Foi entre os dias 19 e 21 de Julho que decorreu, no Parque das Nações, mais uma edição do festival Super Bock Super Rock.

No primeiro dia houve The Parkinsons a abrir e logo de seguida Parcels, ainda com pouco público, mas muito efusivo e sincronizado com a banda. O estilo dos dois putos louros e três morenos a divertirem-se, trazendo um refresco com o digital a um instrumental mais antigo. Foram-se metendo com o público, «Super Bock Super Rock power», e fizeram lembrar Jungle e outros afins cuja melodia pouco carece de letra. “Tieduprightnow” foi o primeiro tema entoado pelo público, tal como o refrão de “Overnight”, terminando então com “Comedown”.

Em mais um Tributo a Zé Pedro, falecido no ano passado, criou-se uma reunião de amigos e de histórias no primeiro concerto do Palco Super Bock, o principal do festival. Abriram com “London Calling”, original dos The Clash e, entre tantos outros, Tó Trips surge com “Submissão”, afirmando «esta é tua, Zé». Também Rui Reininho se chegou à frente com «uma despedida para um grande amigo» e “Morremos a Rir”. Filipe Sambado, à mesma hora do tributo, “Dá Jeitinho” e falou-nos sobre a vida actual. Como “Alargar o Passo”, com vídeo recente, e até com dois temas que deram direito a discussão na assembleia, “Tabaco” e “Vida Salgada”. A aproximar-se do final, rematou que “ ’tava a tentar comunicar com pessoas que me são próximas mas elas ‘tavam a escrever no telemóvel…”. Deixou-nos com as doces palavras como o algodão de “Subo a Montanha”.

Lee Fields & The Expressions, uns rapazes do jazz com um vocalista que provoca o público para se fazer ouvir, criam onda de positivismo com «We can make the world better». Lembrou-nos Charles Bradley, também ele influenciado pela soul de James Brown, e terminam com uma mensagem de amor após “Faithful Man” dizendo, três vezes no fim, «I love you», ao público. Já The Vaccines entraram ao som de “Waterloo”, dos Abba, e rapidamente se percebeu o desperdício de ficarem confinados a este Palco EDP, devido ao potente som que produzem. Os seus fãs são jovens, tal como as suas letras sugerem com “Teenage Icon” e “Wetsuit” e os próprios se expressaram, «Nós somos os seus amigos Vaccines».

The xx foram dos poucos com atraso pouco significativo, porque vale a pena a espera. Iniciaram o concerto com um instrumental calmo de “Dangerous” e dois painéis em palco. Atravessaram “Islands” e antes de “Say Something Loving” dirigiram-se aos fãs: «hey Lisbon, how are you going? It’s a really pleasure to be here». Em “Sunset” Oliver confessou sentir-se em casa e mostraram-nos uma “I Dare You” numa versão calma, a contar com a voz do público. Romy, entristecida, ofereceu-nos um solo em “Performance” e no fim, o amigo Oliver ofereceu-lhe um beijo. Partilharam com o público de que este se tratou de um concerto grande para eles, o último na Europa, e desejou um bom fim-de-semana para os que ainda tinham outros dois dias de SBSR pela frente. Oliver, no momento mais sensível do concerto expressou ainda uma mensagem de apoio à comunidade LGBT, «I see you, I am one of you», com “Fiction”. Jamie Smith passou também uns sons escondidos, onde se reconheceu o hit de Roger Sanchez, “Another Change”, antes de rumar a  “Shelter”, com luzes cruzadas no pavilhão, deixando a sua “Loud Places” para o final.

Mahalia arrastou algumas dezenas para um pavilhão do Palco Somersby, a antever um combate directo com Justice para o after. A maioria eram raparigas adolescentes que sabem as letras e gritam em êxtase. Escutaram-se as palavras «I Remeber…» e no público ouviu-se um «é agora!», dando espaço aos acordes de “I Wish I Missed My Ex” e “Honeymoon”. Com uma voz suave, transmitiu tranquilidade e guardou “Sober” para o final, a mais esperada, cantando mesmo após o final do espectáculo, sem música, o seu refrão com o público.

 

O segundo dia, já mais preenchido e igualmente jovem, ficou caracterizado pela roupa desportiva, descontraída, com pernas sempre prontas para os sucessivos jumps. A tarde arrancou com ProfJam e com um mar de gente a sair deste Palco EDP no final da actuação. Seguiu-se Oddisee destinado a um público mais velho. Mostrou-nos “Things” como um convite à dança em troco de palmas. Sobrou groove e flow, mas as suas rimas abriram o apetite para o prato principal, a ser serviço no Palco Super Bock com Slow J. O concerto arrancou com teclas e bateria, entrando depois Slow J em palco com uma guitarra eléctrica. Trata-se de hiphop “rockeado” e “Arte” veio ilustrá-lo a boa casa – o pavilhão encontrava-se a esta hora bem mais composto face ao dia anterior. “Casa” coloca o público a cantar e a dançar, atingindo ainda mais entusiasmo com “Sonhei Para Dentro”. Convidou Nerve para partilhar “Às Vezes”, após ter escutado o público clamar as suas letras. «Vocês são bué pessoas, eu não tenho a certeza do que é que se diz». Nós acreditamos que não tenhas, mas certamente sabes o que cantar para tocar aos outros. «A próxima música chama-se comida e foi escrita na casa dos meus pais e é para se lembrarem que são capazes de cumprir os vossos sonhos», transmitiu como mensagem motivadora. Entre amigos, chamou Richie Campbell para “Water” e Carlão, que fez anos nesse mesmo dia 20, para “Repetido”. “Vida Boa” deu bom uso à voz dos fãs e Slow J terminou o concerto como sempre se apresenta, “De Corpo e Alma”. Sem dúvida um dos concertos a destacar deste festival.

De regresso ao Palco EDP, a irreverente Princess Nokia atingiu o ponto alto da sua festa com “Tomboy” numa dança sensual para o público. Com postura de bad girl, perguntou por “weed”, fumou e cospiu cerveja. Já Luís Severo, no Palco LG by SBSR, teve um espaço mais pequeno que permitiu um agradável fim de tarde – poucas pessoas e mais calmo do que o Palco EDP. Quem esteve, desfrutou, sentados ou de pé, lá iam cantando as letras de “Planície” e “Ainda é Cedo”.

A hora mais aguardada do dia traduziu-se com a entrada de Anderson .Paak no Palco Super Bock. Observámos a dança da moda, “The Floss”, e gritou-se «Lisboa!». Ele dançou e invocou sempre do público algum movimento para o acompanhar, neste que foi o seu segundo concerto em solo português. Desta vez não foi a fazer a primeira parte de um concerto esgotado de Bruno Mars, mas sim dono do palco e do público. Esteve bastante enérgico, terminou a sua atuação a tocar bateria e guardou para o fim a esperada “Am I Wrong”.

Tom Misch, o rapaz de voz matura, dissonante do seu semblante entrou sob um instrumental com violino no Palco EDP. Com a sua música chill out, para abanar o ombro e sentir a boa vibe, recebemos o vento frio da noite. Escutámos “Colours of Freedom”, “I Wish”e “Baseline”, a mais esperada. «It’s my first time here, thank you for having me here», dirigiu ao público que testemunhou a sua estreia nacional antes de partir para “Movie” e  terminar com “Sunshine”, numa altura em que grande parte já se concentrava junto ao Palco Super Bock para o cabeça-de-cartaz da noite, Travis Scott.

 

É difícil não reparar nos espaços vazios deste evento. Ao terceiro dia, inclusive, quem tinha um bilhete, podia levar acompanhante. Talvez seja culpa do espaço em que se instalou, em contraste com a praia do Meco, e por ter sido um dos grandes festivais de verão, de praia, perto da região de Lisboa durante alguns anos e ter voltado então ao seu estado original de evento citadino. Ou então pelo rock inscrito no seu nome quando o festival se encontra assumidamente virado para o hiphop (dado o número de presentes no segundo dia, este género até foi o maior trunfo do festival), pela concorrência pesada e pelo aumento dos preços dos bilhetes… o que é certo é que são algumas das possíveis causas pensadas perante tamanho desfalque.

Isaura, a última representante nacional na Eurovisão, a par de Cláudia Pascoal, e já repetente neste festival, apresentou-se com um ar confiante, mas tranquilo como sempre nos tem habituado. Já não é a menina tímida. com pouco público no numa fase inicial da carreira, quase vazio. Iniciou com músicas do novo álbum, Don’t Give Up, e teve necessidade de substituir o microfone. Arrancou depois “Don’t Shoot” e “Gone Now” e na “8”, e agora com uma plateia mais composta como merece, emocionou-se ao observar a entrega do público a cantar o refrão «diving, climbing, soaring» e a bater palmas. Para o seu hit deste ano, “Closer”, convidou Diogo Piçarra, produtor do tema. «A primeira vez que ouvi a Isaura não pensei que fosse portuguesa e pensei que queria cantar com esta rapariga», confessou o convidado. Unem-se depois para “Meu é Teu” e numa viagem às músicas anteriores e mais conhecidas do público, passou por “Useless”, “Dancefloor” e “Lost”. Revelou ainda uma versão rock de “I Need Ya”, rufando tambores no final, pelas mãos da própria vocalista. Mantendo o estilo, passou então por “Busy Tone” e despediu-se com a sempre apreciada “Change It”.

Observou-se uma micro-concentração LGBT e percebeu-se que se estava perante a iraniana Sevdaliza. Microfone com flores, dança sensual a combinar com as ligas e soutien pretos que mostrava, vestindo um calção e casaco vermelho e preto com renda, tornou toda a sua actuação em mais do que meras palavras e acordes de “The Inside” e “Human”, justificando mais uma vez o fenómeno de popularidade que se tornou.

Entre estreia de Stormzy, um par de performances dos La Fura Dels Baus ou o desconcerto dos The Voidz, foi Benjamin Clementine o salvador desta edição. Por mais vezes que Benjamin tenha vindo a Portugal nos últimos tempos, parece nunca ser demais a sua presença. A ligação entre o cantor e este pais à beira mar plantando já foi publicamente assumida pelo próprio e parece perpetuar-se. “Hey Daydreamer” e apresentou-se em tronco nu, apenas usando um blazer. Foi este o seu concerto mais português de sempre, com tentativas de discurso e convidando Ana Moura para “I Won’t Complain”. Cantou uma “Nemesis” acompanhado a violino e partilhou “Condolence” com os presentes, tal como as aclamadas “London” e “Jupiter”, «wishing Portugal free». Utilizou “Adios” para se aproximar do público, cumprimentando alguns presentes e deixando um rasto de esperança na humanidade, como ele tão bem o sabe fazer.

No próximo ano o Super Bock Super Rock celebra a sua 25ª edição nos dias 18, 19 e 20 de Julho no Parque das Nações, em Lisboa.

Texto: Ana Margarida Dâmaso
Fotografia: Ana Ribeiro

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