Ao sétimo álbum de originais de Beach House existe uma equidistância entre o aperfeiçoamento formulaico e o risco iminente. A similaridade da sua música ao longo de uma década não se faz de suportar de um Fordismo evidente, mas existe claro uma linha de continuidade ou orbital naquilo que Victoria Legrand e Alex Scally têm conseguido atingir. São dois membros apenas mas o seu som etéreo, de uma forma ou de outra, transcende a recorrência sónica. Em 7, disco que apresentaram no Coliseu de Lisboa no passado dia 25 de Setembro, a dupla de Baltimore adulterou a sua receita de forma a que os sonhos dos escapes cor-de-rosa que lembramos de Teen Dream se diluam em reverberações e distorções alucinantes naquele que é o seu registo mais negro e psicadélico. Ao carregar essa aposta para o palco e com a possibilidade de duplicar a intensidade dos poderosos rasgos ouvidos nesse novo disco, o ideal foi mesmo conseguir cruzar os Beach House em nome próprio e numa sala condizente à imponência utópica das suas canções.

Antes do mergulho, a levitação. Foi preciso esperar pelo quarto tema para que o tom claro e quase almofadado de “Walk In The Park” ou “PPP” fosse engolido por “Dark Spring”. Com um parco instante de luz em “Lazuli”, a submersão de “L’Inconnue” – no francês que Victoria pode e deve recordar mais vezes da sua Paris – tomou a claridade a espaços. Foi preciso esperar até “Space Song”, arrancada de Depression Cherry, o segundo álbum mais visitado da noite, para que o concerto voltasse a ter uma orientação menos gélida e uma atmosfera ainda mais exuberante. “10 Mile Stereo”, “Wishes” e “Beyond Love” compuseram uma parede de algodão doce para a acidez de “Lemon Glow” expulsar de palco a dupla que contou ainda com James Barone na bateria.

O encore não tardou com “Myth”, aquele que é e será sempre um clássico incontornável da sua carreira, e Victoria, numa das raras palavras que dirigiu ao público, dedicou-a aos portugueses. Comovida revelou que cada visita a Portugal lembra-lhes do arranque da primeira digressão em que sentiram que tinham público dedicado deste lado do Atlântico, convidando à profundidade emocional de “Dive”, tema final de rendição à ilusão do amor.

Já David Lynch nos havia ensinado que todo e qualquer atrevimento à imaginação se deve manifestar das formas mais óbvias ou mais estranhas. Seja para efeitos hiperbólicos ou para simples desvio-padrão da dosagem de Beach House, o que é certo é que 7 é tanto em estúdio e em palco uma possante aposta de uma dupla que se aconchega à melancolia e ao amor pelas noites de céu estrelado. Não é preciso o sol raiar para sentir o coração a ferver depois de um concerto destes – é que também os pesadelos são sonhos e o acordar deles é igualmente gratificante.

A primeira parte da noite esteve a cargo de Sound Of Ceres, dream pop de Karen e Ryan Hover, donos de um interessante espectáculo de luzes holográficas.

Texto: Nuno Bernardo

Fotografia de capa, não correspondente ao concerto reportado, com direitos reservados a Jack Hutchings e Vanyaland – Fonte

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