Após a sua estreia a solo no ano passado, Emma apresentou-se com um registo totalmente diferente. Fez-se acompanhar em palco com uma banda de suporte – os seus melhores amigos, aos quais agradeceu o facto de estarem a partilhar aquela noite juntos. A cantora americana, ao longo da noite foi também agradecendo o carinho do público português com pequenas palavras e gestos, mas “Darkhorse” não se fez de tímida. Emma introduziu o tema explicando que se tratava de uma música com um forte significado, em que falava das situações mais difíceis da vida, da sua vida.

Cheio e esgotado, o Musicbox abriu espaço apenas para música. “Control”, “Fever Dreams”, “Light Song” e “Heaven” foram algumas das músicas que compuseram uma noite mágica. Olhos fechados, cabeças que dançaram ao ritmo da música, e claro a belíssima voz que não queria ter fim.

Sozinha em palco, com apenas um foco de luz e a sua guitarra, Emma agarrou-se a “Shadows of My Name”. Não cantou apenas para nós, mas também para si. A música que arrancou um «obrigada», emocionado e tímido, da boca de quem o merecia. A noite não poderia ter acabado de outra maneira. A voz de Emma conseguiu ter todas as estações do ano, numa noite.

Texto: Mariana Pisa

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