Em 2016, via Anna von Hausswolff pela primeira vez ao vivo. Escondida atrás dos seus sintetizadores, Anna preenchera naquela noite o coração de muito boa gente que assistira ao seu concerto. O meu incluído. Bem, o meu em específico já o tinha conquistado umas semanas antes quando fora anunciada para o Amplifest, local que a viu estrear-se em Portugal. Digamos que foi paixão à primeira ouvida. Não irei, porém, escrever aqui uma declaração de amor a Anna von Hausswolff, pois asseguro-vos que esse mesmo sentimento é puramente artístico. Talvez platónico.

Mas também não é de declarações de amor que é feito Dead Magic. Neste novo registo, editado no passado dia 2 de Março, Anna transporta-nos para um lado mais obscuro e tenebroso do seu universo, algo em que já tocara suavemente em trabalhos anteriores e nas suas actuações ao vivo, mas que desta vez explora a fundo. Na faixa de abertura, “The Truth, The Glow, The Fall”, e com um crescendo de órgãos que lhe já é característico, Anna vem dançante e um tanto sensual, envolta numa ambiência delicada e aconchegante, como se de uma continuidade ao álbum anterior se tratasse. O final, no entanto, dissipa o sentimento de esperança, dando lugar ao desespero e amargura do tal lado mais negro da compositora sueca. Essa mesma emoção é levada a um outro patamar em “The Mysterious Vanishing of Electra”, onde o álbum começa a ganhar outro ritmo. Durante todo o álbum paira sobre nós uma sensação de exorcismo, especialmente nesta faixa onde Anna se solta vocalmente e expulsa os seus demónios interiores, lançando gritos tresloucados acompanhados por guitarras cada vez mais apocalípticas e um órgão sinistro e omnipresente.

No entanto, é com “Ugly and Vengeful” que verificamos o porquê da sueca ser um dos nomes mais reconhecidos do pop experimental da actualidade. A magia da sua arte não está só no conseguir evocar uma sensação de perda e expulsão. Está também no conseguir cercar o ouvinte, criando um ambiente de predador e presa, que nos agarra com toda a sua força e não nos deixa escapar. E nesta terceira faixa é isso que nos é transmitido. Fazendo soar uma invocação maligna através de cânticos ritualistas, Anna faz-nos chegar uma face mais selvagem da sua persona, com o seu lado vingativo a vir ao de cima. Vingativo, sim, tal como o nome indica. Feio, jamais.  É também aqui que começa a entrar o factor Randall Dunn, não fosse ele o produtor do álbum, evidenciado pelo improviso caótico na segunda parte da música, brilhantemente interpretado pela banda que acompanha Anna von Hausswolff.

Já a última secção de Dead Magic segue um caminho mais linear. Em “The Marble Eye” podemos sentir o amor que a compositora sueca tem ao órgão, o instrumento que a tornou reconhecida e com o qual cria uma bela mas inquietante composição que nos permite recuperar um pouco o fôlego perdido nas duas faixas anteriores. E a contrastar o início feliz do álbum, está “Källans återuppståndelse”, uma junção entre o pesar de uma secção de cordas e a voz já cansada e triste de Anna von Hausswolff. Se “The Truth” era o começo do ciclo da vida, este é definitivamente o seu fim. Aqui é criada uma sensação de perda, mas também de introspecção e aceitação do facto de tal como este álbum termina, também nós deixaremos de cá estar um dia. Dir-se-ia um final em nota triste, mas curiosamente não é a sensação com que ficamos. A vontade que fica é mesmo a de voltar atrás e ouvir tudo de novo, como que a reiniciar o processo do ciclo da vida, indefinidamente.

No geral, Dead Magic é um registo muito bem conseguido e o mais ambicioso de Anna von Hausswolff, que nos mostra o quanto tem crescido e amadurecido enquanto artista e pessoa. Um disco que se revela perfeito para os dias frios que se avizinham, mas também um disco que porventura se consagrará como um dos melhores deste ano.

Autor: Filipe Silva

Em 2016, via Anna von Hausswolff pela primeira vez ao vivo. Escondida atrás dos seus sintetizadores, Anna preenchera naquela noite o coração de muito boa gente que assistira ao seu concerto. O meu incluído. Bem, o meu em específico já o tinha conquistado umas semanas antes quando fora anunciada para o Amplifest, local que a viu estrear-se em Portugal. Digamos que foi paixão à primeira ouvida. Não irei, porém, escrever aqui uma declaração de amor a Anna von Hausswolff, pois asseguro-vos que esse mesmo sentimento é puramente artístico. Talvez platónico. Mas também não é de declarações de amor que é…

Álbum. City Slang. 2 Março 2018

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