«Não há festa como esta!». Estamos na 42ª edição da Festa do Avante! e o velho slogan continua a ser a carteira de identidade da Festa, como já todos conhecemos bem. Desde 1976 que a Festa do Avante! tem servido para marcar a rentrée do PCP, mas não é só de política que se resume esta festa, que todos os anos abraça homens, mulheres e crianças, independentemente das suas opiniões políticas, etnias ou nacionalidades.

Com o recinto alargado desde 2016, uma das surpresas deste ano foi o Comboio da Festa que, em circuito de vaivém, possibilitou a ligação e exploração das novas áreas junto ao lago até ao Espaço Internacional. E apesar da música ser uma das atrações principais da festa, escusado será dizer que há todo um universo a ser descoberto por quem visita os renovados espaços dedicados às restantes áreas, que vão desde a dança ao teatro, passam pelo cinema até ao desporto, à ciência, gastronomia e artesanato.

A sexta-feira é marcada pela habitual noite sinfónica, pelo menos assim o tem sido nos últimos anos e, como este não foi excepção, o 26º concerto sinfónico teve como intuito um tributo musical a Karl Marx, em comemoração dos duzentos anos do seu nascimento. Levada a cabo pela Orquestra Sinfonietta de Lisboa & Coro Sinfónico Lisboa Cantat, foi pelas 22h que o palco 25 de Abril foi inaugurado para receber o “Concerto em Louvor do Homem no Bicentenário de Karl Marx”.

 

Com uma programação que aposta na diversidade, mas também na intervenção, não fosse afinal um dos maiores eventos político-culturais da Europa, começamos a nossa tarde de sábado pela entrada da recém adquirida Quinta do Cabo, que nos leva ao novo habitat do Auditório 1º Maio, o segundo palco principal do evento, onde os Kumpania Algazarra. Esses eléctricos dançarinos saltitantes, levavam com eles o público inteiro em bicos dos pés, numa multidão que transbordava para fora das paredes da tenda, que sem dúvida foi pequena demais para sustentar tanta algazarra.

Já com mais espaço, no palco 25 de Abril, os Dapunksportif entregaram-nos um rock robusto, mas com os mais enérgicos e dançantes riffs de guitarra. A banda de Peniche veio mostrar o rock’n’roll que lhes corre nas veias e fazê-lo vibrar até nós. Foi assim de sangue quente que recebemos os The Black Mamba que nos deliciaram com um concerto magnífico onde a criatividade da banda não encontra barreiras. É aqui que o blues encontra o soul e se funde com o funk, uma eclética harmonia que já os leva no seu terceiro álbum de originais com apenas oito anos de carreira.

Mergulhando agora mais fundo nas raízes do blues, eles são considerados uma das melhores bandas do género em Portugal, tendo inclusive sido convidados para ser a banda de Shirley King (filha de BB King) na sua digressão europeia. Estamos a falar obviamente dos Budda Power Blues que, além dos temas mais conhecidos, nos apresentaram alguns do novo álbum “Back to Roots”. O público foi-se chegando, ainda que a conta-gotas e num passo um pouco tímido, mas logo se deixou contagiar pela calorosa onda que fluía do palco. Sérgio Godinho, nome já bem conhecido da história da festa, trouxe a habitual bagagem de temas icónicos como “O Primeiro Dia” ou “Com Um Brilhozinho Nos Olhos” e outras novas do recente álbum Nação Valente. A finalizar, e ainda que não seja novidade, a sempre bem-vinda homenagem a Zeca Afonso fez-se ouvir pelo clássico “Os Vampiros”.

De olhos postos naquele que é o espaço principal do recinto, a grande maioria do colectivo não deveria fazer a mínima ideia do significado de Bizarra Locomotiva. A escolha foi bastante ambiciosa, mas se calhar não foi a mais acertada, uma vez que o público que vem à Festa do Avante! não está preparado para tal viagem. É que apesar de serem a principal referência da música industrial do país e de já contarem com 25 anos de carreira, esta locomotiva é poderosa demais para algumas estações, e talvez susceptibilidades. Rui Sidónio (vocalista) nunca faz por menos, e a locomotiva movimenta-se sempre a todo o vapor pelos mais possantes caminhos do rock industrial. Foi do cimo do recinto que assistimos à dispersão de grande parte da plateia, episódio contornável com uma simples mudança de horário ou até mesmo palco, que lhes pudesse oferecer um público realmente comprometido ao seu espectáculo. Descendo de novo ao Auditório encontramos o fenomenal The Legendary Tigerman. Paulo Furtado, o nome por trás da “lenda”, declarou o seu amor ao rock’nroll para todos os que o quisessem ouvir, num ritmo dançante como se quer o blues a que este senhor nos já acostumou. Acabou, claro, com uma tenda a abarrotar e a cantar a cover “These Boots Are Made For Walking” um original de Lee Hazlewood mas mais conhecido pela maioria na voz de Nancy Sinatra, e que meteu muitas botas a levantar poeira.

A próxima decisão era difícil: Dead Combo ou Xutos & Pontapés? Como assíduos que somos, já foram várias as vezes em que vimos ambas as bandas pisarem estes palcos, o que também nos dá a autorização de repreender mais uma vez a disposição dos artistas. Já é altura de dar o devido destaque a Dead Combo no palco principal, mas como ainda não foi desta, lamentavelmente,  decidimos voltar a subir a rampa – pode-se dizer que o dia de sábado foi especialmente marcado por este vaivém entre palcos – e rumámos então para ver a primeira parte de Xutos neste que foi o primeiro regresso da banda à festa sem Zé Pedro. “À Minha Maneira” foi o mote lançando ao público, que não precisa de desculpas nenhumas para tirar os pés do chão.  Foi um concerto de surpresas, estas maioritariamente vindas das recentes composições que irão integrar o novo disco, com data prevista de lançamento para o próximo ano.

Foi para o velho oeste que nos dirigimos de seguida, numa dança que tanto nos faz percorrer as ruas dos bairros de Lisboa, como nos agarra que nem um cowboy de revólver em punho. Donos de uma sensualidade vadia, é assim que os Dead Combo nos prendem à sua presença desassossegada, tal como um dos seus novos temas “Desassossego”, do álbum deste ano Odeon Hotel. Como o melhor quer-se sempre para o fim, ainda pudemos dançar ao som de “Lisboa Mulata”. Depois de uma poeirenta “carvalhesa”, mesmo estando na ponta oposta do recinto, ainda conseguimos escutar o “Homem do Leme”, que nos acompanhou até à saída.

 

O terceiro dia de festa fez-se bem mais quente que os seus antecessores, o que tornou a tarefa dos Capitão Fausto um pouco mais complicada. A banda já não é novidade do público, mas esse parecia ainda estar de ressaca do dia anterior. Foi preciso retirar do baú a “Teresa” para que se visse alguma euforia. Com mais uma escolha algo questionável para ouvir debaixo de um tórrido sol que já ameaçava escaldões, somos seduzidos pelos samples, pelos grooves, por aqueles loops hipnóticos que os Orelha Negra nos habituaram, neste que é um hip-hop de cunho único nacional. Mais uma vez, a gerência não soube distribuir bem os pratos pelas mesas.

O chá das cinco por outro lado foi muito bem servido por Ana Bacalhau, a voz por detrás dos Deolinda, que apesar da sua carreira a solo ainda não estar na boca dos portugueses, é dona de uma natural e astuta habilidade que atrai a si todas as atenções, com a sua sempre boa disposição e a vontade de cantar a música popular portuguesa sem papas na língua. Foi nesta trama que os militantes do partido se foram condensando, de bandeiras ao alto para o já esperado comício.

Com o princípio da noite a chegar, é a vez de Carlão subir a palco, que trouxe consigo dois nomes bastante conhecidos do panorama nacional. Primeiro Manel Cruz, com o qual cantou o tema “Cerejas, Só Isso”, escrito pelo próprio Manel, e depois António Zambujo, em “Bebe Um Copo”, ambos do seu novo álbum Entretenimento, acabado de sair. Mas as cerejas não acabaram aqui, e a última foi-nos dada de bandeja dourada com o ímpar “Dialectos da Ternura”, dos infelizmente já extinctos Da Weasel, na versão kuduro dos Buraka Som Sistema, que culminou numa onda gigante de êxtase.

Depois de jantar o nosso digestivo foi tomado ao som dos The Dirty Coal Train, já no acolhedor espaço do Café-Concerto de Lisboa. São um power trio fenomenal, donos de uma energética força que incendeia qualquer espaço. Numa delirante e lunática mescla de sons onde o garage se funde com o punk que se funde com o rock que se funde com os demais devaneios mirabolantes destes seres, é quase impossível ficar quieto.

A fechar esta edição tivemos mais uma vez a singular presença de Jorge Palma, que se fez acompanhar de Tim e Camané em revisitações de temas que fazem parte da nossa história, numa festa que é de todos e para todos, onde os copos se erguem e se brinda ao som dos artistas que ali preenchem as nossas tardes e noites de Verão. E como a vida são dois dias e a Festa do Avante! são três, conhecemos assim o final de mais um fim-de-semana que como sempre reúne gerações num espaço único de convívio, amizade e camaradagem. Será que não há mesmo festa como esta? Nós achamos que não, mas deixem as vossas apostas!

Texto: Rute Pascoal
Fotografia: Nuno Bernardo

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