Na noite que findava junho de 2018, sonoridades progressivas ecoaram na capital lusitana. Cortesia da promotora Free Music Events e da histórica sala RCA Club, o tão aguardado regresso dos mestres progressivos suecos Pain Of Salvation, para apresentarem o seu mais recente ópus, In The Passing Light Of Day. A abrir, uma banda nacional com a idade deste repórter que vos escreve, Forgotten Suns, a tocar na mesma onda do rock e metal progressivo desde 1991.

O relógio marcava quatro minutos depois das 22 horas quando o quinteto lisboeta subiu a palco. Apesar de terem aberto o concerto com um Flashback ao penúltimo álbum, Innergy, foi no mais recente When Worlds Collide que a banda concentrou os seus esforços. O tema In Harm’s Way teve direito a um curto mas precioso solo de bateria de João Samora, enquanto que o homónimo When Worlds Collide teve bastante êxito junto do público, aproveitando a banda para saudar o regresso de Miguel Valadares às teclas.

Nio Nunes provou que não só de uma grande voz vive um vocalista, mostrando-se bastante expressivo e criando empatia com o público. Após 48 minutos de ecos progressivos, a banda despediu-se ao som da magnífica Doppelgänger.

A magia da tribo nórdica tomou conta do palco a partir das 23 horas e 26 minutos, a todo o gás, com Full Throttle Tribe. Desde o ritmado início, ao melódico refrão, passando pelo suave e delicado momento a meio e terminando num caos de riffs pesados e arrítmicos, foram 9 minutos de emoções contrastantes, que continuaram sem pausa na contagiante Reasons. A banda irradiava energia positiva e prazer pelo que faziam, com óbvio foco no vocalista Daniel Gildenlöw. Mesmo sem Ragnar Zolberg, Meaningless foi pura perfeição.

Sucedendo o trio de temas novos de abertura, tivemos direito a meia dúzia de clássicos mais antigos, com alguns dos temas mais emblemáticos da longa carreira da banda. Primeiro, o single Linoleum, que contou com uma prestação vocal sublime. Seguiu-se uma dose dupla de Remedy Lane, com a montanha russa de emoções de Rope Ends, portadora de um dos refrões mais emotivos da noite, e com o épico de 10 minutos Beyond The Pale, um hino do metal progressivo.

Kingdom Of Loss foi a única passagem da noite por Scarsick, o álbum mais experimental da banda, um momento de semi-balada que contrastou com a festa de “prog-gasm” que foi Inside, num saudoso recordar do One Hour By The Concrete Lake no ano em que festeja 20 anos.

Saltando para o álbum seguinte na discografia, The Perfect Element I, a banda entoou o hino Ashes, que me introduziu à banda há mais de uma década. Antes do encore, o regresso ao presente, com a doce balada Silent Gold a ser tocada num arranjo exclusivo de guitarra, o momento mais sonhador da noite. A fechar, o tema de abertura de In The Passing Light Of Day, On A Tuesday, 10 minutos que culminaram num final absolutamente hipnótico.

Regressando a palco para mais um par de temas, os suecos presentearam-nos com A Trace Of Blood, música que não tocam muita vez ao vivo e que fez as delícias dos ouvidos mais sedentos de nostalgia. Mas o momento alto da noite foi a despedida. O tema homónimo do novo trabalho, um épico de 15 minutos que Daniel dedicou à mulher, auto-biográfico e carregado de emoção, foi uma viagem de emoções entre a vida e a morte de levar às lágrimas, com uma das prestações vocais mais sentidas, genuínas, emocionantes e brilhantes que alguma vez vi. Quando a música sai da alma, o resultado é “somente” um pedaço de céu eternizado num registo sonoro intemporal.

 

Agradecimentos: Free Music Events

Fotografia: Marina Silva

Texto: David Matos

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