Há um ano atrás, à saída do NOS Primavera Sound, ficou claro que a edição do Porto se vai distanciando gradualmente do irmão de Barcelona. À chegada da sétima edição, que decorreu nos passados dias 7, 8 e 9 de Junho, fomos confrontados com uma reestruturação de espaços, incluindo a severa transformação de um palco e a criação de outro, dando-se um salto substancial no factor novidade num ano que serviu de consolidação no panorama europeu dos festivais.

O jardim do Parque da Cidade do Porto voltou a ser casa para uma linha de artistas que percorre uma linha de continuidade daquilo que tem sido a aposta do festival, algo que até pode ser destilado na escolha dos headliners – estreias em Portugal (A$AP Rocky), regressos em pontos urgentes da carreira (Lorde) e referências singulares da música (Nick Cave & The Bad Seeds). Ao longo de três dias foi este o mote para a agitação entre palcos de nova edição esgotada, superando os números registados no ano passado – sinal de que nem a real ameaça de chuva, que pairou sobre o festival e se concretizou no derradeiro dia, foi suficiente para travar os mais de 30 mil visitantes diários de mais de 60 países de vários pontos do globo.

7 Junho

Não foi preciso muito tempo para ganhar o gosto a “novidade” nesta sétima edição do NOS Primavera Sound. Poderíamos começar pelo concerto de entrada livre da noite anterior, na Avenida dos Aliados, bem no centro da cidade, de Fatboy Slim, mas deixámos para o arranque oficial do festival no seu habitat. Ao contrário das edições anteriores, o primeiro dia não se reservou apenas a dois palcos, mas sim a quatro. Esses dois palcos adicionais foram precisamente os dois espaços que nos faltava conhecer: o Palco SEAT ocupou o espaço que anteriormente pertencia à tenda do Palco Pitchfork, na zona alcatroada do parque, para se instalarem duas bancadas e um “novo palco principal”, dada a dimensão dos artistas que por ali passaram durante os três dias; já o Palco Bits inovou por ser indoor, um discoteca incluída dentro de um festival, por onde passaram referências das novas tendências da música electrónica.

Foi precisamente no Palco SEAT que se arrancou com Fogo Fogo, um prato servido à diversidade imposta pelo festival. Uma banda nascida no seio de Lisboa para recriar as suas influências multi-culturais, com especial foco nas raízes africana, tentou aquecer antes de umas primeiras pingas de chuva em Waxahatchee, já colina abaixo no Palco NOS. Katie Crutchfield e a sua banda tiveram dificuldades em impor as guitarras em canções muito vocalizadas, destacando-se com menos brilho devido ao polimento da produção que lhe reconhecemos no álbum Out In The Storm, um dos destaques do indie rock do ano passado. A mini-chuva cessou com “8 Ball”, faixa que ganhou maior crueza ao vivo, e Katie jogou-se ainda aos primeiros versos de “Homemade Dynamite”, de Lorde, para testar a audiência que já aguardava a cantora neo-zelandesa ao final da noite.

A disposição do horário deve ter deixado confuso quem já se tinha habituado à rotina Palco NOS -> Palco Super Bock, lado a lado. O Palco SEAT intrometeu-se no meio do horário e induziu em erro quem chegou ao Palco Super Bock à espera dos melancólicos The Twilight Sad e enfrentou uns furiosos e estridentes Starcrawler. Som explosivo, cadência punk nos agudos e uma Arrow de Wilde inquietante como se estivesse numa aula de Frontwoman 101, acabariam por ser o tónico perfeito para a frieza sónica dos escoceses na ponta oposta do festival. Os Twilight Sad não ficaram para trás, deixando a emoção tomar conta do espaço com um post-punk gélido que permitiu ao próprio vocalista, James Graham, a não conter as lágrimas. Isto enquanto, nos seus laivos de Morrissey em escocês rasgado, se entregava a uma versão de “Keep Yourself Warm”, dos seus compatriotas Frightened Rabbit, dedicada a Scott Hutchison, falecido um mês antes. Resta agora um concerto em nome próprio em solo português – seria pedir muito?

 

Mais familiar ao público português, Rhye de Mike Milosh apresentaram Blood no Palco NOS, mas o seu groove sensual acompanhado ao violino terá tido mais dificuldades em agarrar o público preocupado com a maratona horária que se seguia e o encaixe do jantar. Foi um honesto combate de necessidades básicas versus troços instrumentais com uma inegável capacidade de bater o pé, para ganhar quem quis transitar de seguida para o Palco SEAT para receber nova visita de Father John Misty, que não nos deixa ganhar saudades – quem não as tinha, havia a proposta Ezra Furman noutro palco; quem fez questão, teve de aguentar um atraso de vinte minutos. O showman Josh Tillman, mesmo com dois álbuns mais recentes, Pure Comedy de 2017 e God’s Favourite Customer já deste ano, dedicou mais tempo ao álbum que o fez dar um salto substancial no domínio da canção americana, repetindo o sermão de I Love You, Honeybear como um pregador que insiste em angariar devotos à sua igreja.

Há artistas nos quais reconhecemos impacto geracional e cultural e, de tempos a tempos, testemunhamos isso diante dos nossos olhos. Não foi assim há tanto tempo que a então adolescente Lorde despontou, com Pure Heroine no verão de 2013 a tomar de assalto as manchetes da imprensa como um novo ícone da pop – como tantos há, digamos, mas tão poucos que ficam. A neozelandesa Ella Yelich-O’Connor, seu nome real, foi um desses casos que veio para ficar e que não tem problemas em assumi-lo. Só assim se antecipa um concerto seu com “Running Up That Hill”, de Kate Bush, igualmente um símbolo irreverente da sua época.

Uma entrada brilhante, tanto a nível cénico como de guarda-roupa, com vários bailarinos a preencher o palco, Lorde destacou-se logo daquela presença sóbria e minimalista da sua estreia em Portugal, em 2014. A apresentação do novo Melodrama, um quase álbum-guia para uma geração que entra numa crise dos 20’s depois de desilusões amorosas, fez-se logo a abrir com “Sober” e “Homemade Dynamite”, mas uma “Tennis Court” do álbum anterior não demoraria a surgir, tal como “Magnets”, tema partilhado com os britânicos Disclosure. Lorde aos poucos foi-se aproximando do público e também melhorou a sua performance vocal, com a fantástica “Buzzcut Season” a servir de ponto de viragem do espectáculo e “Liability” a culminar numa entrega total ao Porto, com o público a iluminar o palco com as luzes possíveis. Uma recta final com os falsettos do refrão de “Royals”, a visão cinematográfica e gospel de “Perfect Places”, a descida ao público na emotiva “Team” e o final apoteótico “Green Light” evidenciaram que Lorde soube crescer e adaptar o seu espectáculo ao seu momento actual da carreira. Que continue a crescer.

Uma notória migração do Palco NOS para o Palco SEAT foi a corrida possível para acolher a estreia nacional de Tyler, the Creator. “Where This Flower Blooms” agarrou logo uma audiência disposta a trocar gotas de suor e a perder a voz ao longo de uma apresentação quase integral de Flower Boy, o seu mais recente álbum. Não deixou, ainda assim, de incendiar os dois andares do seu cenário de palco com “Deathcamp” ou “Tamale”, convidando a plateia à irreverência através do seu penteado exótico ou do seu colete reflector. A correspondência não ficou atrás nos cânticos em uníssono em “911 / Mr. Lonely” ou “I Ain’t Got Time!” ou na wall of death em “Who Dat Boy”, deixando-se uma “See You Again” para o fim como mote de um possível regresso a solo português. Dada a longa espera e o fogo resultante, faria mais sentido insistir nisso do que dar nova hipótese a Jamie xx aborrecer todo um festival, minimizando demasiado um after a troco de uma paisagem escura sobre o parque e batida fastidiosa e fútil.

 

8 Junho

O segundo dia fez o festival funcionar em pleno, agora incluindo também na programação os concertos do Palco Pitchfork, situado numa espécie de claraboia de arvoredo e que anteriormente se denominou Palco ATP ou simplesmente Palco.. No entanto o arranque do dia fez-se com um duelo instrumental de psico-distorções, delays e riffs monolíticos à portuguesa: no Palco Super Bock os Black Bombaim mantiveram a sua veia mais desértica, em harmonia com o calor que se fazia sentir às 17h, enquanto os Solar Corona despejavam velocidade melodiosa no Palco SEAT.

Rock a abrir caminho para Rock. Com uma maiúscula, mas os britânicos IDLES merecem-nas todas até no nome. A banda que nos deixou cair o queixo no ano passado com o lançamento de Brutalism não se fez rogada com a passadeira que lhes estenderam, fosse por estar a actuar no Palco NOS ou por poder gozar do passadiço colocado a partir do centro do palco para o headliner da noite. O vocalista Joe Talbot aproveitou para reencarnar Mick Jagger para se desfilar ao sol e os guitarristas Mark Bowen e Lee Kiernan não se detiveram em danças animadas em puro garage britânico de virar pubs do avesso. “Mother” e “1049 Gotho” foram apenas duas das várias faixas sacadas do álbum de estreia, mas no alinhamento foram também incluídos temas de Joy As An Act Of Resistance, a ser lançado mais perto do final do ano, e ainda um incrível momento de total entrega a uma versão embriagada de “All I Want For Christmas Is You”, de Mariah Carey, a dissolver-se num beijo. O quinteto de Bristol soube agarrar, da forma mais punk, o maior dos palcos do festival, mas dada a sua dedicação ficou a certeza que qualquer palco lhes chega. Já para os suíços Zeal And Ardor ficou a estranheza num rasgo de diversidade ao incluir black metal vanguardista no Palco Super Bock e contra si próprios tiveram de combater. Não afastou quem quer que fosse, mas parece ter sido só isso – uma peculiar e colorida apresentação de Stranger Fruit, álbum editado no próprio dia.

 

Ao pôr-do-sol juntaram-se as The Breeders, no Palco NOS, para um anunciado revival do grunge e do rock alternativo dos 90’s. Mas as Breeders não são nenhuma manobra de revivalismo, mas mais de nostalgia. All Nerve, editado este ano, pode ser o seu primeiro disco em dez anos, mas as gémeas Kim e Kelley Deal rejuvenescem com os temas do eterno Last Splash, de 1993, de onde puderam chutar confortavelmente “New Year” na abertura do concerto e, a partir daí, alternar entre o velho e o mundo novo de sorrisos bem estampados. Insistiu-se em falar português no intervalo de algumas músicas, no entanto a recepção amena do público já denunciava uma boa fatia a guardar lugar para uma soirée de hiphop. Lá iríamos, mas a fazer escala em Ibeyi no Palco Pitchfork. Ter influências de “músicas do mundo” é as igualmente gémeas Lisa-Kaindé e Naomi Diaz serem francesas de origens cubanas e venezuelanas e cantarem em inglês, francês, castelhano e yoruba. O duo vocal distinguiu-se na instrumentação, ora uma no piano, ora outra no cajón ou no batá, e revelou-se um talento bruto de energia contagiante. A força do poder feminino atingiu picos máximos em “Deathless”, cujo refrão foi repetidamente entoado na recta final do concerto, até mesmo depois de “River” e um agradecimento sentido ao público do Parque da Cidade.

Se Tyler, the Creator foi, na noite anterior, sinónimo de emancipação colectiva, Vince Staples operou-se como um real antagonista do banquete de hiphop que o festival ofereceu nesta edição. Vince trocou os «jump, jump» e participações de crews por uma espécie de transmissão televisiva ao fundo do palco, que ora se regulava com estática, ora como um aquário demonstrativo para Big Fish Theory, disco que apresentou nesta sua estreia por cá. Em palco foi uma figura sóbria mas de língua impetuosa, com um fluxo de rimas sublime e uma noção distintiva de espectáculo. A meio do alinhamento os versos ficaram ainda mais afiados e “BagBak”, “Lift Me Up” e “Ascension”, tema de Gorillaz ao qual dá voz, desenrolaram uma recta final com “745”, “Norf Norf” ou “Yeah Right”. Faltou uma ligação mais quente com o público? Talvez, mas só para os que sentem falta dessa ilusão. A magia toda esteve em cima do palco.

Nesta altura já o parque se revelava na sua maior lotação e alguns reparos foram saltando à vista ao atravessar diversas áreas do recinto. Caminhar em direcção ao Palco Pitchfork quase chamava por uma lanterna e as extensas filas agravaram-se com as casas de banho aqui ou ali a estarem múltiplas vezes fora de serviço. Isso não impediu a enorme afluência para receber Stephen Bruner enquanto Thundercat, virtuoso do baixo com um sentido jazzístico. Uma entrada de rompante, com extensas jams com um groove vertiginoso, exigia um melhor som nos primeiros passos da apresentação de Drunk. Uma grande enchente da “malta das batidas”, como ouvimos algures no meio da audiência, não quis arredar o pé à falta de um concerto em nome próprio, mesmo com a concorrência directa de um live set de Four Tet no Palco Super Bock, mais abaixo na colina.

 

Já a maioria do público estava sintonizado com o Palco NOS para receber A$AP Rocky, outro monstro do hiphop, quando a trupe da sueca Karin Dreijer iniciou um autêntico carnaval no Palco SEAT. Combater com o cabeça de cartaz podia ser um presente envenenado, mas quando se trata de Fever Ray as circunstâncias dissipam-se. Deixou de haver hora e lugar para se internar num creepshow de estranhos fatos, de sorrisos mórbidos e de toda uma presença provocadora. Um espectáculo pensado e dimensionado à volta de Plunge, o primeiro registo em oito anos, permitiu metamorfosear “When I Grow Up”, do primeiro álbum, para uma quase ininterrupta azáfama – foi uma exibição de sincronia, estudada com cuidado, mas com chances de espontaneidade e honestidade. Já perto do fim, depois de percorrer “Mustn’t Hurry”, “To The Moon And Back”, “IDK About You” ou “Triangle Walks”, foi “If I Had A Heart” que fez cair a máscara de Plunge para uma brecha de mútua introspecção. Pena a repetição ser uma incógnita, mas o espírito inerente de Dreijer a terminar com “I’m Not Done” coloca-nos com essa expectativa, seja daqui a oito meses ou daqui a outros oito anos.

Perante nova enchente no Palco Pitchfork e a pôr um ponto final nos destaques do dia, Unknown Mortal Orchestra arrancaram psicadelismo à entrada da noite longa e bem o fizeram para agarrar a plateia desde cedo. À entrada de “Ffunny Ffrends”, primeiríssimo tema da banda, juntaram-lhe ainda “From The Sun” e “Necessary Evil”, que permitiram ao líder Ruban Nielson desfilar-se sobre o público em extensos solos e secções rítmicas mais pujantes, que lhe terão permitido recordar dos tempos frenéticos nos The Mint Chicks. Passado é passado e presente/futuro fez-se e faz-se com a apresentação de Sex & Food, que não tardou a dominar o alinhamento e que já motiva nova visita a Portugal no outono.

 

9 Junho

Ao terceiro e último dia de Primavera no Parque da Cidade, a chuva não quis dar tréguas. Uma frustração partilhada com Rolling Blackouts Coastal Fever, os australianos que atravessaram o mundo para ver o sol brilhar em Inglaterra e um dia negro em Portugal – «não sei o que passa», remataram. Ainda assim não se fizeram rogados em apresentar, no Palco SEAT, Hope Downs, o seu álbum de estreia que sairia dias depois através da Sup Pop Records. É uma banda que gosta de guitarras e de rock e que faz música à volta destes elementos, um fenómeno que se tem extinguido no universo indie. Uma agradável surpresa para muitos. O mesmo para quem desceu ao Palco Super Bock para [finalmente] ver Kelela, que já havia cá passado um par de vezes de forma mais discreta. A artista norte-americana cruza o registo R&B com a frescura da electrónica alternativa e consegue domar o factor novidade com a experiência de outras lides, como os clubes de jazz onde cantou há mais de uma década, por exemplo. Talvez tenha sido por isso que rapidamente se tenha evidenciado na indústria do R&B, ganhando notoriedade logo com o EP Hallucinogen, em 2015. Foram precisos dois anos para finalmente conhecer o disco de estreia, Take Me Apart, e três para o apresentar em primeira mão a Portugal. Aqui encontrou um público já devoto, conhecedor das suas palavras, e que não tardou a emocionar a artista, cujas lágrimas podem ter sido confundidas com o engrossar das pingas de chuva que nesta altura caíam.

Uma das últimas palavras dirigidas por Kelela ao público foi para se dirigirem de seguida ao Palco Pitchfork para o concerto da sua amiga Kelsey Lu. Depois de a termos visto, precisamente, como uma das mais ferverosas fãs nas primeiras filas do concerto de Kelela, vimo-la a “mudar de pele” para abraçar a sua personagem de palco. Um vestido Björk-iano, bizarro e elegante q.b., foi estímulo para uma primeira impressão de uma presença demasiado fantasiada para a sua simplicidade musical. Os ingredientes parecem modestos – uma voz, uma guitarra e um pedal de loops – mas o minimalismo de Kelsey torna-se assombroso quando a austeridade das cordas defronta uma admirável voz. Se Church é apenas o EP de partida, podemos facilmente acreditar que com este talento o futuro está nas suas mãos. Até porque no Porto teve a difícil tarefa de dividir o público com Public Service Broadcasting, no Palco Seat, tal máquina oleada do dance punk britânico, cheia de referências ao universo nerd cinematográfico e digital. O mesmo palco recebeu ainda Wolf Parade, de regresso à actividade após meia-década, mas os canadianos tiveram a mais árdua das tarefas: agarrar e convencer, debaixo de chuva, um mar de gente que só já pensava em Nick Cave.

 

Se São Pedro quis tomar conta das rédeas meteorológicas por inteiro, então Deus quis descer à terra para acalmar as gentes. Foi quase (ou terá sido mesmo?) divina a intervenção de Nick Cave & The Bad Seeds neste Primavera. A chuva não cessou, mas nem Cave nem uma casa cheia quiseram arredar pé daquela comunhão sobrenatural que se consagrou logo com “Jesus Alone” à entrada. Nick depressa se chegou à frente e desceu às pessoas, às mãos e às almas, para o mais directo dos contactos, cru e sem artifícios onde a dor é catarse, tal como o álbum Skeleton Tree registou o australiano desarmado. Soube ultrapassar as circunstâncias que o fizeram chegar a este disco para o transformar, à obra e ao espectáculo, num profundo mergulho aos sentimentos. O que se seguiu foi um alinhamento a roçar a perfeição para potenciar as capacidades da excelente banda que o acompanha, em especial o companheiro de palco de longa data, Warren Ellis, um multi-instrumentista monstruoso que fez valer cada aplauso ecoado pelo parque. Da escuridão de “Magneto” saltou-se para o passado e atravessaram-se temas do icónico Let Love In, entoou-se com emoção “Into My Arms” e em menos de nada já o concerto levava uma hora no início de “Jubilee Street”, facilmente um dos temas com maior descarga instrumental que passou neste festival.

Não que tenha afectado consideravelmente o valor desta congregação, mas existe um valor acrescentado quando se testemunha um conjunto de músicos a tratar as faixas com tamanha elegância e ainda se tem Cave já encharcado, como quase toda a audiência que dispensou (e bem) o guarda-chuva nas filas da frente. Os limites foram reajustados para patamares superiores de convergência e, já no remate final da fantasmagórica “Push The Sky Away”, parte do público subiu ao palco, misturou-se com a banda entre lágrimas e abraços e permitiu que o australiano assumisse o papel de maestro ao dirigir os coros do refrão. Talvez não exista memória de um concerto de festival tão íntimo e vital. Tamanha proximidade faz crer que cada um leva este episódio para a eternidade e que até Nick Cave levou consigo um pouco de cada um ali presente.

Toda a injustiça do mundo cai sobre um músico que tem a responsabilidade de prosseguir com a música após tamanha purificação e não deve haver muita gente no mundo capaz de o fazer – o alemão Nils Frahm deve ser um desses raros casos. No Palco Super Bock dispôs de um autêntico arsenal de teclados e sintetizadores e distribuiu-se entre eles como pôde. A sua música baseada na repetição e na propagação minuciosa de variações, que ganha novas texturas de forma discreta, encaixou-se de forma ideal perante um cenário ora de rendição, ora pós-apocalíptico, à imagem do dilúvio já assumido. Na primeira parte do concerto debruçou-se sobre três temas de All Melody, o mais recente álbum, que traduz as suas cadências viciantes numa electrónica minmalista e até dançável, mas foi na parte final que se consagrou. “Hammers” foi uma lição de resiliência sonora e “Says” foi a chegada a um clímax sublime que terá de ficar como o momento definitivo da despedida desta edição do NOS Primavera Sound. Triunfal.

Os últimos cartuchos do festival fizeram-se de formas bastante distintas. No Palco Pitchfork, Abra, nome artístico de Gabrielle Olivia Mirville, arrastou os últimos fãs das rimas e batidas no festival com os temas do álbum Rose e ainda do EP Princess, antecipando-se ainda ao lançamento do seu próximo disco. Já Mogwai, derradeiro nome do Palco NOS, não tiveram o público que desejariam, mas tiveram aquele que  fez questão de combater a chuva intensa para se deixar hipnotizar pelo peso e melodia do pós-rock escocês. Uma referência do género, tanto em disco como em palco, não se intimidou perante as adversidades. Quem também deu o que tinha a dar  (e talvez até demais) foi o venezuelano Arca, num DJ set performativo bastante controverso, visual e quase erótico. Nada a apontar em relação à bizarrice que misturou Madonna com blastbeats, mas fica sempre um sabor agridoce quando Arca poderia ter actuado com o seu material próprio de electrónica negra, densa e transgressora.

 

Em ano de consolidação não fica muito por dizer. Mas se um ano de consolidação pede que o festival se destaque dos demais e, principalmente, daquilo que identifica o irmão mais velho de Barcelona, há assuntos que podem ser revistos ou reavaliados. A criação do Palco SEAT e os nomes que este recebeu permitiram uma maior divisão do público pelo festival, o que ajudou ainda mais ao bom fluxo de pessoas mesmo em espaços mais apertados, mas afastou-se daquele ideal de música no parque que tem sido a imagem de marca da edição do Porto. Nas suas bancadas pôde-se ler “Created in Barcelona”, o que parece contraditório com a conquista de uma identidade própria. O pouco acesso ou a limitação do novo Palco Bits também não permitiu desfrutar deste novo palco, mas é credível que a sua criação passasse por um espaço de exclusividade com a electrónica do momento.

Às críticas descabidas que recebe sobre o cartaz, ano após ano, o festival responde ainda assim com casa cheia, preenchida por um público fiel às novas tendências e tolerante à diversidade musical. Isso o festival continua a fazê-lo muito bem e sem igual no panorama dos festivais nacionais. Mesmo sobre chuva intensa e com um cenário difícil, de mencionar que nenhum concerto dos palcos a descoberto foi cancelado. São estes pormenores que fazem do NOS Primavera Sound um festival singular e esperemos que assim se mantenha por muitos, muitos anos.

Texto: Nuno Bernardo
Fotografia: Rita Bernardo

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