23 de Julho de 2010. O dia em que os Electric Wizard actuaram em Barcelos. Se a minha memória não me falha, foi a primeira edição do Milhões de Festa nesta cidade. Sempre adorei concertos, mas na altura extrapolava catarses com outra veemência. Nutria assopros a céu aberto!

A marcha começou na cidade onde habito: Águeda. Como estava sem carro, restava-me apanhar um triângulo ferroviário: Águeda, Aveiro e Porto com paragem final em Nine. Antes de chegar à estação, parei num café para fazer tempo e li os títulos dum jornal desportivo que estava lá à espera duma mão para ser lido. Penso que era ‘O Jogo.’ Tomei o meu café e comecei a ler as notícias sobre o meu Porto. Tinha vindo de uma época desastrosa, um mísero terceiro lugar. Queria saber se havia contratações. “João Moutinho troca o Sporting pelo Porto!” O presságio de que seriamos campeões e além de acertar na previsão foi uma época quase perfeita: conquistamos a dobradinha e a Liga Europa com uma equipa atractiva.

Na estação de Águeda, sou abordado por uma mulher que me pede indicações como ir até ao Porto de comboio: uma brasileira com os seus trinta e cinco anos. Chama-se Samara. Disse que podia vir comigo visto que tinha de passar pelo Porto antes de seguir para Barcelos, e assim foi: os nossos caminhos uniram-se até à estação de Campanhã. O destino pretendeu mostrar que é uma amante de heavy metal e de rock & roll, o que facilitou para criar uma ligação. No fim deu-me o cartão de contacto sobre o rancho que gere em São Paulo. Embora tenha havido uma ligação, só uns anos depois é que começamos a estabelecer uma amizade.

Quando cheguei ao Porto e respirei aqueles ares nortenhos, relembrei-me da sensação de alívio que sinto sempre que aterro na cidade. O meu amigo Filipe já estava à espera. Ainda faltava algum tempo até partir o comboio para o derradeiro destino, preenchemos esse instante com cervejas. Fomos confrontados com uma adversidade descomunal dentro do comboio: com a quantidade industrial de cerveja que emborcámos, quem não consegue imaginar aquela exasperante vontade de mijar? E em comboios urbanos banheiros é algo que não assiste. Aqueles trinta minutos dentro do comboio projetaram-se em três horas de desespero.

…AGUENTÁMOS CARALHO, MISSÃO CUMPRIDA! Que puta de alívio ao tresloucar toda a urina até à última gota: uma vitória que ficará marcada nos livros com rubricas melodramáticas.

Ainda faltavam algumas horas para os concertos que nos interessavam. Inevitável era pedir mais cerveja. Observei no recinto na quantidade de malta que o meu amigo conhece. Agora que penso nisso, foi através dele (e não só, é claro!) que comecei a soltar os primeiros nós e a ser mais exposto, os primeiros sinais de renúncia da minha timidez alheia e do derrubamento do meu mundinho imaginário. Não preciso de mencionar que já estava podre de bêbado e entupido com erva nos cornos. Nem sequer ainda tinha começado nenhum concerto.

Começaram os Men Eater, só me lembro do concerto a espaços enquanto o meu sistema estava todo encravado. Um sinal que ia expulsar todos os resíduos existentes dentro de mim. Só conseguia projectar uma imagem de fundo preto com ruídos distantes vindos do nada.

Entraram os Electric Wizard em acção e de repente acordei e entrei numa dimensão nunca antes vista. Não consigo precisar com palavras. O melhor que posso dizer é que o que som parecia que vinha dentro de mim, límpido e sereno. Uma paisagem sonora com tons deslumbrantes. Era como se o meu foco fosse exclusivamente no som, não acontecia mais nada ao redor nem no mundo, o tempo e o espaço tornaram-se ausentes, somente aquele som eléctrico enfeitiçado. Uma experiência que nunca tinha sentido em nenhum concerto até agora. Um congelamento temporal no verdadeiro sentido da palavra.

Depois vieram os Black Bombaim, mas a minha mente não deve ter capturado mais do que uns cinco minutos. Os fios neuronais desligaram-se abruptamente e um gajo aterrou no jardim e adormeceu ao relento algumas horas. Acordei todo molhado pelo sistema de rega e vi que o meu amigo não teve uma experiência diferente. O verdadeiro despertador que nos salvou para apanharmos o comboio de volta às horas previstas. A plenitude de vivência no seu estado puro.

Não me lembro como adquiri os bilhetes de comboio na volta, já estava em piloto automático: roto e estafado. Separámos caminhos no Porto e prossegui viagem até Aveiro e por fim Águeda: terminando no ciclo que começara. Dormira a espaços e acordava quando era abordado pelo revisor ou quando tinha que trocar de comboio. No último comboio, sou acordado por uma voz feminina a dizer para acordar que estávamos a chegar a Águeda. Desconheço a pessoa em questão e não percebi como sabia que ia parar naquela cidade. Um mistério que nunca consegui resolver (posteriormente aconteceram-me episódios do género).

Cheguei esgotado a casa e desconectei-me do mundo enquanto ele permanecia em movimento.

Autor: João Melo

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